Prometi um texto todos os dias. Dou a volta à vida e lá estou atenta ao pormenor. As pequeninas coisas que de tão pequenas, mal damos por elas. Interessam-me as conversas de café, a malta sempre a reclamar dos outros. A vizinha de cima que colocou a roupa molhada no estendal, sem atenção com a vizinha de baixo. As pequenas iras que se resolvem com um sorriso. Gestos que se repetem, construindo padrões. E de repente, aparece um sujeito diferente, que não encaixa nas normas sociais.
António é um deles. Quando se interessa por um assunto lê exaustivamente. Não entende as regras sociais. Outro dia aproximou-se de mim e disse:
- Hoje tenho uma boa notícia para te dar, Ethel...
- Então, António?
- Fiz um amigo
- Como assim?
- Então, ele deu-me uma carteira e o numero de telefone dele...
António tem 20 anos, gosta de musica clássica. Devora o que ouve. Não para de ler sobre o assunto. Todas as quinta-feiras acompanha um grupo e dá comida aos sem abrigo. Tem Síndrome de Asperger.
Kenzaburo Oé, fabuloso escritor japonês, autor de Dias Tranquilos, tem um filho com problemas mentais, Hikari. Lidar e aceitar a diferença. Encontrar nela a beleza que desatentos, nunca damos conta. Como a migalha de pão que fica distraída na mesa.
Partilho convosco um pequeno trecho do discurso de Kenzaburo Oé ao receber o Premio Nobel.
UM ESTRANHO PODER DE CURA
"Meu filho deficiente mental, Hikari, foi despertado pela voz dos pássaros para a música de Bach e Mozart e acabou produzindo suas próprias obras. As pequenas peças que ele inicialmente compôs eram cheias de frescor e prazer. Pareciam gotas de orvalho brilhando sobre a relva. A palavra inocência é composta do prefixo "in", que significa "não", e de "nocere", "ferir". Ou seja, ela quer dizer "aquele que não fere". A música de Hikari era uma manifestação natural de sua própria inocência. Conforme ele passou a criar mais obras, no entanto, não pude deixar de ouvir nelas também a voz de uma alma escura e atormentada. Apesar de deficiente, seus esforços extenuantes permitiram que ele melhorasse suas técnicas de composição e aprofundasse suas concepções. E isso fez com que ele descobrisse no fundo de seu coração uma massa de tristeza que até então ele fora incapaz de expressar com palavras. O fato de expressá-la em música cura Hikari de sua tristeza, é um ato de recuperação. Mais ainda, seus ouvintes aceitaram essa música como algo que também os fortalece e restaura. Nesses fenômenos, eu encontro as razões para acreditar no estranho poder curativo da arte."
Trecho do discurso de aceitação do
Prêmio Nobel de Kenzaburo Oe

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