Domingo, 30 de Janeiro de 2011

Pormenores - por Ethel Feldman

Prometi um texto todos os dias. Dou a volta à vida e lá estou atenta ao pormenor. As pequeninas coisas que de tão pequenas, mal damos por elas. Interessam-me as conversas de café, a malta sempre a reclamar dos outros. A vizinha de cima que colocou a roupa molhada no estendal, sem atenção com a vizinha de baixo. As pequenas iras que se resolvem com um sorriso. Gestos que se repetem, construindo padrões. E de repente, aparece um sujeito diferente, que não encaixa nas normas sociais.

 

António é um deles. Quando se interessa por um assunto lê exaustivamente. Não entende as regras sociais. Outro dia aproximou-se de mim e disse:

 

- Hoje tenho uma boa notícia para te dar, Ethel...

- Então, António?

- Fiz um amigo

- Como assim?

- Então, ele deu-me uma carteira e o numero de telefone dele...

António tem 20 anos, gosta de musica clássica. Devora o que ouve. Não para de ler sobre o assunto. Todas as quinta-feiras acompanha um grupo e dá comida aos sem abrigo. Tem Síndrome de Asperger.

 

Kenzaburo Oé, fabuloso escritor japonês, autor de Dias Tranquilos, tem um filho com problemas mentais, Hikari. Lidar e aceitar a diferença. Encontrar nela a beleza que desatentos, nunca damos conta. Como a migalha de pão que fica distraída na mesa. 

Partilho convosco um pequeno trecho do discurso de Kenzaburo Oé ao receber o Premio Nobel.

 

UM ESTRANHO PODER DE CURA

 

"Meu filho deficiente mental, Hikari, foi despertado pela voz dos pássaros para a música de Bach e Mozart e acabou produzindo suas próprias obras. As pequenas peças que ele inicialmente compôs eram cheias de frescor e prazer. Pareciam gotas de orvalho brilhando sobre a relva. A palavra inocência é composta do prefixo "in", que significa "não", e de "nocere", "ferir". Ou seja, ela quer dizer "aquele que não fere". A música de Hikari era uma manifestação natural de sua própria inocência. Conforme ele passou a criar mais obras, no entanto, não pude deixar de ouvir nelas também a voz de uma alma escura e atormentada. Apesar de deficiente, seus esforços extenuantes permitiram que ele melhorasse suas técnicas de composição e aprofundasse suas concepções. E isso fez com que ele descobrisse no fundo de seu coração uma massa de tristeza que até então ele fora incapaz de expressar com palavras. O fato de expressá-la em música cura Hikari de sua tristeza, é um ato de recuperação. Mais ainda, seus ouvintes aceitaram essa música como algo que também os fortalece e restaura. Nesses fenômenos, eu encontro as razões para acreditar no estranho poder curativo da arte."

 

Trecho do discurso de aceitação do 
Prêmio Nobel de Kenzaburo Oe

publicado por Carlos Loures às 10:00
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10 comentários:
De Luis Moreira a 30 de Janeiro de 2011
Podes crer, verdadeiros milagres ao que se sabe.
De augusta clara a 30 de Janeiro de 2011
Tão lindo, Ethel. Ainda bem que vais escrever todos os dias.
De ethel feldman a 30 de Janeiro de 2011
Oh, Augusta - muito obrigada! beijos mil
De CRomualdo a 30 de Janeiro de 2011
A história de Kenzaburo Oé e de como aprendeu a conhecer o seu filho diferente e a ver nessa diferença uma riqueza é lindíssima e o seu discurso de aceitação do Nobel particularmente comovente. Obrigada por teres trazido aqui essa história exemplar, Ethel
De ethel feldman a 30 de Janeiro de 2011
A história de Hikari é exemplar. Kenzaburo diz que com ele conheceu outra dimensão da vida. Leste 'Não matem o bebé'`? É de não perder.
Tenho a convicção de que o encontro com o que nos assusta leva-nos a um horizonte onde o diverso amplia a vida.
De clara castilho a 30 de Janeiro de 2011
São os pequenos "nadas", que podem ser tudo, que fazem toda a diferença na vida de quem se sente diferente, ou não igual, ou discriminado, ou segregado, ou hostilizado...
Os pequenos "nadas" não podem ser forçados, não vêm de teorias. Vêm de dentro, das convicções reais e vividas no dia a dia, da ética pessoal. Penso até que são espontâneos...
Vou aguardar ansiosamente o teu texto diário, Ethel!
De ethel feldman a 30 de Janeiro de 2011
Desde que medito, que os pormenores ampliaram-se. Lidar com o que há de mais subtil na vida é um convite a ver a realidade. Obrigada, Clara.
De augusta clara a 30 de Janeiro de 2011
Ó Clara, por onde tens andado? Fazias cá tanta falta. E a Eva também faz.
De augusta clara a 30 de Janeiro de 2011
De tal maneira se juntou o mulherio, que eu troquei os comentários todos, Mas vai dar tudo ao mesmo :-)
De numadeletra a 17 de Fevereiro de 2013
Terminei agora um livro deste autor:

http://numadeletra.com/23905.html

Cumprimentos

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