Quinta-feira, 3 de Fevereiro de 2011

ANTÓNIO BOTTO NO BRASIL – 17– por António Sales


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Da esquerda para a direita Abel Manta, Aquilino Ribeiro, Gualdino Gomes e Júlio da Costa Pinto à porta da Havaneza de Lisboa em 1938.

 

 

 

 

Percurso Esgotado

(continuação)

 

Durante longos doze dias a presença constante de amigos nunca deixou só D. Carminda, dia e noite a seu lado falando-lhe baixinho na esperança de o despertar do estado de coma. Botto sofre, luta contra a morte lá no fundo do seu alheamento, mas Caronte e a sua barca esperam-no na Baía de Guanabara. Há uma luz cristalina que lhe abre um caminho infinito por um túnel de cânticos. É a luz de Lisboa a abençoá-lo com as pequenas casas de Alfama a descreverem um desenho suave sobre o rio. Há varinas na rua gritando o peixe, ardinas correndo a vender jornais, amoladores de facas e navalhas anunciando-se ao som estridente da flauta. Olha o Fernando no Martinho da Arcada, o Pacheko a pintar cenários para revistas, a Amália a cantar no Luso, a Beatriz Costa a fazer uma rábula no Variedades! À porta da Bertrand está o Aquilino Ribeiro e o seu grupo e o Gualdino Gomes, esse crítico arrasador, continua a frequentar o Café Chiado onde se encontram agora os neo-realistas. Nas avenidas passam Buicks, Chevrolets, Studbakers. Vem ali o Villaret a declamar a Julieta do Beco das Cruzes e o Filipe Pinto a cantar um fado meu. Raul Leal diz-me que me esperas e tu, António Ferro, também. Já vou, já vou aí!

 

Talvez nunca se tenha sentido tão tranquilo, tão seguro de si, tão suavemente humano como neste dia 16 de Março de 1959. Não há dúvidas nem certezas, tampouco vaidades e egoísmos. Está tudo finalmente concluído e cumprido. Um silêncio de luzes mortas ilumina-lhe a estrada para além. Carminda toma-lhe as mãos e sobre elas repousa as lágrimas de uma vida. Enche-se o quarto da generosidade daquela mulher, do seu amor indimensionável. Há pessoas assim capazes de sacrifícios pelos outros. Nos limites de uma consciência para além do coma mortal reconhece na rapidez de um segundo que não tem mais o direito de a sacrificar à sua fama nem ao exibicionismo do seu talento. Fugazes sombras convidam-no como musas inspiradoras a conhecer outro território sublime. Quebra a ténue lâmina de fogo que o separa desse destino infinito e, soerguendo-se do leito, deixa-se ficar humildemente debruçado nos braços da morte a repousar da tragédia.

 

 

Após autópsia o corpo do poeta é transferido, pelas 11 horas da manhã do dia 17, para as instalações da Beneficência Portuguesa onde permanece em câmara ardente. Ali comparecem um representante do Presidente da República do Brasil e outro da embaixada de Portugal além de outras instituições. Às 17 horas desse mesmo dia, depois do «esquife [ter sido] retirado da Beneficência Portuguesa pelos representantes diplomáticos de Portugal, Associações Portuguesa e amigos» o funeral segue para o cemitério de S. João Batista com a urna envolta numa bandeira de Portugal, conforme pedido de D. Carminda. Astério de Campos faz o elogio fúnebre do poeta diante do túmulo, a sepultura nº 771. José Maria Rodrigues, que escreveu a este propósito uma reportagem emocionante, acentua que o funeral foi «vazio de gente». Em contrapartida O Globo informa que ao funeral «compareceu grande número de intelectuais, poetas, jornalistas, representantes do Sindicato dos Jornalistas, presidente da Associação Brasileira de Imprensa e populares». Celebrado, popularizado, vendido, traduzido, reconhecido no Brasil como só dois ou três escritores portugueses vivos o seriam naquele tempo; morria pobre, esquecido da pátria, desprezado pelos editores, esta figura dramática que fora essencialmente um provocador, agora morto, enterrado, sossegado e em paz.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Pura ilusão! Passado muito pouco tempo já se especulava sobre as posições da embaixada de Portugal em ter criado dificuldades para a transladação do corpo para Portugal, conforme a vontade de D. Carminda, tornando o acto inviável. Afirmava-se também que a embaixada não teria dado a merecida atenção à morte do poeta, notícias que obrigaram a embaixada a publicar nos jornais um esclarecimento sobre a forma como actuou não faltando com a sua presença e colaboração no acto fúnebre e pagando todas as despesas com o funeral. Na verdade, o cônsul português no Rio de Janeiro terá explicado à viúva que a transladação dependeria do consentimento das autoridades de Lisboa (jornal A Voz de Portugal) o que demoraria imenso tempo. Por cá, isto é, em Lisboa, dizia-se que as autoridades, ou melhor a autoridade Salazar é que não concedera licença para tal.

 

A tua saga, António, estava ainda longe de terminar mesmo depois de morto. Mas isso que importava se o melhor elogio à tua pessoa, se assim o quisermos entender, seria publicado no mês de Abril, no nº. 22 da revista Leitura–a revista dos melhores escritores, na secção “Os dias, os factos, os homens”: «pediu [António Botto], antes de morrer, para ser enterrado em Portugal. Dificuldades de ordem burocrática negaram ao poeta o seu último desejo. (…) Assim, como Portugal não reclamou o seu Poeta, nós o guardaremos até o dia em que poetas portugueses mortos em exílio voltem a ter lugar no coração da pátria.», o que só viria a acontecer seis anos depois.

 

Apesar de tudo o Brasil foi teu amigo.

 

_____________________

 

História Breve de Uma Boneca de Trapos

 

 

Era uma vez uma boneca

Com meio metro de altura.

 

Insinuante, bonita,

Mas. Pobremente vestida.

 

Um ar triste – uma amargura

Diluída no olhar …

 

- Grandes olhos de safira,

E um sorriso combalido

 

Como flor que vai murchar.

 

 

Quase a meio da vitrine

Lá daquela capelista

Essa boneca de trapos

A ninguém dava na vista!

 

Ninguém via o seu sorriso!

 

Ninguém sequer perguntava:

 

Quanto vale a «marafona»?

Quanto querem pla «Princesa»? …

 

Passaram anos – Com eles,

Foi a minha mocidade

E cresce a minha tristeza.

 

Quem é que dá pla Boneca

Que os meus olhos descobriram

 

Lá naquela capelista

Quase à esquina do jardim? …

 

- Quem dá por ela? Ninguém.

 

E quantas almas assim!

 

(In “Canções – Intervalo” – pag. 179 – ed. Círculo de Leitores – Lx. 1978)

publicado por João Machado às 23:55
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