Sábado, 29 de Janeiro de 2011

O que se passa no Egipto? – por Carlos Loures

 

Após a revolta na Tunísia agravou-se a situação tensa que se vive em toda a região, particularmente no Egipto. Os Irmãos Muçulmanos avisaram o Governo, através de um comunicado que inseriram no passado dia 19 de Janeiro no seu web site de que a paz seria afectada caso Mubarak não tomasse as seguintes cinco medidas:

 

1) Abolição imediata do estado de emergência que vigora desde 1981.

 

Caíra em desuso, mas em Maio do ano passado foi de novo accionado. É o mecanismo jurídico-constitucional que permite à polícia reprimir a organização que, sendo ilegal, tem sido tolerada pelo regime e se apresenta às eleições em listas de independentes.

 

2) Dissolução do Parlamento e realização de eleições livres.

 

3) Emenda dos artigos da Constituição que regulamentam o sistema eleitoral (nºs 76, 77 e 78).

 

4) Realização de eleições presidenciais que beneficiem já dessas emendas.

 

5) Demissão do actual Governo e formação de um novo executivo que saiba corresponder às expectativas do povo egípcio.

 

Sabemos o que aconteceu e o que está ainda a acontecer.

 

Mubarak demitiu o Governo. Mas continua aferrado ao poder. Encurralado pelos protestos, anuncia a formação de um novo governo e promete fazer reformas. No entanto, não corresponde integralmente às exigências do ultimato dos Irmãos Muçulmanos.  Há dezenas de mortos e cerca de um milhar de feridos entre manifestantes e forças policiais. A situação parece fora de controlo e a intervenção das Forças Armadas vai, por certo, aumentar o número de vítimas. Na imagem vemos carros blindados junto da estação de televisão nacional.

 

Mas, quem são estes Irmãos Muçulmanos?

 

São uma poderosa organização fundamentalista criada no Egipto na segunda década do Século XX, mas que hoje se espalha por todos os países árabes da região.

 

Num próximo artigo falarei da história desta organização.

 

A queda do Governo de Mubarak, a confirmar-se, será um rude golpe para os Estados Unidos e para Israel. O governo egípcio tem sido um aliado da políitica israelo-americana na região, consentindo continuas agressões ao povo palestiniano. A sua substituição por um executivo composto por islamistas terá repercussões sérias na situação política do Médio Oriente.

 

publicado por Carlos Loures às 12:00
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10 comentários:
De Luis Moreira a 29 de Janeiro de 2011
Oxalá que a democracia chegue e com ela a esperança na liberdade. Os US estão a ver velhas "quintas" a fugirem-lhe por entre os dedos.
De Carlos Loures a 29 de Janeiro de 2011
O conceito de democracia não é universal. Um dos males da actual «civilização global» é, precisamente, o querer ser global. O Ocidente, com os Estados Unidos à cabeça, querem impor ao mundo um modelo político, social e económico, que é incompatível com algumas culturas, religiões e tradições. Eu creio que este modelo de sociedade é mau para os próprios Estados Unidos e a velha máxima de que «a democracia não presta, mas não se conhece nada melhor», é mesmo velha. O Churchill era tudo menos um filósofo - a afirmação é mesmo estúpida. Aquilo a que ele chamava democracia nunca o foi. A democracia continua no campo da utopia.
De Josep Anton Vidal a 29 de Janeiro de 2011
Los Hermanos Musulmanes intentan apoderarse de la ira de otros y procuran ocupar posiciones estratégicas. La ira egipcia, como la ira tunecina, son estallidos de voluntad democrática, al margen de las manipulaciones oportunistas de quienes pretenden siempre pescar en ríos revueltos. Estoy completamente de acuerdo en que la democracia es una utopía; por eso, cuando pensamos en nuestras democracias, tenemos tanto a lamentar. Pero por esa misma naturaleza utópica la democracia se mide en términos de aproximación, y hay sociedades más permeables a la democracia que otras, y hay sistemas políticos más democráticos que otros. Cuando pensamos en la lucha –y las vidas– que han costado nuestras democracias en la historia moderna y lo comparamos con los logros conseguidos es fácil caer en el desánimo. La democracia no puede conquistarse de una vez por todas. No es un golpe de Estado: se conquista el poder y todo cambia. En un tiempo lo creímos así, y nos dijimos: "Por fin, hemos ganado, hemos conquistado la democracia". Y a partir de ese momento, todo iba a ser distinto... Pero no es así –de dentro hacia afuera, del núcleo de la sociedad a todas sus partes–como se llega a la democracia plena. El camino –tal vez para desengaño nuestro– es a la inversa: de fuera adentro, desde la superficie social hacia el núcleo. Probablemente la ira desatada en Túnez y en Egipto no llevarán la democracia a esos países, e incluso es posible –más posible de lo que quisiéramos– que desemboque en una dictadura peor, fanática y oscurantista, como pasó anteriormente en Irán, por ejemplo. Pero la protesta de la población, su lucha, es, en sí misma, una afirmación democràtica. Está en la superficie y no conseguirá ocupar o conquistar el núcleo de la sociedad, porque otros más hábiles, mejor situados, con estrategias más efectivas, lo impedirán. Pero en la superficie social, se va tejiendo una red, una malla de complicidades y voluntades democráticas cada vez más compleja, y que va adquiriendo cada vez más grosor; va echando raíces, penetrando en el cuerpo social y, aunque parezca una pobre victoria, va abriéndose paso hacia el interior de la sociedad, hacia su núcleo. Es una obra lenta, pero –así me lo parece– persistente y tenaz. Hoy por hoy el avance de la democracia está aún en la lucha. Ya sea la lucha por la instauración de un régimen democrático, con todas sus limitaciones, o la lucha por dotar de autenticidad democrática a las democracias manipuladas y tan vulnerables a los intereses de los poderosos, los ambiciosos y los oportunistas.
De Pedro Godinho a 29 de Janeiro de 2011
Molt bé, Josep.
De Luis Moreira a 29 de Janeiro de 2011
Um texto cheio de esperança e de crença na democracia. também a entendo assim, Josep, embora não saiba expô-la tão bem como tu aqui o fazes. Um abraço amigo
De augusta clara a 29 de Janeiro de 2011
Há 25 de Abril no Cairo, com o pessoal todo em cima dos veículos militares. Segundo dizia a Aljazeera há bocado, os militares estão a actuar à revelia da cadeia de comando.
De augusta clara a 29 de Janeiro de 2011
Também digo como o Pedro: muito bem, Josep , como sempre. E muito bem, Carlos, por essa análise da democracia e de como a queremos (esta pobre democracia que temos) impor à força noutro tipo de sociedades diferentes das nossas orgulhosas sociedades ocidentais, convencidas que são os melhores dos mundos. Partilho da mesma apreensão do Josep sobre o que dali pode advir, mas ver aquele povo na rua a exigir os seus direitos, e ver os militares ao lado dele, faz-me e faz-nos vibrar muitas cordas cá dentro. Mas, de facto, não chega para adquirir aquilo que designamos por democracia
De augusta clara a 29 de Janeiro de 2011
Mubarak está a tentar mudar alguma coisa para que tudo fique na mesma. Veremos como as decisões vão ser aceites.
De Carlos Loures a 29 de Janeiro de 2011
Pois é Augusta Clara, a semelhança com o nosso 25 de Abril situa-se em dois pontos - o povo quer impor a sua vontade a um governo que a não respeita, e os soldados estão a colocar-se ao lado do povo. Nós dizíamos que os soldados, marinheiros e aviadores eram o «povo fardado» - as forças armadas são povo também. A semelhança termina aqui. A vontade popular dos egípcios vai no sentido da islamização da sociedade e da imposição da sharia como paradigma. Como dizem os nossos irmãos brasileiros - os israelitas que se cuidem. O comentário do Josep , de tão correcto que é, poupa-me palavras para o meu texto de amanhã. Obrigado Josep . Obrigado a todos.
De augusta clara a 29 de Janeiro de 2011
Pois o problemas é esse, Carlos, mas dos israelitas não tenho pena nenhuma, salvo dos que têm uma posição a favor dos palestinianos. Na Aljazeera explicavam, agora mesmo, que, no Egipto, as forças repressoras do povo não costumam ser as militares mas a polícia que, neste momento, desapareceu das ruas. É emocionante acompanhar isto.

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