Segunda-feira, 31 de Janeiro de 2011

ANTÓNIO BOTTO NO BRASIL – 14– por António Sales

 

 

 

 


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os Últimos Anos de Infortúnio

(continuação)

 

Após ser obrigado a abandonar a residência da Almirante Alexandrino o casal aloja-se numa casa má na Rua Joaquim Murtinho, nº 549, ainda no bairro de Santa Teresa. Este terá sido um tempo negro como se depreende pela carta endereçada ao seu grande amigo e advogado Paulo Rabello a quem confessa que se tem privado de tudo: «Vendi tudo de valor quanto tinha. A última derradeira jóia que vendi foi um relógio de pulso Patek, todo em ouro». Data deste período o único desabafo que encontramos acerca da mulher: «Não gosta de se desfazer dos vestidos, sapatos, chapéus, jóias, mesmo que precise de pão para a boca». Mesmo estas considerações revelam exagero como se falasse de um moderno guarda-roupa, que não era o caso visto ambos vestirem modestamente segundo as observações de diversos dos seus amigos.

 

Mal instalado, sobrevive da colaboração em jornais, dos direitos de autor que vai recebendo, do auxílio dos amigos. Declama poesia num restaurante típico português ganhando, mal, o sustento diário: «Comemos arroz, café, chá, um resto de queijo e pão», escreve num dos seus dolorosos apontamentos da segunda metade de 1958. Para o médico de Carminda pede 1000 cruzeiros emprestados a uma portuguesa com venda de ovos e galinhas na Avenida Princesa Isabel, mas no dia seguinte a mulher não leva a primeira injecção «porque não havia dinheiro para o pavio, quanto mais para a vela».

 

A Portugal chegam ecos desta situação e um articulista do jornal O Século escreve, por altura do falecimento do poeta, na secção “Últimas Notícias” (19 de Março de 1959), algumas linhas trágicas a encerrar uma breve nota biográfica: «Um dia, após anos de silêncio, soube-se aqui que o cantor das quentes noites lisboetas estava num asilo de indigentes, para onde o remetera a caridade alheia. Fora preso por vadiagem na grande metrópole projectada para o céu em gritos de cimento, quando abordava transeuntes e lhes sussurrava: - Sou o António Boto. Vinte cruzeiros por um poema». Esta fantasia, derivada certamente do processo de internamento hospitalar na Santa Casa da Misericórdia, ajuda-nos a compreender os exageros que envolveram a vida e a carreira literária do autor de Dandismo porque no Brasil, como em Portugal, o dinheiro entrava-lhe nos bolsos e saía deles com grande facilidade. O próprio Botto regista que Samuel Ribeiro «honrado santista, e cultura aprimorada», ofereceu-lhe trezentos mil cruzeiros, «como lembrança de um lial admirador de toda a minha obra» (sic). Concluo que boa parte das dificuldades financeiras com que sempre lutou deveram-se à sua total ausência de economia.

 

Paulo da Cunha Rabello é advogado, director-gerente da Sociedade de Incorporações e Realizações, Lda., intelectual e poeta, amigo e admirador de António Botto a quem este recorre e mais abertamente se confessa nos momentos de maior dificuldade. A partir de Niterói Paulo Rabello torna-se uma espécie de anjo da guarda do nosso compatriota pois não só o defende nas questões jurídicas como lhe facilita a resolução dos problemas que delas resultam. Em Junho de 1958 o advogado recebe do tribunal a ordem de despejo da Av. Almirante Alexandrino e apesar de Botto se alojar na Rua Joaquim Murtinho não deixa de procurar, com a colaboração do amigo, outro local onde possa viver com dignidade e respirar com esperança. Inicia então uma batida por Copacabana em jornadas exaustivas e desanimadoras pois o que vê é «tudo caro e mau». São dias tristes, angustiantes, dolorosos, que o poeta regista no seu diário. Em 13 de Outubro o casal passa pelo escritório de Paulo Rabello onde a par da informação sobre a jornada falam da peça A Raposa e as Uvas, de Guilherme de Figueiredo, em cena no Teatro Copacabana. Antes de regressarem a Santa Teresa «debaixo de uma chuva horrível, peganhenta, em que a cidade velha, escura, desmantelada, nos comunica o frio da desgraça e da morte», procuram um pouco de conforto e calor humano com esse amigo de todas as horas, conversando sobre poesia, sobre acontecimentos correntes como seja o aniversário da Elbi (?) com quem Botto diz ter dançado duas vezes. Depois a noite cai, o dramaturgo de Alfama retoma a realidade para regressar a casa e ao deixar o “bonde” atravessa a Joaquim Murtinho cruzando-se com «ratos, ratazanas e baratas» que passavam diante de si. Nessa casa gélida, pobre, «miserável» como lhe chama, posso imaginar que todos os dias, mesmo nos de sol, acorda com «o céu pesado, da cor dos cemitérios», conferindo ao drama do casal a dimensão da tragédia não fora a intervenção de Paulo Rabello em conseguir um «apartamento salvador». Nesse Dezembro de 58 faz no notário um contrato de locação com o Dr. Firmino Von Doellinger da Graça, representado por sua esposa na escritura do apartamento 902, situado no 9º andar do edifício Granada, Rua Belfort Roxo, nº 169, Bairro de Copacabana. O contrato estabelece uma renda de 1000 cruzeiros por mês, ficando Cunha Rabello como fiador e responsável contratual o que só comprova que António Botto tinha, de facto, amigos. O desafortunado ano de 1958 acabava a flutuar entre a tranquilidade e a esperança de uma paz que tardava em chegar. Apesar do tempo lhes ir fugindo os seus corações estremeciam na fé de que ainda teriam direito ao seu pequeno naco de felicidade.

 

 

 

 

 

 

Tomado pela consciência do íntimo silêncio de si próprio, onde fenece a chama criativa dos anos vinte e trinta, pouco fala do que escreve. Toca-lhe a dor e o desespero que caracterizam os versos do seu drama mas falta-lhe a voz da sedução e a capacidade em provocar emoções violentas e profundas como fora o caso da “Polémica das Canções” que arrebatou a intelectualidade lisboeta nos idos anos vinte. Todavia, de 1958 data uma introdução ao livro Mastros do meu Navio, que não chegou a publicar, aproveitando-a em Ainda não se Escreveu, obra póstuma cujo original enviou para as Edições Ática, em Lisboa, pouco tempo antes de falecer e onde acabará por ser editada. «Depois de onze anos ausente da minha Pátria, sem publicar, sequer, uma única obra inédita, apareço finalmente. A mim, meteram-me numa cova rasa, e puseram este letreiro para quem passasse e olhasse: - morreu de vez. Porém ressuscitei, não ao terceiro dia, como o Deus que nos faltava, mas ao cabo de onze anos (..)». Mais valia que não tivesse ressuscitado este escritor a quem a doença foi minando o talento, fragmentando o tempo e o verso sem epopeia e sem arte. Na mente do poeta interceptam-se segmentos rápidos de memórias, esfumam-se no espaço rostos de amigos, lides literárias, tertúlias, conferências, bastidores de teatros, dislates de conservadores e provocações que criaram escândalos. Anjos anunciadores de recordações passam acenando-lhe gestos simples de amor e amizade. Muito embora António Botto sinta nos seus amigos brasileiros carinho e manifesto calor humano percebe que a sua realidade se tornou fugidia como uma pena levada pela maré nos mares de Iemanjá.

(continua)

__________________

 

As Canções de António Botto

 

Dandismo

 

(Poema nº 16 – pag. 123 – nova edição Livraria Bertrand 1956)

 

Anda um ai na minha vida

 

Que me lembra a cada passo

A distância que separa

O que eu digo do que eu faço

 

Quem mo deu

 

- Partiu! …

Deixou-me na agrura

Interminável e fria

 

De ter de o guardar

Como único recurso

De poder viver ainda …

 

Anda um ai na minha vida,

Como lágrima que passa,

Que passa, - mas que não finda.

 

Dizê-lo? – nada lucrava.

Guardá-lo? – morro a senti-lo,


Anda um ai na minha vida

Que me lembra a cada passo

A distância que separa

O que eu digo do que eu faço.


_____________________________________

publicado por João Machado às 23:55
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