Quarta-feira, 26 de Janeiro de 2011

Fiat, o dilema social - por Philippe Ridet

(Enviado por Júlio Marques Mota)

Um novo contrato de trabalho menos favorável ou… o encerramento do sítio. Os assalariados de Mirafiori, a maior  fábrica do grupo em Itália, devem escolher

A cabeça de tubarão gigante de plástico balouça na  extremidade de uma vara. Tem dólares no lugar dos dentes, e  a boca cheia de cabeças . Sob o sua maxilar, está  escrito “Sergio”, como o Director Geral da Fiat, Sergio Marchionne. As notas  são os lucros da empresa; os crânios, são as cabeças dos trabalhadores. Os folhetos que os militantes do FIOM distribuem, o ramo metalurgia de CGIL -  o mais importante dos sindicatos italianos -são-nos por eles oferecidos, atenciosos: “ Se lhes derem um dedo  querem-vos o braço”, disse-nos  um deles. Há bandeiras vermelhas, há câmaras de televisão, carrinhas das cadeias de televisão, jornalistas.

 

É uma campanha eleitoral que terá lugar, quarta-feira dia 12 de Janeiro, em  frente da porta de entrada n° 2 da fábrica de Mirafiori, a grande (2 milhões de m2) e a  mais antiga (inaugurada em 1939) fábrica do grupo automóvel, nos arredores  de Turim. Da saída do referendo interno organizado na quinta-feira 13 e na sexta-feira dia 14 vai depender o destino das relações sociais e dos acordos nacionais. Um momento histórico decisivo para a Itália.

 

De um lado, a Fiat, que quer fazer aprovar um acordo, assinado a  23 de Dezembro de 2010 pela maioria dos sindicatos, prevê  um contrato de trabalho ad hoc para o sítio de Mirafiori em troca de uma promessa de investimentos de mil milhões de euros; do outro o  FIOM, o  único sindicato a opor-se a este acordo, denuncia uma “chantagem”, uma infracção aos “direitos adquiridos” e uma “revogação ” da convenção nacional da metalurgia.

 

Desde Julho de 2010, os empregados do sítio de Pomigliano d’Arc (Campânia) votaram um acordo similar, os argumentos simplificaram-se ao extremo. “Se não o aprovarem, fecharemos Mirafiori e investiremos noutro lugar”, ameaça Marchionne. “Quer que trabalhemos  como os Chineses”, denuncia o FIOM. Entre eles, 5.500 empregados. Atravessando a floresta de micros e de câmaras, sem as estarem  a ver,  passam, silenciosos, entre alas  de militantes dos dois lados.

 

“Não tenham medo. Marchionne não fechará a fábrica”, repete como uma ideia certa, como uma mantra, uma militante do Não. “É  isto ou  a rua, enerva-se um partidário do SIM. Se não se vota o acordo, que defenderemos nós  amanhã? Os desempregados? ».

 

Face ao  mutismo  dos empregados, as câmaras procuram outros testemunhos. Eugenio Penon é um bom cliente. Com 71 anos, reformado da Fiat, comunista, este irrita os defensores do SIM : “ Bati-me para os direitos que vocês querem deixar ir agora embora  ! » Na véspera, é um outro reformado, Agostino Antonio, 73 anos, que foi a vedeta . Cercado de micros, interrogado para se pronunciar por um dos lados , desatou  em lágrimas e disse : “Compreendo aqueles  que defendem os seus direitos. Mas compreendo também aqueles que não querem  saltar para o vazio. »

 

E se Sergio Marchionne não fizesse bluff? E se fosse, ele, a realizar  a “revolução liberal” prometida em vão  por Silvio Berlusconi desde há  dezasseis anos? De 2004, data da sua chegada à frente  da Fiat, até  hoje, este financeiro fez saír  a empresa do abismo, apurando  as contas, tomou   25% do capital de Chrysler sem que os accionistas desembolsassem um euro, dividindo a empresa em duas entidades cujos títulos  não cessam de subir na  Bolsa de Milão, anunciou  o encerramento do sítio moribundo de Termini Imerese na  Sicília no final  de 2011. O seu objectivo é claro: Fiat-Chrysler deve produzir no futuro 6 milhões de veículos por ano para se opor  à concorrência mundial. Com  uma condição:  mais produtividade e mais flexibilidade.

 

“Tudo que anunciou, fê-lo. Deve-se ter isso em conta. » No seu  gabinete na  sede do UIL, sindicato moderado signatário do acordo, Maurizio Peverati, delegado regional, faz as contas: “Vamos obter um aumento de salário de  cerca de 3.000 euros por ano devido à generalização do trabalho nocturno  e à  abertura do sítio 6 dias em cada  7. Mais 30 euros por mês em troca do abandono de 10 minutos de pausa  na mudança de turno. Em contrapartida, deveremos fazer mais horas  suplementares e os atestados de doença serão mais inspeccionados . » acrescenta, ligeiramente pensativo: “ Há quinze anos, este acordo ter-me -ia desgostado, mas com a taxa de desemprego, o número de precários, pode-se fazer este sacrifício para salvar o emprego, ou não? ”

Este realismo é também o de Claudio Chiarle, secretário regional da CISL, outro sindicato signatário. “25% dos 100.000 metalúrgicos da região estão no desemprego técnico. O único investimento previsto no território é o investimento agora proposto pela Fiat. Não há alternativa a  este plano. Sem trabalho, não serve para nada estar a  falar de direitos. »

Nos corredores do Lingotto, o sítio histórico da Fiat em Turim, um porta-voz  da empresa felicita-se: “Somos os primeiros a fazer voar em estilhaços  a lei de 1970 que rege  as relações sociais e os contratos de trabalho nacionais. » Para o FIOM, pelo contrário, “não é aceitável fazer incidir sobre os 5.500 eleitores de Mirafiori o destino do direito ao trabalho na Itália”. Caricaturado pelos seus adversários “imobilista nostálgico de uma idade de ouro agora já passada ”, o seu secretário geral, Maurizio Landini, denuncia nomeadamente um dos artigos do novo contrato que estipula  que só as organizações signatárias poderão a partir de agora  eleger  representantes seus sobre os sítios italianos da Fiat-Chrysler. “Não é Marchionne que vai decidir da vida e da morte do FIOM! », continua, anunciando uma “greve de advertência” a  28 de Janeiro.

 

Permanece o estranho silêncio da empresa. Tanto como num sacrifício, os empregados da Fiat, em que todos conheceram longos períodos de desemprego técnico em 2010, são chamados a fazer a aposta de uma hipotética retoma das vendas. O construtor anunciou em Abril de 2010 um investimento de 20 mil milhões de euros durante cinco anos na Itália. Para fazer o quê,  interrogam-se os defensores do NÃO no referendo? Quais modelos de carros? Qual tecnologia? Perante estas questões,  Marchionne protege-se por detrás do segredo industrial.

 

Mas os megafones e as bandeiras dos opositores ao acordo pesam pouco perante o patronato, perante o governo e perante uma parte da esquerda   que o  aprovam. “Se fosse um trabalhador, votaria sim”, declarou Piero Fassino, o candidato do centro esquerda  à câmara municipal de Turim, onde em Março terão lugar as eleições. 61.000 assinaturas a  favor “do NÃO” de Mirafiori foram recolhidas, quarta-feira  à noite,  com o apelo  do escritor Andrea Camilleri, do astrofísico Margherita Hack e do filósofo Paolo Floras de Arcais. Não mais do que o número de empregados da Fiat em Itália…

 

Philippe Ridet,  Fiat, le dilemme social, Le Monde, 13.01.2011

 

 

 

publicado por Carlos Loures às 21:00

editado por Luis Moreira às 01:55
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