Terça-feira, 25 de Janeiro de 2011

Arquitectura e Música: Correspondências - Tangências - Aproximações - III

 

 

 

 

 

 

 

 

José de Brito Guerreiro

(continuação)

 

A obra Poème Électronique (1958), criada pelo compositor francês naturalizado americano Edgard Varèse (1883-1965), foi difundida no Pavilhão Philips, sendo Concret PH (1958), a música de interlúdio, da autoria de Iannis Xenakis. Na sua auto-assumida condição de director do projecto, Le Corbusier exigiu a participação de Varèse excluindo a de outros músicos inicialmente considerados, como Benjamin Britten (1913-1976), compositor, pianista e maestro e britânico.

 

Varèse era quatro anos mais velho que Le Corbusier. O seu pai queria que ele estudasse engenharia, porém inclinou-se finalmente para a música. A sua formação em Paris foi multifacetada: Vincent d’Indy (1851-1931) e Albert Roussel (1869-1937) na Schola Cantorum; Charles-Marie Widor (1844-1937) no Conservatório. A atracção pelas ideias de Ferruccio Busoni (1866-1924), compositor, pianista e maestro italiano, levou-o a Berlim, conhecendo o compositor e maestro alemão Richard Strauss (1864-1949) e o poeta, ensaísta e dramaturgo austríaco Hugo von Hofmannsthal (1874-1929). Os contributos do compositor vienense Arnold Schönberg (1874-1951) e do compositor francês Claude Debussy (1862-1918) eram-lhe familiares, contudo procurava uma música produzida por novos meios.

 

Em 1915 muda-se para os Estados Unidos, permanecendo ali até à sua morte em 1965, com eventuais períodos de estada em Paris. De obra quantitativamente concisa, Varèse foi um dos primeiros a perceber a potencialidade musical do som gerado electronicamente. Em 1934 tinha já incluído Ondes Martenot (instrumento musical electrónico com teclado, criado em 1928 pelo francês Maurice Martenot [1898-1980]) na sua obra Ecuatorial e tinha tentado, em várias oportunidades, montar um laboratório musical, sem o conseguir. Em 1954, após duas décadas de relativa esterilidade, estreara Déserts em Paris, utilizando orquestra tradicional em conjunto com fita magnética, com sons gravados ou produzidos electronicamente.

 

A proposta de Le Corbusier, para participar no Poème Électronique foi imediatamente aceite por Varèse. Constituía não só um valioso encargo, como também a possibilidade de dispor do laboratório Philips em Eindhoven, com condições que até então não tinha podido sonhar para produzir música electrónica.

 

 

 

 

 

 

 

Edgard Varèse | Poème Électronique

1958

Fragmento do esquema técnico de espacialização sonora

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

A composição Poème Électronique foi concebida segundo o critério ‘varesiano’ de son organisée (som organizado), distinguindo-se assim da música de estrutura melódica. Consistia numa sequência gravada que incluía sons gerados electronicamente ou naturais (música concreta). O Poème alcançou um importante reconhecimento e é considerado uma obra significativa do último período de Varèse.

 

Numa carta de Junho de 1957, Xenakis escreve a Varèse: «Terá à sua disposição cerca de 300 altifalantes. As rotas de som estão criadas, o que lhe permitirá fazer a música correr segundo certas direcções dentro do pavilhão. Colmeias de altifalantes destacarão certas regiões do pavilhão. Para a estereofonia você terá à disposição cerca de uma dezena de pistas magnéticas a) as colmeias de altifalantes b) as rotas de som c) somente os graves, ou médios ou agudos d) misturas especiais etc.»

 

Em simultâneo com a música de Varèse, e sem nenhum critério de sincronização, projectava-se a sequência visual concebida por Le Corbusier. Esta desenvolvia-se em sete partes que abrangiam desde a génese do mundo até à nova civilização exemplificada em obras do próprio Le Corbusier. A apresentação combinava quatro elementos: cores ambientais (ambiances), projecção fílmica de imagens (écrans), projecção de formas simples através de estênceis (tri-trous) e formas tridimensionais suspensas (volume): um objecto geométrico e um corpo de mulher, iluminados com luz ultravioleta. As imagens projectadas iam desde o terno até ao feroz, do organizado ao caótico, do natural ao artificial. A forma do pavilhão parece, a priori, excepcional dentro da obra corbusiana.   A frequente associação de Le Corbusier ao racionalismo e ao consequente  uso de volumes elementares faz esquecer a importância que têm as    formas orgânicas no conjunto da sua obra tardia. Isso ocorre não só na     Igreja de Ronchamp e no projecto para a Olivetti, onde as formas circulares apresentam claras alusões biológicas: tais formas aparecem na sua pintura desde os anos trinta. Le Corbusier foi sempre sensível aos sinais dos tempos e percebia as limitações do racionalismo, sublinhadas pela crítica de pós-guerra.

 

A procura de uma síntese das artes faz parte da agenda cultural posterior à II Guerra Mundial. O Pavilhão Philips representa um esforço evidente de Le Corbusier por realizar uma obra de arte total, utilizando tecnologia de vanguarda e apresentando-se como um artista que ultrapassa os limites da arquitectura, dado que à sua permanente actividade de pintor e escritor há que agregar a colaboração com a arquitecta e designer francesa Charlotte Perriand (1903-1999) no desenho de mobiliário e com o escultor-marceneiro francês Joseph Savina (1901-1983) na produção de esculturas. Também reflecte uma maior abertura para a música, uma arte que por diversas razões lhe era muito próxima. Le Corbusier tinha familiares músicos, sendo a sua mãe,  Marie Charlotte Amélie Jeanneret-Perret (1860-1960), pianista e professora de música e o seu irmão, Albert Jeanneret (1886-1973), violinista e compositor. Mais ou menos simultaneamente com a concepção do seu Le Modulor, de certo modo similar a uma escala musical, Le Corbusier desenvolve o seu conceito de ‘Acústica plástica’.

 

 

 

 

 

Le Corbusier e Iannis Xenakis | Pavilhão Philips

Exposição Universal de Bruxelas | 1958

Interior

 

(continua)

publicado por João Machado às 16:00
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2 comentários:
De Luis Moreira a 25 de Janeiro de 2011
São muito bons e originais estes textos do José Guerreiro.Nunca tinha lido nada sobre o assunto embora soubesse desta relação existente entre a arquitectura e a música.
De José de Brito Guerreiro a 25 de Janeiro de 2011
Obrigado caro Luís Moreira. Vou continuar a explorar este assunto e compartilhá-lo aqui.
Um abraço

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