Segunda-feira, 31 de Janeiro de 2011

Artexto - texto do Carlos Loures, quadro de Adão Cruz


Monólogo de um soldado espartano na batalha das Termópilas

 

 

 

 

 

 

Da neblina da nossa ignorância, emergem deuses. Dizem que, a cada momento, os deuses disparam setas sobre o coração dos homens. Só a última seta é fatal. Nós, frágeis, mas serenos, recebemos as setas sobre o peito. Venha a seta fatal, pois de tantos ver morrer, já vi mil vezes a minha morte. Ó deuses, entre as setas que os persas nos enviam, mandai a vossa seta fatal! Quando a última seta atingir o último homem, todos os deuses morrerão – sem homens, não há deuses. Mandai as vossas setas, filhos de puta! Suicidai-vos!

publicado por João Machado às 08:00

editado por Luis Moreira em 30/01/2011 às 22:46
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11 comentários:
De ethel feldman a 31 de Janeiro de 2011
Carlos Loures: MARAVILHOSO!
De adão ctuz a 31 de Janeiro de 2011
Onde levaste tu o meu quadro, Carlos! A 480 A.C. E onde o colocaste! Nas mãos dos deuses! Os deuses da nossa ignorância que cravam setas no coração dos homens. Infelizmente ainda continuam a cravá-las, com a eterna e perversa intenção de fazerem uma "monda" na humanidade, eliminando com setas fatais apenas os que acreditam que sem homens não há deuses.
Bela e inesperada interpretação. Um abraço
De Luis Moreira a 31 de Janeiro de 2011
Maravilhoso!
De augusta clara a 31 de Janeiro de 2011
Lindíssimo quadro e belíssimo texto, mas a tão terrível apelo não adiro.
De Paulo Rato a 1 de Fevereiro de 2011
Calma, Augusta: só se suicidam os deuses dos espartanos! ou, mesmo, só os daqueles soldados; os dos persas, os dos outros gregos, e mais outros, sortidos, sobrevivem... por algum tempo. Até surgirem ainda outros, deuses e homens, para se lhes sobreporem. E, como se sabe, a última seta dos persas chegou, em simultâneo com a dos deuses...

Notável texto, Carlos, pela forma e pelo conteúdo, pela reflexão sobre a fragilidade da vida dos homens e dos seus deuses, de seus ódios mútuos, do seu mútuo aniquilamento, batalha mais sangrenta que a que ali se travou e que dura há mais tempo que os dois milénios e meio transcorridos; reflexão que nos conduz, inevitavelmente, à incansável persistência, de deuses e homens, na destruição e no ódio, como assinalou o Adão.

O quadro, organizado em geometrias duras, enraizadas na diagonal que habilmente subsiste - rasgando a tela de lado a lado, desequilibrando o percurso do olhar, forçando a separação de tonalidades idênticas, entre o maciço e o disperso; de contrastes violentos nas cores (apesar da complementariedade maioritária e, portanto, deliberadamente a contrariando), como nas tonalidades - abrindo brechas nas suas similitudes, com a irrupção do claro-escuro; impondo um horizonte conflituoso, numa abstracção assumida, pela pincelada larga e "espontânea", de limites indefinidos,... O quadro, em meu entender, harmoniza-se com a reflexão que desencadeou... Só que, mais uma vez, não é à superfície que o encontro se dá...

Dizem que devemos à resistência espartana a oportunidade de se construírem os fundamentos da "nossa" civilização... Valeu a pena? Eis uma das questões que pesa sobre o texto e atravessa a sua fecunda complexidade.
De augusta clara a 1 de Fevereiro de 2011
Eu sei, Rato. Conheço a história das Termópilas . Também leio os clássicos gregos.
De Paulo Rato a 6 de Fevereiro de 2011
"Também" porquê, Augusta? Quem te disse que eu leio esses clássicos? Aqui, a História basta...

A minha brincadeira (penso que a interpretaste como tal...), partia do "terrível apelo" a que proclamavas não aderir e que tomei por uma ironia (espero que não erradamente...), já que não era crível que te preocupasses com a saúde dos deuses gregos que, além do mais, os romanos iriam ressuscitar...
De augusta clara a 6 de Fevereiro de 2011
Pois, com certeza que não. E boas férias em Veneza. Que inveja!
De Paulo Rato a 6 de Fevereiro de 2011
Obrigado, Augusta.

Compreendo a inveja. Eu tenho sempre inveja, com a maior desvergonha, de quem vai ou está em Veneza: é a "nossa cidade", minha e da minha mulher, desde a primeira vez que a visitámos juntos, há 14 anos (já lá voltámos cinco vezes... - já não são bem férias, é mais irmos ver "como é que está a propriedade"...) (Suspiro! - era bom, era...).

Só vamos no final de Março. Mas como já conhecemos bem esta "propriedade", ando a informar-me sobre outros locais acessíveis e interessantes, mais horários de comboios, exposições, concertos (no La Fenice não! que é uma roubalheira!) e o mais que venha à rede...

Embora a maior parte do tempo seja dedicada a passearmo-nos calmamente pela "serenissima" e a refastelarmo-nos nas esplanadas à beira dos canais a saborear umas coisitas...
De augusta clara a 6 de Fevereiro de 2011
O importante é que a vida é curta e não se pode desperdiçar um minuto.
De Carlos Loures a 1 de Fevereiro de 2011
Agradeço todos os comentários, alguns mais laboriosos do que o meu texto. Sobre as linhas que escrevi, digo que foram totalmente sugeridas pelo quadro do Adão e as escrevi de seguida, sem os trabalhos de parto que às vezes estas coisas provocam. As cores e as formas sugeriram-me logo uma tensão, que interpretei como uma luta de libertação do profano relativamente ao divino, do homem contra a maldição da sua superstição. Mas não explico mais nada, todos perceberam e o pórtico nunca deve ser maior do que a catedral.

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