Segunda-feira, 24 de Janeiro de 2011

Cartas da Terra II - Mark Twain

 

 

coordenação de Augusta Clara de Matos

 

 

Boas e Más Memórias

 

 

Mark Twain  Cartas da Terra

 

 

O Criador sentou-se no trono a pensar. Atrás dele estendia-se o ilimitável continente celeste, mergulhado numa glória de luz e cor; diante dele erguia-se, como um muro, a noite negra do Espaço. O Seu descomunal vulto torreava escarpado, como uma montanha, contra o zénite, e a Sua cabeça divina resplandecia ao longe como um sol distante. A Seus pés, estavam três colossais figuras, diminuídas quase até à extinção, por contraste — arcan­jos —, as cabeças ao nível do osso do Seu tornozelo.

 

Quando o Criador acabou de pensar, disse:

 

- Pensei. Vede!

 

Levantou a Sua mão, e dela brotou um jacto de fogo, um milhão de estupendos sóis, que fenderam a treva e alaram para longe, para muito longe, diminuindo em magnitude e intensida­de à medida que atravessavam as longínquas fronteiras do Espa­ço, até que, por fim, não eram mais do que cabeças de prego adamantinas a cintilarem debaixo do imenso telhado abobadado do universo.

 

Ao fim de uma hora, o Grande Conselho foi dissolvido.

 

Deixaram a Presença impressionados e pensativos, e retira­ram-se para um local isolado, onde pudessem falar com liberda­de. Nenhum dos três parecia querer ser ele a começar, embora todos quisessem que alguém o fizesse. Cada um deles estava ansioso por discutir o grande acontecimento, mas preferia não se comprometer até saber como os demais o encaravam. Por isso houve alguma conversa frívola e hesitante sobre assuntos sem importância, o que se arrastou fastidiosamente, sem levar a lado nenhum, até que finalmente o arcanjo Satanás reuniu toda a sua coragem — da qual estava bem provido — e abriu caminho. Disse:

 

- Sabemos do que queremos falar aqui, meus senhores, por isso mais vale pormos os fingimentos de lado e começarmos. Se for esta a opinião do Conselho...

 

- É, é! — disseram Gabriel e Miguel, interrompendo-o, agradecidos.

 

- Muito bem, então avancemos. Testemunhámos uma coi­sa maravilhosa: quanto a isso, estamos forçosamente de acordo. Quanto ao valor dessa coisa, se é que ela tem algum, esse é um assunto que não nos diz pessoalmente respeito. Podemos ter tantas opiniões sobre ele quanto quisermos, e esse é o nosso li­mite. Não temos voto nisso. Penso que o Espaço estava sufi­cientemente bem como estava, e além disso era útil. Frio e escu­ro... um lugar sossegado, de quando em vez, depois de uma temporada do clima excessivamente delicado e dos fadigosos es­plendores do céu. Mas estes são pormenores de alcance pouco considerável; a nova característica, a imensa característica, é...o quê, cavalheiros?

 

- A invenção e introdução de uma lei automática, não vigia­da e auto-reguladora, para o governo dessas miríades de sóis e mundos girantes e acelerados!

 

- É isso! — disse Satanás. — Percebeis que se trata de uma ideia estupenda. Nada que se aproxime disto alguma vez se de­senvolvera a partir do Intelecto Mestre. Lei, Lei Automática, Lei exacta e invariável, que não necessita de vigilância, de correcção, de reajustamento, enquanto as eternidades perdurarem. Ele disse que esses incontáveis e imensos corpos celestes mergulhariam através da imensidão do Espaço ao longo de eras e eras, a uma velocidade inimaginável, percorrendo órbitas estupendas, porém sem jamais colidirem, e nunca aumentando ou encurtando os seus períodos orbitais por uma centésima parte de segundo que seja em dois mil anos! Esse é o novo milagre, e o maior de to­dos: Lei Automática! E Ele deu-lhe um nome, a LEI DA NATUREZA, e disse que a Lei Natural é a LEI DE DEUS: nomes intercambiáveis para uma coisa só.

 

- Sim — disse Miguel —, e Ele disse que iria estabelecer a Lei Natural, a Lei de Deus, em todos os seus domínios, e que a autoridade dela deveria ser suprema e inviolável.

 

- Além disso — disse Gabriel —, Ele disse que em breve criaria animais e que os colocaria, do mesmo modo, sob a auto­ridade dessa Lei.

 

- Sim — disse Satanás —, ouvi-O, mas não percebi. O que é animais, Gabriel?

 

- Ah, como hei eu de saber? É uma palavra nova.

 

[Intervalo de três séculos, tempo celeste o equivalente a cem milhões de anos, tempo terreno. Entra um Anjo-Mensageiro.]

 

- Meus senhores, Ele está a fazer animais. Gostaríeis de ir ver?

 

Eles foram, eles viram, e ficaram perplexos. Assaz perplexos — e o Criador apercebeu-se e disse:

 

- Perguntai. Eu responderei.

 

- Divino — disse Satanás, fazendo reverência —, para que servem eles?

 

- São uma experiência em Moralidade e Conduta. Obser­vai-os, e instruí-vos.

 

Havia-os aos milhares. Eram cheios de actividade. Atarefa­dos, todos eles atarefados — sobretudo em perseguirem-se uns aos outros. Satanás constatou — depois de examinar um deles através de um poderoso microscópio:

 

- Este bicho maior está a matar animais mais fracos, ó Di­vino.

 

- O tigre, sim. A lei da sua natureza é a ferocidade. A lei da sua natureza é a Lei de Deus. Ele não lhe pode desobedecer.

 

- Então, ao obedecer-lhe, ele não está a cometer qualquer transgressão, ó Divino?

 

- Não, ele é sem culpa.

 

- Esta outra criatura, aqui, é tímida, ó Divino, e morre sem resistir.

 

- O coelho, sim. Ele é sem coragem. É a lei da sua nature­za, a Lei de Deus. Ele deve obedecer-lhe.

 

- Então não lhe pode ser honradamente solicitado que vá contra a sua natureza e resista, ó Divino?

 

- Não. A nenhuma criatura pode ser honradamente solici­tado que vá contra a lei da sua natureza, a Lei de Deus.

 

Depois de muito tempo e de muitas perguntas, Satanás disse:

 

- A aranha mata a mosca e come-a; o pássaro mata a ara­nha e come-a; o gato-selvagem mata o ganso; o... bem, eles ma­tam-se todos uns aos outros. É assassínio em toda a linha. Aqui estão incontáveis multidões de criaturas, e todas elas matam, ma­tam, matam, são todas elas assassinas. E não têm culpa, ó Di­vino?

 

- Não têm culpa. É a lei da sua natureza. E a lei da nature­za é sempre a Lei de Deus. Agora... observai... vede! Uma nova criatura, e a obra-prima, o Homem!

 

Homens, mulheres, crianças, enxameavam-se por todo o la­do, em bandos, aos magotes, aos milhões.

 

- O que ides fazer com eles, ó Divino?

 

- Colocar em cada indivíduo, em tons e graus diferentes, todas as várias Qualidades Morais que foram distribuídas em massa, uma característica única e distintiva de cada vez, entre o mundo animal não falante: coragem, cobardia, fereza, docili­dade, equidade, justiça, astúcia, perfídia, magnanimidade, cruel­dade, malícia, malignidade, lascívia, misericórdia, piedade, pureza, egoísmo, doçura, honra, amor, ódio, vileza, nobreza, lealdade, falsidade, veracidade, insinceridade... cada ser huma­no tê-las-á a todas dentro de si, e elas constituirão a sua nature­za. Em alguns deles, haverá características elevadas e refinadas que submergirão as que são malignas, e a esses chamar-se-á homens bons; noutros, as características malignas terão domí­nio, e a esses chamar-se-á homens maus. Observai... vede!... Eles desaparecem!

 

- Para onde foram, ó Divino?

 

- Para a Terra... eles e os outros animais.

 

- O que é a Terra?

 

- Um pequeno globo que eu fiz há um tempo, dois tempos e metadede um tempo1. Vós viste-lo, mas não reparastes nele na explosão de

mundos e sóis que saiu em jacto da minha mão. O homem é uma experiência, os restantes animais são outra ex­periência. O tempo dirá

se valeram a pena, A apresentação che­gou ao fim: podeis retirar-vos meus senhores.

Passaram vários dias.

 

Isto representa uma longa extensão do (nosso) tempo, uma vez que, no céu, um dia é como mil anos.

 

Satanás vinha tecendo comentários elogiosos relativamente a algumas das cintilantes indústrias do Criador; comentários que, se se lesse nas entrelinhas, eram na verdade sarcasmos. Tecera-os em confidência aos seus amigos de confiança, os outros ar­canjos, mas eles haviam sido escutados por alguns anjos comuns e denunciados no Quartel-General.

 

Foi-lhe dada ordem de banimento por um dia — um dia ce­leste. Era um castigo ao qual ele estava habituado, por conta da sua língua demasiado flexível. Outrora, fora deportado para o Espaço, não havendo nenhum outro sítio para onde o enviar, e por lá batera fastidiosamente as asas, em meio à noite eterna e ao frio árctico; mas desta vez ocorrera-lhe pôr-se a caminho e procurar a Terra e ver como estava a progredir a experiência da Raça Humana.

 

Passado algum tempo, escreveu para casa — com todo o si­gilo —, a S. Miguel e S. Gabriel, sobre o que viu.

 

1 Aqui, «tempo» é um literalismo da tradução bíblica, que em geral significa um ano.

Nes­te caso, tratar-se-ia de três anos e meio, tal como em Daniel, 12:7. (N. do T.)

 

 

 

 

A CARTA DE SATANÁS

 

Este é um lugar estranho, um lugar extraordinário e interes­sante. Não há nada que se lhe assemelhe por aí. As pessoas são todas loucas, os outros animais são todos loucos, a terra é louca, a própria Natureza é louca. O homem é uma curiosidade mara­vilhosa. Quando está no seu melhor, é uma espécie de anjo ni­quelado de baixa categoria; no seu pior, é inqualificável, inimagi­nável; e, tudo considerado e a toda a hora, é um sarcasmo. Apesar disso, intitula-se, de modo lisonjeiro e com toda a since­ridade, a «mais nobre obra de Deus». É a verdade, isto que vos conto. E esta ideia não é novidade nele: ele tem-na discutido ao longo dos tempos e acreditado nela. Acreditado nela, e não en­controu ninguém em toda a sua raça que se risse disso.

 

Além disso — se me é permitido obrigar-vos a mais este es­forço —, ele pensa que é o preferido do Criador. Acredita que o Criador tem orgulho nele, acredita até que o Criador o ama — que tem uma paixão por ele; que passa noites em claro a admirá-lo; sim, e que olha por ele e o mantém livre de sarilhos. Ele reza ao Criador e pensa que Ele o ouve. Não é uma ideia bizarra? Preenche as suas preces com toscas e corriqueiras e floridas lisonjas ao Criador, e pensa que Ele está sentado a soltar suspiros maviosos ao ouvir estas extravagâncias e que as aprecia. Reza por ajuda, e favor, e protecção, todos os dias; e fá-lo com espe rança e confiança, também, a despeito de nenhuma das suas pre­ces ter sido alguma vez atendida. A afronta diária, a derrota diá­ria, não o desencorajam, ele continua a rezar como dantes. Há algo de quase encantador nesta perseverança. Tenho de vos obrigar ainda a um esforço adicional: ele pensa que vai para o céu!

 

Tem professores assalariados que lhe dizem isso mesmo. Também lhe dizem que há um inferno, de fogo eterno, e que é para lá que ele irá, se não cumprir os Mandamentos. O que são os Mandamentos? São uma curiosidade. Falar-vos-ei deles em breve.

 

(in Cartas da Terra, Bertrand Editora)

 

 

 

 

 

publicado por Augusta Clara às 14:00
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6 comentários:
De Luis Moreira a 24 de Janeiro de 2011
Qual inferno, Augusta? Isso querias tu! Como diz a Carla, tu és das que vais direitinha para o "Jardim das Delícias"...:-)
De augusta clara a 24 de Janeiro de 2011
Tenho que ir ver bem no quadro qual é o melhor sítio.

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