De Paulo Rato a 23 de Janeiro de 2011
Ethel,
Às vezes, parece-me que não lêem o que escrevo. Ou escrevo tão mal que não consigo fazer-me entender...
O que me preocupa, neste caso, são as condições de segurança e reserva de informação, legalmente estabelecidas, que limitam o acesso a Arquivos como este e que foram desrespeitadas. O que ficou implícito no meu comentário.
A investigação histórica faz parte do próprio Homem, da sua estruturação individual e colectiva.
Ou serão os historiadores, arqueólogos, paleontólogos uma chusma de gente inútil e mesmo nociva? Para que precisamos de saber o que se passou antes de nós? Qual o nosso lugar na cadeia evolutiva? Quais as razões e circunstâncias de acontecimentos que fundaram, alteraram, derrubaram impérios e civilizações? Que papéis tiveram os intervenientes nesses acontecimentos? Se existiu Tróia, ou Jesus de Nazaré, ou Átila, ou Júlio César, ou Hitler, ou o Holocausto, ou...? Não será melhor destruir todos os exemplares das Crónicas de Fernão Lopes, as referências aos assassínios cometidos por D. João II, o processo dos Távoras, que ensombra a obra do Marquês? Há muito por onde escolher. Sem tanto documento, registo, vestígio, despacha-se tudo em meia dúzia de linhas, talvez da autoria do José Rodrigues dos Santos, e ficamos todos contentes?
Claro que não acredito que estejas de acordo com o que escrevi no parágrafo acima. Mas será que consegui tornar mais clara a incoerência de pretender destruir documentos históricos?
É precisamente porque a investigação não se pode tornar mais importante que o ser humano que o que afirmei sobre a preservação de fontes documentais históricas não é um "absoluto científico" (o que é isso?), mas uma regra - transcrita nas palavras propositadamente excessivas que ouvi a muitos dos especialistas que referi - que tem, obrigatoriamente, de se submeter a regulamentações, conforme as características intrínsecas de documentos e acervos, antes de mais para salvaguardar as pessoas envolvidas - se se trata de documentação recente - mas também para acautelar a sua preservação.
E foi sobre isso que malbaratei "o meu latim" em todo o parágrafo seguinte, que até tinha uns erros de concordância que emendei depois:
"Já quanto às condições de segurança dos diversos tipos de documentação e às condições para lhes aceder, isso é diferente e, em princípio, certo tipo de informação deve permanecer reservada aos investigadores e estudiosos (alguns, mesmo, sujeitos à autorização dos visados - enquanto vivos - ou a um período de reserva, mesmo após a morte dos neles citados), cabendo aos responsáveis assegurar o cumprimento das regras - democraticamente (e só democraticamente!) estabelecidas - para a respectiva consulta."
É conhecida a importância de uma "nota de despesas" ou de uma lista de roupa para lavar, para determinar a datação de uma pintura, analisar as condições de vida de uma época e de um local, ou abordar questões históricas mais complexas.
Bem mais evidente é a importância da preservação de Arquivos que documentam épocas e actos dos mais vergonhosos da história da Humanidade: se, mesmo com eles, há quem ouse pôr em causa as atrocidades do regime nazi, que se passaria se, pudicamente e com receio de novas perseguições, tivessem sido todos destruídos?
Nenhuma supressão de arquivos oficiais (não estou a falar de papéis queimados à pressa, com a PIDE a bater à porta...) asseguraria que, numa hipotética reconquista do poder pela ditadura derrubada, alguém se safava da subsequente sangueira. Só se, em vez de deixar fugir os agentes da PIDE e condenar uns poucos a penas irrisórias, se procedesse à sua eliminação, organizada, sistemática, completa... Assim, sim, a tal perigosa memória ficava apagadinha de todo: uma autêntica "formatação" do disco rígido. E nós tornávamo-nos iguaizinhos a eles, ou piores!
A vida é complexa e difícil, Ethel. Está cheia de escolhas e de escolhos.
Se, desta vez, não consegui ser claro, o problema é meu. E como não escrevo só para ter a última palavra, prometo não me esforçar mais.