Sexta-feira, 21 de Janeiro de 2011

Traduzir João Cabral de Melo Neto em italiano

 

 

 

 

 

 

 

 

Sílvio  Castro

 

 

Quando da oportunidade de responder ao leitor de Estrolabio, Peter, em relação à tradução do primeiro soneto do português errante, de Manuel Alegre, em italiano e por Giulia Lanciani, tivemos ocasião de remarcar, no pouco espaço que tínhamos para a resposta, sobre a importância do conceito de “ritmo” para a tradução de poesia. Aquela tradução da lusitanista da Universidade de Roma se coloca naturalmente na mais lógica convenção que diz respeito a um tradutor, isto é, um operador que passa para a sua língua materna um texto originalmente criado numa segunda língua de seu conhecimento. Porém, talvez faltasse à minha resposta um exemplo de tipo oposto, isto é, de um tradutor que opere a partir da segunda língua para aquela sua de origem.  Desta maneira, procuro aqui exemplificar este tipo de tradução, propondo aos leitores a minha versão em italiano de poemas de João Cabral de Melo Neto, traduções estas feitas a pedido para uma editora de Milão, intencionada a publicar uma antologia de poetas internacionais ligados à temática específica de “o rio”. A dita antologia ainda não foi entregue ao público e quem sabe se e quando o será... O meu exemplo reentra naquele caso de tradução fadada a uma menor dimensão enquanto resultado final. Porém, como elemento de compensação para a minha ousadia, o problema do ritmo em João Cabral, possivelmente mais do que em qualquer outro poeta, é fascinante. Daí o meu duro empenho em procurar reencontrá-lo em italiano... Aqui estão as minhas traduções.

 

 

 

 

Uma mulher e o Beberibe

 

Ela se imove com o andamento da água

(indecisa entre ser tempo ou espaço)

daqueles rios do litoral do Nordeste

que os geógrafos chamam “rios fracos”.

Lânguidos; que se deixam pelo mangue

a um banco de areia do mar de chegada;

vegetais; de água espaço e sem tempo

(sem o cabo por que o tempo a arrasta).

 

*

Ao rio Beberibe, quando rio adolescente

(precipitadamente tempo, não espaço),

nada lhe pára os pés; se rio maduro,

ele assume um andamento mais andado.

Adulto no mangue, imita o imovimento

que há pouco imitara dele uma  mulher:

indolente, de água espaço e sem tempo

(fora o do cio e da prenhez da maré).

 

 

 

Una donna e il Capibaribe

 

 

Lei si in-muove con l’andamento dell’acqua

(indecisa tra essere tempo o spazio)

di quei fiumi del litorale del Nordeste

che i geografi chiamano “fiumi deboli”.

Languidi; che si lasciano lungo la foresta

a una duna dal mare di arrivo;

vegetali, d’acqua spazio e senza tempo

(senza il capo con cui il tempo la trascina).

 

*

Al fiume Beberibe, quando fiume adolescente

(precipitosamente tempo, non spazio),

niente gli ferma i piedi; se fiume maturo,

egli prende un’andamento più andante.

Adulto nella foresta, imita l’in-movimento

Che una donna poco fa gli imitava:

indolente, d’acqua spazio e senza tempo

(tranne quello della marea in calore e pregna).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Na morte dos rios

 

A  Manuel Artur Souza Leão Neto

 

Desde que no Alto Sertão um rio seca.

a vegetação em volta, embora de unhas,

embora sabres, intratável e agressiva,

faz alto à beira daquele leito tumba.

Faz alto à agressão nata: jamais ocupa

o rio de ossos areia, de areia múmia.

 

2.

 

Desde que no Alto Sertão um rio seca,

o homem ocupa logo a múmia esgotada:

com bocas de homem, para beber as poças

que o rio esquece, até a mínima água:

com bocas de cacimba, para fazer subir

a que dorme em lençóis, em fundas salas;

e com bocas de bico, para reequipar

seu fossar econômico, de bicho lógico.

Verme de rio, ao roer essa areia múmia,

o homem adianta os próprios, póstumos.

 

 

 

 

Nella morte dei fiumi

 

Da quando nell’ Alto Sertão un fiume secca,

la vegetazione intorno, sebbene di unghie,

sebbene spade, intrattabile e aggressiva,

rallenta accanto a quel letto tomba.

Attenta alla aggressione nata: giammai occupa

il fiume di ossa arena, di arena mummia.

 

2.

 

Da quando nelll’Alto Sertão un fiume secca,

l’uomo occupa subito la mummia esaurita:

con bocche di uomini, per bere le pozze

che il fiume dimentica, fino alla minima acqua;

con bocche di pozzi per fare risalire

quella che dorme in lenzuole, in profonde sale;

e con bocche di bestia, per riequiparare

il suo fondale economico, da bestia logica.

Verme del fiume, al rodere la sabbia mummia,

l’uomo fa avanzare i suoi prossimi, postumi.

 

 

Os rios de um dia

 

Os rios, de tudo o que existe vivo,

vivem a vida mais definida e clara,

para os rios, viver vale se definir

e definir viver com a língua da água.

O rio corre; e assim viver para o rio

vale não só ser corrido pelo tempo:

o rio o corre: e pois que com sua água,

viver vale sucidar-se, todo o tempo.

 

2.

 

Pois isso, que ele define com clareza,

o rio aceita e professa, friamente,

e se procuram lhe atar a herrorragia,

ou a vida suicídio, o rio se defende.

O que um rio do Sertão, rio interino,

prova com sua água, curta nas medidas:

ao se correr torrencial de uma vez,

sobre leitos de hotel de um só dia;

ao se correr na carreira, de enxurro,

sem alongar seu morrer, pouco a pouco,

sem alongá-lo, em suicídio permanente

ou no que todos, os rios duradouros;

esses rios do Sertão falam tão claro

que induz ao suicídio a pressa deles:

para fugir na morte da vida em poças

que pega quem devagar por tanta sede.

 

 

I fiumi di un solo giorno

 

I fiumi, da tutto ciò che è vivo,

vivono la vita più definita e chiara;

per i fiumi, vivere vale definirsi

e definir vivere con la lingua d’acqua.

Il fiume corre; e così vivere per il fiume

non è solo essere percorso del tempo:

il fiume corre, e perciò con la sua acqua

vivere vale suicidarsi, per tutto il tempo.

 

2.


Per questo che egli definisce con chiarezza,

il fiume acceta e professa, fredddamente,

e se cercano di fermargli l’emorragia,

oppure la vita suicidio, il fiume si difende.

Ciò che un fiume del Sertão, fiume interino,

prova con la sua acqua, corta nelle misure:

al suo correre torrenziale, di una sola volta,

sui letti di un hotel, di un solo giorno;

al suo correre rapido, di una rapida,

senza allungare il suo morire, poco a poco,

senza allungarlo, in suicidio permanente

o come tutti, i fiumi longevi;

questi fiumi del Sertão parlano così chiaro

da indurre al suicidio la loro fretta:

per fuggire nella morte della vita, vita in pozze

che prende colui che vagheggia per tanta sete.

 

publicado por João Machado às 16:00

editado por Luis Moreira às 15:26
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1 comentário:
De Paulo Rato a 22 de Janeiro de 2011
Bravissimo, Silvio! Se mi piace tantissimo leggere questo grandissimo poeta negli suoi originali, inatingibili in un 'altra lengua, credo che le tue traduzioni riescono a rimanere il più vicino possibile della impossibilità. Come entusiasta della cultura italiana, tanto ferita per questi giorni berlusconiani, mi piace molto che essa riceva questi bei regali. Gli amanti di poesia italiani ringrazieranno a te.

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