Sexta-feira, 21 de Janeiro de 2011

Malangatana - por Manuel Augusto Araújo

continuação...
É o ano de 1961. Mondlane recusa qualquer colaboração com a administração colonial e entra directamente na luta pela libertação de Moçambique, unificando os incipientes movimentos independentistas. É um dos fundadores e será o primeiro presidente da FRELIMO, que inicia a luta armada em 1964. Mondlane será assassinado em 1969, vítima de um atentado perpetrado pela PIDE.
Nesse mesmo ano, Malangatana Valente Ngwenya (Valente porque a potência colonial obrigava à inclusão de um nome português no registo dos autóctones) faz a sua primeira exposição nos salões da Associação dos Organismos Económicos. O êxito é notável. A recepção crítica e as vendas surpreendem confessadamente Augusto Cabral, quem lhe tinha dado os primeiros pincéis, as primeiras tintas.
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O mundo colonial virado do avesso

Malangatana tinha rebentado uma tempestade tropical. O empregado que servia à mesa onde só se sentavam brancos, tinha dado um enorme e sonoro arroto que estilhaçou todas as regras de etiqueta importadas de uma metrópole distante. O paternalismo colonialista dos brandos costumes inquietou-se com o sucesso do negro apanha bolas num clube reservado a brancos. Havia que o domesticar, integrando-o, se possível. Havia ainda um outro não menor incómodo. Um jovem pintor, sem qualquer formação académica, tinha a terceira classe e frequentara esporadicamente uns cursos no Núcleo de Arte, entrava como um ciclone nos meios artísticos afirmando as suas raízes africanas, a sua cultura africana, fora de todos os padrões ocidentalizados na altura dominados pelas correntes abstraccionistas, favorecidas ideologicamente contra os realismos. Era o mundo colonial e eurocêntrico virado do avesso.
O sucesso em Moçambique ecoa por África dos países recém-independentes. Em 1962 a revista Black Orpheus, editada na Nigéria, país que tinha conquistado a independência dois anos antes, dedica-lhe um extenso artigo profusamente ilustrado. Malangatana tinha alcançado o sucesso a uma velocidade vertiginosa. Vertiginosa era também a circulação das suas obras por terras africanas.
Perante a realidade incontornável da fulgurância da sua obra, foi convidado a participar na Bienal de S. Paulo, integrando a representação portuguesa. Recusa esse convite tal como ordena, como forma de protesto contra a prisão de Nelson Mandela, que os seus quadros sejam retirados de uma exposição de artistas moçambicanos que percorria a África do Sul. São sinais evidentes da sua africanidade, de orgulho na sua identidade moçambicana, de outra Moçambique que não a da sonsamente violenta província ultramarina. O crocodilo (Ngwenya) tinha devorado o valente.
Em 1964, ano em que a guerra de libertação se inicia no Norte de Moçambique, Malangatana, acusado de colaborar com a FRELIMO, é preso pela polícia política portuguesa. Durante dezoito meses conhece dureza do regime colonial. Não se deixar abater. É um embondeiro de raízes fundas.

Um cidadão do mundo

Sai da prisão, volta aos pincéis, às tintas. As suas florestas continuam a invadir e a fixar-se nos suportes por onde espalha o seu enorme talento. Em 1971, a Fundação Gulbenkian atribui-lhe uma bolsa para estudar gravura e cerâmica em Lisboa. No ano seguinte fará a sua primeira exposição individual na capital do esfarrapado império, na Sociedade Nacional de Belas-Artes e depois na Bucholz. Já era considerado um dos grandes artistas de uma África a viver a excitação da emergência de novos países, desenhando um novo mapa em que o seu país não figurava.
Finalmente em 1974, Moçambique torna-se independente e Malangatana é, naturalmente, o grande artista nacional.
A sua profunda inteligência, a sua estatura humana não se deixaram enredar por esse reconhecimento. Envolve-se directamente na política e continua a pintar, a desenhar, a gravar, a fazer escultura. Continua principalmente a reinventar a sua obra, agora também em grandes murais e outra obra pública, sempre com os pés bem mergulhados na sua terra africana. Continua a viver a vida, a cantar, a dançar, a comer e a beber com o grande prazer e alegria de um cidadão do mundo enquanto se desmultiplica em inúmeras iniciativas políticas, de dinamização das artes no seu país e de protecção das crianças. Foi deputado da FRELIMO, participou em acções de alfabetização e de mobilização ideológica. Foi um dos organizadores do Museu Nacional de Arte de Moçambique e da actual Escola de Artes Visuais. Criou núcleos de artesãos das zonas verdes de Moçambique e deu nova vida ao Núcleo de Arte, uma associação de artistas plásticos. Em prol das crianças a sua actividade foi sempre intensa da Associação dos Amigos da Criança, de que foi director, à Associação do Centro Cultural de Matalana, a sua terra natal, que desenvolve vasta actividade social e cívica. No meio de tanta actividade nunca deixou de pintar, desenhar, gravar, esculpir.
Malangatana foi um artista único e um homem com três metros de altura















publicado por Luis Moreira às 13:00
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