Segunda-feira, 17 de Janeiro de 2011

Pequenas memórias da Guerra da Guiné (12) – por Adão Cruz

Havia, com alguma frequência, uma voo militar entre Bissau e Lisboa, a fim de transportar os feridos e doentes mais graves que careciam de cuidados especiais. Estes voos levavam sempre um médico a acompanhar os pacientes. Esta missão redundava, por norma, numas férias de quinze dias a três semanas, na metrópole. Por isso eram sete cães a um osso. E os bafejados eram sempre os mesmos. Os sortudos que se encontravam em Bissau e os que conseguiam mais facilmente mexer os cordelinhos das influências. Logo que cheguei do mato, soube que iria haver um desses voos. Imediatamente fui falar com o major do Serviço de Saúde, o tal que fora a Bigene fazer a inspecção, e sem papas na língua atirei:

 

- Meu major, soube que vai haver um voo com doentes para Lisboa. Estive sempre no mato, mais de ano e meio. Aguardo neste momento o meu regresso a Portugal, faltando cerca de duas semanas. Não tenho, nesta altura, qualquer incumbência nem actividade. Por razões óbvias, penso que seria um acto de justiça nomearem-me para acompanhar este voo.

 

- Nem é tarde nem é cedo. É mesmo você quem vai.

 

O avião era um velho Skymaster, quadrimotor. Sem bancos ou cadeiras. Apenas dois bancos laterais, de couro, corridos, de uma ponta a outra do avião. Tínhamos pela frente uma viagem de catorze horas, com muitos doentes, alguns em macas. À entrada, umas gajas do movimento nacional feminino, todas sorridentes, ofereciam umas latas de leite e maços de cigarros todos furados do bicho. Lembro-me que ia quase teso e nem um tostão me entregaram para o que desse e viesse. Tinha uma farda toda esfarrapada e tive que pedir uns galões emprestados.

 

Já a noite ia alta quando o avião fez escala nas Canárias, no aeroporto militar espanhol. Depois de abastecido levantámos voo, e quando já estávamos a uma hora de Lisboa, o piloto chama-me e diz:

 

- Dr., não podemos aterrar em Lisboa por causa do nevoeiro. As hipóteses que temos são Madrid, Casablanca ou voltar para trás para as Canárias. O que é que diz?

 

- Boa pergunta, eu não percebo nada disto nem sou eu que mando nesta guerra, mas ir para Madrid ou Casablanca com este espectáculo é impensável.

 

Não sei as ordens que obtiveram ou se obtiveram algumas ordens, o que é certo é que o avião deu meia volta e voltou para as Canárias. Era já de madrugada quando aterrámos numa pista absolutamente deserta. Estava um frio de rachar, dentro e fora do avião. Os doentes tiritavam por todos os lados. Algum tempo depois vislumbra-se a chegada de um jeep e dele sai um rapaz da minha idade que se apresentou como António, o médico da base. Era traumatologista e deixou-me a impressão de que era muito bom tipo. A primeira coisa que me disse, com certo ar de lástima, quando viu a minha lastimável figura, foi a seguinte:”vocês ainda não acabaram com a merda dessa guerra?”

Senti-me pequeno.

 

 

- Ó pá, por mim já tinha acabado há muito. Mas o importante é que me arranjes por aí uma sala ou uma arrecadação para abrigarmos os doentes, senão eles morrem de frio.

 

- Vou ver o que posso fazer. De comer não tenho nada, mas vou ver se consigo algum pão e uns ovos.

 

A noite, relativamente límpida, deixava ver ao longe as silhuetas de umas casas, bastante afastadas ainda. Eu, os pilotos e os doentes que ainda se podiam mexer, transportámos as macas para uma dessas casas. Havia uma espécie de bar, em cujo chão a malta se alapou o melhor que pôde. O pobre do António lá conseguiu algum pão, umas bebidas quentes e uns ovos mexidos. Sempre tive, durante uns anos, uma grande vontade de descobrir o seu paradeiro, para com ele me reencontrar. Creio que ainda fiz algumas diligências, pois nunca se varreu de mim a gratidão com que fiquei. Mas o tempo foi apagando tudo.

 

Reiniciámos a viagem ao romper do dia. Ao fim da manhã aterrámos no aeroporto de Figo Maduro, ficando o avião escondido, a um canto, no fundo da pista. Depois de uma seca de uma ou duas horas dentro do avião, começam a chegar discretamente umas ambulâncias, muito espaçadas, sem fazerem qualquer ruído, o mais silenciosas possível, de modo a não darem nas vistas. Os doentes foram transportados para o anexo do Hospital da Estrela, onde também me desloquei a fim de fazer a entrega dos pacientes e dar conta das burocracias. Em seguida fui obrigado a ir à Junqueira, perto do Mosteiro dos Jerónimos, onde havia uma espécie de unidade desmobilizadora. Ainda hoje me recordo bem do que lhes disse:

 

- Meus amigos, vou para Vale de Cambra, vou-me deitar um mês de papo para o ar. Eu preencho todas a formalidades que for preciso, mas, por favor, façam o que puderem para me libertar. Fiquem sabendo que, apesar de me faltarem quinze dias para acabar a comissão, eu não ponho mais os pés na Guiné nem aqui. Nem que me prendam. Para mim a tropa acabou.

 

-Isso é que era bom! Diz lá de dentro do balcão um gajo qualquer.

 

O que é certo é que nunca mais me chatearam, até hoje, apesar de eu sonhar mil vezes, durante anos, que fora novamente mobilizado.

 

(fim da tal história lixada).

 

 

O hospital militar de Bissau, de onde partiram os feridos e doentes.

 

 

 

C-4 Skymaster na sucata

 

publicado por estrolabio às 19:00
link | favorito
3 comentários:
De Luis Moreira a 17 de Janeiro de 2011
As meninas do movimento nacional feminino eram do mais rasca possível. Estava eu deitado no Hospital de doenças infecto-contagiosas e dizem-me: prepara-te que vêm aí "as putas" (era assim que as tratavámos).Calculei logo que com a doença de que padecia e com as gajas à minha volta ía desta para melhor. Pendurei um papel na minha cama: afaste-se! Altamente contagioso. As "meninas" passaram à frente, nem entraram no quarto.
De augusta clara a 17 de Janeiro de 2011
Uff ! Até que enfim!
De augusta clara a 17 de Janeiro de 2011
Que fique claro que quero continuar a ouvir as histórias da Guiné que o Adão aqui tem contado. Elas são muito necessárias para que as novas gerações percebam o que os jovens da nossa geração sofreram com o que nunca devia ter acontecido. Só tive um desabafo por um dos episódios penosos ter chegado ao fim. Conta mais, Adão, por favor.

Comentar post

.Páginas

Página inicial
Editorial

.Carta aberta de Júlio Marques Mota aos líderes parlamentares

Carta aberta

.Dia de Lisboa - 24 horas inteiramente dedicadas à cidade de Lisboa

Dia de Lisboa

.Contacte-nos

estrolabio(at)gmail.com

.últ. comentários

Transcrevi este artigo n'A Viagem dos Argonautas, ...
Sou natural duma aldeia muito perto de sta Maria d...
tudo treta...nem cristovao,nem europeu nenhum desc...
Boa tarde Marcos CruzQuantos números foram editado...
Conheci hackers profissionais além da imaginação h...
Conheci hackers profissionais além da imaginação h...
Esses grupos de CYBER GURUS ajudaram minha família...
Esses grupos de CYBER GURUS ajudaram minha família...
Eles são um conjunto sofisticado e irrestrito de h...
Esse grupo de gurus cibernéticos ajudou minha famí...

.Livros


sugestão: revista arqa #84/85

.arquivos

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

.links