Quinta-feira, 13 de Janeiro de 2011
Comunicação social e democracia – VI - a separação de poderes, base essencial da democracia e do progresso, está a ser posta em causa.

 

João Machado

 

 

 

Há alguns anos atrás, em Inglaterra, um repórter do News of the World foi condenado a uma pena de prisão por, de modo ilegal, ter conseguido aceder a mensagens guardadas no voicemail de um telemóvel. Também foi condenado o detective privado contratado para a execução desta tarefa suja. O Observer do domingo passado, dia 9 de Janeiro, recorda estes factos, mas informa que parece que não se tratou de um caso isolado, ao contrário do que se procurou fazer crer na altura. Existem outras queixas sobre violação de privacidade, eventualmente cometidas por parte do News of the World. Mais: terão ocorrido pressões e mesmos subornos no sentido de as autoridades policiais travarem as investigações relativas a estas queixas, de modo a que não chegassem a tribunal. Outro editor do jornal terá sido suspenso após alegações de cumplicidade em acções de espionagem telefónica, que inclusive terão atingido a família real.

 

Andy Coulson, que na altura em que ocorreu o caso acima referido era editor do News of the World, foi entretanto demitido alegadamente por razões puramente contabilísticas. Actualmente é director de comunicação em Downing Street, depois de ter trabalhado na campanha eleitoral de David Cameron, primeiro-ministro britânico. Este defende energicamente o seu colaborador. Sem dúvida que há que não cair em paranóias persecutórias (uma leitura atenta do Observer deixa claro que a sua posição é de que devem ser evitadas, veja-se o que escreve Henry Porter), mas a cautela requer também que se separem claramente as águas. Nomeadamente quanto à questão do alargamento do império de comunicação social de Rupert Murdoch, proprietário do News of  the World (através da News International e da News Corp), que agora se prepara para adquirir a totalidade do capital da BSkyB, de transmissão por satélite (já detém 39 %). O Observer faz notar que os procedimentos necessários para travar as investigações relativas às queixas contra o jornal só foram possíveis com o envolvimento da poderosa organização que o controla a um nível superior, e requer que  este assunto seja esclarecido antes de ser permitida a tomada da BSkyB pelo império Murdoch. E refere também que o assunto tem de ser levado à Comissão da Competitividade.

 

Recorde-se a este respeito o que se passa noutras paragens: a situação que hoje em dia se vive em Itália resulta em grande parte da promiscuidade existente entre a comunicação social e o poder político. Recorde-se também o que ainda recentemente se passou com Le Monde, com as pressões feitas ao mais alto nível para influenciar a escolha dos novos accionistas. E que métodos ainda mais primitivos estão a ser usados noutros lados. O nosso amigo Júlio Marques Mota publicou no nosso blogue, no passado dia 8 de Janeiro, um post sobre a perigosa situação que se vive na Hungria, onde estão a ser impostas graves restrições à comunicação social, para a impedir de transmitir notícias consideradas hostis pelas forças políticas agora no poder. Entre nós são vários os casos em que se fala de pressões do poder político, e não só, sobre os jornais, rádio e televisão. A propósito do chamado caso Wikileaks, especula-se sobre as penalidades que vão ser infligidas aos mentores da divulgação de documentos, a maioria (para não dizer a totalidade) dos quais devia ter sido divulgada logo na altura em que foram produzidos. Não se ouvem referências a represálias, nem mesmo a simples censuras, aos responsáveis pelos abusos trazidos ao conhecimento do público.

 

Creio não ser exagerado dizer que temo estarmos perante um perigoso retrocesso neste capítulo. É verdade que a análise que o Observer nos apresenta sobre esta situação faz-nos concluir que na Grã-Bretanha ainda se conseguem debater certos assuntos. Simplesmente, há que perguntar: até quando? Será que a maioria das pessoas se apercebem da gravidade desta situação? Ou só uma minoria sente que se está perante uma maneira mais sofisticada de se obter aquilo que antes se impunha através da censura e de um controle feroz?

 

Há que fazer notar que a análise crítica do Observer se estende a todos os participantes nos factos narrados, não poupando colegas de profissão, sem entraves motivados por problemas corporativos. Não creio que, por detrás dessa análise, haja qualquer ideia de prejudicar um competidor, na medida em que se tratam de universos muito diferentes. De qualquer modo, nunca é demais relembrar a necessidade de separar a comunicação social dos estados totalitários, dos grandes grupos económicos que sobrepõem a tudo, incluindo o poder político, das igrejas que desconhecem a separação entre o temporal e o espiritual, etc.. A comunicação social é um poder que tem de servir a todos, e não a interesses particulares.



publicado por João Machado às 16:00
editado por Luis Moreira às 18:04
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