Terça-feira, 11 de Janeiro de 2011

Cidade Maravilhosa – 9 - por Sílvio Castro


Uma apresentação muito ambiciosa abria a publicação de 1960. No primeiro parágrafo da mesma afirmávamos:

“Não é um desejo, o que procuramos exprimir com o Anuário da Literatura Brasileira; não é a concretização de uma idéia ou a realizaçã de um trabalho particular e pessoal. Ousamos ir além: queremos ampresentar a tradução da realidade brasileira de hoje, tanto no campo especial da literatura, como no geral, da cultura.“

Porém, logo o Índice Geral da publicação justificava tal ambição. A seção I – Literatura brasileira, 1959 , se completava em quatro faces diversas e complementares: uma primeira geral, com um artigo sobre as características predominantes da produção do ano, no primeiro número assinada por Eduardo Portella, com o artigo “A literatura do desenvolvimento“. Em seguida, as matérias específicas, por gêneros literários: Assis Brasil – “Ficção“; Sílvio Castro, “Poesia”; Adonias Filho, “Ensaios”; Santos Moraes, “Biografias, crônicas e memórias”. Em seguida, seção II - Calendário da Vida literária brasileira em 1959, são fatos e eventos acontecidos em todo o Brasil no decorrer de 365 dias. Seguia-se uma parte de substancial importância para a política de divulgação da Publicação, a seção III: Movimento literário nos Estados, com textos referidos então a 11 do total das unidades da Federação, textos estes assinados por escritores representativos da região tratada, do norte ao sul do País. No segundo número do Anuário entra também, além de outros, o Estado da Bahia, ausente no primeiro número, e o comentário que lhe diz respeito é escrito por Daniel de Oliveira, um dos pseudônimos usados por de Jorge Amado. Em seguida vinha a IV unidade, Crítica literária, com artigos originais de analistas sobre alguns dos principais livros publicados no ano por autores brasileiros. No número 1 do Anuário escrevem para esta seção 17 críticos que analisam 20 obras publicadas. Todos os críticos se apresentam com um texto, com a exceção privilegiada de Sílvio Castro, com três textos. As seções V e VI correspondiam a uma escolha antológica de, respectivamente, “Alguma prosa brasileira em 1959” e “Alguma poesia brasileira em 1959”. A seção n° VII, Bibliografia da Crítica e do Ensaio, concebida e realizada conjuntamente por Sílvio Castro e Waldir Ribeiro, foi aquela que, possivelmente, mais surpreendeu o ambiente literário nacional e despertou um particular interesse daquele internacional. Com os dados da ficha técnica de mais de 2 mil de textos selecionados e conveniente fichados, a seção ocupa a publicação da sua página 129 àquela 184. A metodologia de pesquisa revelada por este trabalho passou a permitir a todo estudioso e pesquisador de tomar imediata visão de mais de dois mil trabalhos da crítica e do ensaísmo da atividade literária brasileira, correspondentes à sua produção no ano de 1959 e referentes a livros, temas e autores nacionais e estrangeiros os mais diversos. A VIII seção, Vária, se ocupava de assuntos que não reentravam no espaço e natureza dos demais setores da publicação, como, por exemplo, os artigos “Poesia concreta”, de Ferreira Gullar; “Mestre Alceu”, de Afrânio Coutino; “O centenário de Raimundo Correia”, de Waldir Ribeiro do Val, etc., etc. A última seção do Anuário da Literatura Brasileira-1960, Outras Manifestações da Cultura Brasileira, exercia a função de alargar o discurso da possível relação da literatura com outros setores artísticos. Apresentava-se com os ensaios de José Roberto Teixeira Leite, “Artes visuais”; Zora Seljan, “O teatro em 1959”; Ely Azeredo, “Cinema”; Moacyr Padilha, “O ano musical de 1959”. Bem como se alargava ao setor da vida diplomática brasileira, com o trabalho de Waldir Ribeiro do Val, “Relações internacionais: O.P.A.”

O lançamento do Anuário provocou uma grande série de comentários positivos por parte da melhor crítica brasileira. Síntese dessas crítica pode ser considerado o artigo que Afrânio Coutinho escreveu sobre o ALB-1960 para o Diário de Notícias, do Rio, aos 9-10-1960, no qual o grande mestre da historiografia literária brasileira moderna escreveu, abrindo a sua análise crítica:

“É um trabalho extraordinário, a ser saudado e aplaudido calorosamente, o que Sílvio Castro e Waldir Ribeiro do Vall realizaram com o Anuário da Literatura Brasileira 1960 para o ano anterior.”

Logo depois do lançamento da edição do ALB-1961, Waldir Ribeiro do Val, por motivos pessoais, retirou-se da sociedade, sendo o seu posto ocupado por José Ariel Castro que, na qualidade de Secretário responsável das edições, acompanhou a vida da publicação até 1964, quando o ALB encerrou as suas atividades, em consequência das calamidades vividas pela vida nacional desde o fim de 1961 e por mim denunciadas no Editorial que abre a edição do ALB-1962/1963:

“(... ...) Esperamos que a atual denúncia do ALB. feita com aquele mesmo otimismo que nos guiou quando de sua criação, permita a solução do problema do livro brasileiro, o que será ao mesmo permitir a que mais brasileiros leiam e que nosso processo sócio-cultural se estabilize.”

Com o trabalho de organização do Anuário, a partir de 1959 foram criadas igualmente as Edições do Anuário da Literatura Brasileira. Logo em 1960 começaram os trabalhos para a realização dessas edições. Ficaram então programadas, além da publicação anual do ALB, três coleções principais: Coleção Ensaio e Crítica; Coleção Poesia Viva; Coleção Biblioteca Breve. Na primeira dessas coleções, saiu em 1961, de Sílvio Castro, Tempo Presente 1, e vinha programado igualmente do mesmo autor, Tempo Presente 2. Na Coleção Poesia Viva, sairam em 1962 os volumes de poemas, A Suave Pantera, de Marly de Oliveira, e de Sílvio Castro, Sol e Só. Na coleção Biblioteca Breve, saiu em 1961, de Eduardo Portella, Nota Prévia a Cruz e Sousa (ilustrada com um retrato do Poeta, por Quaglia). Na mesma Coleção, ficavam programadas as saídas dos volumes, de Sílvio Castro, Bibliografia Brasileira Mínima; de Assis Brasil, O Romance de Clarice Lispector. Os tempos tumultuados que chocaram a vida brasileira a partir do final de 1961 impediram a consecução das edições programadas, bem como a continuidade da atividade editorial correspondente.

Ao lado dessa amável formação como editor, procuro dar vida igualmente àquela do operador cultural. A natureza dessa atividade, substancialmente gratuita, se define pelo encontro entre o prazer pessoal pelo ato realizado, com a vontade civil de servir sempre ao grupo ou comunidade de origem. Muitos foram os modos de expressão dessa atividade, principalmente aquele das conferências públicas. A partir de determinado momento dos meus trabalhos nos anos ’50, eu me movimentava com continuidade nos encontros com os públicos os mais diversos. Já na oportunidade de meu curso especial em Vitória, Espírito Santo, com o convite que me fez o Ministério da Educação e Cultura, em 1954, ao lado das aulas regulares, um determinada noite eu me apresentei ao público capixaba para uma palestra subordinada ao tema musical, “A música de Bach e o jazz“. O jovem professor de história ousadamente se apresentava para expor algumas suas reflexões sobre a composição musical e a recepção da mesma. Os anos mais ricos desse tipo de experiência que eu fazia com o público começam em 1959 e cobrem todo um largo período de tempo. Eu então expunha o meu ecletismo cultural ainda em plena estabilização, confrontando-me com os mais variados temas. Assim acontece a 8 de outubro de 1959, no auditório da União Brasileira dos Escritores-RJ, em Niterói, quando falo “Sobre a poesia declamada”. Nesse mesmo ambiente e no dia 17 de outubro de 1959 presto a minha homenagem ao centenário de As Primaveras, de Casimiro de Abreu, tratando do grande romântico fluminense e de seu imortal volume de poemas. No ano seguinte, em determinado momento enfrento outro meio para a expressão da minha predisposição à operação cultural, invés de um público diante de mim, me confronto com um outro, muito mais amplo, mas virtual, através de transmissões radiofônicas. No dia 8 de julho de 1960 inicio uma ciclo de palestras no programa radiofônico-literário mantido por Arnaud Pierre na Rádio Roquete Pinto, do Rio de Janeiro. Afronto então o tema “A moderna literatura brasileira”, a que se seguem as conferências de 22/8: “A poesia moderna do Brasil”; 29/8, “A ficção moderna do Brasil”; 12/9: “A historiografia literária brasileira e A Literatura no Brasil, de Afrânio Coutinho“. Em 1961 venho eleito Presidente da UBE-RJ, com um mandato de dois anos. Dou então grande espaço à divulgação cultural nos diversos municípios fluminenses, com o fim de alargar o âmbito de influência da minha União Brasileira de Escritores, principalmente realizando conferências, do norte ao sul do Estado.  Entre essas, contam-se: “Centenário de Casimiro de Abreu“, em Campos, na sede da seção campista da União Brasileira de Escritores-RJ, no dia 10 de junho de 1960. A organização campista mantinha um regular programa anual de conferências literárias, com convidados ilustres de todo o Brasil, e no final do ano atribuia um “Prêmio de O Melhor conferencista do ano”. Para o ano de 1960, fui o premiado. Minha peregrinação pelos municípios fluminenses continuava: 17 de outubro de 1960, em Itaocara, no Colégio João Brasil, “Clóvis Bevilacqua, jurista e humanista”, em homenagem ao grande jurista autor do Ante-projeto do Código Civil Brasileiro; 24/11/1960, no Liceu Nilo Peçanha, Niterói, “A atual literatura fluminense”; na Feira do Livro da Associação Brasileira do Livro, Rio de Janeiro, 9 de maio de 1961; “A biblioteca e o grupo social”, Associação Comercial e Industrial, São João do Meriti, a 1 de outubro de 1961; aos 22 de julho de 1961, na sede da Associação Brasileira de Imprensa-ABI, Rio de Janeiro, “Conceito de literatura brasileira”; na Feira do Livro do Rio de Janeiro, no dia 22 de julho de 1962: “O futebol na literatura brasileira”, em homenagem ao recém-conquistado título de Bi-campeão pela seleção brasileira de futebol no Campeonato do Mundo, de Santiago do Chile.

Além das conferências, a atividade de operador cultural encontra espaço igualmente em atividades mais diretamente empenhativas. Assim, em 1960 , recebo da parte de Jorge Amado, organizador do programado I Festival do Escritor Brasileiro, um convite para, como representante oficial da UBE-RJ, promotora do evento, viajar para os 4 Estados dos Sul do Brasil, tomar contactos com os respectivos governadores e pedir-lhes apôios concretos para a presença das representações dos respectivos Estados no Festival em programação e de próxima realização. Viajei com esta missão encontrando-me com os governadores de São Paulo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, de todos obtendo plena adesão ao programa organizado por Jorge Amado. Quando no dia 26 de julho de 1960, nos grandes espaços do Shopping Center de Copacabana vem inaugurado o I Festival do Escritor Brasileiro, dos 183 escritores oficialmente participantes, boa parte dos mesmos vinha dos Estados do sul. Em 1961, colaboro com o Departamento Cultural do Ministério das Relações Exteriores para a realização do enciclopédico Livro Brasil, para o qual contribuo com a realização atualizada da parte “Cultura”. Foi uma experiência muito rica para mim, esta do Itamaraty. Isto também porque, muitas vezes, estando no silêncio do escritório que me fora delegado, recebia a telefonema de Guimarães Rosa, o Embaixador responsável pelo Departamento das Fronteiras, do Ministério. Então ele me perguntava sempre: “Você, Sílvio, não quer descansar um pouco? Por que não dá um pulo até aqui, para um papo entre nós.” Naturalmente, mais do que depressa, eu aceitava sempre o convite, assim podendo passar muitos minutos de grande riqueza em conversa com o amigo genial.

Em 1961, com o início do Governo Jânio Quadros, mais do que nunca os jovens intelectuais brasileiros, mesmo aqueles com menos de trinta anos, vinham convocados para importantes missões públicas. Assim acontece com José Roberto Teixeira Leite, o mais jovem diretor de sempre do Museu Nacional de Belas Artes, do Rio Janeiro; bem como com Eduardo Portella, convidado a presidir o Instituto para as Relações do Brasil com a África e a Ásia, órgão recém-criado pela Presidência da República. Eu, na mesma oportunidade, venho designado para organizar e dirigir o Departamento de Documentação do mesmo Instituto.

A passagem de 1961 a 1962 foi de grande dificuldade para a vida brasileira, politicamente chocada com a demissão do Presidente Jânio Quadros, aos 25 de agosto de 1961, oito meses depois de sua posse. As tentativas de golpes políticos contra o Vice-presidente, Jango Goulart, momentaneamente evitadas, criam um clima de tensão constante que conduz o Brasil a uma séria crise política e econômica que assalta o País num largo período, de 1962 a 1964; crise culminada no dia 31 de março de 1964 com a deflagação de um golpe político-militar que suspenderá a vida democrática nacional até 1985, quando finalmente vem eleito legalmente um Presidente civil.

publicado por Carlos Loures às 20:00

editado por Luis Moreira às 13:59
link | favorito

.Páginas

Página inicial
Editorial

.Carta aberta de Júlio Marques Mota aos líderes parlamentares

Carta aberta

.Dia de Lisboa - 24 horas inteiramente dedicadas à cidade de Lisboa

Dia de Lisboa

.Contacte-nos

estrolabio(at)gmail.com

.últ. comentários

Transcrevi este artigo n'A Viagem dos Argonautas, ...
Sou natural duma aldeia muito perto de sta Maria d...
tudo treta...nem cristovao,nem europeu nenhum desc...
Boa tarde Marcos CruzQuantos números foram editado...
Conheci hackers profissionais além da imaginação h...
Conheci hackers profissionais além da imaginação h...
Esses grupos de CYBER GURUS ajudaram minha família...
Esses grupos de CYBER GURUS ajudaram minha família...
Eles são um conjunto sofisticado e irrestrito de h...
Esse grupo de gurus cibernéticos ajudou minha famí...

.Livros


sugestão: revista arqa #84/85

.arquivos

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

.links