Sexta-feira, 7 de Janeiro de 2011

Direcção de Augusta Clara de Matos

 

Boas e Más Memórias

  

Júlio Pomar pintor

 

 

 

 

 

 

  

  

Júlio Artur da Silva Pomar nasceu em Lisboa a 10 de Janeiro de  1926.Frequentou as Escolas de Belas-Artes de Lisboa e do Porto. Fez parte da comissão central do Movimento de Unidade Democrática-MUD e a sua participação nas  lutas estudantis levou-o a ficar proibido de frequentar a ESBAP. Ainda no Porto, foi--lhe encomendado um grande mural para a inauguração do Cinema Batalha, mandado destruir pela PIDE pouco tempo depois da abertura da sala ao público. Instalou-se em Paris em 1963 e actualmente vive entre Lisboa e a capital

  

francesa. O essencial do seu trabalho centra-se na pintura, mas fez também escultura, ilustração, cerâmica, tapeçaria e cenografia para teatro.

 

  

  
  
A memória mais longínqua da minha infância é um quarto andar na Rua das Janelas Verdes, em Lisboa, na casa onde nasci e vivi até os cinco ou seis anos de idade com os meus avós maternos, e o colégio defronte da janela. Foi um período extremamente marcante. O meu avô, que tinha sido piloto, levava-me a passear pelos cais, fazia barcos de cartão. A Rua das Janelas Verdes e o Tejo foram determinantes para o que viriam a ser depois, com consciência ou sem ela, necessidades minhas. Recordo uma pre­sença da luz, tanto da luz do Tejo como da luz do fim da tarde quando ia para a janela, à espera que a minha mãe viesse do escritório. Essa presença visual muito forte deve ter condicionado o gosto que sempre tive pelas imagens, traduzido rapidamente pelo hábito de me pôr de rabo para o ar, no chão, a desenhar sobre tudo quanto era papel. Não fui contrariado nisso. Pelo contrário, foi decidido que o menino, dado o jeito que tinha para o desenho e dado que, das três artes, pintura e escultura não aparentavam ter grande futuro social, deveria ir para arquitecto. Houve ainda um momento trágico quando alguém disse dado que o menino era bom nos estudos, poderia ir para engenheiro, porque sempre dava mais que arquitecto. Felizmente consegui ultrapassar estas dificuldades todas e quando entrei para a Escola de Belas-Artes matriculei-me no curso de Pintura, que não cheguei, de resto, a acabar. Nunca frequentei uma aula de Pintura. E preciso dizer que nessa altura o curso de Pintura de era dividido em duas partes: o curso especial e o curso superior. O curso especial era de quatro anos e só ao 3.° ano é que começava a pintar. Eu nunca passei do 2.° Quando digo que não tive mestres, não é por pesporrência, porque se os tivesse tido teria poupado esforços inúteis. Tive influências temporárias resultado de circunstâncias muitas vezes ocasionais. Em que medida é que, por exemplo, um Mário Cesariny, que foi meu companheiro de adolescência, exerceu mais influência sobre mim que um Mário Dionísio, que viria a conhecer mais tarde, e talvez tivesse frequentado assiduamente durante um período de tempo relativamente semelhante? Em que medida é que, por exemplo, um Fernando Lanhas, que foi meu colega na escola de Belas-Artes do Porto e companheiro de trabalho e de discussões também me influenciou? A influência das pessoas é uma que acontece em períodos de tempo relativamente limitados, e que, por condicionantes diversas da vida, dá lugar a outras zonas de influência.

 

No fundo há muito poucos pintores interessantes. A maior parte deles são uns chatos inaceitáveis. Os museus abundam em coisas que só servem para uns indivíduos que andam pelas universidades fazerem teses que não servem para nada. Esse lado de um suposto conhecimento que é quantitativo, que se exibe pela exuberância, pela quantidade, para mim é simplesmente detestá­vel, enjoativo.

 

 

A minha infância foi muito solitária. Fui para a escola só para Frequentar a 4.a classe. Era entendido que a escola era um meio de más companhias, e o ensino praticado em casa pela minha mãe, pelas minhas irmãs, que eram todas mais velhas, teria toda a vantagem. Quando o meu pai morreu, eu era muito novo. A minha mãe foi obrigada a trabalhar. Tinha aprendido piano e francês, o que não dava propriamente para grandes coisas, mas arranjou um lugar de secretária de um judeu polaco, chegado aí por razões óbvias. A família era pequena. Começámos por viver com os avós maternos, mas depois fomos recolhidos, por assim dizer, por uma irmã da minha mãe, casada, que não tinha filhos. Eu cresci num meio republicanóide, pelo lado do meu tio, que esteve deportado em Timor. Do lado da família paterna eram católicos praticantes convictos. Olhando para aquilo que conheci da sociedade, não havia assim uma grande diferença entre um meio rigidamente católico e um meio republicano. As grandes coordenadas da vida eram as mesmas. Depois havia uns rituais exteriores que mudavam, mas, no fundo, a moral intrínseca era a mesma, os obstáculos eram os mesmos.

 

Uma vez, a convite de um produtor de um filme de Ruy Guerra, fui para a Amazónia. Uma parte do tempo passa-se com tribos índias. Fiquei instalado num acampamento. Foi algo que me marcou muito. Levava blocos para desenhar, e limitei-me a desenhar. Não quis embrenhar-me na pintura, porque é um acto extremamente absorvente e ia impedir-me de estar o mais possí­vel disponível. Dado que aquilo não seria fácil de repetir, consa­grei a essa experiência todo o tempo possível, nomeadamente a ver quanto pude. Foi como se me sentisse descido de pára-quedas num outro mundo. Com uma evidência plástica forte. Mas a minha primeira grande viagem, a que mais profundamente me marcou, foi uma visita ao Prado. Foi o primeiro contacto com aquilo que eu já conhecia desde pequenino através de várias representações. É a chegada a uma realidade que só se conhecia antes através de um vidro. E como um menino quando desce pela primeira vez à rua, depois de estar habituado a ver a rua da sua janela. Hoje, qualquer sujeito que se preze tem de fazer o relato das suas viagens, o que fez e não fez. Não é nesse sentido que a viagem me interessa. Agora terei mais curiosidade em rever lugares, do que ir a lugares aonde nunca fui. Fico sempre com a sensação de que nunca pus a pata completamente num espectá­culo, numa coisa. Tenho a sensação de nunca esgotar as coisas. Dá-me sempre uma grande vontade de voltar a Florença, por exemplo. O que me encanta na viagem é a impressão com que saio de não ter esgotado as possibilidades. No fundo, é o mesmo encanto que se pode tirar de uma relação com uma pessoa. Identificamo-nos com a cidade, com o local, como se fizéssemos parte dela. Como se houvesse uma relação.

 

Chegado aos setenta e oito anos de vida, considero que tudo o que recebemos, directa ou indirectamente, se não se é, por definição, um bom crente, todo e qualquer contacto com o que é diferente o surpreende. Questionamo-nos a nós próprios e às circunstâncias em que vivemos. Isso tem sido uma daquelas coi­sas que se tem avivado e que me tem dado mais gosto, e que passa por uma necessidade constante de pôr em discussão o mundo em que se vive, sem considerar as coisas irrefutáveis e definidas de uma vez para sempre, mas puras circunstâncias passíveis de condicionantes da mais variada espécie.

 

Deus, por exemplo, é uma comodidade operacional. À  medida que eu invento, ou que alguém inventou algo exterior à sua imagem e semelhança, e ao mesmo tempo exterior, a que chamou Deus, resolveu imensos problemas. Quer dizer, não resol­veu coisa nenhuma. Fez uma transferência de autoridade para ordenar as relações com o próximo, para criar estruturas de poder, como se sabe. Tenho a paixão ou o vício da relação, de escrever, de ver como é que são as relações entre as coisas, como é que dois objectos postos, um face ao outro, se comportam. Isto um problema do pintor. A natureza-morta é isto. A natureza-morta é um modelo do mundo.

 

A realidade é uma incógnita que a gente quer que deixe de o ser. O dado é aquilo que dessa realidade parece perceptível. Estes elementos são postos completamente de lado no discurso político. na polémica política do dia-a-dia. Ao ver as televisões ou ouvir a rádio e ler os jornais, parece-me, por vezes, que estou a assistir a um catálogo de obscenidades. Para mim, a obscenidade não tem nada que ver com o revelar das chamadas partes vergo­nhosas, não é qualquer coisa de profundamente humilhante. Às vezes vejo involuntariamente na televisão certas coisas que provocam riso a toda a gente e a mim não me dão vontade de rir. Pelo contrário, fazem-me uma tristeza infinita. O riso é lúdico e é uma actividade humana que nos distingue dos outros seres. Como tudo o que nos distingue, pode ser utilizado ou negado. Muitas vezes o riso é utilizado de uma maneira imbecil. Não vejo televisão. Só por acaso. Não tenho tempo. Não tenho essa neces­sidade. Quando não estou a trabalhar, gosto de ler, gosto de ver imagens, ou estar sossegadinho a pensar nas coisas. A televisão, para mim, é uma maneira pobre de preencher o tempo. Há pessoas que nos recebem com a máquina ligada e o som tirado. Parece-me uma violação da natureza. Grande parte da minha relação da pintura é dada através da imagem, da reprodução. A imagem do objecto que eu quero consumir é fornecida através de uma escala, a da televisão na sua dimensão normal, que não é a sua escala real. Mas eu sou um comedor de imagens.

 

A comunicação social — outra expressão completamente obs­cena — está a transformar-se numa droga doce. Veicula uma informação que parece que não tem mal nenhum. Liga-se o rádio e o que se passa? As vésperas e «desvésperas» dos desafios de futebol, com aquelas discussões do antes e do depois. A análise desses comentários do antes e do depois daria uma magnífica tese de doutoramento ou de licenciatura, mas as pessoas não reparam nestes elementos que são mais que evidentes. Cada vez é mais visível a dificuldade que um ser vivo tem de ver, de pensar, já não quero utilizar a palavra julgar, que é muito complicada. Tudo lhe é fornecido — sempre foi — mas este entupir dos canos, do ponto de vista tecnológico, hoje é perfeito.

 

Usamos palavras cujo significado é pura e simplesmente inad­missível. Isso não acontece por acaso. Acontece porque estamos de tal maneira embrenhados em rituais, que não reparamos, não tomamos atenção, não pensamos sobre aquilo que fazemos, nem sobre qual o nosso lugar dentro da máquina que se move. Isto de atribuir qualidades, características eternas a um povo, a um país. tem muito que se lhe diga. E o que acontece no hino nacional que devia ser mudado. Cantar o que lá se canta... Ninguém repara no que está a dizer. Mais terrorista que o nosso hino não há. Imagino perfeitamente o nosso hino cantado pelo Bin Laden.

 

A verdade é uma abstracção pura e simples. Imaginem a  verdade de um rosto. Se puséssemos vários óptimos pintores a captar uma imagem, a captar a verdade de uma determinada pessoa, esses resultados seriam forçosamente diferentes. A ver­dade é um material neutro. Depende do que se faz com a verdade. A verdade é uma cor e está ao alcance de toda a gente. Agora, estabelecer uma relação com essa verdade é que me parece que é a grande dificuldade. A verdade não é senão uma síntese dos dados que podemos partilhar numa dada situação.

 

É uma comodidade pensar que as censuras são só exteriores. A mais perigosa das censuras é aquela de que não damos conta e que é feita por nós próprios, pela nossa formação, pela educação que recebemos ou forjamos. A censura é a incapacidade de ver. É  uma rejeição, por razões da mais variada espécie.

 

O acto censório que manda destruir o meu mural no Cinema Batalha, no Porto, é deliberado e, do ponto de vista de quem exerceu essa autoridade, acho-o perfeitamente coerente. Se esse acto de mandar destruir uma obra era coerente com o que pen­savam os poderes públicos, não quer dizer que aceitemos esses poderes. No fundo, embora não houvesse um conteúdo revolulário evidente — não havia foices e martelos — os homens e mulheres que lá andaram e que eu pintei na parede tinham a ver com as imagens estereotipadas que eram fornecidas como imagem do chamado povo. Eram outra coisa, mas nessa altura as autoridades perceberam perfeitamente que as personagens que eu pus não eram ranchos folclóricos. Era uma outra verdade, inconveniente.

 

Quando o Dr. Salazar mandou os nossos soldadinhos matar os pretos que tinham levantado a cabeça, isso era perfeitamente coerente com o que se passava na cabeça dele. Simplesmente o que se passava na cabeça dele, uma boa parte da população não o podia suportar. Cada fascismo teve as suas características, e o nosso também teve as suas particularidades, com uma polícia política, cujo trabalho já estava muito facilitado pela própria consciência ideológica da sociedade portuguesa. Acho que isto não deve ser esquecido. Essas memórias não se apagam.

 

O mundo não é como o tinha imaginado. A minha posição em relação ao mundo e ao conhecimento do mundo é semelhante àquela que é expressa pelo meu comportamento perante aquilo que faço. As pessoas vão ao atelier e o comentário geral é repetido cada vez. Há sempre um espanto que se pode traduzir nesta frase do António Lobo Antunes quando começou a fre­quentar o atelier: «Mas mudaste tudo.» O que eu acho a coisa mais natural do mundo. Levei tempo a perceber o espanto e as razões. Isto quer dizer que as pessoas fazem, ou da sua vida, ou de um determinado tipo de trabalho, uma ideia que visa a obtenção de um determinado fim. Toda a vida tem esta função utilitária.

 

A vida é uma espécie da loja das tintas ou dicionário em movi­mento. É um repositório onde a gente se delicia a ver. O impor­tante da vida é viver. Resta saber o que se entende por viver.

 

(in Valdemar Cruz, O Que a Vida Me Ensinou, Temas e Debates)

 

 

publicado por Carlos Loures às 14:00
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2 comentários:
De adão ctuz a 7 de Janeiro de 2011
Muito bom Augusta. Já tinha lido pequenas partes. Um texto que é um pensamento profundo, com o qual muito me identifico e que devia ser lido por muita gente "normal".
De augusta clara a 7 de Janeiro de 2011
Exactamente! Faz tanta falta ser lido por muita gente. Eu tenho entrevistas dele gravadas em VHS que espero que se conservem.

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