Domingo, 15 de Agosto de 2010

Novas Viagens na Minha Terra

Manuela Degerine



Capítulo LXXIX

Vigésima etapa: de S. Roque a Valença (conclusão)

Os dez últimos quilómetros são sofridos. Já caminhámos vinte e cinco, uma distância superlativa, indo assim carregados. Por razões de alojamento, devíamos ter parado em S. Roque, onde havia albergue; ou agora prosseguir até Valença, onde haverá alojamento. No caso de este se encontrar cheio, por chegarmos tarde e haver muitos peregrinos, prosseguiremos até Tui. Mais dois quilómetros.


Que não serão dois quilómetros mas dois elevado à potência x (o cansaço que trazemos). A partir de Pedreira doem-me as costas, doem-me os pés, começa a doer-me tudo, como no trajecto para o Porto, como ontem até Ponte de Lima, as mais rudes etapas dos últimos dez dias. Começa a chover... Chego a cobrir a mochila e a bolsa com os sacos de plástico mas, quinhentos metros mais adiante, a chuva já parou. Tem havido, durante a tarde, várias chuvadas, entremeadas com sol. Gérard Rousse também vai cansado pois, a partir de Arão, liquida vários quilómetros em poucas frases. Nós, impacientes por chegarmos, cremos estar nos arredores de Valença, ainda nem chegámos a Arão, passamos uma empresa de transporte, avançamos por um caminho ladeado por moitas de giesta em flor: um desperdício de amarelo perante tamanho esgotamento.   Viramos enfim para Arão, só faltam dois quilómetros – porém, à medida que avançamos, o caminho prolonga-se, Gérard manifesta, uma vez mais, uma singular noção das distâncias, irritamo-nos com o meu guia, pouco rigoroso nas distâncias, a base de um roteiro de caminhada são as distâncias, sem rigor mais vale nada publicar, caminhamos, caminhamos, chegamos à capela do Senhor do Bonfim, caminhamos, caminhamos, outra capela, um tanque, uma cruz de pedra, continuamos a caminhar, segunda cruz de pedra, caminhamos um bocadão, terceira cruz de pedra, caminhamos mais ainda, quarta cruz de pedra... Talvez seja o cansaço que nos dá – a nós – uma singular percepção das distâncias.  Entramos enfim em Valença. O roteiro orienta-nos para Tui, onde estabeleceu o fim da etapa. Nós queremos dormir em Valença. Caminhámos trinta e cinco quilómetros: por hoje, basta. Sabemos que o albergue fica ao lado dos bombeiros; ignoramos onde. Encontramo-nos perante numa zona imensa, mais ou menos relvada, abandonamos as setas e o roteiro, atravessamos a direito pela relva, na direcção dos primeiros prédios. Não sei que cara terei mas reparo no meu parceiro – e acho-o extenuado. Nunca o vi com tão visível fadiga. Ocorre-me que importa comprarmos agora comida pois, exaustos como nos sentimos, não voltaremos a sair do albergue por isso, logo que pudermos abordar alguém, impõe-se inquirirmos onde há lojas, qualquer loja com qualquer género alimentício e, claro, da mesma feita, em que direcção se situam os bombeiros, porém a relva nunca mais acaba, somos duas formigas num estádio olímpico, conseguimos, após muito tempo, parece-nos, alcançar os prédios, passam inúmeros carros, abordamos enfim um ser humano com pernas para andar, o qual nos informa que, se quisermos, há aqui perto onde comprar pão, no centro comercial. Boa nova... Juntamos, com imensa dificuldade, um resto de forças, algures ainda escondidas, arrastamo-nos até ao indicado lugar, subimos uma escada, com atlético esforço, tento parecer normal, tudo exige vontade, até a simples comunicação. Queríamos um pão compacto, de centeio ou algo assim. Pode ser. Um para cada um. Quanto é? Compramos dois pães com nozes. Não parecem excelentes – paciência. A loja da fruta e o supermercado ficam mais longe; comeremos só pão. Se for possível, faremos um chá e acrescentaremos uma das minhas barras com proteínas e vitaminas. (As quais final, como eu previa, são muito úteis.) E amanhã, após uma noite de descanso, buscaremos um bom pequeno-almoço.  Seguimos para os bombeiros. Damos uma volta enorme, subimos, descemos, concluímos que, afinal, antes de darmos esta volta, acabávamos de passar ao lado do albergue, ignorando que era esta casa: como se não tivéssemos caminhado o suficiente. E, de súbito: estranho. Vemos tudo fechado. Não há ninguém a sair e entrar. Lembramo-nos do albergue em Ponte de Lima... Parecia uma colmeia. Portanto este encontra-se fechado! Fitamo-nos, em silêncio. Caminhar ainda até Tui?... O roteiro indica dois quilómetros – parecem-nos duzentos. E se o albergue de Tui estiver cheio? Ouvimos contar tais desventuras no Camino Francés... Não articulamos uma palavra mas ambos reviramos o problema. Procurar uma pensão? Também exige caminhada, haverá ou não quartos livres, ficaremos separados dos outros peregrinos... Uma vantagem não negligenciável dos albergues é a de nos juntarmos, trocarmos impressões e informações. E, num albergue de peregrinos, fazemos parte do mesmo mundo, chegamos globalmente com o mesmo objectivo, temos os mesmos hábitos e as mesmas necessidades, respeitamos as mesmas regras e os mesmos ritmos – resulta um apreciável conforto mesmo quando, materialmente, as condições parecem rudimentares. Aproximamo-nos da porta em busca da catastrófica confirmação. Lemos um papel com um número de telefone. Mau sinal... Telefono, contudo. E quase me surpreendo por atenderem. O alberguista pede para esperarmos vinte minutos. Vem já...   Respiramos fundo. Sentamo-nos no muro – agora muito aliviados. Até o cansaço se atenuou. E, passados dois minutos, vemos abrir a porta: há afinal dois peregrinos dentro do albergue. São italianos. De Veneza. Querem ir jantar, não têm a chave, hesitavam, não se atreviam a deixar a porta aberta – congratulam-se por nos verem.  Eles saem, nós entramos. Sérgio desaba em cima de um sofá. Eu largo a mochila mas regresso ao muro exterior para, quando chegar, o responsável do albergue me ver.
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publicado por Carlos Loures às 10:00
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