Segunda-feira, 2 de Agosto de 2010

Memorial do Paraíso, de Sílvio Castro - 2

12 de março

Olhando o horizonte sem fim me vem dentro do peito uma tristeza que não é pela navegação, disso tenho certeza. Mas não tenho certeza de onde venha minha tristeza. Grande é esse silêncio das águas, ainda que possa perceber quanto alvoroço vai por cada uma dessas naves. O ar fresco e sereno deixa que passeiem tantas vozes indistintas. Os sons inapercebidos se confundem com a intensa luz do mar, fazendo-se azul verde amarelo.

13 de março

Ah! aqui estão de novo as gaivotas! Pero Escolar me diz que estamos perto de terra e eu já vejo, não a que virá, mas a que ficou para trás.

14 de março, sábado

Finalmente terra! Ainda não serão as nove horas desse sábado tranqüilo e nos vemos entre as Canárias. Já os nossos velhos por aqui passaram e pousaram em tamanhos anos de conhecimentos. Esta Grã Canária que nos está diante dos olhos serenados muitas vezes acolheu os nossos em indas e vindas. Hoje nos acolhe, distante e estrangeira, na calmaria doce de seu mar. Grã Canária, Palma, Ferro, Gomera, Tenerife, Forteventura, Lançarote e tantas outras, quantas vezes falastes português? Sente-se um ar familiar, estando aqui. Sente-se que a costa não está longe.


15 de março

Quanto mais a viagem se adianta nos dias, mais dif¡cil se faz para mim compreender o seu sentido profundo. Sei, claro, minha Maria, qual é a missão de Portugal; sei que El-Rei nosso Senhor, em nome da nossa Santa Fé, empenha-se com sabedoria para resgatar das sombras tantos homens e povos. É para isso que navegamos. Porém, quanto mais sinto o burburinho dessa grande gente fremente nas nossas treze naus, mais o meu esp¡rito se turba. Muitas são as vozes aqui, minha Maria, que esperam somente de chegar nessas longes terras para trocar, comerciar, enriquecer, encher as próprias arcas de riquezas. Não terão eles esquecido a verdadeira vontade de nosso Senhor, El-Rei? E esses fogosos soldados que sonham grandes encontros e lutas para a conquista de uma glória qua nada tem a que ver com os caminhos da nossa religião? Até mesmo alguns de nossos capitães deixam transparecer nos gestos o insaciável desejo de conquistas que trazem nos corações. Muitas vezes, minha doce Maria, me retiro na parte mais isolada da nossa nave para não escutar essas vozes. Porque sei que tudo isso, de todos esses desejos, pouca coisa poderá ser preservada.

16 de março

Isolado na proa de meu barco recordo a nossa casa, querida filha, e posso retomar aquele mesmo ar que sempre respirei no chão natal. É tanto mar o que me circunda, mas agora, neste instante, eu me liberto de toda idéia confusa e vejo claramente a nossa pátria familiar. O Porto me está sempre no coração e quanto mais navego mais me sinto ligado às suas ruas, estradas, praças, casas, ao Douro, à nossa gente. O som de suas falas ressoa nos meus ouvidos, vozes de amigos e companheiros. Sinto-me feliz neste recordar. Assim como sempre me senti livre no ar de liberdade de minha cidade, agora me sinto livre neste fresco ar de salsugem. Deixo que o vento salso acaricie meu rosto, os olhos entreabertos, e penso infinitamente em tudo quanto me enche a imaginação.

Estou quieto e inquieto, mas não infeliz.

17 de março, terça-feira

A navegação é sempre tranquila, minha Maria, até mesmo tranquila demais. O mar parece aquela estrada sem pedras, nem obstáculos. Caminha-se sempre; lá adiante, o horizonte que se fecha, mas não completamente jamais: um entreabrir-se constante de luz e calor. Olhando essas águas tranquilas, essas ondas, parece poss¡vel caminhar sobre elas, sem cansaços, longamente, superando prados e bosques, apenas distintos dos prados e dos bosques por esse baloiçar doce como um cantar materno e por esse sal que te traz à boca a sensação de uma mesa interminável, de onde não se levanta nunca. Em meio a esses prados e bosques salados é um jogo comer os frutos que sabem de todos os gostos, até mesmo daqueles mais distantes, vindos de uma infância que eu já julgara definitivamente perdida.

18 de março

Esta noite o ar estava muito quente. Certamente vinha da costa que não está distante um vento sutil de caldura que me expulsava da minha cabine para o ar livre da nau-capitânea. O lenho deslisa indolente nas águas, como se sentisse como nós o calor impregnante da noite. São muitas as estrelas neste céu. Com Pero Escolar, delas já muito falamos, reconhecendo cada uma, indagando as muita belezas irradiadas em desenhos luminosos conforme o ondejar das águas, o correr das correntes e o passar das nuvens movidas pelo vento. Indagamos também de seus possíveis benefícios e malefícios. Pero Escolar ama muito as estrelas desses céus e as conhece como as linhas de sua mão. E nelas lê, como tu agora estás lendo, minha querida, o cismar sem método de teu velho pai. Admirando as estrelas, sem desejo algum de desvendá-las, vendo esta noite densa e quente - as naves que projetam aqui e ali sombras vivas - me sinto como se estivesse na capelinha de Santa Maria de Belém e estou sempre partindo. Para uma longa viagem em busca de margens que não conheço e não consigo distinguir.

19 de março, quinta-feira

Viajar, minha doce Maria, é saber quanto desejas o que está adiante e quanto amas o que desejas esquecer pelo novo. Aqui, comigo, mas escondido na lembrança perdida, está este lugar que não mais quero e sempre amo. Sabê-lo, mas ilusoriamente esquecendo-o, é como flutuar num sonho onde tudo se sabe e tudo se esquece. Lá, nas margens distantes e desconhecidas, está o lugar do sonho, para onde quero ir. Para lá vou, inquieto e feliz, com o só repouso das lembranças que procuro esquecer na caminhada para a nova margem desejada. Minha doce Maria, és a minha única lembrança clara neste navegar de sonhos.

20 de março

Aonde estão as gaivotas que desde muito não vejo? Onde estão os calores da terra que elas trazem misteriosamente na pureza do vôo? Este mar é triste e solitário sem os vôos brancos das gaivotas, seus gritos, seus jogos de arabescos na trilha das naves. Olho as velas da nau-capitânea, pançudas de tanto vento benéfico, e elas me parecem gigantescas gaivotas com novas de uma terra já vizinha.

21 de março

Aqui estão de novo as gaivotas! Sabes, querida Maria, vê-las de novo que chegam, primeiro um pequeno grupo, depois mais e mais, vozeantes, alegres, me faz aquele bem que se sente quando se caminha pelas estradas conhecidas à luz de um céu brilhante de estrelas. Parece absurdo, mas diante do desconhecido pequenos conhecimentos, como o vôo dos pássaros, se transformam em certeza de vida e conforto para o coração. Navegamos sempre. As águas são tranqüilas, as naus formam desenhos geométricos na formação que nem vento nem correntes mar¡timas alteram. Brevemente veremos terra, é o que nos dizem as gaivotas.

22 de março, domingo


Terra, terra! Nesta manhã de sol de domingo, mais ou menos pelas dez horas, avistamos as ilhas do Cabo Verde. Estamos diante do grupo de ilhas a ocidente de Barlavento, em verdade diante da ilha de São Nicolau. Festeja-se em todas as naves, se ouve. Pero Escolar me esclarece tudo sobre o arquipélago, mostrando-me as outras ilhas que com São Nicolau compõem a parte ocidental do mesmo: Santo Antão, São Vicente, Santa Luzia, Branco e Raso. A oriente de Barlavento, me informa, estão as ilhas de Sal e Boa Vista; de Sotavento, o terceiro grupo formado por Maio, Santiago, Fogo, Brava e pelos ilhéus Secos.

Nota-se improvisamente um movimento insólito entre as naves. A armada de Álvares Cabral faz movimentos particulares, movimentos de comunicação entre as diversas unidades, como se este atual fosse o ponto central do longo caminhar. Lentamente todas as naus convergem para o ponto onde se encontra a nau-capitânea, uma a uma tomando posição de abordagem. Logo chega a nave de Sancho de Tovar, e o vice-comandante passa a bordo da capitânea. Logo depois o mesmo acontece com Gonçalo Coelho e sucessivamente com Bartolomeu Dias, Simão Miranda, Aires Correa, Diogo Dias, Aires Gomes, Gaspar de Lemos, Nuno Leitão da Cunha, Pero de Ataíde, Luís Pires, Simão de Pina. O último a subir a bordo ‚ Vasco de Ataíde.


Os doze capitães se reúnem com Pedro Álvares Cabral. O Comandante está sentado numa cadeira de braços, à cabeceira da grande mesa retangular que hospeda, seis de cada lado, os capitães. Todos vestidos como para os grandes momentos. Aires Gomes traz atacada à capa uma pedra bazar, cingida por anéis de filigranas de ouro que se entrecruzam. Diante de cada capitão está uma caneca com tampa. O Comandante fala longamente com os seus capitães; estes, ao seu tempo, lhe respondem ou trocam idéias com o companheiro ao lado ou defronte. A assembléia tem a calma que constantemente se vê nos gestos e falas do Comandante. Pressente-se que a partir de hoje a navegação toma um novo rumo, desconhecido mas desejado. É o que se lê de longe nos gestos e movimentos dos treze capitães de Portugal. Para longe se vai. Para onde levam as certezas das vontades que não conhecem limites nem temor.
publicado por Carlos Loures às 16:30
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1 comentário:
De Luis Moreira a 8 de Junho de 2010
Maravilhoso, como se entrecruzam a realidade e o romance. Cá ando a descobrir o Brasil.

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