Sexta-feira, 4 de Junho de 2010

Sam Spade e as forças do mal - IV

Carlos Loures

Finalmente, Sam Spade



No princípio do Outono, já em aulas, estávamos eu e o Abílio a jogar uma partida de xadrez na esplanada do Café Selecto, quando apareceu o Manuel com um livro pequeno, da colecção Vampiro – O Falcão de Malta, do Dashiell Hammett. Semanas antes tínhamos visto a Relíquia Macabra, com o Humphrey Bogart e a Mary Astor, que era o título português do filme feito a partir de O Falcão. Uma maravilha.

As coisas começaram a correr melhor. «É a maturidade», sintetizou, como era seu hábito, o Manuel. O regresso ao mundo do crime fez-se com uma pequena experiência sugerida pela minha pessoa. Voltando ao delicado tema dos bilhetes de cinema, descobri casualmente que, algumas vezes, os porteiros, na pressa de fazer entrar os espectadores, em vez de cortar os bilhetes, os deixavam cair inteiros. Os bilhetes não eram necessários por não haver lugares marcados, a não ser nas mesas que ficavam à frente. A pretexto de procurarmos caricas (estava em moda coleccioná-las para depois, na praia ou na relva da piscina municipal, disputar um jogo idiota que nunca nos preocupámos em aprender), íamos discretamente recolhendo os bilhetes inteiros. Ao outro dia, no «clube dos jacobinos», que continuava a ser o quartel-general das nossas malfeitorias, examinávamos o material. Cada sessão tinha um número próprio. Assim, a maioria dos bilhetes só iria servir na sessão com igual número na época seguinte. Mas acontecia que alguns dos bilhetes escapavam parcial ou totalmente à acção do carimbo e eram esses que, com o auxílio de um jogo de letras e números de borracha, nós transformávamos em entradas com aspecto perfeita e inocentemente legal. Os caracteres de borracha pertenciam ao património do posto da Guarda Republicana e o Abílio pedia-os emprestados ao pai a pretexto de numerar o jornal da turma. Mais uma vez, experimentávamos o voluptuoso frisson de colocar as mais sagradas instituições do inimigo ao serviço do crime e da subversão.

Porém, como a quantidade de bilhetes inteiros e não numerados não era suficiente para satisfazer a nossa crescente devoção pela sétima arte, o Abílio concebeu um outro negócio, este, no entanto, de uma honestidade tão prosaica e impecável que até nos envergonhávamos de o praticar. Estava na moda o hábito alvar de, durante a projecção dos filmes, dizer piadas, de preferência grosseiras, em voz tão alta quanto possível, de modo que toda a assistência as pudesse ouvir – «ó Isabel olha o relógio», «ó Micas, então não mijas?», – para já não falar da ordinaríssima pergunta « – À mão?», comentando o «broche feito à mão» referido pela voz off de um documentário sobre ourivesaria portuguesa. Ele tinha observado que eu, influenciado por essa voga que nos chegava das cidades grandes, mas demasiado tímido para dizer as graçolas em voz alta, as dizia baixo, de maneira que só ele e o Manuel as entendessem. E parece que algumas tinham mesmo laracha, pois eles riam-se com gosto. Então, resolvendo rendibilizar esse meu dom, o Abílio fez um acordo com o Germano, um gajo do sétimo, que pertencia ao grupo de forcados do liceu e era mais estúpido do que um carro de bois: uma vez por semana o Germano pagava os bilhetes de nós os três e eu ia-lhe segredando as piadas que ele depois berrava a plenos pulmões. Asseguram-me que, ainda hoje, o Germano, regente agrícola, conserva uma certa aura de espirituoso que lhe vem dessa época.

Como complemento do nosso orçamento, descobrimos também, por mera casualidade, uma fonte de receita no parque de merendas. Estávamos um domingo sentados a apanhar o fresco. O Manuel estreara um lindo blazer de linho branco. E foi precisamente o casaco branco que induziu em erro um grupo de excursionistas chegados de autocarro de uma vila do Norte. Julgando-o empregado do bar, um grupo de parlamentários dirigiu-se a nós perguntando se podiam sentar-se nas mesas de pedra e comer ali os seus farnéis, pagando o consumo das bebidas, claro. Íamos já a dizer que sim, que as mesas eram públicas, quando o Manuel se saiu de improviso com esta, apontando com o queixo para o quiosque das bebidas que ficava nos baixos do coreto:


– Não sei. Por nós não há problema, mas temos primeiro de pedir licença ao senhor Mendes.

E lá foi falar com o Mendes, perguntando-lhe as horas ou qualquer coisa assim.

Voltou pouco depois:

– O senhor Mendes não queria, estava muito renitente, mas eu lá o consegui convencer.

Os excursionistas, muito agradecidos, depois de comerem os seus almoços, vieram gratificar-nos, pois além da «cunha» que o Manuel metera ao senhor Mendes, nós andámos solicitamente a transportar garrafas de cerveja, de gasosa e laranjada do bar para as mesas de pedra, como autênticos e competentes empregados (diligência que deixou, desde logo, muito desconfiado, o Mendes que, como toda a cidade, nos conhecia a crónica).

Explorámos este esquema mais algumas vezes, mas o Mendes deve ter agravado a sua desconfiança, pois num domingo em que nos preparávamos para aplicar o golpe a uns turistas espanhóis, vimos um cabo da Guarda Republicana encostado ao balcão do bar do Mendes, olhando-nos de soslaio. Verdadeiros profissionais do desastre, percebemos logo que estávamos a caminho de mais um, e este grave, por estarmos a utilizar em proveito próprio as infra-estruturas que a Câmara punha gratuitamente ao serviço dos munícipes e visitantes. Abandonámos, pois, sem desgosto este desinteressante e algo trabalhoso ramo de negócio.

Foi quando centrámos as nossas actividades ilegais na Papelaria Bijou, onde se vendiam os livros. Íamos lá comprar os manuais escolares, os cadernos, os lápis e restante material. Enquanto dois de nós ocupávamos a empregada, pedindo informações perguntando preços ou comprando qualquer insignificância, o terceiro, que vinha equipado com um braçado de livros e papéis, pousava-os sobre a bancada onde estavam os livros policiais, que eram o nosso alvo. Quando saíamos, ele voltava a pegar no que trouxera, trazendo sempre por baixo um livro e às vezes dois. «É como se faz agora em Paris, nas livrarias de Saint-Germain-des-Prés», assegurou-nos o Manuel, que introduzira o método. Além desta forma emocionante de ler, continuávamos a jogar xadrez. O que agora nos fascinava ainda mais neste jogo era o termos sabido, pela leitura de um artigo numa revista, que o nosso ídolo Humphrey Bogart era também um xadrezista de elevada qualidade. Durante a Grande Depressão, desempregado, ficava diante de um tabuleiro de xadrez, numa galeria comercial, à disposição de quem lhe quisesse pagar 50 cêntimos por uma partida. Por isso, jogar xadrez deixara de ser para nós uma forma de matar o tempo, passara a ser um verdadeiro acto de culto. O Abílio até se esforçava por não tentar mudar a seu favor a posição das peças quando o parceiro se distraía. A batota, que antes tanto o entusiasmava, constituía agora um sacrilégio. Claro, e abro aqui outro alçapão na narrativa, para dizer que muito mais tarde vim a sofrer a desilusão de saber que Bogart, supostamente um actor progressista, se portara muito mal durante o negro período do maccartysmo, mais conhecido pela «caça às bruxas» ou, na versão oficial, de «luta contra as actividades anti americanas». Quando fiz essa triste descoberta já os meus amigos não estavam na cidade. Imagino que terão chegado pelos seus meios ao conhecimento do mau comportamento do nosso ídolo e que terão sofrido desilusão equivalente à minha. Na realidade, após os exames do quinto ano, o punho cruel e inflexível do destino abateu-se sobre a nossa sociedade secreta – o gangue foi desmantelado: a tia do Manuel conseguiu finalmente, com o auxílio do padre Artur, convencer os pais do rapaz a forçar a sua entrada imediata no seminário; o pai do Abílio foi transferido para a capital do distrito e, naturalmente, levou a família consigo. O sexto ano, sem os meus dois companheiros do crime, foi um verdadeiro pesadelo. A cidade que até então chegara, nos melhores momentos, a assumir contornos nova-iorquinos, sem eles parecia-me um deserto, uma parvalheira, um estúpido lugar vazio onde já nada fazia sentido.

Acabado o liceu, também eu saí da terra, pois o meu pai lá conseguiu ser promovido e regressar a um lugar melhor numa repartição em Lisboa. O rasto dos meus amigos foi-se perdendo sob espessas camadas sedimentares do tempo e da distância. As informações, dispersas e casuais, que sobre eles fui obtendo apenas me permitem conhecer dados muito superficiais sobre os seus percursos.

O Manuel é padre.
Transformou-se num emérito perito em arte sacra e, segundo me disseram, é a ele que o bispo encarrega de avaliar e inventariar o património artístico da diocese. E tal como o jornal escolar nos permitiu fugir à estúpida disciplina militaróide, será que esta especialização foi a maneira engenhosa, habilidosa, que encontrou para não ter de suportar as agruras, a chateza rotineira da vida sacerdotal? Não sei se ainda pensa que Deus nunca aparece quando é preciso ou se contornou essa pertinente objecção à omnipresença da divindade com as consabidas tautologias e chatos sofismas teológicos.

O Abílio formou-se em Direito e é actualmente inspector da Judiciária. Com algum orgulho, li há anos num jornal diário o seu nome ligado à descoberta e desmantelamento de uma importante rede de tráfico de droga. Mais recentemente, apareceu na televisão a anunciar a prisão de uma quadrilha de pedófilos. Oxalá não se tenha esquecido de que a justiça e a lei nem sempre são compatíveis.

No que me diz respeito, por ser totalmente irrelevante, poupo-vos à descrição daquilo em que a vida me transformou – direi só que, ainda que respeitável, é prosaica e descolorida a minha rotineira existência.

Na vida real, o happy ending nunca existe. Basta que não esqueçamos que a vida, decorra como decorrer, é sempre uma estrada, mais ou menos longa, mais ou menos acidentada e dolorosa, para a morte. E não me venham cá dizer que há mortes felizes. Por isso, o ficcionista que quiser dar um remate afortunado à sua narrativa só pode fazer uma coisa: seccionar o percurso das suas personagens, suspendê-las no tempo, escolher um momento em que tudo esteja a correr bem e, zás, dar a tesourada e terminar a história antes que seja demasiado tarde.

É talvez por isso que, quando às vezes recordo o grupo, é sempre naquele quente crepúsculo de Verão. Se algum dia me desse ao trabalho de escrever uma história sobre o nosso gangue, terminá-la-ia nessa tarde mágica e desta forma – as sombras caem sobre o pinhal numa sinfonia de tons vermelhos. Nós, indiferentes às garras impiedosas do futuro, continuamos a fumar placidamente em silêncio.

Sam Spade, cínico, duro e implacável, sempre do lado contrário àquele em que a lei estiver, para poder estar ao lado da justiça, fita-nos irónico, com a sobrancelha erguida de Bogart, adivinhando talvez os nossos destinos. Porém, somos ainda heróis. É, pois, o momento mais conveniente para acabar a história. Em silêncio, fumamos os cigarros Kentucky e contamos mentalmente as nossas cicatrizes.

Como velhos guerreiros.
publicado por Carlos Loures às 23:55
link | favorito

.Páginas

Página inicial
Editorial

.Carta aberta de Júlio Marques Mota aos líderes parlamentares

Carta aberta

.Dia de Lisboa - 24 horas inteiramente dedicadas à cidade de Lisboa

Dia de Lisboa

.Contacte-nos

estrolabio(at)gmail.com

.últ. comentários

Transcrevi este artigo n'A Viagem dos Argonautas, ...
Sou natural duma aldeia muito perto de sta Maria d...
tudo treta...nem cristovao,nem europeu nenhum desc...
Boa tarde Marcos CruzQuantos números foram editado...
Conheci hackers profissionais além da imaginação h...
Conheci hackers profissionais além da imaginação h...
Esses grupos de CYBER GURUS ajudaram minha família...
Esses grupos de CYBER GURUS ajudaram minha família...
Eles são um conjunto sofisticado e irrestrito de h...
Esse grupo de gurus cibernéticos ajudou minha famí...

.Livros


sugestão: revista arqa #84/85

.arquivos

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

.links