Sexta-feira, 13 de Agosto de 2010

Teimosos os catalães: não é que insistem em falar catalão?



Carlos Loures

Uma história que o nosso amigo Fernando Correia da Silva me contou há anos, passeávamos nós pelo extenso areal da Praia de Porto Santo, ilustra bem o que a seguir irei dizer. Numa viagem que fez com seu pai a Madrid (anos 40, 50?) e pedindo uma informação  a uma vendedeira  a mulher, protestando por lhe estarem a falar em português, exclamou:  "Hombre, hableme usted en cristiano!". Em castelhano, queria ela dizer. E percebendo finalmente que lhe perguntavam o nome da praça onde se encontravam, respondeu: "Pues están ustedes en la Puerta del Sol. En el centro del mundo!".




Embora a postura dos espanholistas perante  o facto das nacionalidades existentes dentro do espaço geográfico comum atinja por vezes níveis que causam espanto, é preciso compreender a mentalidade centralista, a mentalidade nacionalista espanhola, para se perceber quão difícil vai ser a galegos, bascos e catalães obter uma autonomia plena no seio do estado espanhol.

A tese espanholista é blindada, é um projecto acabado fechado e fundamenta-se no princípio de que a nacionalidade não é discutível – sim, admitem os defensores dessa tese, há diferentes regiões em Espanha, com expressões dialectais diferentes, com tradições próprias – mas isso não é o que acontece em qualquer país? Não percebem que o que está amalgamado naquilo a que chamam Espanha, são nações e não regiões. Nações com história, cultura e idioma próprios. Que nesse amálgama, Castela é apenas uma dessas nações e que não tem qualquer direito (a não ser o que força sustenta) de aculturar as demais nações, e, falando claro de as extinguir.


Um oriundo de uma das regiões castelhanas não entende (não entende mesmo), se vai estudar ou trabalhar para Barcelona, por que motivo lhe exigem que fale a língua catalã. Se for para Oxford, aceita que tem de falar inglês ou se se matricular na Sorbonne que o francês é obrigatório. Agora, ter de falar galego em Santiago ou catalão em Barcelona, em "território espanhol" isso não lhe cabe na cabeça. Que um catalão, um basco e um galego tenham de falar castelhano para frequentar a Complutense é uma coisa óbvia. Pois que língua deviam eles falar? Que entre eles usem os seus dialectos, ainda se tolera, agora que os "polacos" lhes exijam que em Barcelona se fale "polaco", era o que mais faltava.

Nesta hierarquização entre as línguas e culturas das nações que existem fronteira adentro, radica todo o problema – É por isso que a Espanha sonhada pelos reis católicos e que só existe de jure desde as cortes de Cádis (1812), a Espanha que o franquismo quis consolidar varrendo com a violência de quem despreza a inteligência e lhe sobrepõe a morte, é por isso que esse projecto é um projecto falhado. Mais de cinco séculos depois de ter começado a ser criada, essa utopia de uma Península unida, está mais débil do que no seu início.


A União Europeia foi, neste aspecto particular, um argumento favorável aos independentistas que, como é natural e ao contrário do que defendem os portugueses, são favoráveis a que os estados europeus se federem – no seio de uma federação de estados que sentido faz o mosaico espanhol ou a existência de um estado aglutinando flamengos e valões como acontece noutro estado artificial, como o é a Bélgica.

Os castelhanos  comportam-se como se comportavam os russos na URSS ou os sérvios  na Jugoslávia - como senhores do império. Franco impôs o Espanha a ferro e fogo, perseguindo, torturando, fuzilando os independentistas. Com a ajuda da Igreja Católica, dos grandes gupos económicos e com a cumplicidade da comunidade internacional, conseguiu fazer passar  a ideia de uma Espanha una, simbolizada pelo exotismo do flamenco, pela tourada, pelo castiicismo plasmado nos quadros de Goya ou na expressão lírica da "Carmen", de Bizet...

O estado democrático surgido após a morte de Franco não retomou a história no ponto em que ela fora interrompida em 1936, quando se sonhava uma "Federação Espanhola". Os "democratas" aproveitaram as sobras do banquete fascista e adoptaram a tese de uma Espanha una, indivisível. Foram tão ousados que adoptaram a monarquia como forma de estado sob a égide da decrépita dinastia de Bourbon. Até Franco teria saudado esta "democracia".  Porém,  mesmo a democracia formal, está a abrir buracos na blindagem. A muralha, iniciada por Isabel e Fernando e concluída por Franco, começa a apresentar fragilidades.

A jangada de pedra está a meter água.

Portugal, o governo português, como sempre, remete-se ao silêncio, não querendo imiscuir-se "nos assuntos internos de um estado vizinho". Nem sequer para reclamar aquilo que esse estado vizinho lhe roubou e que à luz do direito internacional é território português. Assim em Olivença, mais ainda do que na Galiza, no país Basco ou n Catalunha, a aculturação prossegue. O português, um idioma tão respeitável e universal como o castelhano é ali «língua rural» e falada por gente idosa. Em vias de extinção.

E Sócrates diz: "Espanha, Espanha, Espanha!".
publicado por Carlos Loures às 12:00
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1 comentário:
De Luis Moreira a 13 de Agosto de 2010
Certa vez fui visitar hospitais à Catalunha, tinha surgido uma nova tecnologia para tratamento de resíduos hospitalares.Acompanhado por um representante do ministério central de Madrid, fui testemunha de discussões íncriveis entre o Madrileno e os Catalães.Quando fui recebido pelo ministro da Saúde da Catalunha, ele ofereceu-me dois livros, um em catalão e outro em Inglês, "em castelhano não temos" ainda pensei que era por ruptura dos stocks...

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