Terça-feira, 12 de Outubro de 2010

Uma polémica surrealista

Carlos Loures

Em 1965 tive uma polémica com Mário Cesariny de Vasconcelos que me valeu a excomunhão do movimento surrealista. Cerca de dois anos antes, enviara ao Jornal de Letras e Artes, de Azevedo Martins, uma série de artigos sob o título «Demónios do Absurdo». Neles, em prosa surrealizante, exaltava figuras como as de Alfred Jarry, Jean-Arthur Rimbaud e Isidore Ducasse, Comte de Lautréamont, todos eles precursores do movimento lançado em 1924 pelo manifesto redigido por André Breton. O jornal não publicou nem (contra o que era habitual) me devolveu os textos. Protestei, não me responderam e eu esqueci o assunto. Até porque me envolvi numa alhada política que, em Janeiro de 1965, me levou à prisão. A polícia supunha-me um passarão importante, abusou dos esquemas habituais de «persuasão» e, depois, desiludida, vendo que não tinha «matéria» para me levar a tribunal, ao fim de três meses pôs-me na rua. Na realidade, eu era um elemento sem qualquer importância – distribuíra uns panfletos com a prosa do «Chico» Martins Rodrigues, recolhera uns fundos e pouco mais.

Vinha de muito mau humor e, colaborando no suplemento literário do Jornal de Notícias (na altura dirigido por Nuno Teixeira Neves) com uma crónica semanal sobre poesia, canalizei para essa croniqueta semanal todo o meu ódio ao estúpido sistema e a quantos, nomeadamente escritores supostamente de esquerda, pactuavam com o statu quo. – mais ou menos o que agora faço aqui, mas com a fúria dos vinte e poucos anos. A censura cortava muito, mas o que passava era mesmo assim excessivo – marxismo-leninismo, em estado puro e primário, sob a forma de crítica poética. Foi então, quando se comentava no pequeno planeta português das letras a minha fúria antifascista, concordando uns e discordando a maioria, que o Jornal de Letras e Artes resolveu pegar nos textos (quatro ou cinco) que lhes enviara e os publicou com todo o destaque na primeira página e com títulos (tirados do texto, mas escolhidos a dedo). O meu lirismo marxista-leninista sofreu um rude golpe. Os meus «apoiantes», a malta do «escacha-pessegueiro», ficaram desiludidos – «Mais um a baldar-se!», pensaram.

Fiz então uma carta para o Jornal de Letras e Artes a pôr os pontos nos is – deixara de ser surrealista, o jornal manipulara as coisas, etc. O Mário Cesariny de Vasconcelos, o papa do surrealismo português, não me perdoou e numa carta, que o jornal publicou verberava a minha abjuração, acusando-me de me ter aburguesado. Vi-me obrigado a responder. Com o mau humor decorrente da porrada que levara e das longas noites de insónia forçada, não estava com paciência para aturar reprimendas de quem, merecendo-me o respeito devido a um grande poeta, passava os dias no café ou nos transportes públicos a tentar engatar marinheiros (Cesariny tinha um grande fascínio pelas fardas). E, isto é que conta, no intervalo destas coisas, escrevia a sua maravilhosa poesia.

Enfim, foi um corte completo. O meu nome que até então, figurava nas publicações surrealistas, foi limpo numa manobra que faz lembrar as técnicas da Checa, limpando Trotsky e outros elementos inconvenientes das fotografias históricas. Coisa que nada me preocupou. De facto, Cesariny tinha toda a razão. Nada tenho a ver com o surrealismo, embora tenha promovido e editado uma das poucas revistas que o movimento produziu. Explico como aconteceu essa revista, a Pirâmide», num depoimento prestado ao Daniel Pires. Note-se que o Benjamim Marques, um talentoso artista plástico, cujo rasto perdi (sei que foi para França ainda nos anos 60), no único registo gráfico que existe do grupo do Gelo, um desenho em que retratou as pessoas que o compunham, não me incluiu, embora não se tenha esquecido de uma rapariga, a Tininha (que por gralha passou à posteridade como «Fininha», uma jovem da mais antiga corporação profissional do mundo, que trabalhava no Ritz Club, e às vezes passava ali pelo café, mas que , de modo algum, era um elemento do grupo).

Por outro lado, designa o João Fernandes, um membro tão respeitável como os outros, por «João Zanaga» uma alcunha que aludia a um estrabismo que, ouvi dizer, corrigiu depois com uma cirurgia. O pormenor curioso é que eu, que fui excluído, e o João Fernandes que foi alcunhado, éramos, em todo o grupo, as pessoas que o Benjamim Marques melhor conhecia. Priváramos durante muitos anos, entre a infância e a adolescência no Ateneu, onde estudámos juntos. Falta também no retrato o João Vieira que era já um pintor com algum nome. Uma forma de acertar contas com inimigos de infância e concorrentes? Talvez, pois, apesar de tudo, não acredito que o Cesariny lhe tivesse guiado a mão e na altura em que o desenho foi feito eu não caíra ainda em desgraça.

Abro aqui um parêntesis, porque já que estou a falar de uma excomunhão, lembro-me da ameaça de uma outra. O Raul Leal (1886-1964) o mais velho elemento do grupo, era uma figura muito curiosa. Colaborador do «Orpheu», amigo de Fernando Pessoa, escandalizara a Lisboa do primeiro quarto do século XX ao assumir a sua homossexualidade no panfleto Sodoma Divinizada (1923). Hoje seria uma coisa vulgar, mas naquela altura era quase inconcebível (não a homossexualidade, mas a sua assunção). Foi atacado por todos os sectores de opinião, valendo-lhe a defesa que dele fez Pessoa. Vinha de uma família rica, era formado em Direito e ocupava as funções de Governador do Banco de Portugal. O escândalo foi enorme, proporcional à sua notoriedade social. Constou mesmo que iria ser excomungado. Considerando-se o profeta de uma nova religião, proferiu uma frase que ficou famosa: «Se o Papa me excomungar, eu excomungo o Papa!».

Apesar desta escaramuça, seria ingratidão não reconhecer que foi com os mestres do surrealismo que, mal ou bem, aprendi a escrever, embora os meus temas sejam realistas. Há mesmo quem me considere um neo-realista e, dando força a essa classificação, ainda há meses animei uma sessão no Museu do Neo-Realismo em Vila Franca de Xira. Porém, a minha prosa tenta fugir à crueza estilística que tipifica esse movimento, embora a maioria dos neo-realistas tenha feito o mesmo (mas muito melhor do que eu) – Carlos de Oliveira, Manuel da Fonseca e até um dos patriarcas, Soeiro Pereira Gomes, por exemplo, escreveram furtando-se a essa aridez formal que apenas Alves Redol nos seus primeiros livros e alguns epígonos seguiram. No entanto, apesar deste corte de relações que durou para sempre, pois Cesariny tinha mau feitio e o meu também não é dos melhores (o papa excomungou-me e eu excomunguei o papa). apesar disso, dizia, nunca me esqueci, nem esquecerei de que Mário Cesariny de Vasconcelos foi um grande poeta, um dos maiores do seu tempo.
publicado por Carlos Loures às 12:00
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4 comentários:
De José Brandão a 12 de Outubro de 2010
O Carlos Loures dá a conhecer um pouco da sua vida que é de uma nobreza notável.
É uma honra ser seu amigo.

Obrigado Carlos amigo.
De carlos loures a 12 de Outubro de 2010
Meu caro José Brandão, conhecemo-nos aí há vinte anos, não será? Talvez mais. A honra e o prazer são mútuos - Não somos dos piores, lá isso é verdade. Muito obrigado pelas suas palavras.
De CCN a 13 de Outubro de 2010
Aproveito para informar que o Benjamim Marques (que continua apintar e vive em Paris) esteve na inauguração da exposição dele, de Isabel Meyrelles e de Cruzeiro Seixas, no dia 30 de Setembro de 2010. A mostra, intitulada "Cadavre-Trop-Exquis", pode ser vista até 30 de Outubro na Perve Galeria, em Alfama ou em www.pervegaleria.eu

Cumprimentos
De carlos loures a 13 de Outubro de 2010
Ainda bem que o Benjamim Marques está bem. Depois dessa relação difícil, herdeira de problemas da adolescência (digo eu), voltámos a dar-nos e esteve em minha casa com o Manuel de Castro, o Renato Ribeiro e as respectivas companheiras. Sei que teve uma recente polémica com o Alfredo Margarido que, infelizmente acaba de falecer. Obrigado CCN.

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