Sábado, 31 de Julho de 2010

Novas Viagens na Minha Terra


Manuela Degerine

Capítulo LXV

Décima sétima etapa: de Vilarinho a Barcelos (continuação)

Sigo pela N306, quilómetro 78 e seguintes. A beira da estrada é verde com algumas flores amarelas, há uma barreira íngreme, também verde, identifico feto, musgo, sedum e, lá em cima, de um e do outro lado, uma mata de eucaliptos. O temporal espalhou pernadas pelo meio da estrada; puxo as maiores para a valeta. Chego à ponte que atravessa o rio Ave. Não a ponte romana, de que o roteiro fala; esta é moderna. Paro para olhar: de um lado, eucaliptos, do outro, ao longe, terrenos cultivados, um pouco de vinha, talvez outras culturas, das quais só distingo os rectângulos e as diferentes tonalidades de verde.

Chego à Junqueira quando – de repente – reparo: não trouxe o bordão! As finlandesas camuflaram-no por debaixo de oito varas e suspenderam vinte impermeáveis por cima. Com tamanha barafunda naquela divisão e, para mais, não acendendo as luzes, para não as incomodar... Não admira que o não visse.

Que fazer? Caminhei cinco quilómetros. Voltar atrás? Juntar dez quilómetros de caminhada aos vinte e oito da etapa? Pedir boleia? Passam raros carros... As finlandesas terão saído, encontrarei o abrigo fechado, idem para a farmácia, por ser domingo, a farmacêutica estará ou não em casa... Prefiro não arriscar.

O bordão evitou-me decerto algumas quedas. Daqui em diante, quando tropeçar, como me equilibro?

Ocorre-me a história de Gandhi: tendo partido o espelho, barbeou-se sem ele, sentindo-se mais livre. É a versão indiana da peripécia grega... Diógenes, vendo uma criança beber nas mãos, também abandonou a supérflua tijela. Sou menos filósofa do que Gandhi e Diógenes: lamento a perda do bordão. Porém... O que não tem remédio, remediado está: comprarei outro, logo que possa. Como uma barra, para me consolar – e prossigo o caminho.

Quando atravesso Bagunte, chuvisca um pouco. Tiro o impermeável da mochila? Prevendo a chuva, arrumei-o no cimo. Entro no café para beber um copo de leite e adiar a operação, compro uma bola, demasiado branca – não há outra variedade. Apesar de se sentirem pouco confortáveis, talvez os meus pés não tenham bolhas; prefiro prosseguir sem mais pormenores.

Deixou entretanto de chuvinhar, embora pareça que, levantando os braços, me penduro na borracha cinzenta que tapa todo o céu. As quedas de água da madrugada não esvaziaram os aéreos depósitos...

Desço um trilho inclinado, pelo qual a chuva terá, durante a noite, corrido em enxurrada, transformando-o em ribeiro, atenta para não escorregar, entre pedras e lama, quando aparece o peregrino italiano.
publicado por Carlos Loures às 10:00
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1 comentário:
De Luis Moreira a 31 de Julho de 2010
O peregrino Italiano andava a fugir das Filandesas.É sempre assim.Quem foge acaba por encontar...

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