Sexta-feira, 12 de Novembro de 2010

Teatro em Portugal / Teatro Português (1)* - por António Gomes Marques

I
Começo por fazer uma declaração: não vivo do teatro, nem espero vir a viver! E continuo com uma pergunta que, várias vezes, tenho feito a mim mesmo: seria mais feliz se do teatro vivesse? Não sei a resposta certa, mas uma certeza eu tenho: em Portugal, a trabalhar no teatro, dificilmente viveria como vivo.

Gosto de fazer o que tenho feito ao longo de várias décadas para ganhar a vida, como é uso dizer-se, mas talvez gostasse mais de fazer teatro!

Concluindo esta questão, presto a minha homenagem àqueles que ao teatro se têm dedicado no nosso país, fazendo disso profissão e que, naturalmente, tiveram mais coragem do que eu para prescindirem de algumas facilidades que outra profissão melhor remunerada lhes poderia proporcionar.

Uma outra questão, que é para mim fundamental, tem a ver com a razão que originou a minha paixão pelo teatro e que só consigo justificar com o facto de o teatro conter todos os meios de expressão artística, sejam musicais, pictóricos, plásticos e até arquitectónicos. Com tais meios de expressão, o teatro torna-se uma arte total, capaz de representar uma universalidade de temas que têm a ver com o homem e com o mundo.

Haverá quem pense o teatro, essencialmente, como a arte do actor, o que, hoje, não me custa a aceitar. Se tivesse oportunidade de ser encenador, julgo que procuraria fazer um teatro em que predominaria a luz branca e o preto das cortinas, evidenciando sobretudo a representação do actor, para a qual procuraria chamar a atenção do espectador. Mas deixemos o sonho, que necessitaria de uma outra explicação que não cabe agora aqui.

Há ainda, para além de muitos outros, dois aspectos fundamentais que me apaixonam: o teatro é fruto de um trabalho colectivo, até mesmo com um encenador autoritário, e é uma arte que não dispensa o público. Distingue-se particularmente do cinema, pela renovação constante de espectáculo para espectáculo, ou seja, no teatro não há dois espectáculos iguais, mais diferente ainda se assistirmos a um mesmo texto em épocas diferentes, se esse mesmo texto for interpretado por diferentes encenadores e diferentes actores (isto também pode acontecer no cinema), é um espectáculo em que basta a mudança dos públicos que a ele assiste para se estar perante um espectáculo renovado. É um espectáculo que, para se concretizar, exige uma rigorosa investigação e posterior experimentação, até pela consciência que se deve ter de que se trata de uma arte em que a sua necessária unidade está permanentemente ameaçada.


II

Como intitulei esta comunicação de «Teatro em Portugal / Teatro Português», vou agora falar do fazer teatro em Portugal.

Dizia Almeida Garrett: «Teatro: Livro dos que não têm livros». No Portugal de hoje, em várias zonas do país, particularmente no interior do país, poder-se-ia continuar a utilizar tal expressão; no entanto, penso que se está na situação de poder dizer-se que os portugueses aí residentes têm acesso a quaisquer tipos de livros, sendo hoje mais fácil encontrar um livro numa biblioteca municipal do que assistir a um espectáculo de teatro, o que me parece dar uma ideia do que é o teatro em Portugal.

Antes e depois do 25 de Abril, durante 10/15 anos após esta data, foi o teatro de amadores que colmatou esta falta de teatro em muitos dos concelhos do país, estando o teatro profissional, sobretudo por razões económicas, confinado a algumas das maiores cidades do país, não tendo valor estatístico, por tão poucas, as companhias que tentaram remar contra a maré e as autarquias, salvo raríssimas excepções, também não se mostraram muito interessadas em levar o teatro ao povo. «… é povo, quer verdade», escreveu Garrett, o que para alguns políticos do nosso país não deixa de ser assustador. E será talvez o momento de voltarmos aos ensinamentos de Almeida Garrett, particularmente ao que ele escreveu na Memória ao Conservatório Real.

Poderia continuar a citar Almeida Garrett com a certeza de que não há melhores palavras para explicitar o drama que continua a viver o teatro em Portugal, quando são passados quase 156 anos sobre a sua morte (9/Dez/1854). Ainda há bem pouco tempo pude verificar como as suas propostas incomodaram muita gente responsável pela administração de um projecto intermunicipal em que participei.

Ora, a arte efémera que é o espectáculo de teatro obriga a que as produções sejam particularmente cuidadas, já que o espectáculo de teatro se alimenta do instante e vive do entusiasmo sempre novo. Para isso, os criadores conseguiram no apoio político municipal e sobretudo estatal o suporte económico para implantar os seus variados projectos, todos discutíveis, excelentes uns, bons outros e também alguns medíocres. A seguir ao 25 de Abril pensou-se «agora é que é!», tudo levando a crer que se tinham juntado as vontades indispensáveis para que o sonho se tornasse realidade.

É o momento para perguntar: que realidade temos nós, portugueses, vivido no que ao teatro respeita?

Em alguns dos programas para as legislativas, os dois principais partidos propunham-se atingir a meta de 1% do Orçamento de Estado para a cultura, o que era o retomar de uma meta antiga fixada pelo PS, mas nunca conseguida. Na verdade, houve um Governo PS que, em 2002, atingiu os 0,7%, mas, por exemplo, em 2005, os 0,6% aprovados representavam, em termos absolutos, um montante para a cultura inferior ao de 2001: 285 milhões de euros contra 294 e, agora, ao que parece, não chega a 0,35%. Quando há que fazer cortes, logo os vários Governos se têm lembrado de cortar no orçamento previsto para a Cultura, quer nas despesas de funcionamento, quer nas verbas previstas para o investimento. A vergonha do que recentemente se passou no Ministério da Cultura, com a justificação da crise que vivemos, que vale para tudo, é bem elucidativa do que pensam os governantes portugueses sobre o necessário desenvolvimento cultural do país, apesar da confissão de José Sócrates, após o fim da última legislatura, quando disse que um dos seus erros havia sido o não ter investido mais na cultura (as palavras não terão sido estas, mas o sentido foi este).

É minha convicção que a cultura é um dos itens fundamentais do desenvolvimento de qualquer país, mas desse a cultura votos e outro galo cantaria. É o momento de lembrar a esses liberais ansiosos por ocupar o poder, sempre a atirar-nos números para cima, que o sector da cultura, em Portugal, representa já 2,8% do PIB, prova clara do seu dinamismo e das potencialidades que mostra para o futuro. O próprio crescimento do emprego nas actividades culturais deveria fazer-nos pensar, sobretudo aos governantes. Este dinamismo não acontece apenas em Portugal, acontece também na União Europeia, como acontecerá noutros continentes, o que me parece demonstrar que não se trata de um fenómeno conjuntural.

O desenvolvimento cultural de um país é também sinónimo de desenvolvimento de qualificações, de que o nosso país tão carecido anda. Basta atentar nas qualificações que eram exigidas para a maioria dos empregos que se tem vindo a perder e nas qualificações que se exigem para os empregos que se vão criando e logo se concluirá pela necessidade de tal desenvolvimento cultural.

Claro que o Estado, através de todos os Governos, lá vai dando algum dinheiro para a cultura, nomeadamente para apoio ao teatro.

Que é insuficiente, todo o mundo o diz, mas interessa saber como esse pouco é distribuído.

Considero também que a tarefa dos vários titulares do Ministério da Cultura não é fácil e, das conversas que tive com alguns deles, disso fiquei consciente.

A cultura, pelo menos no nosso país, é propensa à criação de vários lóbis e o teatro não foge ao que já parece ser uma regra, péssima regra que contribui ainda mais para a incorrecta distribuição dos poucos dinheiros para os vários apoios.


*- Comunicação ao I Congresso sobre o Estado do Teatro em Portugal
publicado por Carlos Loures às 21:00
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1 comentário:
De Luis Moreira a 12 de Novembro de 2010
Uma hipótese, é os actores e encenadores ganharem o dinheiro suficiente nas telenovelas e ficarem com disponibilidade e margem para fazer teatro.Duas vantagens. Qualidade nas televisões e mais teatro com menos dinheiro.

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