Terça-feira, 1 de Junho de 2010

Novas Viagens na Minha Terra

Manuela Degerine

Capítulo VI

Etapa 3, da Azambuja a Vila Franca

Primeira parte

O pinhal da Azambuja mudou-se.


Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra


Saio dos bombeiros às seis e meia da manhã. Prevejo um dia de caminhada através do campo – se não me perder. A aventura de ontem impõe-me esta regra que, daqui em diante, respeitarei com rigor: logo que me sentir perdida, retrocedo até ao ponto em encontrei a última indicação certa e segura.

A etapa de hoje é de trinta e dois quilómetros. Para já: são dez até Reguengo. Atravesso para o outro lado da estação, avanço à beira de uma estrada sossegada, passo numa ponte, encontro o caminho arenoso com a ajuda de setas amarelas que mãos caridosas, diria quase carinhosas, sem vandalismo, pintaram nos postes de electricidade. Este caminho não pareceria desagradável, não fora o rio malcheiroso que o acompanha... Aliás rio malcheiroso tornou-se nesta região um pleonasmo. Se há água, na melhor das hipóteses, tem que ser mal-cheirosa e, em muitos lugares, como ontem, na estrada para Castanheira do Ribatejo, nem se pode já chamar água àquilo: no espaço onde devia correr água grudou-se uma pasta negra como o petróleo. O caminho alarga-se, piso um pavimento com grandes lajes de pedra, entre canviais. Avisto uma quinta. Surgem os primeiros campos de tomate mais ou menos apanhado. Poder-se-iam encher camiões com o tomate e os marmelos que, ao longo do dia, vejo abandonados pelos campos ou à beira do caminho. O resto são canaviais. O pinhal?... É evidente que também não se mudou para aqui.

A temperatura é fresca, o entusiasmo grande, o bem-estar intenso, sinto a mochila leve, tudo corre pelo melhor até ao momento em que, após hora e meia de caminhada, começo a sentir sede. Poiso a mochila, bebo água, como as primeiras bolachas vitaminadas, mais um pedaço de chocolate preto. Volto a pôr às costas a mochila, porém escorrega-me uma alça, fica todo o peso suspenso na outra – que se parte. Não a alça propriamente, que aguenta muito mais peso, mas o parafuso que a unia ao saco. Fito a mochila com a maior perplexidade. Não é possível... Outro defeito do equipamento? Outra traição das técnicas experimentadas em laboratórios? Peço a esta mochila duas únicas qualidades, ser leve e resistente, avaliei todos os pormenores excepto este, não desconfiei da qualidade dos metais. E agora? Se com as duas alças e o cinto, o peso bem distribuído e assente nas ancas, eu tenho dificuldade em transportar o meu fardo – como é que posso continuar? Abandono as bagagens? E o que visto nos próximos dias, onde durmo, o que bebo?...

Angústia crescente. Que fazer?
publicado por Carlos Loures às 10:00
link | favorito
1 comentário:
De Luis Moreira a 1 de Junho de 2010
Todos os dias de manhã acordo com essa angústia. E se o esquentador não funciona?

Comentar post

.Páginas

Página inicial
Editorial

.Carta aberta de Júlio Marques Mota aos líderes parlamentares

Carta aberta

.Dia de Lisboa - 24 horas inteiramente dedicadas à cidade de Lisboa

Dia de Lisboa

.Contacte-nos

estrolabio(at)gmail.com

.últ. comentários

Transcrevi este artigo n'A Viagem dos Argonautas, ...
Sou natural duma aldeia muito perto de sta Maria d...
tudo treta...nem cristovao,nem europeu nenhum desc...
Boa tarde Marcos CruzQuantos números foram editado...
Conheci hackers profissionais além da imaginação h...
Conheci hackers profissionais além da imaginação h...
Esses grupos de CYBER GURUS ajudaram minha família...
Esses grupos de CYBER GURUS ajudaram minha família...
Eles são um conjunto sofisticado e irrestrito de h...
Esse grupo de gurus cibernéticos ajudou minha famí...

.Livros


sugestão: revista arqa #84/85

.arquivos

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Maio 2011

. Abril 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Junho 2010

. Maio 2010

.links