Sexta-feira, 5 de Novembro de 2010

Os tão badalados rankings


Eva Cruz

Refiro-me a um artigo que publiquei há vários anos no Jornal, A Página da Educação.

Infelizmente o artigo mantém a atualidade. Os leitores serão diferentes, e por isso o reescrevo quase na íntegra com ligeiras alterações. Se mais não for, as alterações a que me vejo obrigada para seguir o acordo ortográfico. Não sou contra inovações, mas esta não me entra na cabeça.

Há já muito tempo que perdi a vontade de comentar factos. O sonho que alimentava o espírito combativo foi perdendo penas das asas e tende a quedar-se num conformismo amargo mas legítimo. Sinto que é pregar no deserto e, embora não vencida, desisti de tentar convencer. Às vezes, porém, o compromisso que se assume com a vida é tal, que a voz se solta e antes que dê comigo a falar sozinha, escrevo.

Fui professora de mais de um milhar de alunos e vivi por dentro todas as reformas do Ensino. Apesar de aposentada há já uns anos, vivo ainda os problemas da Educação e sinto-me suficientemente lúcida para os analisar.

Avaliar escolas por resultados numéricos de exames é contrariar todo o espírito que preside à filosofia da Lei de Bases do Sistema Educativo e às reformas que mais ou menos nela assentaram. O mínimo que se pode dizer é que o resultado é enganoso ou falacioso.

Considero, inquestionavelmente, que os bons resultados académicos são importantes.
Sempre valorizei a exigência científica, não me deixam mentir os meus alunos e os professores que formei. Só que esses resultados são números que reflectem realidades merecedoras de análise à luz de muitos fatores, especialmente fatores sócio-económicos dos alunos. Com isto não quero negar o valor dos bons alunos, dos que obtêm bons resultados à custa do seu trabalho, das suas capacidades intelectuais e do empenho do seu professor. Há, no entanto, alunos que, sem ajudas paralelas à escola, e de meios desfavorecidos, conseguem o que outros não conseguem. São casos raros.

O que pretendo perguntar é onde está avaliado o papel da Escola nas competências humanas e humanizantes, o resultado do papel essencial da Educação. A Escola ensina, mas acima de tudo educa. E a Escola é o meio privilegiado para educar para a vida.

A Escola nova assenta em conceitos bem definidos de Educação e Formação. Implica, por isso, critérios novos, outras metodologias e estratégias, outra ordem de meios e recursos, porque os seus objetivos são diferentes. Acima de tudo propõe-se construir um novo projeto de vida. Por isso a Escola não pode estar desligada do homem e da sua vida em relação.

Durante décadas, o Ensino-Aprendizagem foi enformado de uma filosofia positivista, servida por modelos de investigação quantitativa e aplicação selectiva, catalisadores de diferenças e geradores de desigualdades e insucessos. Tocada por uma visão humanista, a Escola repensou o seu papel, apercebendo-se do valor das diferenças e foi levada à valorização de ações e interações. Daí nasceu uma Escola dinâmica, baseada na promoção da pessoa humana. Mas hoje tal não passa de “words mere words”, como diria Shakespeare. E a prova são os critérios que levam aos tão badalados rankings.

O fenómeno da marginalização e da exclusão atinge-nos a todos e por isso há que o encarar de frente e com grande lucidez. Há ainda no mundo quem pense que é possível desmontar e atacar as causas do fenómeno. Há escolas e professores que fazem um trabalho ciclópico para conquistar e integrar aqueles que, por razões diversas, não são os culpados do seu próprio insucesso. São muitas vezes essas escolas e os seus professores que se situam nos últimos lugares dos tais rankings.
Apesar de ter pertencido a uma escola situada nos primeiros lugares do ranking, congratulo-me, não acriticamente, e solidarizo-me com todos aqueles que, no silêncio e fora do palco, continuam a trabalhar alimentados pelo sonho e pela utopia.

(ilustrção de Adão Cruz)
publicado por Carlos Loures às 10:00
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3 comentários:
De Luis Moreira a 5 de Novembro de 2010
Completamente de acordo com o que diz, mas são tudo razões para aperfeiçoar não para desistir dos rankings.É preciso introduzir factores de correção. Por exemplo, ao fim de 10 anos de rankings, já podemos dividir as escolas entre as do "grau A" - Muito boas ( estas estão preparadas para terem autonomia). Grau B - boas ( estas precisam de pequenas correcções para avançarem para a autonomia. Grau C - escolas problema - são necessários mais meios, mais proximidade. O "universo problema" fica assim, muito mais reduzido. O problema é que se olha para os rankings como se de uma competição se tratasse entre adversários iguais. Não são iguais e não é uma competição.Nesse sentido, olhar assim para os ranking é uma grande injustiça.
De Eva Cruz a 5 de Novembro de 2010
Estamos de acordo em relação às desigualdades de situações avaliadas. A avaliação é de uma complexidade extrema.É objetivar o que há de mais subjetivo.
Mas o grande problema reside, acima de tudo,no que pretendemos avaliar, ou seja a finalidade última da Educação.
Ao dar-se preponderância a resultados numéricos obtidos em exames e valorizando determinadas disciplinas, não me parece que a finalidade da Educação seja verdadeiramente contemplada.
Para melhor me fazer entender apresento o exemplo de dois pais, contentes com os seus filhos. Um diz:" O meu filho é um excelente aluno, tem 20 a Matemática e 19 quase a tudo". O outro diz:" O meu filho é uma ótima pessoa, feliz,educado, solidário, mede 1,80m,tem muitos amigos,é saudável".
Perspectivas diferentes.
É óbvio que nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Ambos os parâmetros devem fazer parte do mesmo processo - Educação.
O problema está em que a Escola e a Sociedade valorizam essencialmente ou apenas os atributos do primeiro.
Não sou contra o saber ou a favor do facilitismo. De modo nenhum. No entanto a Escola na sua verdadeira função tal como eu entendo e defendo, não pode confinar-se a esta limitação e ao consequente tipo de avaliação.
Talvez seja por isso que o mundo está de pernas para o ar. Altos resultados das cabeças das Economias que só têm servido para a desgraça da Humanidade.
Estou sempre a bater na mesma tecla. Mas há que repensar a Escola na sua finalidade.
Obrigada por ter lido e pelo amável comentário . Um abraço.
De Luis Moreira a 5 de Novembro de 2010
Saber o que se quer da escola é realmente o mais importante e, quando não se sabe, tudo o resto que é mau, vem por arrasto. Essa falta também condiciona o trabalho dos professores. Esses objectivos deviam ser claros, negociados e mensuráveis. Só sabendo para onde se quer ir encontraremos bom porto.Obrigado, também.

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