Quinta-feira, 25 de Novembro de 2010
Onde estavas no 25 de Novembro?
Carlos Loures

«Onde estavas no 25 de Abril?», pergunta Baptista Bastos com a sua voz rouca. Oportunamente, responderei. Faz hoje 35 anos, por esta hora, uma boa parte dos portugueses sentia-se triste – a festa da liberdade acabara – falava-se no advento de uma «democracia musculada», fosse lá isso o que fosse. Um tal tenente-coronel Ramalho Eanes, que fora do meio militar ninguém conhecia, aparecia nos noticiários como o senhor desta guerra – óculos escuros, patilhas compridas, frases curtas e com uma pronúncia estranha, não auguravam nada de bom. A comparação com Pinochet era inevitável. Quem seria o «gajo» de óculos escuros? Soube-se depois que também estava ligado ao chamado «Grupo dos Nove» e que fora encarregado de encabeçar o movimento militar de 25 de Novembro.

Havia portugueses que respiravam de alívio – aquilo a que nós chamávamos «festa», chamavam eles «caos», «bagunçada», «anarqueirada»... Passados 35 anos, já é possível falar dessa data (quase) sem rancores, nem falsos clichés. O meu sentido de justiça obriga-me mesmo a saudar a transformação produzida em Eanes – o bisonho tenente-coronel é hoje um homem culto e ponderado. Seria uma opção para a Presidência. Não votaria nele, mas seria uma figura respeitável. É matéria ainda sensível, apesar da distância temporal que nos confere já uma apreciável perspectiva histórica do acontecimento. Vou cingir-me à síntese dos acontecimentos e a uma ou outra opinião pessoal, emitida sem prosápias de analista, na perspectiva do simples cidadão que tem, por enquanto, o direito, e até o dever, de opinar. Um documento emitido por oficiais da esquerda militar em 8 de Julho de 1975, em pleno «Verão Quente» - «Aliança Povo/MFA - para a construção do socialismo em Portugal», enchera de esperança o povo de esquerda. No mês seguinte, um documento provindo da esquerda moderada tentou aplacar o incêndio que lavrava de Norte a Sul – o chamado «Documento dos Nove», sem aludir ao anterior, recusava o modelo socialista da Europa de Leste, bem como o modelo social-democrata da Europa Ocidental. Propugnava um socialismo alternativo, apoiado numa democracia pluralista, respeitadora das liberdades, direitos a garantias fundamentais. Note-se que o primeiro documento também não defendia o comunismo do tipo soviético e, por isso, não colheu grande simpatia entre as hostes pecepistas; mas deu corda às esperanças da esquerda extra-parlamentar que inundou as ruas com as suas manifes entusiásticas.

As posições extremavam-se. No Norte as sedes dos partidos de esquerda, eram assaltadas e destruídas. Os confrontos multiplicavam-se com o ELP (Exército de Libertação de Portugal), criado pelo inspector da PIDE, Barbieri Cardoso, presidido pelo general António de Spínola e sediado em Espanha, a levar a cabo alguams acções contra os militares e contra os partidos de esquerda. O espectro da guerra civil assolava o País. Passado um «Verão quente» e um princípio de Outono agitado, o início de Novembro fora marcado com as notícias vindas de Angola – recrudesciam os combates entre as forças do MPLA, reforçadas com unidades cubanas, e as da UNITA, apoiadas por tropas sul-africanas e mercenários portugueses. Em 11 de Novembro, foi proclamada a independência. Enquanto decorriam as cerimónias em Luanda, na presença do almirante Rosa Coutinho, que cessava as suas funções de Governador e delegava o poder nas mãos de Agostinho Neto, escutava-se nas imediações da capital o troar das peças de artilharia, pois os combates prosseguiam. Os ecos dessa luta ouviam-se também em Portugal.

No dia 12, o Palácio de São Bento, sede do Governo e da Assembleia Constituinte, era cercado pelo trabalhadores da construção civil que sequestraram os deputados durante várias horas. No dia seguinte, uma grande manifestação, com centenas de milhares de pessoas, percorria as ruas da capital, exigindo o advento do Poder Popular. No dia 20, o Governo auto-suspendeu as suas funções exigindo que as forças da ordem garantissem o normal funcionamento das instituições. No dia seguinte, no Ralis (Regimento de Artilharia de Lisboa), realizava-se um juramento de bandeira sui generis – os soldados juraram e saudaram a bandeira de punho cerrado e erguido.

A temperatura atmosférica, matizada pelo chamado «Verão de São Martinho» era amena. A temperatura política era escaldante. O abismo aproximava-se quase sem que para ele caminhássemos. No dia 25, uma gota fez transbordar a taça da paciência conservadora – o Conselho da Revolução tomou medidas que a muitos desagradaram – substituiu alguns comandantes militares, dissolveu a base-escola de pára-quedistas de Tancos. Tropas pára-quedistas ocuparam de imediato as bases da Ota, de Tancos e de Monte Real. Elementos do Ralis posicionaram-se nas principais entradas de Lisboa, controlando estrategicamente os acessos à capital.

O presidente Costa Gomes decretou o estado de sítio. Chamou Otelo Saraiva de Carvalho ao Palácio de Belém. Otelo, recorde-se, graduado no posto de general, comandava o COPCON (Comando Operacional do Continente), a força operacional mais bem apetrechada e potencial foco de uma reacção violenta e quiçá decisiva da esquerda militar. Otelo foi à reunião com Costa Gomes, sabendo que, na prática e sob outra designação, estava a ser detido, retido, impedido de actuar, use-se o eufemismo que se quiser para prisão, porque na realidade foi isso que aconteceu.

Abro um parêntesis, para contestar acusações que têm sido feitas a Otelo. Somos amigos, nessa medida serei algo suspeito. Reconhecendo que poderá não ter sido ao longo do processo revolucionário (e, sobretudo, depois) um modelo de ponderação, ao deixar-se deter em Belém, evitou uma guerra civil. Já ouvi imbecis e atrasados mentais a acusar o Otelo de estupidez. Reajo sempre mal, pois sei que lhe devemos que o 25 de Novembro não se tenha tornado numa data negra e não se tivesse saldado por muitas, muitas mortes. Otelo pediu a demissão do COPCON que ficando decapitado permitiu que o Regimento de Comandos da Amadora, quase sem constrangimentos dominasse os pontos estratégicos de Lisboa, acabando por controlar a situação. Há 35 anos, a esta hora a «festa» acabara. Voltava-se à «normalidade». Pergunto aos militares de Novembro - todos ou quase todos militares de Abril. A normalidade que temos, mais de três décadas depois, era a que sonhavam em Abril de 74? E em Novembro de 75 foi esta a normalidade que quiseram proporcionar ao País?

Eu, onde estava? Estava com mais algumas dezenas de companheiros, concentrados em local próprio, bem armados (mas mal municiados) prontos a entrar numa contenda que mal chegou a esboçar-se. Esperáva-mos ordens para partir para onde nos dissessem. Na noite de 25, uma camarada, oficial da Força Aérea, chegou com a notícia de que tudo estava perdido. Despimos os camuflados e vestimos as roupas civis que afinal eram as que nos competiam. Os militares regressavam aos quartéis. Os civis saiam dos quartéis. Começámos de imediato a dispersar de forma ordenada um a um. A tristeza era muita. A normalidade voltara.

A festa acabou, pá.



publicado por Carlos Loures às 12:00
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De Luis Moreira a 25 de Novembro de 2010 às 23:11
Sim, já ouvi o mesmo pesoalmente, e a maioria dos militares vive em desgosto profundo por isto não ser o que sonharam.Mas eu não perco a oportunidade de lhes agradecer.


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