Terça-feira, 31 de Agosto de 2010

Espaço VerbArte - Três poetas da casa falam sobre as portas que a poesia fecha, sobre o sonho e sobre o que mais adiante se verá




Augusta Clara de Matos

As  portas que a poesia me fechou, com uma folha de plátano, como quem diz: "Contenta-te com este artifício, tu que não tens imaginação para mais".
______________________________________



Ethel Feldman


Quero viajar pelo mundo
viver/conviver com o sorriso
e o choro daqueles que habitam
outras paragens.

Não vou poder abraçar as mulheres - girafa,
nem as meninas que vestem a burca
mal o sangue lhes escapa.

Não vou conseguir aprender
com as gueixas a arte de ouvir,
nem com as índias a de parir
a sorrir.

Queria viajar e sentir
em todos um abraço
que resulta do que cada um
somos enquanto vida.

Queria aprender a dançar
e a rezar sem conceitos
e preconceitos.

Hoje acordei com a falta que tenho
de não poder jogar-me nos braços
do homem que dança o tango.

Hoje dei conta da falta,
e da vontade que tenho em voltar,~
do tempo que uma vezes é longo
e agora tão curto.

Vou abraçar-vos sem descanso
tenho todo o tempo do mundo.
_______________________

Adão Cruz

O sonho

O sonho
acesso do silêncio
ao dilatado vento da palavra
o direito da sombra
na luz de todas as cores.
O sonho
doce caminho dos lábios
perfumados de alheias maçãs
a voz que há-de voar
quando se calarem as asas.
O sonho
canção intemporal
que dá razão à loucura
a sede de todas as fontes
a água de toda a secura.
O sonho
vento leve e sensual
tocado de algas e maresia
adormecido o pensamento
na doce cama da fantasia.
O sonho
uma flor a sorrir
no outro lado do rio
onde as quebras do silêncio
dão voz ao melro vadio.
os barcos que chegam tarde
carregados de vinho amargo
a esperança de todo o tempo
sem outro tempo de esperar.

O sonho
mar derramado na areia fina
beijando o corpo feito casa
a paz da tarde adormecida
sem corpo para morar.

O sonho
mão apertada ao escudo
da liberdade ameaçada
o sonho tempo perdido
tempo de sonho e de nada.

O sonho
flor de orvalho colhida
no seio efémero da madrugada
o silêncio da canção perdida
no beijo da noite atraiçoada.

A grávida mais linda que já vi

Foi ela a grávida mais linda que já vi.
A grávida mais linda que já vi
tinha olhos aguados de ternura
olhos mansos de sonho e distância
olhos de sexo infinito.
Tinha estrelas pequeninas nas maçãs do rosto
e os lábios frutavam de carnudos
com gosto a sol e a sal.
A grávida mais linda que já vi
dormia no ventre da serra-mãe
entre asas e desejos
cabelos mortais sonhados de horizonte
hálitos de feno e maresia
que o sol acordava no acordar de cada dia.
O seu corpo nascia das ondas
e ondeava como seara madura.
A grávida mais linda que já vi
na paisagem lisa do tempo
dormia na areia branca
e tinha flores brancas
na raiz branca das coxas
dos beijos da espuma branca
que do mar sobrava.

                                                                                                                      (Quadro de Adão Cruz)                                                   
publicado por Carlos Loures às 08:00
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