Joan Salvat Papasseit (1894-1924)
Nocturn per a acordió
Heus aquí: jo he guardat fusta al moll.
(Vosaltres no sabeu
què és
guardar fusta al moll:
però jo he vist la pluja
a barrals
sobre els bots,
i dessota els taulons arraulir-se el preu fet de l'angoixa:
sota els flandes
i els melis,
sota els cedres sagrats.
Quan els mossos d'esquadra espiaven la nit
i la volta del cel era una foradada
sense llums als vagons:
i he fet un foc d'estelles dins la gola del llop.
Vosaltres no sabeu
què és
guardar fusta al moll:
però totes les mans de tots els trinxeraires
com una farandola
feien un jurament al redós del meu foc.
I era com un miracle
que estirava les mans que eren balbes.
I en la boira es perdia el trepig.
Vosaltres no sabeu
què és
guardar fusta al moll.
Ni sabeu l'oració dels fanals dels vaixells
-que són de tants colors
com la mar sota el sol:
que no li calen veles.
L'ofici que més m'agrada
Hi ha oficis que són bons perquè són de bon viure,
mireu l'ésser fuster:
-serra que serraràs
i els taulons fan a miques,
i de cada suada deu finestres ja han tret.
Gronxada d'encenalls, et munten una taula;
si ho vols, d'una nouera te'n faran un cobert.
I caminen de pla-
damunt les serradures de color de mantega.
I els manyans oh, els manyans!
De picar mai no es cansen:
pica que picaràs i s'embruten els dits;
però fan unes reixes i uns balcons que m'encanten
i els galls de les teulades
que vigilen de nits.
I són homes cepats
com els qui més treballin.
¿I al dic? Oh, els calafats!
Tot el Port se n'enjoia
car piquen amb ressò
i es diu si neix un peix a cada cop que donen
-un peix cua daurada, blau d'escata pertot.
Penjats de la coberta, tot el vaixells enronden:
veiéssiu les gavines
com els duen claror.
I encara hi ha un ofici
que és ofici de festa el pintor de parets:
si no canten abans, no et fan una sanefa,
si la cançó és molt bella deixen el pis més fresc:
un pis que hom veu al sostre
que el feien i cantaven:
tots porten bata llarga
de colors a pleret.
I encara més
si us deia l'ofici de paleta:
de paleta que en sap
i basteix d'aixoplucs.
El mateix fan un porxo com una xemeneia
-si ho volen
sense escales
pugen al capdamunt;
fan també balconades que hom veu la mar de lluny
-els finestrals que esguarden tota la serralada,
i els capitells
i els sòcols
i les voltes de punt.
Van en cos de camisa com gent desenfeinada!
Oh, les cases que aixequen d'un tancar i obrir d'ulls!
(Dos poemes del recull Óssa Menor,1925)
De Joan Salvat Papasseit, Joan Manuel Serrat canta "Res no és mesquí" (nada é supérfluo):
Miquel Martí i Pol (1929-2003)
Tres poemes de La fàbrica (1972)
L'Elionor
L'Elionor tenia
catorze anys i tres hores
quan va posar-se a treballar.
Aquestes coses queden
enregistrades a la sang per sempre.
Duia trenes encara
i deia: "sí, senyor" i "bones tardes".
La gent se l'estimava,
l'Elionor, tan tendra,
i ella cantava mentre
feia córrer l'escombra.
Els anys, però, a dins la fàbrica
es dilueixen en l'opaca
grisor de les finestres,
i al cap de poc l'Elionor no hauria
pas sabut dir d'on li venien
les ganes de plorar
ni aquella irreprimible
sensació de solitud.
Les dones deien que el que li passava
era que es feia gran i que aquells mals
es curaven casant-se i tenint criatures.
L'Elionor, d'acord amb la molt sàvia
predicció de les dones,
va créixer, es va casar i va tenir fills.
El gran, que era una noia,
feia tot just tres hores
que havia complert els catorze anys
quan va posar-se a treballar.
Encara duia trenes
i deia: "sí, senyor", i "bones tardes".
Mot d'ordre
Amb el fil entortolligat en una bitlla
es podrien lligar de mans i peus
mitja dotzena d'explotadors.
Però el fil és molt prim
i només subjecta,
subtilment i eficaçment,
els explotats.
Un conjunt de fils
ben trenat
és una corda.
De semàntica
Tot darrerament
a la fàbrica
han millorta molt
les relacions humanes.
Ara mateix, per exemple,
de treure la prima setmanal
a una treballadora
per un barreig de fil,
posem per cas,
o algun acte menor d'indisciplina,
ja no se'n diu imposar una sanció;
se'n diu
estimular el sentit
de la responsabilitat.
António Aleixo (1899-1949)
Quadras
A ninguém faltava o pão,
se este dever se cumprisse:
ganharmos em relação
com o que se produzisse.
Quem trabalha e mata a fome,
não come o pão de ninguém,
mas quem não trabalha e come,
come sempre o pão de alguém.
Quantas sedas aí vão,
quantos brancos colarinhos,
são pedacinhos de pão
roubados aos pobrezinhos!
Forçam-me, mesmo velhote,
de vez em quando, a beijar
a mão que brande o chicote
que tanto me faz penar.
Francisco Fanhais continua a série de quadras, simples e sábias, do António Aleixo:
(Este Livro que vos Deixo, 1983)
Trabalha, trabalha...
uma parte deste latifúndio, está para ti reservada
Enterro do camponês - Gravura do artista plástico brasileiro Abelardo da Hora (1924)
António Cabral (1931-2007)
In memoriam do camponês desconhecido
O que tinha setenta anos de terra,
um como tantos, morreu pela última vez.
Que umbral de papoilas receberia
devidamente o seu rosto vitorioso?
Quando entrou no cemitério,
o orvalho cintilava em todas as roseiras
e um pássaro de que não sei o nome
descreveu alguns círculos e partiu.
Os calos floriam nas mãos dos homens,
as mulheres perdiam-se no céu azul,
enquanto ele, um como tantos, regressava.
Eu te saúdo, irmão da urze bravia,
setenta vezes setenta
anos de terra em flor e de miséria.
(Poemas Durienses, 1965)
Ouçamos a Dança dos Camponeses, de Carlos Paredes, interpretada pelo autor e, em seguida, um excerto de Vida e Morte Severina, o imortal poema de João Cabral de Mello Neto (1966), musicado por Chico Buarque, que nos parece fazer todo o sentido integrar aqui. «É a parte que te cabe neste latifúndio».
O trabalho em diversas interpretações
Guilherme de Azevedo (1839-1882)
A Alma Nova XVII
Ó máquinas febris! eu sinto a cada passo,
nos silvos que soltais, aquele canto imenso,
que a nova geração nos lábios traz suspenso
como a estância viril duma epopeia d’aço!
Enquanto o velho mundo arfando de cansaço
prostrado cai na luta; em fumo negro e denso
levanta-se a espiral desse moderno incenso
que ofusca os deuses vãos, anuviando o espaço!
Vós sois as criações fulgentes, fabulosas,
que, vibrantes, cruéis, de lavas sequiosas,
mordeis o pedestal da velha Majestade!
E as grandes combustões que sempre vos
consomem
começam, num cadinho, a refundir o homem
fazendo ressurgir mais larga a Humanidade.
(Alma Nova, 1874)
Alexandre O’Neill (1924-1986)
Velha fábula em bossa nova
Minuciosa formiga
não tem que se lhe diga:
leva a sua palhinha
asinha, asinha.
Assim devera eu ser
e não esta cigarra
que se põe a cantar
e me deita a perder.
Assim devera eu ser:
de patinhas no chão,
formiguinha ao trabalho
e ao tostão.
Assim devera eu ser
se não fora
não querer.
(-Obrigado, formiga!
Mas a palha não cabe
onde você sabe...)
(Feira Cabisbaixa,1998)
Arranja-me um emprego - pede o Sérgio Godinho:
Cecilia Meireles (1901-1964)
Os varredores
Por baixo dos largos fícus
plantados à beira-mar,
em redor dos bancos frios
onde se dita o luar,
vão passando os varredores,
calados, a vassourar.
Diríeis que andam sonhando,
se assim o vísseis passar,
por seu calmo rosto branco,
sua boca sem falar,
- e por varrerem as flores
murchas, de verem amar.
E por varrerem os nomes
desenhados par a par,
no vão desejo dos homens,
na areia ao pisar...
- por varrerem os amores
que houve naquele lugar.
Visto de baixo, o arvoredo
é renda verde luar,
desmanchada ao vento crespo
que à noite regressa ao mar
vão passando os varredores
vão passando e vão morrendo
a terra, a lembrança, o tempo.
E de momento em momento,
varrem seu próprio passar.
O Varredor - Acrílico sobre tela de
José Carlos Ary dos Santos (1937-1984)
Soneto do Trabalho
Das prensas dos martelos das bigornas
das foices dos arados das charruas
das alfaias dos cascos das dornas
é que nasce a canção que anda nas ruas.
-
Um povo não é livre em águas mornas
não se abre a liberdade com gazuas
á força do teu braço é que transformas
as fábricas e as terras que são tuas
-
Abre os olhos e vê. Sê vigilante
a reacção não passará diante
do teu punho fechado contra o medo.
-
Levanta-te meu povo. Não é tarde.
Agora é que o mar canta é que o sol arde
pois quando o povo acorda é sempre cedo.
(Vinte Anos de Poesia, 1983)
Vamos ouvir Fernando Tordo interpretar com música sua este poema de Ary dos Santos:
Isto anda tudo ligado
Quadro de Júlio Pomar
Eduardo Valente da Fonseca (1928 - 2003)
Canto do Ceifeiro
Canta ceifeiro canta,
sob o sol de Agosto, canta,
a terra é tão farta e tanta,
que chega para a tua fome
e cresce para a tua manta,
Canta ceifeiro canta
a charneca e não sossobres.
Espanta o medo e o cansaço,
aguenta mais um pedaço
e canta ceifeiro canta
o heroísmo dos pobres.
Canta ceifeiro canta
o Alentejo todo teu,
canta a charneca em flor,
canta o trigo com suor,
canta a lonjura do céu.
Canta ceifeiro canta
em Serpa. Cuba ou Ermidas,
ia que os braços são pequenos
dêem-se as vozes ao menos
que as vozes serão ouvidas.
Canta ceifeiro canta
canta sempre sem espanto
tudo quanto tanto anseias,
que não vem longe o minuto
do teu suor ser enchuto
e tu seres a própria Paz.
Canta ceifeiro canta
e diz de quanto és capaz,
Canta esses sulcos vermelhos
como as tuas maiores veias,
canta a luta e a tua sede
os azinheiros e o trigo,
canta a carne e o desabrigo
por todo o frio do inverno,
canta a morte dos teus filhos
mais a dos teus companheiros,
canta sempre canta, canta
belas canções de ceifeiro,
que o Alentejo cresceu.
dos teus braços de sobreiro
erguidos ao sol de estio,
e de todo o teu suor
Já do tamanho dum rio.
Canta ceifeiro canta
o Alentejo todo teu,
que nele foi que nasceste
com raízes desde o fundo,
e nele os irmãos da terra
vem sendo há muito ofendidos
nos seus sempre sagrados
e humanos cinco sentidos.
Canta ceifeiro canta
canta com ânsia e bravura
e que o canto que se levante
dê mais força á tua altura.
(A Cidade e os Homens e outros poemas, sem data)
Francisco Fanhais canta, com música de sua autoria, estes versos de Eduardo Valente da Fonseca:
.
E falando de ceifeiros, como podíamos esquecer o Cantar Alentejano, de José Afonso?
José Afonso (1929-1987)
Cantar alentejano
Chamava-se Catarina
O Alentejo a viu nascer
Serranas viram-na em vida
Baleizão a viu morrer
Ceifeiras na manhã fria
Flores na campa lhe vão pôr
Ficou vermelha a campina
Do sangue que então brotou
Acalma o furor campina
Que o teu pranto não findou
Quem viu morrer Catarina
Não perdoa a quem matou
Aquela pomba tão branca
Todos a querem p´ra si
Ó Alentejo queimado
Ninguém se lembra de ti
Aquela andorinha negra
Bate as asas p´ra voar
Ó Alentejo esquecido
Inda um dia hás-de cantar
(Cantares, 1967)
E, como dizia o Eduardo Guerra Carneiro, isto anda tudo ligado - vejam a gravura que José Dias Coelho fez como homenagem à mesma Catarina Eufémia que inspirou a canção doZeca:
E(isto anda mesmo tudo ligado), ouçamos a canção que o Zeca dedicou a José Dias Coelho que foi assassinado a tiro pela PIDE, em 19 de Dezembro de 1961, na Rua dos Lusíadas, em Lisboa: A Morte Saiu à Rua - uma canção de uma arrepiante beleza:
Afonso Duarte (1884-1958)
Elegia do cavador
Quadro de Graça Morais
Deus do céu venha a meu rogo
Que a enxada já mal se ferra:
Grita o sol dardos de fogo
E eu ando farto da terra!
Há nuvens negras a prumo
sobre os meus ombros, ó dor!
São minha carne a pôr fumo,
São bagas do meu suor.
Vejo daqui a subir
Fumeiros da minha casa…
Outros que passam a rir
Custam-me os nervos em brasa.
Serei eu escravo dum crime
que a Deus fizesse algum homem?
De corpo feito num vime,
Minhas lágrimas consomem.
Deu-me Deus a vida cara,
P´rás nuvens se vai meu ganho:
Custam-me os olhos da cara
Donas das terras que amanho.
(Sete Poemas Líricos, 1929)
Cavador ( 1913 ) Jardim Guerra Junqueiro (Jardim da Estrela), escultura de
Guerra Junqueiro (1850-1923)
O cavador
Dezembro, noite, canta o galo...
Rouco na treva canta o galo...
– Oh, dor! oh, dor! –
Aldeão não durmas!... Vai chamá-lo,
Miséria negra, vai chamá-lo!...
– Oh, dor! oh, dor! –
Bate-lhe à porta, é teu vassalo,
Que traga a enxada, é teu vassalo,
Miséria negra, o cavador!
O vento ulula... Tremem ninhos...
Na noite aziaga tremem ninhos...
– Oh, dor! oh, dor! –
A neve cai, fria d’arminhos...
Na escuridão, fria d’arminhos...
– Oh, dor! oh, dor! –
Passa maldito nos caminhos,
D’enxada ao ombro nos caminhos,
Fantasma negro, o cavador!
Vem roxa a estrela d'alvorada...
Vem morta a estrela d'alvorada –
– Oh, dor! oh, dor! –
Montanhas nuas sob a geada!...
Hirtas, de bronze, sob a geada!...
– Oh, dor! oh, dor! –
Torvo, inclinado sobre a enxada,
Rasga as montanhas com a enxada,
Fantasma negro, o cavador!
Cavou, cavou desde que é dia...
Cavou, cavou... Bateu meio-dia...
– Oh, dor! oh, dor! –
De pé na encosta erma e bravia,
Triste na encosta erma e bravia,
– Oh, dor! oh, dor! –
Largando a enxada, «Ave-Maria!...»
Reza em silêncio... «Ave-Maria!...»
Fantasma negro, o cavador!
Cavou, cavou na serra agreste,
D'alva à noitinha, em serra agreste...
– Oh, dor! oh, dor! –
E um caldo em prémio tu lhe deste,
Meu Deus!... seis filhos tu lhe deste...
– Oh, dor! oh, dor! –
Batem trindades... «Pai Celeste!...
Bendito sejas, Pai Celeste!...»
Reza, fantasma, o cavador!
Cavou cem montes... que é do trigo?
Gerou seis bocas... que é do trigo?!
– Oh, dor! oh, dor! –
Bateu a Fome ao seu postigo...
Bateu a Morte ao seu postigo...
– Oh, dor! oh, dor! –
«Que a paz de Deus seja comigo!...
Que a paz de Deus seja comigo!...»
Disse, expirando, o cavador!
(Os Simples, 1892)
Luís Cília canta-nos, com música de sua autoria, os versos de Guerra Junqueiro:
Afonso Duarte (1884-1958)
Praguejam pescadores: Ora esta, ora esta,
O mar na praia é um tambor em festa!
Danado e rouco ele há lá quem o fateixe!
O mar não anda bom…
E som, e som, som-som,
Deita a fugir o peixe.
Meus amigos, poveiros tal e qual
É a nobreza maior de Portugal!
Mesmo sou duma aldeia à beira-mar,
E ouço-o bem duas léguas em redol:
Meio ano a lavoirar,
Outro meio ao anzol!
Meus patrícios cada qual
Tem o seu bote que é o seu casal.
Mas, o Oceano, o mar nâo anda bom:
Ondas são trambolhões, e trambolhões de som!
Ó mar, meu brutamontes,
Música, deixa ouvi-la da noitinha;
Eu quero ouvir o murmurar das fontes
Que a noite já se avizinha….
(Lápides e outros poemas, organizado por Carlos de Oliveira e João José Cochofel, 1960)
Almeida Garrett (1799-1854)
Barca bela
Pescador da barca bela,
Onde vais pescar com ela,
Que é tão bela,
Ó pescador?
Não vês que a última estrela
No céu nublado se vela?
Colhe a vela,
Ó pescador!
Deita o lanço com cautela,
Que a sereia canta bela...
Mas cautela,
Ó pescador!
Não se enrede a rede nela,
Que perdido é remo e vela
Só de vê-la,
Ó pescador!
Pescador da barca bela,
Inda é tempo, foge dela,
Foge dela,
Ó pescador!
(Folhas Caídas, 1853)
Ouçamos agora o poema de Garrett cantado por Teresa Silva de Carvalho , autora da música:

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