Sexta-feira, 29 de Outubro de 2010

Notas soltas - por Carlos Godinho

Somos pequenos


Um jornal desportivo de ontem, iniciou a sua crónica sobre o Torneio de Apuramento para o Campeonato da Europa Sub/17, para o qual Portugal se qualificou, com o seguinte título: "Nada escapa ao Manchester...", e no sub-título: "Portugal apurou-se para a ronda de elite sob olhar atento de um dos maiores clubes da Europa". Num texto de mais de mil caracteres talvez cerca de 20% sejam referentes ao jogo propriamente dito, o resto são palavras sobre as qualidades e o trabalho de "scouting" do clube inglês. Até o destaque a Gonçalo Paciência, mais pela presença na bancada, do seu pai e de Vitor Baía, do que pelos seus atributos, parece deslocado, e nem uma palavra surge de realce para o trabalho colectivo da equipa. Aliás, veja-se como termina a crónica: "Atenção, pois, ao Manchester nada escapa. Nem mesmo o apuramento de Portugal para a ronda de elite". Espero ansiosamente pelo desenvolvimento do trabalho da Selecção Nacional "Sub/17" nestes meses que medeiam até ao Torneio de Elite, sobretudo para ir tomando nota das observações do Manchester, não vá o clube inglês ir falhando algo. Convém sempre estar atento para eventualmente se comunicar a Sir Alex qualquer deslize dos seus representantes...


Desporto é sempre onde e quando o quisermos




Onde, quando e sempre que o quisermos. Nem é preciso muito, uma tabela, ou uma baliza, quase sempre uma bola, alguns amigos, e já está. É este o caso junto ao mosteiro de Qinghai, na China, onde alguns religiosos de divertem com um improvisado jogo de basquetebol. E segundo consta Deus não protestou pelo interregno nas orações em favor da prática desportiva saudável e pura.


Língua de Camões


O Dínamo de Zabreg obrigou os seus profissionais a estudarem o croata. Em qualquer dos países para os quais os nossos profissionais se transferem acontece o mesmo. Nunca vi nenhum português a falar a sua língua, por exemplo, na Liga Inglesa. Ronaldo faz um esforço para falar em castelhano, o que está correcto. Ainda há bem pouco tempo vi Paulo Machado a pronunciar-se, no site do seu clube, num francês fluente, demonstrando assim respeito pelo país que o recebe. Em Portugal o que vemos? Semana após semana, na televisão e na rádio ouvimos os profissionais estrangeiros a trabalharem em Portugal, alguns com uns anos de presença entre nós, a falarem nas suas próprias línguas. Não deveria também de haver algum esforço no sentido de os obrigar a falar português? Eu acho que sim. Ou então, em alternativa, não os entrevistar até que dominassem a nossa língua, ou pelo menos que demonstrassem fazer um esforço nesse sentido. Não há muito tempo, na rádio, ouvi Valdemar Duarte a protestar, com razão, pelo facto do ex-treinador da Naval falar em francês, a sua língua, e o repórter a fazer um esforço para o compreender e traduzir. Imagine-se a situação, ao contrário, em França. Deixavam-no a falar sozinho.

(in Todos Somos Portugal)

publicado por Carlos Loures às 11:00
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Sempre Galiza! - Rosalia de Castro: Negra Sombra

coordenação de Pedro Godinho


Rosalia de Castro – Negra Sombra



Em tudo estás e tu és tudo,
Pra mim e em mim mesma moras,
Nem me abandonarás nunca,
Sombra que sempre me assombras.

   excerto do poema
  
Negra Sombra
 

Ainda Rosalia,
     sempre Rosalia...




Em 1880, como uma espécie de continuação de “Cantares Galegos”, Rosalia de Castro publica um novo livro de poemas em galego, “Follas Novas” (Folhas Novas).
Dele faz parte o poema “Negra Sombra”, que pela sua força e beleza é lido, declamado e cantado por muitos. Foi primeiro musicado pelo compositor e músico galego Xoán Montés Capón que o associou ao alalá, canto popular galego arrítmico considerado por muitos como a forma mais antiga e característica da música tradicional galega.

Negra Sombra

Cando penso que te fuches,
Negra sombra que m’asombras,
Ó pé d’os meus cabezales
Tornas facéndome mofa.
Cando maxino que’ês ida
N’o mesmo sol te m’amostras,
Y eres a estrela que brila,
Y eres o vento que zóa.
Si cantan, ês tí que cantas,
Si choran, ês tí que choras,
Y-ês o marmurio d’o río
Y-ês a noite y ês a aurora.
En todo estás e ti ês todo,
Pra min y en min mesma moras,
Nin m’abandonarás nunca,
Sombra que sempre m’asombras.
   in Follas Novas (1880)

Negra Sombra

Quando penso que te fuches,
Negra sombra que me assombras,
Ò pé dos meus cabeçales
Tornas fazendo-me mofa.
Quando magino que és ida,
No mesmo sol te me amostras,
I eres a estrela que brila,
I eres o vento que zoa.
Si cantam, és ti que cantas;
Si choram, és ti que choras;
I és o marmúrio do rio
I és a noite i és a aurora.
Em todo estás e ti és todo,
Pra min i em mim mesma moras,
Nin me abandonarás nunca,
Sombra que sempre me assombras.
   in Folhas Novas, edição da AGAL - Associaçom Galega da Língua

Negra Sombra

Aqui ficam duas interpretações de Negra Sombra, para ouvir e voltar a ouvir vezes sem conta:

A da asturiana Luz Casal sente-se na pele e faz chorar de emoção:



Igualmente tocante é a do músico galego Bibiano:




Folhas Novas pode ser encomendado (10€ mais envio) através da Imperdível, a loja electrónica da Associaçom Galega da Língua, em http://www.imperdivel.net/.

«Ediçom e notas de Elvira Souto, prólogo de F. Salinas Portugal. Estamos ante uma poética que afunda nos sentimentos, na saudade e que tem frequentemente, por horizonte, a fronteira do próprio ser.

O achegamento a umha obra como Folhas Novas, está sempre cheo de riscos; o primeiro deles advém a escrever um discurso sobre os múltiplos discursos que sobre Rosalia se fixérom, o outro existe se pretendemos conferir-lhe ao nosso discurso um valor universalizante do que nós queremos ficar à marge.

É a nossa umha leitura "individual", o fruto de um diálogo enormemente gratificante com a própria obra rosaliana

Num começo o poemário concebeu-se como uma continuação de Cantares Gallegos: 40% dos poemas de Follas Novas têm afinidade com o texto publicado em 1863, enquanto o restante das composições apresentam um diferente espírito poético motivado pelo afastamento da terra, as desgraças familiares e as doenças físicas e morais.»



Notícias (lidas no Portal Galego da Língua)

A cantora galega Ugia Pedreira apresentou esta semana em Portugal, no Porto e em Braga, o seu livro-disco-poemário Noente Paradise.
Hoje, dia 29, às 22 horas, dá um concerto na Casa da Música, no Porto.
Noente Paradise é «umha viagem polos mares do norte desde a entranha. Noente está nas praias do interior, segundo se passa por Cuba e se volta, sempre, a Galiza, à repetiçom da quotidiania delirante». «O paraíso está no vaivém contínuo da palavra ao som e do som ao texto».
O livro-disco pode ser encomendado através da Imperdível, a loja electrónica da AGAL – Associaçom Galega da Língua.

Dia 27 deste mês teve lugar em Santiago de Compostela o lançamento da obra magna de Daniel Castelão, Sempre em Galiza, com intervenções de Miguel Penas (editor), Fernando Corredoira (responsável pela adaptação) e os autores de dois dos prólogos, Francisco Rodríguez e Camilo Nogueira.
A edição é da ATRAVÉS|EDITORA, com adaptação para a norma internacional portuguesa de Fernando Corredoira, o qual contou com a colaboração de Ernesto Vásquez Souza para as notas.
Segundo Miguel Penas, vice-presidente da AGAL e director da ATRAVÉS|EDITORA, Sempre em Galiza é a obra que compila e mostra a amplitude do pensamento político de Castelão e «um dos alicerces ideológicos em que se apoiou o nacionalismo galego para se reconstruir após a barbárie fascista que começou no ano 1936, e da qual ainda hoje padecemos conseqüências bem diretas na Galiza».
O livro é acompanhado duma separata, Sempre Castelao – Sete achegas a Castelao e ao Sempre em Galiza, com textos demonstrativos da herança política que Castelão deixou ao povo galego.
O livro pode ser encomendado através da Imperdível, a loja electrónica da AGAL – Associaçom Galega da Língua.


NO ESTROLABIO, AMANHÃ É DIA DE CARVALHO CALERO!


"O galego ou é galego-português ou é galego-castelhano não há outra alternativa."




“Umha língua tam ameaçada como o galego nom pode sobreviver senom apoiando-se nas demais formas do sistema, quer dizer, reintegrando-se no complexo luso-galaico do qual geneticamente forma parte [...] O galego ou é galego-português ou é galego-castelam nom há outra alternativa. [...] Umha concórdia ortográfica, quando menos, e umha inteligência na opçom das formas lingüísticas que integrariam, sem prejuízo das peculiaridades do galego, o veículo geral de comunicaçom, seriam indispensáveis./ Deste jeito, seríamos o que somos, voltaríamos a ser o que fomos: o romance mais ocidental, nom esnaquizado em dous anacos isolados, senom reintegrado numha unidade sistemática que nom exclui a autonomia normativa” [...] “Alguns demagogos querem manter este estado de alienaçom, e rejeitam como artificiosas as formas restauradas. Comovedora homenagem de ignorância ou fanatismo ao mito do galego popular, se nom se trata de uma maquiavélica manobra encaminhada a fazer impossível a supervivência do galego.”

(“Sobre a nossa língua”, em Problemas da Língua Galega, Sá da Costa Editora, 1981, pp. 19-21, conferência no Clube Linguístico da Crunha, 7 fevereiro 1979)
publicado por estrolabio às 09:00
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Era uma vez uma Serra e um Vale

Eva Cruz

Já o sol vai alto
deixando para trás a Serra negra.
Apita na calçada o azeiteiro
o cansado chocalhar das almotolias
entrelaça o tropeçar gasto do burrico.
Escorre o azeite da torneirinha
o azeite que vai regar a medo
a ceia da lareira
a lareira do vinho quente da infusa
dos serões com lendas de encantar
e histórias de aterrar
a grade de ouro no fundo do rio
a pedra que promete grande tesouro
a quem a virar
o gado que foge
por artes do demónio
ou por feitiço
no meio das noites de Inverno
sem fim.
A lareira do saber
a falar das curas
das ervas e dos chás
das rezas e artes de talhar
o mau olhado
a espinhela caída e a erisipela.
É o mundo do fantástico
que põe à roda a cabeça de Raquel
e a faz ver para além da noite
no firmamento
alguma estrela que a verdade lhe conte
entre o sonho inventada e a fantasia.

Mas em tempo já sem conta
a verdade que tem
não é a verdade sonhada
nem a verdade que queria.

(In Era uma vez Future Kids)
publicado por Carlos Loures às 08:00
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Noctívagos, insones & afins: Carta aberta a Angela Merkel,

Rolf Dahmer

Carta aberta à Chanceler da República
Federal da Alemanha

“A estratégia sem táctica é o caminho mais lento para a vitória.Táctica sem estratégia é o ruído antes da derrota.”

Sun Tzu (544 – 496 A.C. – General chinês e um dos maiores estrategas militares de todos os tempos e autor de “A arte da guerra”)

Cara Sra. Merkel,

A situação no país, na União Europeia e no mundo, torna-se cada vez mais
confusa. As velhas regras deixam de estar em vigor e as novas ainda não
nasceram. A ameaça de que as coisas fiquem fora de controlo é cada vez maior e a
perda de poder da Pax Americana – god’s own country and his partners in
misleadership, a UE, nós – torna-se cada vez mais óbvia. Basta pensarmos como
há pouco, em Copenhaga, os líderes do sistema de líderança da Pax Americana,
incluindo o Presidente Obama, foram afrontados e humilhados. Um acontecimento
ultrajante que, no futuro, deverá repetir-se cada vez com mais frequência – se não
agirmos.

E não é só pelo país fora que isto se sente. Também pelo aspecto cansado da
senhora se pode notar que luta, cada vez mais em vão, contra os mecanismos de
correcção cibernéticos da natureza – invisible hands de sinais contrários –, contra
os quais não pode ganhar. Sobretudo se continuar a dispersar-se perdidamente e a
atacar todos os problemas materializados individualmente, em vez de identificar e
resolver o problema central – com a “espada” e não mais com os “dedos”.
Aumentar a quantidade das suas queridas mensagens sms? Esqueça, isto só iria
piorar a situação ainda mais.
Que tal se experimentasse quebrar finalmente o seu tabu férreo e tentasse uma
simples mudança de estratégia?




Em 26 de Agosto 2007 escrevi-lhe – e ao mesmo tempo ao Sr. Barroso – sob o
assunto “Um “New Deal” para o Terceiro Mundo, a União Europeia e a Alemanha
― três grandes objectivos que se excluem?”, uma carta pessoal na qual, entre
outros, lhe chamei a atenção para o seguinte problema central: a estratégia linear,
e por isso errada, da União Europeia e, naturalmente, a dos seus mandantes nas
capitais europeias – sem os quais o Sr. Barroso não dá nenhum passo para a frente
e prefere concentrar-se em coisas tão importantes como a poibição de venda de
lâmpadas incandescentes e foscas.

Acerca do referido problema central que faz estagnar a UE, escrevi-lhe:
“Para isso, é preciso admitir primeiro, com toda a sinceridade, que o objectivo da
agenda de Lisboa de Março 2000 ―“tornar a UE no espaço económico mais
dinâmico e competitivo do mundo, baseado no conhecimento e capaz de garantir
um crescimento económico sustentável, com mais e melhores empregos e maior
coesão social” ― está errado. Errado, porque constitui um objectivo primariamente
introvertido e egocêntrico, cuja perseguição conduz a efeitos e resultados errados,
por não ser recompensado pelo meio envolvente em que a Europa se insere.” Com
efeito: "Se o objectivo principal for de definição errada, também todos os
posteriores passos dirigidos na direcção daquele objectivo o são, mesmo que
fossem correctos se dirigidos na direcção de um objectivo diverso. O facto de se
poder alcançar sucessos passageiros com o consequente uso de vistas curtas, não
altera nada na sua nocividade a longo prazo", ensinou-me o meu professor, o
investigador de sistemas Prof. h.c. Wolfgang Mewes, criador da “Teoria da Gestão
Cibernética (EKS)”E depois o princípio de aproximação à solução do problema: „... O novo objectivo poderia ser: “...tornar-se (a UE), através dos seus Estados membros, de perfis e de know how social e técnico diversos e multíplices, (tal como um canivete suiço multifunções), a preferencial parceira e solucionadora de problemas para os países do mundo menos desenvolvidos, contribuindo para desenvolvê-los sistematicamente em virtude de um New Deal...“

Infelizmente a minha carta caiu, juntamente com o meu esboço estratégico – New
Deal –, nas mãos de um dos seus assesores na Chancelaria, o qual não foi capaz de
distinguir uma matéria de importância para o patrão, de um assunto de chacha.
Talvez na altura a hora ainda não tivesse chegado, mas com a rapidez com que as
coisas actualmente se precipitam, muito em breve até propostas de solução de
problemas totalmente disparatadas e descabeladas – talvez um qualquer „metodo
de borras do café“ !? – poderão passar o referido „filtro“.
E tinhamos ainda a Europa, a Europa dos objectivos sublimes e nobres de outrora,
que eu conhecia na minha juventude e defendia com fervor, recomendando-a
também desde 1964 aos meus amigos na minha segunda pátria – Portugal. Que
aconteceu com esta Europa? Ora, depois de três décadas de comportamento linear
e de crescente falta de liderança, o sistema se encontra de candeias às avessas.
Em vez de avançar com o topo da pirâmide, tenta avançar com a base, através de
esforços cada vez mais sobrehumanos e vãos. E depois dos europeus – os seus
líderes impotentes e sem rumo agarraram-se ferreamente ao comportamento linear
– terem perdido a capacidade de superar a unidade polar entre espírito e matéria,
indispensável para garantir o equilíbrio do sistema, o espírito esgueirou-se. O que
restou foi mera matéria – dinheiro! “O espírito que se dane, venha cá o “cacau” de
Bruxelas ou a Alemanha e o resto é conversa”, é o que hoje porventura pensa a
maioria do povo. É por isso que agora o “cacau” começa a mirrar.

Foi já desde o início dos anos 90 que adverti os meus amigos portugueses, e não
só, contra as consequências dessa falta de estratégia, em cartas, conversas, mails
e artigos de jornal, reafirmando sempre de novo: “... quando uma União Europeia
às avessas, que de outrora extrovertida e alterocêntrica virou introvertida e
egocêntrica, chegar ao fim da linha, serão os seus subsistemas menos
desenvolvidos os primeiros que terão que passar pelas armas”. A título de
prevenção – de Bruxelas, já na altura sem perfil nem liderança – não vieram sinais
nenhuns, já então recomendava aos portugueses no meu artigo de 1997 “Porque
vale a pena apostar em África” , que criassem, finalmente, um claro perfil sócio-
económico de país solucionador de problemas para um determinado grupo-alvo no
mundo e que desenvolvessem e executassem neste sentido uma estatégia,
independentemente de Bruxelas. Eles um dia viriam a precisar disto urgentemente.

Todavia, as minhas repetidas advertências e os meus postulados não foram
percebidos nem seguidos. Pois é, tal como já sabia Friedrich von Schiller é “contra
os subsídios que até os próprios Deuses lutam em vão” – ou terá dito “contra a
estupidez?”
Infelizmente o meu vaticínio cumpriu-se e a primeira vítima, Grécia, já se encontra
no trampolim de dez metros, debaixo de si uma piscina sem água. E Portugal já
vestiu o calção de banho, também a Espanha já anda à procura dele, na esperança
desesperada de não precisar dele. Who is next?
Diga-me, cara senhora Merkel, já alguma vez reparou que também a Alemanha,
um dos principais co-responsáveis desta marcha sem rumo, se encontra na mesma
fila, só um pouco mais atrás? Já reparou que nos encontramos à beira de uma
negativa reacção social em cadeia, capaz de pôr fim a toda esta fantochada? Como
física doutorada, certamente tem conhecimentos de cibernética – pequenas causas,
grandes efeitos. Mas sabia que também em sóciosistemas valem essas mesmas leis
da natureza? Já teve a ideia de que em todos os sistemas naturais é sempre a
estratégia que determina tudo – “Structure follows strategy”- S.C.Chandler – e que
a actual estratégia, a nível supranacional da UE e aos níveis nacionais, pode estar
totalmente errada?

Seria bom que pensasse sobre estas coisas. E particularmente sobre o facto de que
a senhora é, em Berlim, a responsável principial e em Bruxelas a principal co-
responsável, por um sóciosistema outrora aberto e bem sucedido que pouco a
pouco se transformou num sistema fechado, já não receptivo a sinais externos e
em vias de fracasso, que só funciona quando alguém entra com um cheque sempre
que a crise aperta?

Com efeito, não são a Grécia, Portugal e outros os responsáveis pelo desastre que
se vislumbra. Pelo contrário, os responsáveis são aqueles que durante décadas
perderam oportunidades de efectuar mudanças de estratégias eficazes em
Bruxelas, ou mesmo as impediram por motivos egocêntricos e delegaram o governo
em gente medíocre. Ambos os referidos países, e outros, puderam fazer o que
fizeram porque tiveram o poder para tal, precisamente porque Bruxelas anda sem
liderança e sem rumo. Ora, os referidos países naturalmente são co-responsáveis,
pois houve certamente uma altura em que tiveram a oportunidade de criar, eles
próprios, e mediante uma mudança de estratégia auto-responsável, aquilo que o
Prof. Hans-Werner Sinn, Director do ifo-Institut de Munich, numa recente entrevista
em SPIEGEL-Online designou de um “modelo de negócios” (inexistente). É pena,
pois em caso de sucesso até poderiam ter emitido um sinal positivo a nível da UE,
promovendo uma mudança.

A senhora, a não ser que queira demitir-se, agora tem – do ponto de vista linear –
duas hipóteses: 1) Insiste na sua estratégia, que na realidade não passa de mera
táctica, até ao fim amargo. 2) Insiste, face ao desastre que cada vez mais se
aproxima, numa reforma da UE não baseada em princípios sistémicos-holísticos,
que na realidade não passaria de uma pseudo-reforma (combate aos problemas
singulares que agora surgem em catadupa, com meios materiais-mecanicistas,
continuando a não considerar as suas causas imateriais-psíquicas).

Todavia, ainda existe uma terceira hipótese, a não linear, dinâmica: a senhora
finalmente deixa de brincar às tácticas e começa a introduzir estratégia, a par com
a arte de liderança cibernética. Isto poderá ter lugar reconhecendo primeiro que a
sua estratégia é inexistente ou errada. Seguidamente, começa a planear uma
realização de grande impacto, a qual já em 2005 acariciou (Prof. Kirchhof!?). Na
actual situação, porém, terá que tratar-se de vender algo aos alemães e à UE que
tenha como consequência uma grande realização libertadora: a reorientação da UE
e da Alemanha para objectivos novos, extrovertidos e alterocêntricos no sentido do
meu esboço estratégico do qual, a pedido, lhe poderei enviar um novo exemplar.
Isto seria o “factor mínimo” externo, o decisivo por dizer respeito a necessidades
“candentes” de um determinado grupo-alvo. Lembro, pois, que se trata de eliminar
a armadilha da pobreza do 3º mundo pela qual a UE é uma das principais co-
responsáveis, fazendo com que cerca de 3 mil milhões de recebedores de esmolas
no mundo se tornem os nossos parceiros de trocas e clientes (cf. “New Deal” ).

Que gigantesco desafio para a os povos da UE e que grande oportunidade para todos nós, que hoje só olhamos para os nossos botões, voltarmos a ser úteis. A nossa aconteceria – esta é a notícia menos boa – de maneira tão dura e drástica e no meio de graves turbulências sociais – insurreição! – que a senhora entraria na
história como administradora de declínio, mal sucedida, da Alemanha e da Europa.
Porém, se estiver disposta e na posição de enveredar pelo caminho sistémico-
holístico do são juizo humano, transformando assim o actual sistema fechado
novamente num sistema aberto, criando ainda novo crescimento orgânico, então
causará – repito – nova confiança, fé, entusiasmo e motivação, a par com uma
vibrante atmosfera de alvoroço e de abalada para novos horizontes. O sublime e
nobre espirito europeu, indispensável para o equilíbrio do sistema, então voltaria
retomando a sua acção benéfica de outrora. Tanto a nível da UE, como em Berlim,
Paris, Londres, Madrid, Lisboa, etc. e no mundo.

Cara senhora Merkel, ponha um fim ao „tempo do adiamento, das meias medidas,
dos expedientes apaziguadores e frustrantes, dos atrasos“ – cf. abaixo – dos
últimos anos. Deixe para trás os lugares comuns e palavras ocas, em que já
ninguém acredita. Deixe de reagir e comece finalmente a agir. Pense, face à actual
situação mais que desesperada, no famoso discurso de Sir Winston Churchill de
1936 sobre o appeasement: “O tempo do adiamento, das meias medidas, dos
expedientes apaziguadores e frustrantes, dos atrasos, está a chegar ao fim. No seu
lugar, estamos a entrar num período de consequências.” Está a reconhecer o seu
perfil no discurso? Contudo, pense também, como sinal de esperança, nas palavras
do nosso grande Rei da Prússia, Frederico II: "Quem apelar à fantasia e à mente do
homem, vencerá aquele que tenta apenas influir sobre a razão".
Aja, senhora Merkel! Se agir terá uma boa hipótese de dar a volta por cima às
coisas na última da hora, tornando-se Líder de Renovação bem sucedida – na
Alemanha, na UE e com impactos benéficos em todo o mundo. A decisão é sua –
ainda.
Com os melhores cumprimentos de Estoril / Portugal
Rolf Dahmer
publicado por Carlos Loures às 03:00
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Arte poética: Fernando Correia da Silva, Carlos Pena Filho e José Luís Peixoto

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Fernando Correia da Silva
(Lisboa, 1931)
ADUNAR


Adunar na vertical é transformar o instinto em razão e esta naquele.
É conseguirmos ver o Invisível.
É usarmos de infravermelhos para localizar o Monstro agora diluído em estruturas canibais, omnipotência, omnipresença.
É sabermos detectar a tempo as suas teias e evitar nelas pousar.
É rasgarmos as suas máscaras, sejam elas lotes de acções ou abertura de caça ao preto e ao cigano.
É darmos valor à vida humana, em vez do preço que ele pretende atribuir-lhe.
É sermos indiferentes à diferença entre irmãos, homens que todos somos.
É não deixarmos que ele converta as nossas vidas num andar solitário por entre a gente.
É não deixarmos que ele transforme os homens em colónias de formigas.
É conseguirmos pôr no Soweto um pianista japonês a emocionar a assistência com um nocturno de Chopin.
É não deixarmos que tantos morram à fome enquanto permanecem terras férteis em pousio e há trigo acumulado nos celeiros.
É não consentirmos que as máquinas tomadas pelo Monstro nos deixem com a alma em desarrimo.
É não deixarmos que ele transforme o planeta em esgoto a céu aberto.
É não aceitarmos as gorjetas que ele oferece para olharmos para o outro lado.
É não deixarmos que nos atire para a lixeira.
É não consentirmos que o Direito Comercial lace, aperte, esmague e devore os Direitos do Homem.
É arrimar-nos a um tronco largo quando a jibóia ataca, comprimento ela não tem para laçar-nos juntamente com a árvore.
É puxarmos da catana e retalhá-la se ela insistir no ataque.
É dinamitarmos a digestão antropofágica do Labirinto.
É espantarmos os disciplinados cumpridores de ordens, os bandos de corvos sempre à espera da sua quota-parte de carniça.
É ensinarmos as gaivotas a cagar na cabeça de arrogantes e presunçosos.
É darmos um banho de lixívia aos engravatados distribuidores de paninhos e água quente.
É cravarmos malaguetas no umbigo do Dr. Prepotência, e outras, como flechas, no cu que o Dr. Banqueiro tem como cofre.
É nunca ficarmos de costas para os traidores que há na vida.
É estarmos sempre atentos às manobras do Piloto que elegemos.
É sabermos transformar as espadas em arados e as metralhadoras em berbequins.
É levarmos os mansos a possuir a terra.
É consolarmos os que choram.
É saciarmos os que têm fome e sede de justiça.
É acreditarmos que, embora Invisível, será ainda possível empurrar o génio do Santo Lucro para dentro da garrafa, como outrora acreditámos que era possível vencer o Hitler, mesmo quando todos, até os nossos filhos, garantiam que ele já era o rei do mundo.
_______________________

Carlos Pena Filho


(Recife, 1929 – 1960)


PARA FAZER UM SONETO



Tome um pouco de azul, se a tarde é clara,
e espere pelo instante ocasional.
Nesse curto intervalo, Deus prepara
e lhe oferta a palavra inicial.

Aí, adote uma atitude avara:
se você preferir a cor local,
não use mais que o sol de sua cara
e um pedaço de fundo de quintal.

Se não, procure a cinza e essa vagueza
das lembranças da infância, e não se apresse;
antes, deixe levá-lo a correnteza.

Mas ao chegar ao ponto em que se tece
dentro da escuridão a vã certeza,
ponha tudo de lado e então comece.

(O tempo da busca, 1952)


________________
 
José Luís Peixoto
(Galveias,  Ponte de Sôr, 1974)
 
ARTE POÉTICA




O poema não tem mais que o som do seu sentido,
a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
o poema é esculpido de sentidos e essa é a sua forma,
poema não se lê poema, lê-se pão ou flor, lê-se erva
fresca e os teus lábios, lê-se sorriso estendido em mil
árvores ou céu de punhais, ameaça, lê-se medo e procura
de cegos, lê-se mão de criança ou tu, mãe, que dormes
e me fizeste nascer de ti para ser palavras que não
se escrevem, lê-se país e mar e céu esquecido e
memória, lê-se silêncio, sim, tantas vezes, poema lê-se silêncio,
lugar que não se diz e que significa, silêncio do teu
olhar de doce menina, silêncio ao domingo entre as conversas,
silêncio depois de um beijo ou de uma flor desmedida, silêncio
de ti, pai, que morreste em tudo para só existires nesse poema
calado, quem o pode negar?, que escreves sempre e sempre, em
segredo, dentro de mim e dentro de todos os que te sofrem.
o poema não é esta caneta de tinta preta, não é esta voz,
a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
o poema é quando eu podia dormir até tarde nas férias
do verão e o sol entrava pela janela, o poema é onde eu
fui feliz e onde eu morri tanto, o poema é quando eu não
conhecia a palavra poema, quando eu não conhecia a
letra p e comia torradas feitas no lume da cozinha do
quintal, o poema é aqui, quando levanto o olhar do papel
e deixo as minhas mãos tocarem-te, quando sei, sem rimas
e sem metáforas, que te amo, o poema será quando as crianças
e os pássaros se rebelarem e, até lá, irá sendo sempre e tudo.
o poema sabe, o poema conhece-se e, a si próprio, nunca se chama
poema, a si próprio, nunca se escreve com p, o poema dentro de
si é perfume e é fumo, é um menino que corre num pomar para
abraçar o seu pai, é a exaustão e a liberdade sentida, é tudo
o que quero aprender se o que quero aprender é tudo,
é o teu olhar e o que imagino dele, é solidão e arrependimento,
não são bibliotecas a arder de versos contados porque isso são
bibliotecas a arder de versos contados e não é o poema, não é a
raiz de uma palavra que julgamos conhecer porque só podemos
conhecer o que possuímos e não possuímos nada, não é um
torrão de terra a cantar hinos e a estender muralhas entre
os versos e o mundo, o poema não é a palavra poema
porque a palavra poema é uma palavra, o poema é a
carne salgada por dentro, é um olhar perdido na noite sobre
os telhados na hora em que todos dormem, é a última
lembrança de um afogado, é um pesadelo, uma angústia, esperança.
o poema não tem estrofes, tem corpo, o poema não tem versos,
tem sangue, o poema não se escreve com letras, escreve-se
com grãos de areia e beijos, pétalas e momentos, gritos e
incertezas, a letra p não é a primeira letra da palavra poema,
a palavra poema existe para não ser escrita como eu existo
para não ser escrito, para não ser entendido, nem sequer por
mim próprio, ainda que o meu sentido esteja em todos os lugares
onde sou, o poema sou eu, as minhas mãos nos teus cabelos,
o poema é o meu rosto, que não vejo, e que existe porque me
olhas, o poema é o teu rosto, eu, eu não sei escrever a
palavra poema, eu, eu só sei escrever o seu sentido.

(A Criança em Ruínas)


Às onze chegam  o Casimiro de Brito, a Augusta Clara de Matos e o Celso Emilio Ferreiro
publicado por Carlos Loures às 01:30
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Quinta-feira, 28 de Outubro de 2010

Dia de Lisboa - António Gedeão, Maluda, Joaquim Pessoa, José Fanha, Carlos Mendes e Alberto Ribeiro (e nós com eles) despedem-se de Lisboa.

E assim, 24 horas depois, chegamos ao final deste "Dia de Lisboa".  Agradecemos todas as ajudas que nos foram dadas neste trabalho. Saudamos em particular o blogue "Lisboa no Guiness" onde recolhemos a canção do Alberto Ribeiro e desejamos que a campanha de Vítor Marceneiro seja coroada de êxito. Todo o material que aqui apresentamos, está ao seu dispor. Por agora, chegamos ao fim.

Três despedidas e um bilhete postal - António Gedeão, o grande poeta que vivia dentro do corpo do cientista Rómulo de Carvalho, oferece-nos um poema - "Adeus a Lisboa", cujo manuscrito podemos ver
abaixo, á direita. Carlos Mendes, com música sua e poema de Joaquim Pessoa, sob o mesmo título, brinda-nos com uma bonita canção, Alberto Ribeiro, o eterno cantor de "Coimbra", sela a despedida com o seu adeus. Tudo escrito nas costas de um lindo postal de Maluda que, nascida em Goa, não podia ser mais lisboeta.

António Gedeão (1906-1997)

 - ao lado: manuscrito do poema


Adeus, Lisboa




Vou-me até à Outra Banda
no barquinho da carreira.
Faz que anda mas não anda;
parece de brincadeira.
Planta-se o homem no leme.
Tudo ginga, range e treme.


Bufa o vapor na caldeira.
Um menino solta um grito;
assustou-se com o apito
do barquinho da carreira.
Todo ancho, tremelica
como um boneco de corda.
Nem sei se vai ou se fica.
Só se vê que tremelica
e oscila de borda a borda.




Chapas de sol, coruscantes
como lâminas de espadas,
fendem as águas rolantes
esparrinhando flamejantes
lantejoulas nacaradas.
Sob o dourado chuveiro,
o barquinho terno e mole,
vai-se afastando, ronceiro,
na peugada do Sol.




A cada volta das pás
moendo as águas vizinhas,
nos remoinhos que faz,
nos salpicos que me traz
e me enchem de camarinhas,
há fagulhas rutilantes,
esquírolas de marcassites,
polimentos de pirites,
clivagens de diamantes,


Numa hipnose colectiva,
como um friso de embruxados,
ao longe os olhos cravados
em transe de expectativa,
todos juntos, na amurada,
numa sonolência de ópio,
vemos, na tarde pasmada,
Lisboa televisada
num vasto cinemascópio.
O sol e a água conspiram
num conluio de beleza,
de elixires que se evadiram
de feiticeira represa.
Fulva, no céu incendido,
em compostura de pose,
a cidade é colorido
cenário de apoteose.
Há lencinhos agitados
nos olhos de todos nós,
engulhos de namorados,
embargamentos na voz.
Nesta quermesse do ar,
neste festival de tons,
quem se atreve a acreditar
que os homens não sejam bons?




Adeus, adeus, ribeirinha
cidade dos calafates,
rosicler de água-marinha,
pedra de muitos quilates.
Iça as velas, marinheiro,
com destino a Calecu.
Oh que ventinho rasteiro!
Que mar tão cheio e tão nu!
Ó da gávea! Põe-te alerta!
Tem tento nos areais.
Cá vou eu à descoberta
das índias Orientais.
Não tenho medo de nada,
receio de coisa nenhuma.

A vida é leve e arrendada
como esta réstea de espuma.
Toda a gente é séria e é boa!
Não existem homens maus!
Adeus, Tejo! Adeus Lisboa!
Adeus, Ribeira das Naus!
Adeus! Adeus! Adeus! Adeus!


Uma canção com o mesmo título, com poema de José Fanha e música de Carlos Mendes. Canta o Carlos Mendes.



Alberto Ribeiro, uma voz muito conhecida e admirada, o cantor de «Coimbra» , intérprete com Amália Rodrigues do filme «Capas Negras», despede-se também de Lisboa.



Adeus Lisboa! Adeus Amigos, até já. Encontramo-nos, sabem onde? - No Porto. O "Dia do Porto" será em Novembro, em data que anunciaremos oportunamente.
publicado por Carlos Loures às 23:55
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Dia de Lisboa - A Ala dos Namorados, Míisia, Amália Rodrigues, Jorge Palma e Mariza - canções de Lisboa

Estamos quase a chegar ao termo desta longa maratona. Esperamos que tenham apreciado as dezenas de artistas que trouxemos até ao nosso modesto palco. Agora, apresentamos quatro canções, sem outra relação entre si que não seja o serem dedicadas a Lisboa. Em primeiro lugar a Ala dos Namorados - «Loucos de Lisboa» ( música de João Gil e letra de João Monge) na magnífica interpretação de Nuno Guerreiro. Não esqueçam que

São os loucos de Lisboa
Que nos fazem recordar
A Terra gira ao contrário
E os rios correm para o mar




Mísia, uma intéprete de grande expressividade, canta-nos "Que fazes aí Lisboa?", uma composição de Amália Rodrigues.



Vamos ouvir de novo Amália Rodrigues, agora em "Lisboa não sejas Francesa"  uma composição de José Galhardo e de Raul Ferrão Em 1945 estreava-se a opereta "A Invasão", escrita por José Galhardo, Raul Ferrão, Vasco Santana e outros. Tinha um elenco de luxo - Vasco Santana, António Silva, Mirita Casimiro e Amália Rodrigues, entre muitos outros. Amália ainda não era a vedeta internacional em que se converteu anos depois. A opereta, sobre a resistência lisboeta à ocupação francesa durante a primeira invasão,  a de Junot em 1807, obtinha nesta canção um pico de popularidade - toda a gente a trauteava - a peça esteve dois anos em exibição.


E para terminarmos da melhor maneira este penúltimo bloco, ouçamos Jorge Palma e Mariza - "Canção de Lisboa", uma composição de Jorge Palma.

publicado por Carlos Loures às 23:00
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Dia de Lisboa - LIa Gama, Fernando Correia da Silva e Almada Negreiros, falam dos cáfés de Lisboa

Fernando Correia da Silva diz-nos como era no Café Chiado



Na Rua Garrett, em Lisboa, o Café Chiado é uma gruta mágica. Para além da
estudantada, ali abancam os surrealistas Cesariny de Vasconcelos, António Maria Lisboa, Alexandre O’Neill e Mário Henrique Leiria. Também os artistas plásticos Ribeiro Pavia, João Abel Manta, António Alfredo, o escultor José Dias Coelho. E ainda dois pretinhos angolanos, o Agostinho Neto que estuda Medicina e o Mário Pinto de Andrade que estuda Filologia Clássica, juntamente com o seu irmão Joaquim. O Agostinho é cara de pau, estou em crer que os seus lábios jamais ameaçaram sorrir. Justamente o contrário do Mário, que dá tudo o que pode por uma boa gargalhada. A este faço a vontade. Estamos em Janeiro de 1951 e faz muito frio. Digo, para quem me queira ouvir:

- Quem vir um sobretudo pelo de camelo a andar sozinho pela Rua Garrett, detenha-o e espreite lá para dentro. Verá, todo encolhido, um pretinho que atende pelo nome de Mário Pinto de Andrade.

À minha volta, o Mário e a restante malta desmancham-se a rir. Excepto o Agostinho, obviamente.

Insisto, quero verificar as diferenças até ao fim. Há um frequentador do Café, um homem de meia idade, com físico e cara de Buda. Tem um parafuso desapertado. Se ninguém lhe dá palavra, fica as tardes a contemplar uma chávena vazia de café. Chamo-lhe Sr. Engenheiro mas não sei se engenheiro ele é. Meto conversa, gosto das suas respostas que, normalmente, perdem o norte.

- Então, Sr. Engenheiro, onde é que foi ontem?
- Ontem fui à Feira Popular.
- Fazer o quê?
- Fui à montanha russa.
- E depois?
- Aquilo subiu, subiu, subiu e, lá no alto, parou.
- E depois?
- Depois começa a descer, a descer, a descer, ai que aflição.
- E depois?
- Depois chego cá abaixo e como um bife com batatas fritas.

Gargalhadas, o Mário mais que todos. O Agostinho continua impávido, rigidez.

Sussurro ao ouvido do Alexandre O’Neill:

- Estes dois angolanos são muito diferentes um do outro. Um dia destes ainda vão andar à batatada, é inevitável.
- Fernando, lá estás tu com a mania de adivinhar o futuro...
- A ver vamos se é mania ou intuição...

Era mesmo intuição. Anos depois, durante a guerra pela independência de Angola, o Mário e o Agostinho entraram num tal confronto que o Mário teve que emigrar para a Guiné-Bissau.


Almada Negreiros na sua tertúlia da Brasileira do Chiado



Para terminar, Lia Gama canta.nos os cafés de Lisboa. Ora aqui estão três versões coincidentes.


publicado por Carlos Loures às 22:00
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Dia de Lisboa - Anoitece em Lisboa - Cesário Verde e Kátia Guerreiro

Duas maneiras, separadas por um século e meio e por muitas outras coisas, de ver o anoitecer e a noite em Lisboa. Cesário Verde, em meados do século XIX, via assim essa hora soturna:

Cesário Verde (1855-1886)


Ave Marias


1

Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.
O céu parece baixo e de neblina,
O gás extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.
Batem os carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!
Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edificações somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.
Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueirões, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.
E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!
Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu não verei jamais!
E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!
De um couraçado inglês vogam os escaleres;
E em terra num tinir de louças e talheres
Flamejam, ao jantar, alguns hotéis da moda.
Num trem de praça arengam dois dentistas;
Um trôpego arlequim braceja numas andas;
Os querubins do lar flutuam nas varandas;
Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas!
Vazam-se os arsenais e as oficinas;
Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;
E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,
Correndo com firmeza, assomam as varinas.
Vêm sacudindo as ancas opulentas!
Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
E algumas, à cabeça, embalam nas canastras
Os filhos que depois naufragam nas tormentas.
Descalças! Nas descargas de carvão,
Desde manhã à noite, a bordo das fragatas;
E apinham-se num bairro aonde miam gatas,
E o peixe podre gera os focos de infecção!

(in Sentimento de um Ocidental )





Katia Guerreiro  canta  "Lisboa à Noite" .

publicado por Carlos Loures às 21:00
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Dia de Lisboa - Lisboa no cinema


Carla Romualdo


Lisboa tem razões para envaidecer-se da sua passagem pelo grande ecrã. Se o primeiro filme produzido e realizado em Portugal foi da autoria do portuense Aurélio da Paz dos Reis e se rodou à porta da Fábrica Confiança, na Rua de Santa Catarina, bem no centro da Invicta, depressa o cinema português tomou a capital como cenário.

De entre as primeiras longas-metragens, ainda mudas, realizadas em Portugal várias tiveram Lisboa como cenário: “O Rapto de Uma Actriz” (1907), de Lino Ferreira, “O Quim e o Manecas” (1916), de Ernesto de Albuquerque, “O Primo Basílio” (1922), de Georges Pallu, “Lisboa, Crónica Anedótica” (1930), de Leitão de Barros.

E esta tendência confirma-se nas primeiras longas-metragens sonoras, a começar pela primeira que se realizou em Portugal, “A Severa”, de Leitão de Barros, realizada em 1931, e a que se seguiria, dois anos depois, “A Canção de Lisboa”, de Cottineli Telmo, do qual se poderia dizer que ainda hoje dificilmente se encontra algum português maior de dez anos que não o tenha visto pela menos uma vez.

A marcha do “Olh’o balão”, o “Fado do estudante”, a canção da agulha e do dedal, o esternocleidomastoideu, “Chapéus há muitos, seu palerma!”. Quantos filmes poderiam orgulhar-se de se terem perpetuado de tal forma na memória de gerações de espectadores como “A canção de Lisboa”?



Os anos seguintes corresponderiam ao "período de ouro" da comédia portuguesa, com uma sucessão de filmes cuja acção decorre em Lisboa: “O Pátio das Cantigas” (1932), de Francisco Ribeiro, cuja acção decorre num típico pátio lisboeta, “O Pai Tirano” (1941), de António Lopes Ribeiro, centrado nas desventuras amorosas de um empregado dos armazéns Grandela, ou ainda “O Leão da Estrela” (1947) e “O Costa do Castelo” (1943), ambos de Artur Duarte. Comédias de costumes, nas quais se exaltam os valores do regime: a honradez na pobreza, a humildade abençoada pela Divina Providência, a casinha modesta e alegre.

Novos ventos soprarão no cinema português a partir dos anos 60, com aquilo a que se convencionaria chamar “cinema novo”. “Verdes Anos” (1963), de Paulo Rocha, com a extraordinária música de Carlos Paredes, rodado na zona do café Vává, traçava o retrato de uma geração encerrada numa Lisboa claustrofóbica.





Seguem-se-lhe “Belarmino” (1964), de Fernando Lopes, retrato em grande plano desse filho de Lisboa caído em declínio, e “Domingo à tarde” (1965), de António de Macedo, adaptação do romance homónimo de Fernando Namora.

Os anos 80 são inaugurados com uma entrada triunfal da Lisboa de má fama nas salas de cinema: Intendente, Bairro Alto, Alfama. É por lá que se passeiam Kilas e a sua amante, a artista de variedades Pepsi-Rita, notáveis Mário Viegas e Lia Gama, cujos passos errantes são embalados pela banda sonora de Sérgio Godinho. “Kilas, o mau da fita” (1980), de José Fonseca e Costa, continua a ser um dos maiores êxitos de bilheteira do cinema português.







“Saudades para D. Genciana” (1983), de Eduardo Geada, transpõe para o cinema o universo literário de José Rodrigues Miguéis e recupera a Lisboa dos anos que antecederam a instauração do Estado Novo, centrando a acção numa pensão da Avenida Almirante Reis.

Nos anos seguintes, Lisboa será cenário recorrente dos mais emblemáticos filmes portuguesas da década de 80: “Crónica dos Bons Malandros” (1984), de Fernando Lopes, “O Lugar do Morto” (1984), de António Pedro Vasconcelos, “O Vestido cor de Fogo” (1985), de Lauro António, “Recordações da Casa Amarela” (1989), de João César Monteiro, este último premiado com o Leão de Prata no Festival de Veneza.







“A Caixa” (1994), de Manoel de Oliveira, cuja acção decorre nas Escadinhas de S. Cristóvão, onde um mendigo cego (Luís Miguel Cintra) defende a custo a caixa das esmolas;





“Corte de Cabelo” (1995), aclamada primeira longa-metragem de Joaquim Sapinho, rodada na totalidade em Lisboa e em particular no Amoreiras Shopping;

“Ossos” (1997), de Pedro Costa, retrato documental da vida no gueto, o bairro das Fontainhas.

E “Capitães de Abril” (2000), de Maria de Medeiros, relato épico das 24 horas mais marcantes da história contemporânea portuguesa.





Recentemente, estreou-se “Desassossego”, de João Botelho, audaciosa adaptação do “Livro do Desassossego” de Fernando Pessoa, a obra fragmentária de Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na baixa de Lisboa.





Lisboa no cinema estrangeiro

No cinema Lisboa já foi Assunción, a capital paraguaia (em “The boys from Brazil”, 1978, de Franklin J. Schaffner) e Santiago do Chile (em “A Casa dos Espíritos”, 1993, Billie August), já foi pano de fundo nunca  identificado em filmes como “The Ninth Gate” (1999), de Roman Polanski, mas foi igualmente cenário privilegiado, quando não protagonista de uns quantos títulos, dos quais o primeiro terá sido “Lisbon” (1956), de Ray Milland, filme de espionagem que incluía na banda sonora o tema “Lisboa antiga”.

Em 1969, James Bond chegava a Lisboa, haveria de instalar-se no Estoril, e acabaria por casar-se e rapidamente enviuvar num dos piores filmes da saga: “007, Ao Serviço de Sua Majestade”, de Peter Hunt.

Amália Rodrigues canta “Barco Negro” em “Amantes do Tejo” (1955), de Henri Verneuil, filme desengraçado mas que vale hoje pela interpretação de Amália e por se ter tornado um documento da Lisboa dessa década.






A luz de Lisboa ficaria eternizada em “Dans la ville blanche” (1983) de Alain Tanner, o que em muito se deve ao trabalho do português Acácio de Almeida, director de fotografia neste filme.

Em “Lisbon Story” (1994), Wim Wenders lança-se numa busca enigmática dos sons de Lisboa, cruzando-se com os Madredeus e com o realizador Manoel de Oliveira numa súbita aparição chaplinesca.

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Ao longo das últimas décadas, Lisboa foi cenário em filmes tão diferentes como “A Casa da Rússia” (1990), de Fred Schepisi, “Noites Bravas” (1992), de Cyrill Collard, “Des Nouvelles Du Bon Dieu” (1996), de Didier Le Pêcheur, “Afirma Pereira” (1995), do realizador italiano Roberto Faenza, ou “The Dancer Upstairs” (2002), primeiro filme realizado pelo actor norte-americano John Malkovich, protagonizado pelo espanhol Javier Bardem e que incluía no elenco Luís Miguel Cintra e Alexandra Lencastre.

E se é certo que nele Lisboa nunca é mais do que uma miragem longínqua, como poderia ficar de fora desta lista o filme em que Lisboa é sinónimo de liberdade, ainda que em trânsito para outro continente? Lisa e Lazlo partem para Lisboa, Rick fica para trás. Podemos ver muitas vezes esta cena, ele nunca tomará aquele avião para Lisboa e no fundo sabemos que foi melhor assim. “Casablanca” (1942), de Michael Curtiz, pois claro.




Fontes:
Base temática de cinema do Instituto Virtual Camões, base de dados Amor de Perdição, e a enciclopédica memória do Carlos Loures



Ray Conniff-Lisbon Antiga
publicado por CRomualdo às 20:00
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Dia de Lisboa -Lisboa na literatura universal

João Machado


A primeira referência escrita que se encontra sobre Lisboa, feita por um romano, é a do académico Marco Terêncio Varrão (116 – 27, a. C.). Informa que as éguas locais concebem pelo vento, sem necessidade de terem contacto com os machos, lenda provavelmente transmitida pelos povos locais, (ver na Revista Municipal de Lisboa, n.º 56 (1953), o artigo de Arlindo de Sousa, Antologia de Lisboa).

Encontram-se também referências a Lisboa em Pompónio Mela ( (no De Situ Orbis), em Estrabão e Ptolomeu.

Vários viajantes ingleses de nomeada, a partir da Restauração (1640), visitaram Portugal e estiveram em Lisboa, tendo-se referido à nossa capital nos seus escritos, em prosa e em verso. Falamos a seguir de alguns dos mais conhecidos:

No século XVIII, há a referir Henry Fielding (1707-1754), autor de Tom Jones, tido como o pai do romance inglês. Escreveu Journal of a Voyage to Lisbon, em que conta a sua viagem para Portugal, onde veio procurar descansar do esgotamento provocado pelo seu trabalho como magistrado. Foi a sua última obra, pois Fielding faleceu em Lisboa em 8 de Outubro de 1754.


William Beckford  (1760-1844), , político e viajante inglês, autor de obra variada, com destaque para o conto oriental Vathek esteve em Portugal nos fins do século XVIII, e escreveu, com bastantes anos de atraso, narrações das suas viagens intituladas, Italy, With Sketches of Spain and Portugal e Recollections of an Excursion to the Monasteries of Alcobaça and Batalha. Na segunda obra descreve pormenorizadamente um passeio, feito a partir da sua casa de Lisboa.

Byron (1788 – 1824), um dos grandes poetas românticos ingleses, esteve em Lisboa em 1809, no início de uma grande viagem pelo sul da Europa. No Childe Harold’s Pilgrimage, canto I, estrofe XVII, dá uma imagem de Lisboa bastante negativa, embora comece por gabar o aspecto à primeira vista. Aliás Byron dá uma imagem negativa dos portugueses em geral, chegando a lamentar que a natureza tenha sido excessivamente pródiga com eles, quanto à paisagem. Transcreve-se a seguir a estrofe acima referida:

But whoso entereth within this town,
That, sheening far, celestial seem to be,
Disconsolate will wander up and down,
Mid many things unsightly to strange e’e;
For hut and palace show like filthily,
The dingy denizens are reared in dirt,
No personage of high or mean degree
Doth care for cleaners of surtout or shirt,
Though shent with Egypt’s plague, unkempt, unwashed, unhurt.

No número 60 da Revista Municipal, do ano de 1954, no artigo Lisboa no folclore e na poesia culta do Brasil, Gastão de Bettencourt faz uma resenha muito variada, que inclui desde Evocação lírica de Lisboa, de Cecília Meireles, Entre-mar e Rio, do diplomata Ribeiro Couto, até ao Auto dos Fandangos, dos mestiços do Nordeste Brasileiro.

Mais recentemente, o alemão Thomas Mann (1875-1955), faz decorrer parte do seu último romance, Bekenntisse des Hochstaplers Félix Krull (As Confissões de Félix Krull, Cavalheiro de Indústria), em Lisboa. Trata-se aliás de um romance, que decorre vagamente no fim do século XIX, e que ficou por acabar, devido à morte do autor. Félix Krull assume a identidade do marquês de Venosta, nobre luxemburguês, e substitui-o numa viagem a que este pretende escapar, devido a um problema de amores. E numa Lisboa não muito real vive algumas peripécias.

O último romance de Erich Maria Remarque (1898-1970), Die Nacht von Lissabon (Uma noite em Lisboa) trata do problema dos refugiados durante a II Grande Guerra Mundial, que passam por Lisboa em trânsito para a América.


book trailer for "Die Nacht von Lissabon" from Christian Selent on Vimeo.



John Le Carré (1931 - ), em The Russia House, um romance de espionagem que decorre no fim da Guerra Fria, põe o herói a ser interrogado pelos serviços secretos ingleses em Lisboa. É famosa a referência ao Príncipe Real, e aos discursos de um velho místico que seria o professor Agostinho da Silva.


António Muñoz Molina (1956 - ) escreveu El Invierno en Lisboa, o qual, na modesta opinião de quem escreve estas linhas, nada tem a ver com a capital de Portugal. Usa a sonoridade do nome, e do personagem central da novela (?), Biralbo. Alguns dizem que é uma homenagem ao romance negro, e ao jazz. Será?

A Morte Branca, de Pierre Kyria (1938 - ), recebeu referências elogiosas na imprensa francesa. O crítico do Nouvel Observateur comparou o romance de Kyria a uma obra de Agatha Christie, onde se está sempre à espera de revelações fulgurantes, e o do Magazine Littéraire considerou-o um grande livro. É uma história em que um jovem romântico se vê envolvido em situações complicadas, decorrendo a trama numa pensão familiar de Lisboa. Kyria revela um conhecimento grande da cidade, embora a história pudesse decorrer em qualquer outro local. Este escritor também escreveu Lisbonne, livro sobre o qual não temos referências.

A Small Death in Lisbon, de Robert Wilson (1957 - ) é um romance policial, que trata de sequelas do tempos dos nazis, e de crimes actuais.

O Homem de Lisboa, de Thomas Gilfford, conta a história da burla de Alves dos Reis.

Em El Club Dumas, Arturo Pérez-Reverte (1951 -), faz Lucas Corso, o personagem central, passar por Lisboa a caminho de Sintra, procurando um livro. E contar recordações de outra viagem a Lisboa.

Leslie Charteris (1907 – 1993), criador de O Santo, fez decorrer em Lisboa uma das aventuras do seu herói, The Saint in Pursuit. O título da obra em português é O Santo e o Mistério de Lisboa.


O primeiro romance do norte-americano Richard Zimler (1956 - ), O Último Cabalista de Lisboa, decorre na Lisboa do início do século XVI, e tem como pano de fundo os massacres de cristãos novos.

Pierre Mercier, suíço de língua francesa, escreveu Comboio Nocturno para Lisboa, a história de um suíço que impede o suicídio de uma portuguesa, e a seguir lê um livro de um português resistente à ditadura. Desperta-se nele a curiosidade de saber mais sobre este homem, e assim vem até Portugal.
publicado por Carlos Loures às 19:00
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Dia de Lisboa - Percy Grainger e Pablo Neruda

Muitos estrangeiros escreveram sobre Lisboa. Cervantes, Voltaire. Lord Byron... É matéria de que se ocupou o João Machado. Aqui, registamos dois desses olhares sobre a cidade - a do compositor australiano Percy Grainger (1882.1961) e a do chileno Pablo Neruda (1904-1973).

Não abunda a música sinfónica sobre Lisboa. Tentámos encontrar uma gravação de "Lisboa em Camisa" op.53", do maestro António Victorino d'Almeida, inspirada na obra homónima de Gervásio Lobato, mas não a encontrámos disponível. Ouçamos Lisbon, o primeiro andamento da sinfonia Lincolnshire Posy , de Percy Grainger, dedicado a Lisboa, interpretado pela Bay Brass Ensemble:






Pablo Neruda, o grande poeta chileno, Prémio Nobel da Literatura de 1971, dedicou este seu longo poema,  La Lámpara Marina, a Álvaro Cunhal. Foi escrito em 1953 quando o dirigente do PCP estava preso e se temia pela sua vida. Sobre uma Lisboa  prisioneira da ditadura salazarista, disse o poeta:

La Lámpara Marina



I

El puerto
Color de cielo


Cuando tú desembarcas
en Lisboa,
cielo celeste y rosa rosa,
estuco blanco y oro,
pétalos de ladrillo,
las casas,
las puertas,
los techos,
las ventanas,
salpicadas del oro limonero,
del azul ultramar de los navíos.

Cuando tú desembarcas
no conoces,
no sabes que detrás de las ventanas
escuchan,
rondan
carceleros de luto,
retóricos, correctos,
arreando presos a las islas,
condenando al silencio,
pululando
como escuadras de sombras
bajo ventanas verdes,
entre montes azules,
la policía
bajo las otoñales cornucopias
buscando portugueses,
rascando el suelo,
destinando los hombres a la sombra.

(in Poemas de Obras, 3 ª ed.., Buenos Aires, Editorial Losada, 1967)

Podemos agora ouvir o poema completo, excelentemente declamado pelo actor Tavares Marques, numa tradução eivada de castelhanismos e de erros, mas que, dada a beleza do original,  resiste a esses equívocos linguísticos. A gravação foi feita durante uma homenagem prestada pelo PCP à memória de Álvaro Cunhal e realizou-se no claustro do Tribunal da Boa-Hora, onde funcionou o sinistro "Plenário".


publicado por Carlos Loures às 18:00
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Dia de Lisboa - Paulo de Carvalho e Mariza

A canção "Lisboa menina e Moça", com letra de José Carlos Ary dos Santos e música de Paulo de Carvalho, é mais conhecida através da interpretação de Carlos do Carmo. Mas a versão do compositor, de Paulo de Carvalho é também excelente. Aqui está ela:



"Maria Lisboa", de David Mourão-Ferreira e de Alain Oulman, também se tornou famosa na voz da inimitável Amália Rodrigues. Mariza, não imita, recria - esta versão é diferente e igualmente de grande qualidade:

publicado por Carlos Loures às 17:00
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Dia de Lisboa - Gigliola Cinquetti e Pasión Vega cantam Lisboa em castelhano

Gigliola Cinquetti uma italiana e a espanhola Pasión Vega cantam Lisboa em castelhano - Gigiola Cinquetti, a mesma de "Non ho l'età", canta a versão espanhola da famosa canção de José Galhardo, Amadeu do Vale e Raul Portela.

Estes autores criaram-na para a voz de Hermínia Silva. Foi estreada no Teatro Variedades, em 1932, na revista Pirilau. Hemínia apresentou-a e foi dela a primeira gravação em disco. No entanto, sendo o «Olhai, senhores» já um êxito a nível interno, seria Amália Rodrigues, nos anos do pós-guerra quem tornaria a canção mundialmente conhecida.

A interpretação da Gigliola é interessante, mas talvez um pouco descolorida.



A madrilena Pasión Vega inclui no seu repertório a canção "Lejos de Lisboa", de Ernesto Haffter e Pablo Guerrero. É uma cantora muito em voga e tem uma voz bem timbrada, dando à melodia (vulgar) intencionais sonoridades de fado.

publicado por Carlos Loures às 16:00
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Dia de Lisboa - Memórias de um imigrante (Luís Rocha - da revista à portuguesa ao 1º de Maio de 1974)

Luís Rocha

Até 1963 só conhecia de Lisboa a estação de Santa Apolónia e a Praça do Chile onde vivia um tio meu que visitei uma ou duas vezes com os meus pais. A única coisa que recordo dessa época era a de que brincava com os meus primos, no terraço existente por cima do último andar (3º) do prédio onde viviam.

A ideia de vir para Lisboa começou desde cedo a germinar no meu cérebro como o único objectivo a alcançar. A partir dos 13 anos senti que tinha de sair da cidade onde nasci (Castelo Branco) e que nada tinha para me oferecer no futuro.

Foi assim que em Setembro de 1963, desembarquei em Santa Apolónia, acompanhado da minha mãe para fazer exame de admissão ao Instituto Comercial de Lisboa. Fiquei aprovado. Matriculei-me no ensino nocturno, pois precisava trabalhar para me sustentar.

Voltei definitivamente a Lisboa em Outubro de 1963 e, depois de responder a vários anúncios, fui admitido em Novembro para a contabilidade de uma empresa, nas Escadinhas da Praia, no Bairro de Santos.

Começou assim o meu contacto com a cidade de Lisboa. Todos os dias apanhava o eléctrico na Praça do Chile para Santos (Como andava sempre atrasado depressa aprendi a saltar para o eléctrico em movimento – era giro).
Ia a almoçar a casa e voltava para a empresa, de onde saía por volta das 18 horas, seguindo depois a pé para o Instituto Comercial (chamado “Cortiço”) na Rua das Chagas ao Calhariz. As aulas começavam ás 19 horas.

Em 1963 já havia o metropolitano de Lisboa – troço Restauradores/Rossio; em 1966 o troço Rossio/Anjos e em 1972 a ligação Anjos/Alvalade. N altura não gostava muito de andar debaixo da terra como as toupeiras e por isso privilegiava o eléctrico e os autocarros.

A adaptação ao novo modo de vida (trabalhar de dia e estudar de noite), mas principalmente o fascínio por conhecer a cidade de Lisboa (mais à noite do que de dia), tiveram como consequência que no primeiro ano lectivo só passei a duas disciplinas (cadeiras) e no segundo ano a quatro.

Foram dois anos de descoberta desta cidade que, de tal modo me fascinou, que nunca mais daqui saí (já lá vão 47 anos). Aqui aprendi a ser homem, do dia e da noite. Tenho na memória muitas estórias dessa vivência. A cidade era tão grande e oferecia tanto que num dia podia viver várias vidas.

Tudo era diferente para melhor e para pior. Por exemplo na casa de meus pais havia uma casa de banho, com sanita e chuveiro. Aqui em Lisboa vivi em alguns bairros antigos onde não havia casa de banho. Existia apenas uma “Sanita” que estava no exterior da casa (no vão das escadas traseiras). Tomava banho num balneário público na Rua do Poço do Borratém.

Frequentei os bares/cabaret do Intendente, do Cais do Sodré, da Praça da Alegria da Baixa, da Av. da Liberdade e todos os outros onde (ainda jovem) me deixavam entrar.

Ia aos bailes na Casa do Alentejo, na Casa de Trás-os-montes e Alto Douro, na Casa do Algarve, na Casa de Lafões, na casa das Beiras, na casa da ….. Espanhola (na Rua da Trindade, próximo da cervejaria) e até em sociedades recreativas na zona do Beato e outras.

Havia também bailes no fim do ano e Carnaval em quase todos os cinemas e teatros de Lisboa (Monumental, Roma, Império, Condes, Éden, S. Jorge, Jardim Cinema, Paris, Promotora, etc.). Nas festas dos Santos populares dançávamos nas Ruas do Bairro Alto, Alfama, Mouraria, Bica, e outros.

Também dançávamos nas casas de algumas meninas que, como não iam a outros bailes, convenciam as mães a organizar pequenas festas.

Quando as festas se prolongavam até de madrugada, íamos beber cacau à Praça da Ribeira.

Estudava no “Paladium” à noite no piso superior, onde estavam os bilhares, junto a uma porta que diziam em tempos fazer ligação com o cabaret “Príncipe Negro” na Calçada da Glória.

Nesse café conheci pela primeira vez a figura do “chulo”, situação que de inicio me incomodou mas a que depois me habituei. Sentava-se à mesa com uma mulher na frente; Pedia “o dinheiro”. Ela colocava notas sobre a mesa. Ele dizia que era pouco e dava pontapés nas pernas da senhora, por debaixo da mesa. Os pontapés só terminavam quando o “chulo” entendia que as notas sobre a mesa eram suficientes.



Vivi o ambiente do Parque Mayer. Lembro-me de ver o teatro de Revista, em particular e várias vezes aquelas em que entrava uma jovem mulher, que deixava todos a suspirar:




Vi pela primeira vez a polícia a bater nas pessoas de forma indiscriminada na Rua Áurea, quando estava à espera da minha namorada que trabalhava num Banco.
Apenas tive tempo de me esconder num vão de escada.

Como o dinheiro era pouco fiz-me sócio da “Livrelco” (próximo da feira Popular) Em Entrecampos, para poder ler os livros que gostava.
Era uma cooperativa de estudantes, consumidores de livros, que teve uma grande importância histórica na última época do regime fascista, o período marcelista. Foi extinta pelo governo em fins de 72 ou princípio de 73.
Em relação há música o sistema era outro. Todos os sábados ia com a namorada à loja “Discoteca Melodia” na Rua do Carmo. Entrávamos, escolhíamos vários discos (single) e depois ouvíamos, por uns “headphones”, durante cerca de duas horas os últimos êxitos que iam sendo publicados de música estrangeira. Para podermos estar todo aquele tempo, no final comprávamos um disco.

No verão ia à praia de Carcavelos, com as raparigas que viviam no Bairro onde morava. Apanhávamos o eléctrico e depois o comboio nos Cais do Sodré às 6 horas da manhã. Naquela praia aprendi a nadar sem mestre.

Vi quase todos os espectáculos de música Rock dos anos 60, que se exibiam em Lisboa (geralmente no Monumental), portugueses e estrangeiros.

Como amante de música desde pequeno, nunca gostei muito do fado por achar que era tudo uma grande tragédia mas, chegado a Lisboa depressa entendi que o Fado era parte da cidade e não era só “choraminguices”. O fado tinha várias expressões que retratavam a vida social de Lisboa (os bairros pobres, a classe média, os ainda "fidalgos", estórias de cavalos e touradas, a exaltação do património da cidade, das suas vistas, do mar e dos seus poetas.

Frequentei por isso também todas as casas de fado que havia nos bairros típicos de Lisboa.

Vivi nas ruas de Lisboa o dia 25 de Abril de 1974 e senti a verdadeira liberdade no 1º de Maio de 1974 na Alameda D. Afonso Henriques. Todos se sentiam livres e falavam entre si de igual para igual.



Por tudo isto e o muito que tenho na memória, fica a imagem desta linda cidade de Lisboa, que me adoptou aos 17 anos e cuja beleza redescubro cada vez que a revejo de um miradouro, da ponte 25 de Abril, de um cacilheiro ou de um avião.
publicado por siuljeronimo às 15:00
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