Sábado, 30 de Outubro de 2010

Ricardo Carvalho Calero - três poemas

Saudade dumha voz


Assi,
assi cantava ela.
Polo meu coraçom
passa tam fugitivo o seu cantar,
que a lembrança
nom o pode apreixar.
Assi cantava ela,
com aquela voz que era monlho de flores
molhado na água morna da tristeza.
Que cabelos, que vam, que beiços tinha?
É do esqueço. Somente
a sua voz morta fica
no cadaleito do meu peito, acesa.
Perdêrom-se-me os olhos, e o cabelo, e o vam.
Ficou-me só a sua voz,
o eco da sua voz,
sem verba, sem contido.
O seu cantar que cantar era?
Polo meu coraçom
pasa como umha maina bris de outono
remexendo coas asas a arboreda.
Como canta essa bris,
assi cantava ela,
assi era a sua voz.
Aquela voz que era feixe de estrelas
esparegidas polo céu da dor.


( Pretérito Imperfecto, 1980)



A maior parte desta poesia é hipocrisia

A maior parte desta poesia
é hipocrisia.
Nom quer nada dizer e nada di.
Se algo quiger dizer, algo diria.
Quer somente fingir que nom fingia
oferecendo enganos para ti,
que finges crer que é verdade
a mensagem que te envia,
e finges que tés saudade
da saudade que exprimia
alguém que nom a sentia,
mas que se enganava assi,
cúmplice da tua porfia
de enganar a ti e a si.
A ti fingindo entender.
A si fingindo saber
o que queria dizer,
ainda que nom o sabes;
pretendendo ter as chaves
para abrir
o que nunca se fechou,
porque nunca tivo portas,
e aquelas palavras mortas
ajuntavam-se ao achou,
nom por santa inspiraçom,
nem por subconsciente graça:
por rotineira trapaça
e vazia pretensom.
Assi, é feita desta arte,
com notória hipocrisia,
a maior parte
desta poesia.

(Reticências, 1990)


Amigo, o teu caminho já está andado

Amigo, o teu caminho, já está andado.
Mal que bem, cumpriste umha tarefa.
Aos que a julgam com relativa severidade,
di-lhes que ti a olhas com absoluta indiferença.
De neno, criste-te senhor da tua vida.
De velho, ves que foste só um criado.
Dumha força cega ou dumha vontade consciente?
Nom sabes o nome do teu amo.
As belezas carnais que amaste, já esqueletos.
As ideias puras, borrosos arabescos.
A chave que che dérom para a tua traduçom,
resultou afinal que nom abria o texto.
Poderias te consolar coa graça renovada
daquela forma risonha que te engaiolou sempre.
Mas a chuva de pétalas que outrora te agarimou,
levou-na longe de ti um longo vento de neve.
Nom aguardas louvança, que arreu desprezaste.
Compaixom nom a esperas, porque nunca a pediste.
À voz incompreensível que fostrega o teu lombo,
resposta co silêncio das tuas cicatrizes.

(Futuro Condicional, 1982)
publicado por Carlos Loures às 08:00
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publicado por Carlos Loures às 07:55
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Ricardo Carvalho Calero por ele mesmo

publicado por Carlos Loures às 03:00
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Ricardo Carvalho Calero recordado pela escritora María Xosé Queizán

Damos início a uma série de textos sobre a obra e a figura de Ricardo Carvalho Calero -  cujo centenário se comemora hoje e ao qual consagraremos por inteiro a nossa edição.

Dentro desse espírito, transcrevemos do Portal Galego da Língua,com a devida vénia, uma crónica da escritora María Xosé Queizán, na qual a autora de Despertar das amantes, destaca a importância de Carvalho Calero para a cultura galega, lamentando e denunciando o ostracismo a que foi condenado. 

Esta crónica foi colhida no semanário "A Nosa Terra", ao qual endereçamos também os nossos agradecimentos.
 
Começa Queizám a falar da casa natal de Carvalho, na parte velha de Ferrol. O prédio, em estado ruinoso, "pode servir como representaçom do desleixo das autoridades políticas e culturais galegas por esta figura exemplar do nosso pensamento e cultura", denuncia.  A seguir lembra as suas vivências pessoais e familiares com ele, narrando que, sendo ela criança, o vira em fotografia passeando com seu pai por Santiago de Compostela. Ambos, nascidos em 1910, eram "companheiros na faculdade de Direito, correligionários na FUE e colaboradores da revista RESOL".  Nom seria até 1962 que o conheceu pessoalmente. Foi em Lugo, e Carvalho "aledou-se ao abraçar a filha do seu perdido amigo". O relacionamento pessoal continuou ao se converter o ferrolano no primeiro crítico literário de Queizán, pois realizou a recensom do primeiro romance da escritora, A Orella no Buraco, em 1965. Mais tarde converteu-se "no meu querido professor" na matéria de Lingüística e Literatura Galega, cátedra que ganhou em 1972.  Nesta altura do artigo, Queizán só tem boas palavras para Carvalho Calero. "Pertenço à primeira promoçom da licenciatura de Galego-Português, grupo que mantemos o nosso agradecimento a tam insigne professor e somos conscientes, nom só do que significou o seu magistério, mas do imprescindível que foi a sua obra". Aliás, afirma que sem o trabalho investigador do professor, como a monumental História da Literatura Galega Contemporánea (1963), "nom seria possível instaurar tal licenciatura".  María Xosé Queizán finaliza o artigo para A Nosa Terra salientando que Carvalho Calero foi umha "pessoa séria, responsável, fiel aos seus princípios políticos, participa na criaçom do Partido Galeguista e na redaçom do Estatuto. Nom se concibe a cultura galega dos últimos 75 anos sem ele. Tampouco se entende a incúria em que o mantenhem".

(Na foto, casa onde Carvalho Calero nasceu, no Ferrol-Velho).
publicado por Carlos Loures às 01:30
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Sexta-feira, 29 de Outubro de 2010

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publicado por Carlos Loures às 23:55
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Ricardo Carvalho Calero - Amanhã dia 30 de Outubro, celebra-se o centenário de um dos maiores filólogos do nosso comum idioma.

Estrolabio dedica inteiramente a sua edição de amanhã à vida e à obra do  Professor  Ricardo Carvalho Calero. Assim, publicaremos uma série de textos, quer sobre a vida e obra do professor, quer sobre a unidade linguística constituída pelo galego-português, unidade que séculos de aculturação não conseguiram destruir.

Será uma edição especial da nossa secção bissemanal Sempre Galiza!



Porquê?

Carlos Loures

 Integrada no estado espanhol, a nação galega não pertence de jure ao espaço da lusofonia que abrange Portugal e algumas das suas ex-colónias onde o idioma português permaneceu como língua oficial. Entre os séculos IX e XV, a língua falada nos territórios da antiga província romana da Gallaecia, posteriormente dividida em condados e depois em duas nações, era uma variante neolatina – o galego-português (ou galaico-português). A poesia lírica produzida nesta região era escrita neste idioma que não só era utilizado pelos naturais, como, ultrapassando as suas fronteiras, chegava a Leão e Castela – as “Cantigas de Santa Maria”, obra do rei Afonso X, o Sábio, foram escritas em galego-português. No século XII ocorreu a separação de Portugal da coroa leonesa.

A Galiza gozava também de alguma independência relativamente à gula castelhano-leonesa que se ia agudizando. Porém, no século XIV, a intervenção galega a favor de Pedro I de Castela contra Henrique Trastâmara, provocou, após a vitória deste último, o exílio de numerosos galegos em Portugal. Posteriormente, ao tomar posição por Joana, a Beltraneja contra Isabel I de Castela, a Galiza viu as suas instituições nacionais desmanteladas e a sua aristocracia novamente perseguida. De perda em perda, assinale-se que em 1601 o país era representado nas Cortes de Castela pela cidade leonesa de Zamora. Em suma: a Galiza deixara de existir, já não só enquanto estado, mas desaparecia também como nação.

No século XIX verificou-se um renascer do sentimento patriótico do povo galego. Foi nessa «revolução» político-literária que se inseriu a obra de Rosalía de Castro e de outros insignes escritores – talvez seja mesmo mais correcto afirmar que o galeguismo foi um produto do esforço desses intelectuais. Entre o século XV e os anos de Oitocentos, o idioma, nomeadamente a sua fonética, fora sendo invadido por castelhanismos. Foram os chamados «Anos Escuros». Com Rosalía e os seus Cantares Gallegos o farol do amor e do orgulho pátrios reacendeu-se – foi o «Rexurdimento». No século XX, o franquismo (embora Franco fosse galego) suprimiu todas as veleidades – a língua do Estado passou a ser o «espanhol» (deixando de se dizer «castelhano»). Por decisão política e à revelia da ciência linguística, o galego passou de idioma à categoria de dialecto rural.

Uma questão que se coloca desde há muito tempo - se português e galego são duas línguas diferentes ou duas formas dialectais da mesma língua? Carolina de Michaëlis respondeu afirmativamente e foi da opinião de que oi verdadeiro nome do idioma seria galego-português. Os reputados filólogos portugueses Lindley Cintra e Manuel Rodrigues Lapa, são da mesma opinião.

Na Galiza, as pessoas dividem-se entre «reintegracionistas» - os que preconizam a reintegração do galego no português-padrão - e numa outra corrente, os «antiintegracionistas» ou «isolacionistas», que defendem uma via autónoma, ligada à fala popular e distanciada do português de Portugal. O que, implicitamente, agrada mais a Madrid. Na realidade essa «fala popular», é o castrapo, um galego que há séculos é filtrado através do castelhano. Está tão invadido por castelhanismos que facilmente permite ser classificado como um dialecto do castelhano. Nas próximas horas daremos voz aos que nos garantem que o galego e o português são duas formas de falar a mesma língua. Entre essas vozes, destaca-se a do nosso homenageado, o Professor Ricardo Carvalho Calero.

publicado por Carlos Loures às 22:30
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Querendo o bem, criam o caos!


Rolf Damher


“Querendo o bem, criam o caos”
Prof. Doutor Dietrich Dörner – catedrático alemão
de psicologia e investigador de complexidade
(Livro: “The Logic Of Failure: Recognizing And
Avoiding Error In Complex Situations”)
“A complexidade gera insegurança. A insegurança, por sua vez, gera medo. É desse medo que nos queremos proteger. Por isso o nosso cérebro filtra tudo o que é complicado, impenetrável e incalculável. O que resta é um aspecto parcial – aquilo que já conhecemos. Porém, como este aspecto parcial se encontra entrelaçado com o todo que não queremos ver, cometemos muitos erros – o fracasso é logicamente programado. Sem dicção aborrecida e academizada, mas sim com muito juizo e humor, Friedrich Dörner, um dos primeiros premiados Leibnitz da comunidade investigadora alemã, nos mostra todos os pequenos, cómodos e tão humanos erros de pensamento pelos quais, no melhor dos casos, só paga um e, no pior, todo o globo.
Recensão do livro “The Logic Of Failure: Recognizing And Avoiding Error In Complex Situations” do catedrático alemão de psicologia e investigador de complexidade Prof. Doutor Dietrich Dörner, pelo jornal alemão “Rheinischer Merkur/Christ und Welt”. ---------------------------------------------------------------------------------------------------------------------------- Caros amigos, De facto, quem lê esta proposta da ONU pensa logo que se trata de uma proposta muito nobre, desejável e capaz de aliviar a sorte dos mais pobres entre os pobres. Todavia, tendo em conta o tremendo insucesso que este tipo de ajudas teve nas últimas decadas no tal chamado terceiro-mundo – a África, p.ex., encontra-se arrasada em sem esperança -, urge ver este assunto das ajudas com outros olhos. Junto dois documentos dos quais poderão depreender quais seriam as soluções eficazes para não só ajudar os mais pobres de forma sustentável mas transformando-os ao mesmo tempo em nossos parceiros de intercâmbio económico e cultural. A minha proposta soa bem mas encontra-se condenada ao fracasso? Penso que não. De facto, se nós, a União Europeia, continuamos sempre na mesma, a crise mundial de sentido, seguida pela crise económica-financeira, fará com que sejamos corrigidos à força no sentido referido. Mas a crise encontra-se em vias de acabar? Errado! Ela só vai no princípio. E mesmo que entretanto alguns encontrem “balões de oxigénio” que lhes pemita os jogos de soma nula, só terminará quando o actual paradigma caduco terá mudado de vez. Quem quiser evitar as grandes dores e perdas humanas e bens materiais que este processo implica, está livre para mudar de comportamento já. Então o insucesso crónico dos nossos actos dará lugar ao sucesso sustentável mais rápido do que muitos pensam.

BrasilAlemanha - De Primeiro Mundo por um
Brasil de Primeiro Mundo

ONU propõe imposto global sobre bilhetes aéreos em ajuda a países pobres Um relatório encomendado pela ONU (Organização das Nações Unidas) propõe taxar com imposto global os bilhetes aéreos como parte de um plano destinado a arrecadar mais de 6,8 bilhões de euros [cerca de R$ 16,1 bilhões] ao ano para ajudar os países em desenvolvimento a adaptarem-se às mudanças climáticas e reduzirem as emissões de gás carbônico.
O imposto, que encareceria inicialmente em média 5,7 euros [cerca de R$ 13] o preço de um bilhete, seria aplicado a todos os voos internacionais, informa neste sábado o jornal britânico “The Times”, que teve acesso ao relatório, elaborado por um grupo nomeado pelo secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon.
O documento apontou que as viagens aéreas poderiam ser uma fonte importante de financiamento porque no geral porque são fontes dos gases do efeito estufa de mais rápido crescimento.
Um imposto à aviação permitiria arrecadar 6,8 bilhões ao ano, metade para o país e a outra cota para o novo fundo contra a mudança climática, diz o relatório.
Os voos dentro da União Europeia (UE) poderiam ficar excluídos do mesmo porque terão de pagar por suas emissões de CO2 a partir de 2013 pelo novo mecanismo europeu de troca de emissões.
O relatório encomendado pela ONU propõe diversas fontes de financiamento, incluindo impostos para navegação, transações financeiras globais e a dedicação de parte dos royalties obtidos na extração dos combustíveis fósseis.





publicado por Luis Moreira às 21:00
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Hommage à Alfredo Margarido

Le département de Portugais de l’Université de Paris Sorbonne et le CRIMIC organisent un hommage à Alfredo Margarido, intellectuel portugais, décédé en octobre 2010, avec Aníbal Frias, Luiz Silva, Daniel Lacerda et Maria Graciete Besse.


Le lundi 8 novembre, à l’Institut Hispanique, 31 rue Gay Lussac, à Paris 5. De 17h30 à 19h30. En salle 14.
____________________________
 
Nota; Entre os colaboradores do Estrolabio, contam-se alguns amigos de Alfredo Margarido. O nosso blogue publicará em breve um conjunto de textos de e sobre Alfredo Margarido - a nossa homenagem.
publicado por Carlos Loures às 20:00
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Esquina

Ethel Feldman

Passo todos os dias nesta esquina. Conheço-a de cor, desde menina. Já passei criança, adolescente, mais tarde enamorada, depois casada. Noutro dia, voltei descasada. É a esquina conhecida. Tem um angulo recto. Volto à direita, retono à esquerda. No passado não lhe deslumbrava o vértice, agora perco-o de vista. É a esquina que tudo conta em silêncio. Memória viva dos meus passos enquanto viva.
Tudo mudou. A barbearia agora é um bar de gente culta. A mercearia hoje vende papel reciclado. A padaria ainda vende pão pelas mãos das netas da Dona Virginia, já morta.
Tudo muda, menos a esquina sempre bonita. Alí, naquele canto é o único lugar que conheço que faz um ângulo recto.
Não importa quantos passos. Se dez ou mil chega um momento que devo virar à esquerda e se quero voltar viro de novo à direita, certa de que saí do lugar.
Vinha aqui para contar do amor que acabo de fazer. Escrever um poema molhado de poesia, repleto de beijos roubados que silenciam o passado. Vinha aqui timidamente falar de como acariciei o corpo suado do meu amado. Minha boca perdida em seus lábios, meu ventre vivo sem limites a ditar que existo.
Acabo de chegar quase pronta para outra viagem onde invento o amor amado sem vírgulas onde tropeçar.
Vinha a isto que é bonito de se contar, mas só me lembro da esquina - a minha conhecida, onde viro à esquerda e retorno à direita. Aquí nesse canto onde desenho o triângulo da minha existência.
Um ângulo recto. Sem surpresas, por vezes.
publicado por estrolabio às 19:30
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Dicionário Bibliográfico das Origens do Pensamento Social em Portugal (19), por José Brandão

A Formação de Portugal Contemporâneo (1900-1980)


Volume I

Vários

Análise Social, 1982

O caciquismo é-nos, aparentemente, familiar. As referências aos comportamentos a ele associados – influência política, corrupção eleitoral, compadrio, favor, cunha – abundam e não conotam, aliás, um regime político em particular. Identificado com a vida política portuguesa ao longo de mais de um século, raras vezes, no entanto, constituiu objecto de estudo entre nós.

Este texto propõe-se analisar as relações entre o caciquismo e o poder político num dado período histórico – o correspondente aos finais de Oitocentos e aos primeiros anos deste século. Com esse objectivo, a investigação que lhe serviu de base privilegiou os acontecimentos políticos de 1901 e, de um modo mais preciso, os que giram em torno das eleições desse ano. Razões várias conduziram a esta opção. Algumas, de carácter inibidor, radicam no conhecimento superficial que se possui, quer da estrutura social, quer das instituições políticas portuguesas nesta época.

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A Formação de Portugal Contemporâneo (1900-1980)

Volume II

Vários

Análise Social, 1983


A reflexão sobre o lugar da agricultura no desenvolvimento português após a segunda guerra mundial ressente-se muitas vezes da inadequação das categorias analíticas com que lida à realidade que procura explicar. Este problema é tanto mais relevante quanto a aceitação confiada, quando não acrítica, das categorias de análise, designadamente as económicas, influi largamente no percurso da análise empreendida quanto ao diagnóstico dos «males» tradicionais da agricultura portuguesa.

Parece, então, oportuno propor partir-se de uma pré-reflexão acerca do emprego de certas categorias de análise económica que sirva ao questionamento de algumas verdades e ao reexame de orientações de pesquisa, sem pretensões globalizantes, como primeiro passo de mais ousados empreendimentos neste quadro amplíssimo que é o estudo do lugar da agricultura no desenvolvimento económico do Pais nos últimos trinta anos.
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Formas de Pensamento Filosófico em Portugal


(1850-1950)


J. Pinharanda Gomes

Lisboa, 1986

O século XIX, e por via de regra a primeira metade do século XX, é uma época de rico e abundante pensamento filosófico em Portugal, sendo variadas as ligações e as determinações com os pensamentos de outras culturas e áreas linguísticas. Álvaro Ribeiro, José Marinho, Joaquim de Carvalho, estudaram com muita dedicação, alongado Interesse e fecundo reflectir aspectos do pensamento português do século XIX, mas ainda agora é patente a falta de uma visão global de síntese. Tal visão não o será se apenas for circunscrita às linhas de pensamento situadas fora da tradição, e se unicamente atentar nos formas de heterodoxia. O século XIX propiciou em liberdade o confronto das ortodoxias e das heterodoxias, ambas as componentes requerendo parcelares análises, que devem ser anteriores às sínteses, necessariamente posteriores.

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publicado por Carlos Loures às 18:00
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Tolo ou não tolo eis a questão

Adão Cruz

Pensei logo que era tolo quando não vi nenhum fio preso ao ouvido do gajo. Aqui há uns anos atrás, sempre que um tipo (ou tipa) falava sozinho na rua ou no café, era rotulado de tolo. Hoje em dia, com os auriculares do telemóvel, já não é assim. Sempre que topamos alguém a falar sozinho, olhamos logo para a orelha a ver se tem um fiozinho pendurado. Se tem não é tolo, se não tem é tolo.

O homem estava sentado numa mesa em frente à minha, no café Turista. Foi há questão de uma hora. Lia o jornal enquanto falava, gesticulava, ria e fazia comentários. Claro que eu olhei logo para as suas orelhas. Numa delas não tinha nada pendurado. Na outra, que eu via mal, porque o sujeito estava um pouco de esquina, também não parecia haver qualquer ligação. Pelo sim pelo não, como quem não quer a coisa, levantei-me para espreitar melhor a sua orelha direita e cheguei à conclusão de que era tolo.

O advogado entrou e sentou-se ao seu lado. Presumo que fosse advogado porque, para além da pasta, tinha o ar que os advogados têm e que eu não sei descrever, por mais que tente. O homem calou de imediato o seu solilóquio, e entre ambos apenas se interpôs um aperto de mão e um monte de papéis. O tolo, ou presumivelmente tolo, não abriu mais a boca. Moita carrasca. O advogado, só podia ser advogado, apenas lhe apontava o local onde devia assinar, assinatura que ele prontamente ali escrevinhava. Nem uma palavra. Nem uma palavra. Assim se mantiveram cerca de dez minutos, tempo ao fim do qual, o advogado, presumo que não fosse outra coisa, lhe estendeu a mão, e com discreto sorriso se pirou.

O homem que não tinha telemóvel nem auriculares irrompeu numa conversa pegada, falando não sei para quem, gesticulando de braços abertos, com esgares que podiam ser de escárnio, de gozo ou de raiva, fazendo do seu falar a solo uma espécie de comício em ponto pequeno. Voltei a concluir que era tolo. Mas seria mesmo tolo? Será que a diferença entre tolo e são se resume a um fio pendurado do ouvido? Ora aqui vos deixo a questão, sobre a qual nem Espinosa nem S. Tomás de Aquino se debruçaram.

(ilust. pormenor de desenho de Manel Cruz)
publicado por Carlos Loures às 16:30
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Sessão de apresentação do livro "O nome daqueles", de Paulo Melo Lopes,

O menino cresceu demasiado para continuar menino, embora lhe tenha mantido a meninez. Penso ter-lhe parado o crescimento quando se tornou rapaz; não lhe dei mais idade que essa, não importava o quanto crescesse. Como era o nome dele que nunca o soube? Parece que o nome se perdeu algures pelo caminho ou, se o soube, não o lembro. O nome nem era usado, como se a falta de uso das palavras o interditasse de ter uma de si. Terá tido alguém que lhe disse Tu chamas-te isto ou aquilo. Ou não terá tido, que a mãe e o pai não foram dessas coisas. O menino da grinalda: foi assim que ficou muitos anos; houvesse nome que lhe assentasse e eu não teimaria em menino da grinalda; ou o nome não era dele, como se, ao chamá-lo, se dissesse palavra que não lhe pertencesse, uma invenção tonta de quem nada tem para fazer.”



Sessão de apresentação do livro O nome daqueles, de Paulo Melo Lopes, no dia 12 de novembro, pelas 18:30, na Casa da Cultura de Gaia (Casa Barbot – Av. da República, 590/610 – VN de Gaia).


Apresentação a cargo de Joana Matos Frias, professora da Faculdade de Letras da Universidade do Porto.
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publicado por Carlos Loures às 16:00
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O saber das crianças e a psicanálise da sua sexualidade –13: por Raúl Iturra.

(Continuação)

Sobre este comportamento, Weber, sociólogo da religião, esteve bastante atento, dedicando-se ao seu estudo, com trabalho de campo em 1899, e publicação, em 1905, na Alemanha, de um livro, a que penso voltar após a análise de Lutero.


O conceito alma para os luteranos era um princípio central da sua fé, o corpo é apenas uma “gaiola” para a conter. Por isso, só a salvação de alma contava. Lutero acreditava na predestinação, influenciando os primeiros conversos.

No Século XIX, uma grande curiosidade sobre a prosperidade de luteranos e calvinistas surge na vida social. Todos os denominados protestantes (por terem protestado contra a confissão romana, levando-a a mudar no Concílio de Trento do Século XVI), enriqueciam para surpresa do resto da população que, começou de imediato, a pretender ser luterana, verificando-se, por esse motivo, uma grande passagem de cristãos romanos para luteranos.


Curioso do facto, Max Weber deu início ao seu trabalho de campo no Sul do Rio Elba. Trabalho que permitiu uma comparação de comportamentos entre protestantes e católicos. Nas conclusões, publicadas no livro A Ética protestante e o Espírito do Capitalismo (1904-1905), do qual Pierre Bourdieu virá mais tarde a divulgar excertos, Max Weber observa que os operários católicos gastam todo o pouco dinheiro que ganham em festas, bebedeiras, roupas e viagens não poupando nada, vivem na eterna miséria. Por seu lado, os operários luteranos, trabalham de manhã à noite, excepto aos Domingos, poupando todo o seu dinheiro, contrariamente aos católicos, e investindo-o em maquinaria, sementes e melhor terra, com vista a uma maior produção e a uma melhor venda nos mercados.

Mas se trazemos para este debate A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo, considerada por muitos como a melhor obra de Max Weber, é para tentarmos compreender porque é que Freud leu Durkheim, sem nunca o citar, mas desconheceu o seu quase compatriota Weber. Um sociólogo capaz de entender o que muitos procuravam: o denominado “calling” ou vocação para ser trabalhador produtivo e assim entrar na era do capitalismo sem temor nenhum. Podemos, pois, afirmar, de acordo com Max Weber , que a ética protestante encoraja as trocas e investimentos com mais-valia. Assim, Weber, estudioso das religiões, encontra na versão protestante do cristianismo o apelativo para o investimento com mais-valia. Como anteriormente referimos, os cristãos protestantes não só poupam como investem para poupar. O motivo parece muito simples, a ideia da vocação para serem homens religiosos cujo primeiro dever é trabalhar, não para enriquecer, mas para proveito da Nação e da família nuclear e alargada.

Evidentemente que este tipo de análise não estava no modelo de inconsciente de Freud, nem no modelo de Durkheim, que soube estudar o sacrifício, o ritual e o mito, areias onde Weber não se movimentou. Aliás, Weber nunca foi lido por Marx, Freud ou Durkheim, sendo assim o criador solitário da Sociologia Alemã. O seu objectivo era a descoberta da riqueza das nações, como antes de si, em 1776 , o foi de Adam Smith, membro da confissão de Knox, da Igreja Presbiteriana, nascida da confissão Calvinista .

Notas:
 
Ideias definidas na página web da Internet : http://www.google.com.br/search?hl=pt-PT&q=Luteranos+e+a+Salva%C3%A7%C3%A3o&aq=f&oq=




Os luteranos rejeitaram a predestinação já em Augsburg, em 1530, com a redacção da "confissão" efectuada pelo humanista Melanchthon.

Porém, essa é a doutrina fundamental de Lutero, e como mostramos no artigo sobre o filme, é a doutrina que ele defenderá até ao fim da sua vida. Não podia ser diferente, pois ao negar que o homem possa cooperar com a graça de Deus, nega-se que o homem possa ter méritos e portanto que possa ter liberdade de escolha entre o bem e o mal. O Sola Fidei leva necessariamente à predestinação. Com a negação da predestinação, os luteranos criaram uma aberração teológica (e lógica).

O anteriormente dito, não significa que não haja ainda hoje luteranos fiéis ao mestre que insistam na predestinação e nas demais doutrinas diabólicas do Lutero primitivo.



Actualmente, há um debate entre luteranos que acreditam ou não na predestinação. O texto de 05-04-2005, denominado: Lutero e a predestinação, diz: “Conversando com alguns protestantes vi que eles rejeitam a possibilidade de algo acontecer por acaso. (este grupo protestante com quem conversava, pois, os protestantes são desunidos em suas doutrinas) Segundo eles as coisas que acontecem em nossas vidas já foram providenciadas por Deus antes mesmo que nascêssemos, sendo assim se Deus, providenciou que eu me casasse com a Joaninha filha do Seu Rui que trabalha na venda da esquina (isto é somente exemplo), mais cedo ou mais tarde este casamento acontecerá (ainda que eu não queira), e eu terei quantos filhos Deus já tiver determinado que eu tivesse. Sendo assim eu não teria liberdade de escolher, com quem quero casar, nem quantos filhos quero ter! Como argumento me citaram a seguinte passagem bíblica: "Cada uma de minhas acções vossos olhos viram, e todas elas foram escritas em vosso livro; cada dia de minha vida foi prefixado, desde antes um só deles existisse." (Sl 138,16) Argumentei-lhes que Deus sabe o nosso futuro, mais isto não quer dizer que ele escolha o que devemos fazer ou não! Citei-lhes o exemplo do Rei Ezequias que estando doente foi avisado pelo profeta Isaías que em breve iria morrer. (Is 38,1)”.

Weber, Max, (1892) 1986 : «Enquête sur la situation des Ouvriers Agricoles a L’Est de L’Elbe. Conclusions Prospectives», publicado em Actes de la Recherche en Sciences Sociales, nº 65, Novembro de 1986, manuscrito de Weber publicado pelo director, fundador e director de la Revista citada, Pierre Bourdieu. O original foi publicado em 1892 pela primeira vez em : Schreiftent des Vereins für Socialpolitiken, tomo 55, Leipzig, Duncker und Humblot e reeditado em 1964 no texto de compilação de escritos de Max Weber por Eduard Baumgarten: Max Weber, Werk und Person em: BAUMGARTEN, EDUARD. Max Weber Werk und Person.

Tubingen: Mohr, 1964. 720 p. Mit Zeittafel und 20 Bildtafeln. Soft cover, em: http://www.antiqbook.nl/boox/bkw/9997.shtml

Um livro aproximado à compilação de trabalhos de Weber, da autoria de vários sociólogos, é: Max Weber, Textos Seleccionados, Editora Nova Cultura. 1997, São Paulo, 192 páginas, que pode ser lido em: http://www.scribd.com/doc/6618252/Max-Weber-Textos-Selecionados



“A fonte da sociologia weberiana está, em geral, localizada entre os debates metodológicos e teóricos do fim do Século XIX e começo do Século XX, e não nos problemas concretos da sociedade alemã. A análise dos motivos do comprometimento de Weber na criação da Sociedade Alemã de Sociologia, demonstram que não era prioritário nem a autonomia nem a instituição da sociologia como disciplina académica, mas sim a criação de um instrumento e de uma infra-estrutura necessários para a pesquisa dessa imensidão de problemas, mas à época foi considerado como sem objectivo prático. Este projecto sociológico está directamente ligado aos inquéritos sobre aspectos do universo rural que Weber realizou no contexto das suas pesquisas em sociologia política (Verein für Sozialpolitik). A sociologia rural, actualmente, parece ter-se esquecido da sociologia de Weber. No lado oposto, na sociologia urbana do Século XX, encontra-se filiação weberiana dentro do seu contexto.

A análise da temática urbana baseada na obra de Weber demonstrada quais os motivos e as razões da (quase) ausência da sociedade urbana contemporânea em estudos, enquanto temáticas sobre as povoações da Antiguidade, da Idade Meia e do Oriente têm passado a jogar um rol primordial (Antiquité, Moyen Age, Orient) nos inquéritos de Weber sobre as condições da emergência do capitalismo na empresa moderna”. O texto, em francês, traduzido livremente por mim para entender o inquérito mencionado, aplicado a sul do rio Elba, e por Pierre Bourdieu o ter escolhido, é: « La source de la sociologie webernienne est généralement localisée dans les débat méthodologiques et théoriques de la fin du XIXe et du début du XXe siècle et non dans les problèmes concrets de la société allemande. L’examen des motifs de l’engagement de Weber dans la création de la Société Allemande de Sociologie montre que ses objectifs prioritaires n’étaient ni l’autonomie ni l’institutionnalisation de la sociologie comme discipline académique, mais la création d’un instrument et d’une infrastructure pour mener de grandes enquêtes

« sans but pratique ». Ce projet sociologique est directement lié aux enquêtes, d’abord rurales,

que Weber a réalisées dans le cadre du Verein für Sozialpolitik, à l’exploitation politique

qu’il en a faite lui-même et à son échec pour imposer au Verein un programme et une méthodologie

D’enquêtes sans but pratique immédiat. La sociologie rurale a oublié la source rurale

de la sociologie de Weber. Par contre, dans la sociologie urbaine du XXe siècle, on peut rencontrer

L’affirmation d’une filiation webernienne. L’examen du thème urbain à travers l’œuvre de Weber montre que, et pour quelles raisons, la société urbaine contemporaine en est absente tandis que le thème de la ville (Antiquité, Moyen Age, Orient) joue un rôle primordial dans l’enquête de Weber sur les conditions d’émergence du capitalisme d’entreprise moderne », em : http://www.google.com.br/search?hl=pt-PT&sa=X&oi=spell&resnum=0&ct=result&cd=1&q=Max+Weber+Enqu%C3%AAte+sur+la+situation+des+ouvriers+agricoles+a+l%27Est+de+l%27Elbe&spell=1

Weber, Max, (1904-1905 em Alemão, nos em Archiv für Sozialwissenschft und Socialpolotik, J.V.B. Mohr, Tubinga, vols. XX e XXI) A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo encontra-se editado em castelhano pela editora Taurus, Madrid, a versão portuguesa é da Editorial Presença, 1983, traduzida por António Firmino da Costa. The Protestant Ethic and the Spirit of Capitalism é um livro (book) escrito por Max Weber, economista alemão (German economist) e sociólogo (sociologist), em 1904 e 1905, livro que começou por ser uma série de ensaios (essays). A edição original do livro, publicado para leitura, foi tratada por Marienne Weber nos anos 20 do século passado.

Para Weber o capitalismo (capitalism) desenvolveu-se quando os protestantes (Protestant), particularmente a ética calvinista (Calvinist ethic), influenciaram um largo número de pessoas envolvidas no trabalho da vida laica, criando e desenvolvendo as suas próprias empresas (enterprises) e, simultaneamente, a actividade comercial e a acumulação de riquezas (trade wealth) utilizadas para investimentos futuros nas suas empresas. O que Max Weber descobre é que a ética protestante foi a força por detrás de uma não planificada e coordenada acção massiva (mass action) que influenciou o desenvolvimento do capitalismo (capitalism). É uma ideia conhecida como a tese de Weber. O texto está em inglês, traduzido por mim de forma livre e com comentários no meio do texto original, guardando as palavras em língua inglesa para outras ligações na Internet. O original diz: “The Protestant Ethic and the Spirit of Capitalism is a book written by Max Weber, a German economist and sociologist, in 1904 and 1905 that began as a series of essays. The original edition was in German and has been released.

“Weber wrote that capitalism evolved when the Protestant (particularly Calvinist) ethic influenced large numbers of people to engage in work in the secular world, developing their own enterprises and engaging in trade and the accumulation of wealth for investment. In other words, the Protestant ethic was a force behind an unplanned and uncoordinated mass action that influenced the development of capitalism. This idea is also known as "the Weber thesis". Análise completa em: http://en.wikipedia.org/wiki/The_Protestant_Ethic_and_the_Spirit_of_Capitalism

Adam Smith (provavelmente Kirkcaldy, Fife, 5 de junho de 1723 — Edimburgo, 17 de Julho de 1790) foi um economista e filósofo escocês. Teve como cenário na sua vida o atribulado século das Luzes, o século XVIII. A sua biografia em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Adam_Smith. No ano de 1776 escreveu: An inquiry into the nature and causes of the wealth of Nations, que pode ser lido em: http://www.adamsmith.org/smith/won-index.htm

Este texto pode ser lido em: http://classiques.uqac.ca/classiques/Weber/ethique_protestante/Ethique.html

(Continua)
publicado por Carlos Loures às 15:00
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Professores - avaliação dos Directores das escolas

Luis Moreira

Eu bem sei que os professores não têm experiência de gestão das organizações e até creio que enquanto professores não terão que saber de gestão, mas às vezes fico perplexo. Agora alguns deles, os mesmos de sempre, estão contra o facto de os Directores das escolas serem avaliados pelas Direcções Regionais do Ministério. Mas então que de outra forma poderia ser?

Os Directores das escolas não dependem das Direcções Regionais? Os Directores Regionais não dependem do membro do Governo e o Governo não é avaliado pelos votantes? É assim em Democracia! Vão ser sujeitos a pressão politica? Pois vão, como seriam sujeitos à pressão dos professores se por eles fossem avaliados.

Ou querem andar em roda livre e em circuito fechado como na Justiça que não depende de ninguem , com os lindos resultados que estão à vista e com 97% de "bons" e "muito bons"? É isso? O Processo de avaliação vai ser regulado pelo Conselho Coordenador da Avaliação. Fazem parte deste Conselho o Director Regional e três Directores escolhidos entre os membros do Conselho das escolas. É sensato.

Um dos argumentos é que o Director Regional nada sabe do que se passa nas escolas. Melhor seria dizer que não sabe de nenhuma mas sabe de todas, que é, precisamente, o que o torna capaz de avaliar. Comparando os objectivos e medidas negociadas , com o que se passa noutras escolas com o mesmo perfil. Será que quem trabalha nas escolas tem uma visão do todo para poder avaliar o director da sua escola? Isso, normalmente, dá no gajo porreiro, mas que não obtem resultados.

Professores há, bem mais avisados e sabedores, que lutam pela clarificação dos critérios que irão presidir à avaliação, quanto mais claros, mensuráveis e negociados melhor para todos, haverá mais justiça e menos discricionaridade por parte de quem avalia. Defender que o Conselho Geral seja incluído no orgão avaliador por ser o orgão que escolhe o Director das escolas, é como meter "a raposa dentro do galinheiro".

Ser ingénuo é acreditar que o orgão Coordenador não vai pressionar o Director da escola ou é acreditar que os professores avaliariam de forma transparente e sem pressões?

O corporativismo cega pessoas inteligentes.Há bem pouco tempo defendiam que a avaliação não era aplicável às escolas e aos professores.
publicado por Luis Moreira às 13:30
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O Terramoto de Lisboa - 3 - Dia 1 de Novembro de 1755, 9:30 horas

(Continuação)

Carlos Loures

O sismo que conhecemos como o Terramoto de 1755, é por muitos considerado como o maior sismo de que há notícia histórica. Lisboa, por ser a mais importante cidade atingida, deu-lhe o nome, mas o abalo foi sentido com violência também no Algarve, no Sul de Espanha e em Marrocos. Sem causar prejuízos, sentiu-se em toda a Europa, nos Açores e na Madeira. Para Norte de Lisboa, a intensidade foi sendo menor, embora registando-se danos em Alenquer, Torres Vedras e Óbidos.

Em Lisboa, no dia um de Novembro, um sábado, o tempo estava quente para a época, atribuindo-se essa circunstância a uma antecipação do Verão de São Martinho. A temperatura andava na ordem do 14 graus centígrados. Em 31 de Outubro a maré atrasara-se mais de duas horas. A hora a que o sismo teve início é objecto de alguma controvérsia, podendo ser calculado entre as 9,30 e as 9,45. Ouçamos um dos relatos do acontecimento, feito por uma testemunha ocular (Joaquim José Moreira de Mendonça in «História Universal dos Terremotos que tem Havido no Mundo, de que há notícia, desde a sua criação até o século presente», Lisboa, 1756 – citado por Helena Carvalhão Buescu em «O Grande Terramoto de Lisboa», 2005) :

«Sábado, primeiro de Novembro, e vigésimo oitavo da Lua, amanheceu o dia sereno, o Sol claro, e o Céu sem nuvem alguma. Durava já esta serenidade por muitos dias do mês de Outubro, sentindo-se maior calor que a estação do Outono prometia. Pouco depois das nove horas e meia da manhã, estando o Barómetro em 27 polegadas, e sete linhas, e o Termómetro de Réaumur em 14 graus acima do gelo, correndo um pequeno vento Nordeste, começou a terra a abalar com pulsação do centro para a superfície, e aumentando o impulso, continuou a tremer formando um balanço para os lados de Norte a Sul, com estrago dos edifícios, que ao segundo minuto de duração começaram a cair, ou a arruinar-se, não podendo os maiores resistir aos veementes movimentos da terra, e à sua continuação. Duraram estes, segundo as mais reguladas opiniões, seis para sete minutos, fazendo neste espaço de tempo dois breves intervalos de remissão este grande Terremoto. Em todo este tempo se ouvia um estrondo subterrâneo a modo de trovão quando soa ao longe».

Segundo a maioria dos testemunhos registados, o grande abalo dividiu-se em três fases: uma primeira com a duração aproximada de minuto e meio, pouco violenta, intervalo de um minuto, um movimento mais intenso durante cerca de dois minutos e meio, provocando já danos consideráveis; outro intervalo de um minuto, seguindo-se a terceira e última fase por três minutos, a mais violenta de todas. Total, cerca de nove minutos. Segundo algumas descrições, na terra abriram-se fendas das quais emanaram vapores sulfúricos, fechando-se umas e permanecendo outras. Observaram-se fenómenos luminosos, tais como faíscas saindo do chão.

Para além do índice de elevada destruição causada pelos abalos, logo eclodiram incêndios por toda a Baixa. O fogo lavrou por seis dias, destruindo muito do que resistira ao tremor de terra e matando também muita gente. Por volta das onze da manhã do dia um, estava já a cidade destruída, chegaram as vagas de um tsunami. As águas do Tejo desceram, arrastando os barcos ancorados e, em seguida, começaram a subir, entrando pela Baixa dentro, trezentos ou quatrocentos metros. Só às sete horas de domingo, a maré normalizou.

Perante o grau de destruição produzido pelo grande terramoto, as medidas tomadas pelo Marquês de Pombal demonstram a capacidade daquele político e a forma pragmática como encarou a terrível catástrofe. Um inquérito à escala nacional foi por ele determinado. Um formulário com 13 questões foi impresso com elevada tiragem e os exemplares distribuídos pelas paróquias, pois sabia-se ser esta a forma mais expedita de o fazer chegar a todas as partes. Eis as perguntas:

1º. – A que horas principiou o terremoto do primeiro de Novembro e que tempo durou?

2º. – Se se percebeu que fosse maior o impulso de uma parte que de outra? Do norte para sul, ou pelo contrário, e se parece que caíram mais ruínas para uma que para outra parte?

3º. – Que número de casas arruinaria em cada freguesia, se havia nela edifícios notáveis, e o estado em que ficaram.

4º. – Que pessoas morreram, se algumas eram distintas?

5º. – Que novidade se viu no mar, as fontes e nos rios?

6º. – Se a maré vazou primeiro, ou encheu, a quantos palmos cresceu mais do ordinário, quantas vezes se percebeu o fluxo, ou refluxo extraordinário e se se reparou, que tempo gastava em baixar a água, e quanto a tornar a encher?

7º. – Se abriu a terra algumas bocas, o que nelas se notou, e se rebentou alguma fonte de novo?

8º. – Que providências se deram imediatamente em cada lugar pelo Eclesiástico, pelos militares e pelos Ministros?

9º. – Que terremotos têm repetido depois do primeiro de Novembro, em que tempo e que dano têm feito?

10º. – Se há memória de que em algum tempo houvesse outro Terremoto e que dano fez em cada lugar?

11º. – Que número de pessoas tem cada Freguesia, declarando, se pode ser, quantas há de cada sexo?

12º. – Se se experimentou alguma falta de mantimentos?

13º. – Se houve incêndio, que tempo durou, e que dano fez?

Extra – Se padeceu alguma ruína no terremoto de 1755 e em quê e se já está reparado.

Considerando a época, dizem os especialistas que este inquérito foi redigido de uma forma notável, procurando com o seu leque de perguntas a obtenção de informações de tipo «macrosísmico» como se faz com as escalas de danos desenvolvidas século e meio mais tarde e que ainda hoje são as que vigoram, tais como a Escala Mercalli Modificada (IMM) ou, a mais recente, a European Macroseismic Scale-98 (EMS-98). O grande geólogo Luís Francisco Pereira de Sousa (1870-1931) usou os dados obtidos pelo inquérito do Marquês para um estudo profundo sobre os danos previsíveis para construções e monumentos. O sismo de 1909 em Benavente, obrigou os sismólogos a estudarem de novo o grande terramoto de 1755.

Mas vejamos, da forma sucinta que se impõe, como é que a população correspondeu ao inquérito que, com a grande maioria de analfabetos existente, deve ter dado bom trabalho a párocos e seus ajudantes. Mas às ordens do Marquês, tinha de se obedecer. Vê-se que houve zonas, talvez por terem sido menos atingidas, em que a informação quase não existe, como por exemplo os Distritos do Porto, Braga e Viana do Castelo.

O que dissemos sobre o analfabetismo, e as consequentes dificuldades de interpretação, explica a falta de homogeneidade no corpo das informações. Por exemplo, a duração do sismo é descrita, não em termos de contagem feita por relógio, mas comparativamente à duração de uma oração. As Ave-Marias e Credos prevaleceram como medidas, pelo que se calcula entre 7 e 8,15 minutos. A descrição do ruído que antecedeu ou acompanhou o abalo sísmico, repete-se na maioria das respostas – primeiro um grande estrondo e depois uma vibração, o ranger das estruturas das casas.

Até hoje não se deixaram de fazer estudos sobre o que aconteceu em Lisboa naquele dia. Por exemplo, num trabalho de 2005, Hubert Reeves entende que a construção urbana lisboeta fugia à tipologia-padrão da época, com prédios muito altos e ruas muito estreitas, pelo que o colapso de um edifício implicava a queda de outros, num literal efeito de dominó. Na realidade, os maiores danos foram no tecido urbano da Baixa onde se concentrava o centro medieval por excelência – casas com o exterior em alvenaria e o interior em madeira (ou taipa) e que subiam a quatro, cinco ou mesmo seis pisos.

O número estimado de vítimas é muito variável. Calculando-se em 270 mil pessoas a população da cidade (das quais, 150 mil com mais de sete anos), cálculos moderados apontam para cinco mil mortos durante o terramoto e mais cinco mil nos dias seguintes, em consequência de ferimentos ou de doenças contraídas. Mas há estimativas diferentes que apontam para vinte mil mortos e outras ainda mais catastrofistas que chegam às cem mil.

Sabe-se que o contacto entre as placas tectónicas Euro-Asiática e Africana, serão em princípio, o motivo da frequência com que se verificam sismos em Portugal. Porém, uma explicação científica do que aconteceu, não cabe neste texto. Essa explicação envolve áreas do conhecimento como a sismologia, a geotecnia, a engenharia. Sabemos que, apesar dos estudos que se têm feito ao longo de dois séculos e meio ainda não existem explicações cabais que permitam evitar uma catástrofe semelhante no futuro.

Interessantes são algumas das explicações encontradas na época. Para já a da Igreja, a do costume – foi castigo divino pelos pecados cometidos. Dois motivos para que Portugal tivesse sido escolhido como alvo prioritário: a proibição da leitura da Bíblia e a perseguição dos Judeus pela Inquisição. Não faltaram outras explicações, astronómicas, astrológicas e, por exemplo, de natureza geológica, provocado o sismo por «forças do interior da Terra».
(Continua)



publicado por Carlos Loures às 12:00
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