Sábado, 30 de Outubro de 2010

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publicado por Carlos Loures às 23:50
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Ou reintegracionistas ou imbecis (com humor amoroso)

Do Portal Galego da Língua, transcrevemos, com a devida vénia, este excelente texto de

 Alexandre Banhos Campo:


O título semelha um pouco forte, pois parece dizer-se que, quem não se afirmar reintegracionista, é parvo, e isso não é assim, e, além disso, refere-se ao momento mais ou menos contemporâneo que vivemos nos nossos dias.

Quando os nossos devanceiros galeguistas do século XIX, os recuperadores da nossa língua como algo que começava a deixar de ser "socializadamente" simples língua ágrafa, se põem a fazer obra, não se podia aguardar deles outra cousa senão usarem o modelo castelhano, como escreve algures Fernando V. Corredoira “Em meados do século XIX renasce para a literatura uma língua socialmente estigmatizada, funcionalmente minorada, banida das instituições oficiais e hostilizada pelo Estado. Popular e realmente falada, a língua galega começará a ser posta ao serviço dum movimento cultural e político que irá perfilando uma vocação que (com cautela, porém) poderíamos chamar nacional...Como previsível, o recurso ao modelo ortográfico castelhano foi inevitável. O ágrafo galego passou a escrever-se conforme a feição gráfica da língua oficial e única língua verdadeira — tal como ortografada desde finais do século XVIII. Este modelo tinha no mínimo duas vantagens invencíveis: era tecnicamente prestadio e era o único conhecido, o único aliás que podia conhecer-se”.

Que no século XVIII o Padre Sarmiento escrevesse: “la lengua portuguesa pura no es otra que la extensión de la gallega” (“Sobre el origen de la lengua gallega”, 1755, em Opúsculos Lingüísticos Gallegos del s. XVIII, J.L. Pensado, Editorial Galaxia, 1974, pág. 30), ou que o seu colega de ordem e sabedoria o Padre Feijó afirmasse: “el idioma Lusitano, y el Gallego son uno mismo” (Theatro Critico Universal, tomo I, discurso 14, 1726), isso nada mudara pois não fazia parte do conhecimento “socializado”.


Pensai que o imenso acervo cultural medieval do português na Galiza era absolutamente desconhecido e só começou a desvendar-se nos últimos anos do século XIX e nos primeiros do XX. E o acesso ao galego de Portugal ou português de Portugal (e do Brasil), tão-pouco era nada doado, estavam a muitos megaparsec dos magníficos tempos presentes da internet, nos quais temos milhões de livros, e de todo tipo de documentos à distância dum clique na nossa língua, “libertada” de ferretes e taxas alfandegárias espanholas.

Nessa difícil situação dos primórdios, elaborou-se um discurso galeguista coerente com a realidade da língua e que foi o seguido a pé feito pola imensa maioria dos nossos vultos. Essa ideologia da língua foi magnificamente exprimida polo homem da Rosália de Castro, o impagável Murguia, no seu discurso dos Jogos Florais de Tui do ano 1891, no qual com rotundidade se afirma o da língua galega ser a mesma de Portugal e o Brasil, e que nunca poderemos pagar-lhes o serviço de a terem cuidado e enobrecido.

O grande vulto do galeguismo nacionalista Afonso Daniel R, Castelão, numa carta ao historiador espanholista Sánchez Albornoz, em que indica que o seu apelido é Castelão (Castelão = Castellano) com o til, diz: “Deseo, además, que el gallego se acerque y confunda com el português”

Para todo o galeguismo de pré-guerra o galego era português como o português era galego, ou nas formosas palavras de A. Vilar Ponte “Quanto mais galego é o galego mais português é”

Isso para o galeguismo era pura tautologia, que o universal analfabetismo na própria língua – de que não se libertava ninguém –, e a escolarização na escola espanhola impossibilitavam na prática, porém o rumo e ritmo reintegrador era firme e imparável, e cada dia avançava graus.

Mas passados e moldados todos – fascistas e antifascistas – na longa ditadura franquista, foi esmorecendo o velho legado da afirmação da unidade da língua portuguesa, da Galiza, o Brasil, Portugal e demais estados lusófonos. Unidade sim, mas com a diversidade interna própria como corresponde a línguas internacionais e multicontinentais.

O martelo franquista golpeando o galeguismo sobre a bigorna do controle, fez esmorecer em grande medida a transmissão entre as gerações do pensamento galeguista.

Os modelos “comunistas” de oposição converteram o Estado no quadro da luita de classes, e o povo – que por antonomásia é uma estrutura de classes com jogos de elites e de lideranças, e que como tal estava no mundo – foi reduzido a um imaginário de camadas populares, e a língua pois que ia ser “a língua proletária do meu povo”. Sintagma este que além da sua verdade muito mais confunde e com funestas consequências.

Desde a recuperação da democracia neste estado espanhol onde todo ficara atado e bem atado – em palavras do ditador –, desenvolveu-se um processo acelerado – unido à urbanização – de substituição linguística. A substituição vai firmemente colada à afirmação radical da língua “regional” (estatização).

Isso, além doutras questões, funciona como um instrumento muito útil do sucesso da substituição, e mais, quando setores bem importantes e numerosos do galeguismo acabam por assumi-los. Se a isso anexamos o controle ferrenho pola ideologia estatalista da universidade e da socialização na população na escola, o quadro que nos fica é bem cinzento.

Caros leitores, as línguas e as culturas são como as fragas, ecossistemas, neste caso ecossistemas sociais e culturais.

Quando nos achamos com uma fraga grande, esta tem uma grande inércia interna ecológica. Que nela sejam cortadas e toradas algumas árvores, o efeito real nela é nulo, e ainda que se introduza alguma espécie alheia, a inércia da imensidade dessa fraga faz com que os seus efeitos sejam imperceptíveis.

Porém, quanto menor for o espaço do ecossistema, qualquer tipo de intervenção nele, tem efeitos muito determinantes: se alguém cortar árvores e se puser a torá-las para fazer lenha ou tábuas, o efeito logo se percebe. Quanto menor é o espaço, mais sensível é às intervenções e mais dificuldade tem esse sistema para garantir a sua sustentabilidade.

Se tirando árvores se produzem efeitos nas fragas pequenas, não me diredes os que se vão produzir, se nesse espaço inserimos espécimes e sistemas alheios. Lembrai de novo que em biologia, quanto menor é um sistema ecológico, mais sensível é às intervenções que nele ocorrerem

O português da Galiza, comummente conhecido por galego, para grande fortuna nossa, faz parte duma fraga cultural e linguística pluricontinental com grande inércia ecológica interna. Mas à nossa volta o estado criou grandes auto-estradas e TGVs, modificaram as correntes de água vivificadoras, cortaram muitas árvores, introduziram espécies grandemente invasivas, e têm contratado um bom número de bem pagos e bem mantidos defensores da estatalização — quer dizer, do afastamento –. Com tudo isso afastaram-nos da fraga de que fazíamos parte, e engataram (ligaram) a nossa fraga a uma fraga cultural e linguística chamada polos nomes de castelhano e espanhol (bom, a nossa também e chamada por dous nomes português e galego e isso não deveria significar mais para nós e o nosso ecossistema, do que espanhol e castelhano significa para essoutro ecossistema).

Assim tornaram a nossa ¬fraga num apêndice pequenecho colada à deles, e declararam-na “de especial proteção constitucional”. Isso como em qualquer outro ecossistema significa que a viabilidade é muito limitada – (o da proteção na natureza dá pavor e no nosso ecossistema social também).

Temos um ecossistema, o nosso, “protegido” do seu natural e próprio, bem cingido como regional, e firmemente paralelo e muito bem colado ao ecossistema dos 300 não sei que milhões e, isso sim, “sabei ademais, que o nosso é só “entre nós”.

Se falássemos depois disso da sustentabilidade do nosso ecossistema cultural e linguístico na Galiza, poderíamos com a ajuda da matemática estabelecer e quantificar distintas variáveis e as suas influências e taxonomizar o nosso ecossistema como de escassa viabilidade matemática, nessas condições.

Mas a cousa não fica por aqui, andam por cima, alguns do ecossistema esse ao qual foi colado o nosso – bem isolado e regionalizado – falando de imposições sistémicas e ecológicas, dum jeito que é um insulto à inteligência de quem pudesse sequer discutir tão grande couve mental, é-vos o mesmo que a verdadeira história que a seguir vou contar-vos.

Uma boa amiga minha tinha uma pata que punha uns ovos de que muito gostava, quando esta lhe morreu, numa quarta-feira foi a Valença à feira para comprar outra. Ali havia um vendedor com um só pato, e o vendedor dixo-lhe, bem, tenho-lhe este pato. E a amiga, de profissão professora e de muito bom expediente, diz, mas eu queria uma pata porque gosto muito dos seus ovos. O vendedor diz: não há problema, senhora, este pato é duma nova espécie fruto da engenharia genética, além de pato põe ovos de pata e até se reproduz por patogênese. Ela, ante tal maravilha, levou o pato e passaram os meses e os anos e o tal pato nunca um ovo pôs, e amiga dizia: imos discutir isso de se é certo o que o vendedor lhe dixera ou se a enganara ou se enganara, ou se se passava alguma cousa no comportamento do parrulo que ela não soubera tratar. Essa discussão com a minha amiga era um insulto óbvio a inteligência.

Pois assim é isso da imposição, um insulto à nossa inteligência, mas há quem de tão movido que tem os sistemas do seu ecossistema que tente discuti-lo sem ver que isso não é mais do que uma burla e trato dele como se fosse um verdadeiro parvo ou enfermo mental.

No ano passado realizei um curso de linguagem administrativa da Secretaria-geral de Política linguística, apreendia-nos uma beleza licenciada de Filologia Galega pola Universidade de Compostela que andava na casa dos trinta anos.

O futuro de conjuntivo, isso é algo já decaído em galego, o infinitivo conjugado, bom, isso está aí, mas não é recomendável dado que já está em desuso, a linguagem administrativa.... pois paralela do espanhol que é em definitivo o modelo da linguagem do ecossistema regional estatalizado. ¬

A professora andava muito zangada com a política de Feijóo sobre a língua, concretamente da modificação (entre outras cousas, um roubo do trabalho aos galegos e galegas) do artigo 35º do Decreto legislativo 1/2008; ela dizia: é injusto que se nos modifique a nós, e aos catalães e bascos não, isso é injusto, se é legal para nós também deveria ser para eles, nesse caso, se fosse aplicado a todos, eu calaria (sic)

A professora não era do PP, era votante Bloco. Um dia comentava-lhe que o nome da sua matéria quando foi de estabelece-la na universidade, era o de galego-português e ela não acreditava, e dizia de galego e português (como o galego se havia de poder chamar galegoportuguês!).

A sua aspiração era a de obter uma vaga de normalizadora nalguma instituição pública.

Eu pensava: mas que se passou em filologia da Universidade de Compostela para esta matéria vir cair nas mãos de estoas? Diz Tzun Tzu n'A Arte da Guerra, que as batalhas que melhor se ganham são aquelas em que o inimigo abandona antes da batalha, ou dito doutro jeito, que as batalhas que antes se perdem são aquelas onde se renuncia a combater.

O reintegracionismo – tendo a razão e a ciência do seu lado – renunciou à batalha séria em Filologia-Compostela (afortunadamente não todo o País é assim). Agora isso está em mãos de estoas e a mais dum reintegrata o de ser estoa até se lhe pega (naturalmente, estas apreciações subjetivas e descerebradas minhas não vão por ninguém e peço desculpa a quem se puder incomodar, salvo que seja ou se considere um estoa).

Dessa faculdade sai quanto normalizador nos invade, com essa praga imbecil do galego regional e sendo a desculpa para alguns caminharem contentes por nada.

Tranquilos todos e todas, quando eu for o Presidente da Galiza— por que não? – o primeiro que vou colocar é uma Secretaria-Geral de Política Linguística para a proteção da igualdade do castelhano e o galego e em cada estabelecimento ou instituição pública um normalizador supervisor de todo o que for feito em castelhano, desde traduções até saraus para terem bem cobertos os direitos; e aos de galego daria umas boas férias, que Deus sabe que as têm já bem ganhas.

Como percebo que estas minhas estórias podem ter despistado algum leitor, voltemos ao do cabeçalho e ao corolário a que temos que chegar.

Um amigo meu, acho que visitante nalgum congresso da AGAL (III), Cesareo Monici, corso ele, e com quem partilhei alguns jantares e muitos gostosos momentos, dizia-me: “Na Córsega falamos italiano, o italiano per se, o toscano; mas estes franceses querem que chamemos ao italiano corso, e que o modelo do nosso corso seja o da langue d'oil chamada franciano; bom, francês segundo o Estado”. Dizia-me: “estão-nos regionalizando, esmagando, banindo, substituindo o nosso ecossistema cultural italiano (balizando-nos muito bem balizados como diria o bom amigo Elias Torres) polo francês. Porém, eu quero ficar polo menos com a dignidade, não agir como um parvo e não aceitar o seu jogo. Jogo que é neste caso a coroa1 do modelo de substituição linguística que nos imponhem. São corso, mas não vão conseguir que me comporte como imbecil.”

Outro amigo de congressos da AGAL, o sempre muito solidário com a Galiza e das pessoas mais informadas do mundo sobre esta terra nossa, como é de geral conhecimento dos reintegracionistas, o Lluís Muntaner, dizia-me um dia: “Alexandre perdoa-me que che diga isto, mas queria comentá-lo contigo. Sou como sabes, muito admirador da vossa terra e cultura, gosto da Lusofonia, amo a cidade do Porto tanto como tu ou o nosso comum amigo José Chão de Lamas. Admiro a fina inteligência que caracteriza aos galegos e galegas, sodes os melhores fazendo o jogo bonito, mas sempre que se tenta meter um gole agides como parvos, melhor dito como imbecis, vós que tendes a vantagem de ter uma língua internacional renunciades a ela de jeito majoritário. O que fazem convosco, e o jeito de como muitos galegos e galegas colaboram nisso é de imbecis e não chego a entender como pode ser isso.”

O reintegracionismo é hoje a afirmação clara de qual é o ecossistema nosso. Mesmo uma instituição como a UNESCO no-lo recordou no seu último relatório sobre as línguas ameaçadas – e acabava o relatório da UNESCO – vocês saberão se o aproveitam ou não o de serem língua internacional— isso é com vocês.

Os reintegracionistas estamos conscientes da difícil situação em que vivemos e padecemos, mas o que não vão conseguir connosco, e que além disso – de passarmo-las putas –, o nosso comportamento seja o de imbecis que engolem mós de moinho como a minha amiga a do pato. Há que polo menos termo-nos respeito, como galegos e galegas e como pessoas inteligentes. Isso é o nosso melhor processo normalizador.


in Portal Galego da Língua, 31/05/2010

http://pglingua.org/index.php?option=com_content&view=article&id=2447:ou-reintegracionistas-ou-imbecis-com-humor-amoroso&catid=3:opiniom&Itemid=80&Itemid=36
publicado por Carlos Loures às 22:30
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Carvalho Calero, na tradição galega da Linguística românica

Carlos Durão

Passados 20 anos da morte de Ricardo Carvalho Calero, e 100 do seu nascimento, continua na
Galiza o silenciamento da sua pessoalidade e da sua obra, tanto por parte das instituições como
daqueles inteletuais, de “direitas” ou de “esquerdas”, que decidiram seguir a política autonómica
isoladora do galego, a mesma do Estado Espanhol. É por isso que as associações reintegracionistas
galegas estão a celebrar o Ano Carvalho Calero com diversas atividades, culturais, pedagógicas,
lúdicas, que promovem a sua obra linguística e lembram a sua vida devotada à comunidade cívica
galega.

Lembremos brevemente alguns pontos da sua biografia. Nado em Ferrol no 1910, fez ali os seus
primeiros estudos, e ali realizou as suas primeiras atividades culturais e políticas galegas. Fez em
Santiago de Compostela estudos universitários, de Filosofia e Direito, relacionando-se com outros
estudantes do Seminário de Estudos Galegos e do Grupo “Nós”, nos anos da ditadura de Primo de
Rivera, e participando no movimento de resistência universitária.

Terminados os estudos de Direito (e posteriormente os de Filosofia), foi co-fundador do Partido
Galeguista e elaborou, com outros, o Anteprojeto do Estatuto de Autonomia da Galiza, que era
republicano e federal, e que foi plebiscitado e aprovado pouco antes da insurreição militar
espanhola que provocou a chamada guerra civil.

R. Carvalho Calero estava em Madri nessas datas, porque ali se apresentara a um concurso de
catedrático de liceu. Fiel à República, incorporou-se como miliciano ao seu Exército, participando
na defesa de Madri, e combatendo posteriormente noutras frentes. No final da guerra foi preso e no
1941 libertado sob vigilância, só lhe sendo permitido dedicar-se ao ensino privado.

No após-guerra desenvolveu, precariamente, o seu labor docente, de investigação e de criação
galega, no ensaio, no romance e no teatro. Desde o 1950 colaborou nos trabalhos da Editorial
Galaxia. E desde meados dos anos 60 foi professor de Língua e Literatura Galegas na Universidade
de Santiago, conseguindo essa Cadeira no 1972.

Quando se instauraram na Galiza as instituições autonómicas, no remate da ditadura, foi-lhe
encarregada a parte principal na Comissão que elaborou as Normas Ortográficas do Idioma Galego.
A sua formação linguística inclinou-o à recuperação da ortografia galega histórica, coincidente com
a normal nos países lusófonos, mas outros componentes da comissão discordaram diametralmente,
advogando por uma ortografia que não criasse problemas para o ensino do espanhol, isto é: uma
ortografia espanhola, junto com uma conceição da língua como sendo só espanhola e independente
da portuguesa.

Carvalho Calero demitiu-se, e a comissão foi dissolvida. Desde então, a sua posição dita
“reintegracionista” enfrentou-o aos funcionários ditos “isolacionistas”, que detinham o poder
autonómico. Mas o seu prestígio foi em aumento entre os estudantes universitários, como também
entre as associações culturais galegas que iriam conformando o campo reintegracionista: por isso
foi marginado na sua Cadeira e, na sua reforma, foi-lhe vedada qualquer participação linguística nos
meios “oficiais”.

No 1982 foram enfim impostas por Decreto umas novas Normas Ortográficas (“Morfolóxicas”),
ainda hoje vigentes, que consolidaram a satelização da nossa língua pelo castelhano, e o seu
conseguinte afastamento do português.

Sem renunciar nunca aos seus princípios, Carvalho Calero desenvolveu um intenso labor cultural,
arrequentando as novas gerações independentes do oficialismo, pelas que foi repetidamente
homenageado, ao tempo que foi postergado e odiado pelas autoridades. E continuou a sua obra de
criação e ensaio, consequente com os seus princípios continuadores da tradição galego-portuguesa.

Mas é hora de deixar que nos elucidem as palavras do nosso grande homem, ilustre máximo vulto
representante do movimento reintegracionista, ao lado de Guerra da Cal e Rodrigues Lapa, seus
amigos e colaboradores. Pela sua atualidade, as citas merecem certa extensão. Deixo as grafias
originais das diferentes datas de publicação.

“Umha língua tam ameaçada como o galego nom pode sobreviver senom apoiando-se nas demais
formas do sistema, quer dizer, reintegrando-se no complexo luso-galaico do qual geneticamente
forma parte [...] O galego ou é galego-português ou é galego-castelam [...] Umha concórdia
ortográfica, quando menos, e umha inteligência na opçom das formas lingüísticas que integrariam,
sem prejuízo das peculiaridades do galego, o veículo geral de comunicaçom, seriam
indispensáveis./ Deste jeito, seríamos o que somos, voltaríamos a ser o que fomos: o romance mais
ocidental, nom esnaquizado em dous anacos isolados, senom reintegrado numha unidade
sistemática que nom exclui a autonomia normativa” [...] “Alguns demagogos querem manter este
estado de alienaçom, e rejeitam como artificiosas as formas restauradas. Comovedora homenagem
de ignorância ou fanatismo ao mito do galego popular, se nom se trata de uma maquiavélica
manobra encaminhada a fazer impossível a supervivência do galego” (1)

“Com diversos matizes, o reintegracionismo propugna a rectificaçom da deriva anómala do galego
para o iberorrománico central, cujo arquetipo é o castelhano, e a recuperaçom da órbita natural do
sistema” (2)

“Algumas pessoas desinformadas tendem a apresentar-me como um inovador, como um
revolucionário polo que se refere ao conceito da nossa língua, mas as minhas opiniões, expressadas
naturalmente conforme aos meus próprios parâmetros pessoais, são sem embargo aquelas opiniões,
aqueles critérios que tradicionalmente se professam dentro do galeguismo. Uma doutrina
revolucionária é, por exemplo, a de que o Galego é uma língua que deve ser considerada
absolutamente independente dentro das Línguas da Românica. Isso sim pode ser considerado
inovador, ainda que com um tipo de revolução completamente contrário à realidade da experiência
histórica [...] eu realmente não creio que se me pode considerar um dos pais do reintegracionismo.
Mais bem sou um dos filhos, por que o reintegracionismo nasce cientificamente com o Romanismo,
e politicamente com o Galeguismo. [...] a mim correspondeu-me, como a outros colegas e
correligionários, precisar consoante as circunstâncias do meu tempo, uma doutrina que explicita ou
implicitamente era a doutrina geral do Romanismo e os propugnadores do Galeguismo professavam
desde que surgiram à luz. [...] O reintegracionismo, portanto, não é outra cousa que aquela doutrina
que quer devolver a sua própria natureza ao Galego.”
“[...] todo o mundo sabe que eu professo em matéria de Política Linguística as ideias tradicionais, as
ideias de Castelão, e como essas ideias são contrárias às ideias que reinam no mundo oficial, no
aspecto cultural, pois, não tenho muito predicamento, ao parecer, dentro dessas esferas.
Consideram-me como um herege, como um cismático, ou como um corruptor da mocidade, e se me
exclui positivamente dos organismos oficiais. Isto é evidente, ainda que tamém é certo que entre as
pessoas que formam parte desse “holding” cultural que hoje nos governa há gentes que conservam
um respeito pessoal para mim, alguns mesmo um afecto pessoal, mas é verdade que se me
considera um obstáculo para o desenvolvimento duma determinada Política Linguística e se me
exclui decididamente em geral do mundo cientificoliterário que está servido por pessoas afectas às
ideias reinantes, que são mais bem isolacionistas do que reintegracionistas [...]” (3)
“É certo que en determinadas reunións de lingüistas, por exemplo a celebrada en Tréveris, à que
non asistin, houvo duas ou tres persoas que se permitiron combater asañadamente os meus pontos
de vista. En realidade eles son os orixinais. Eu sigo a tradizón, eles son os revolucionários.”(4) “Eu
neste aspecto son absolutamente ortodoxo. Os heterodoxos son os que discrepan desta tradizón
galeguista na que eu estou plenamente incorporado” (5)
“Entón constitui ao meu xuízo unha cegueira dos políticos que nos governan, induzidos por
estudiosos ou técnicos que non posuen a necesária amplitude de espírito para ver o galego cunha
conceizón diacrónica, tratar de esmagar a estas persoas, a este grupo que propugna a reintegrazón
do galego dentro do sistema ibero-románico occidental; grupo que se ten acreditado como
numeroso, como responsável e como ben informado [...] Non me parece correcta a actitude da
Administrazón negando, por exemplo, a sua proteczón económica a empresas culturais importantes,
polo feito de que a expresón formal ortográfica dos solicitantes deses apoios estexa orientada à
reintegrazón do galego ao seio do sistema galego-portugués. En realidade, eses médios económicos
[...] son [...] subvenzóns, son bens, cuxo proprietário é o povo galego. E os reintegracionistas, a
verdade, cremo-nos parte dese povo galego, e nos parez unha actitude abusiva, absolutamente anticonstitucional, aquela que nos priva de disfrutar dunha proteczón económica que nos parece ser un
ben ao que devemos ter acceso todos os galegos” (6)

Mais sobre atividades do Ano Carvalho Calero http://www.carvalhocalero2010.net/ (Está prevista
para o dia 30 a inauguração dum monumento a R. Carvalho Calero na Alameda de Santiago de
Compostela)

Notas:


(1) “Sobre a nossa língua”, em Problemas da Língua Galega, Sá da Costa Editora, 1981, pp. 19-21,
conferência no Clube Lingüístico da Crunha, 7 fevereiro 1979
(2) “O português na Galiza”, em Letras galegas, Agal, pp. 24-25, 1984 (texto de 1983)
(3) “Entrevista com o professor Dr Ricardo Carvalho Calero”, por Ramom Reimunde, revista O
Ensino, nos 18-22, 1987, Homenagem ao professor Carvalho Calero, pp. 14-17
(4) em “Conversas en Compostela con Carballo Calero”, M.A. Fernán-Vello/F. Pillado Mayor, Eds.
Sotelo Blanco, 1986, p. 178
(5) ibid., p. 233
(6) ibid., p. 239-240
Algumas obras de R. Carvalho Calero: poética: Pretérito Imperfeito (1980); Futuro Condicional
(1982); Cantigas de Amigo e Outros Poemas (1986); Reticências... (1990).
ensaio: Sobre língua e literatura galega (1971); Estudos Rosalianos: aspectos da vida e obra de
Rosalia de Castro (1979); e Libros e Autores Galegos I (1979); Problemas da Língua Galega
(1981); Livros e Autores Galegos II (1982); Da Fala e da Escrita (1983); Letras Galegas (1984);
Escritos sobre Castelao (1989); Estudos e Ensaios sobre Literatura Galega (1989); Do Galego e da
Galiza (1990)
obra dramática e narrativa: A Sombra de Orfeu, Farsa das Zocas, A Árbore e Auto do Prisioneiro
(1971); Teatro Completo (1982); A Gente da Barreira e Outras Histórias (1982), Narrativa
Completa (1984); Scórpio (1987)
R. Carvalho Calero era membro ordinário da «Academia das Ciências de Lisboa», membro de
honra da «Associação Galega da Língua» (A.Ga.L), da «Associação de Escritores em Língua
Galega» (A.E.L.G.), das «Irmandades da Fala», e da “Real Academia Galega” (onde, com o seu
colega Jenaro Marinhas, manteve precariamente a dignidade da tradição da linguística românica)
publicado por Carlos Loures às 21:00
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publicado por Carlos Loures às 19:30
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Ricardo Carvalho Calero - Estamos no Ano Carvalho Calero

[Publicado em 6/10/2010 no PGL – Portal Galego da Língua www.pglingua.org ]

http://www.pglingua.org/index.php?option=com_content&view=article&id=2876:estamos-no-ano-carvalho-calero&catid=3:opiniom&Itemid=80&Itemid=36

Por José Paz Rodrigues (*)

(*) Professor Numerário da Faculdade de Educaçom de Ourense.

É muito difícil para mim entender que se tenha tanto no esquecimento uma pessoa que sempre trabalhou durante décadas e décadas polo idioma galego e pola Galiza. D. Ricardo Carvalho Calero, que tivem a sorte de conhecer e tratar, há tempo que tinha que receber na Nossa Terra a homenagem que bem merece polo seu grande labor e amor pola Galiza. Académico que foi da RAG desde o ano 1958, em que entrou como tal com o seu discurso de ingresso sobre o tema: “Contribuiçom ao estudo das fontes literárias de Rosalia”, é ainda muito mais difícil compreender como esta instituiçom nom tenha decidido, como deveria ser, que se lhe dedicasse este ano a festividade das Letras Galegas.

Precisamente neste ano de 2010 cumprem-se os cem anos do seu nascimento e os vinte do seu passamento. D. Ricardo, que era como carinhosamente o tratávamos os seus discípulos e amigos, tinha nascido em Ferrol em 30 de outubro de 1910, falecendo em Compostela, onde morava, no dia 25 de março de 1990. Ademais da sua grande bondade e amor pola Terra, eu quero salientar as suas múltiplas virtudes como intelectual e polígrafo, cultivador de poesia, teatro, romance e ensaio literário, filológico ou sociolinguístico, além de brilhante orador. De verbo tam cálido, que era um prazer escuitá-lo ou tê-lo como interlocutor.

Em 1926 terminou o bacharelato e matriculou-se na Universidade de Compostela, onde estudou Direito e Filosofia e Letras, que terminou respetivamente em 1931 e 1936. Foi membro ativo do Seminário de Estudos Galegos (SEG), no qual ingressou em abril de 1927, chegando a exercer no mesmo de secretário-geral. Em 1931 será co-fundador do Partido Galeguista e elaborará com Luis Tobio o primeiro ante-projeto do Estatuto de Autonomia para a Galiza. A guerra do 36 surpreendeu-no em Madrid, onde se incorpora ao exército republicano. Ao final da mesma, em 1939, é julgado e condenado a doze anos de cárcere. No ano de 1941 regressa a Ferrol em liberdade controlada, dedicando-se ao ensino privado, ao nom lhe ser permitida a inscriçom para exercer no público.

Anos depois, em 1950, deslocará-se para trabalhar em Lugo, onde exercerá como professor e diretor do Colégio “Fingoi”. Um colégio modelo do ponto de vista pedagógico, ao pôr em prática os métodos e estratégias didáticas próprios da ILE de Giner e Cossio, fomentando nos alunos o amor polo teatro, a investigaçom do próprio entorno e todas as artes. Um dos seus docentes deste centro educativo foi o atual presidente da RAG, o que tanta fobia lhe tem a D. Ricardo, tam inexplicável que mesmo chegou a dizer recentemente uma autêntica barbaridade: “que antes que Carvalho há vinte para dedicar-lhes as Letras Galegas”.



Em 1955 doutora-se na Universidade Complutense com prémio extraordinário. Em 1972 ganha a primeira cátedra de Linguística e Literatura Galega da universidade compostelana, exercendo na mesma antes de professor interino de Galego. Em 1979 preside à Comissom Linguística da Conselharia de Cultura da Junta da Galiza, sendo conselheiro Alejandrino Fernández Barreiro. Esta comissom era a encarregada de elaborar uma normativa de concórdia para a nossa língua. Este seu trabalho foi deitado abaixo mais tarde, em 1982, polo famoso decreto Filgueira, que ainda padecemos hoje, sem ter em conta para nada as alternativas linguísticas equilibradas que propunha a comissom presidida por D. Ricardo. A finais dos anos setenta adere ao reintegracionismo linguístico.

Entre os muitos livros ensaísticos que publicou, quero destacar a História da Literatura Galega Contemporânea (1963), a Gramática Elemental do Galego Comum (1966), Problemas da Língua Galega (1981), Da fala e da escrita (1983), Letras Galegas (1984), Do Galego e da Galiza (1990) e Umha voz na Galiza (1992). Da sua obra de criaçom literária, bastante extensa também, brilha com luz própria o seu estupendo romance Scórpio (1989). Assim mesmo merecem ser destacados os seus livros Vieiros (1931), A gente da Barreira (1951), Saltério de Fingoi (1961), Pretérito imperfeito (1980), Futuro incondicional (1982), Teatro completo (1982), Cantigas de amigo e outros poemas (1986) e Reticências (1990).

Para conhecer o seu pensamento som também interessantes as leituras dos livros de conversas sustidas com ele por Carme Blanco, Pilhado Maior e Salinas Portugal, e o livro biográfico de Monteiro Santalha, Carvalho Calero e a sua obra. A Fundaçom “Meendinho”, da qual me honro fazer parte do seu conselho, está organizando uma campanha para levantar em Compostela um busto de D. Ricardo, agradecendo todo o tipo de contributos de pessoas particulares e das diferentes instituições públicas e privadas.

Na revista O Ensino, a cujo conselho de redaçom pertencim, como secretário, D. Ricardo, de forma premonitória chegou a dizer em 1987: “Todo o mundo sabe que eu professo em matéria lingüística as ideias tradicionais, as ideias de Castelao, e como estas ideias som contrárias às ideias que reinam no mundo oficial, no aspecto cultural, pois, nom tenho muito predicamento, ao parecer, dentro dessas esferas. Consideram-me como um herege, como um cismático, ou como um corruptor da mocidade e se me exclui positivamente dos organismos oficiais”.

Infelizmente, para descrédito das instituições oficiais, com a RAG à cabeça, a infâmia continua neste ano que tinha que ser o seu, e que por dignidade mereceria. Contudo, no ano de 1996, em acordo plenário, o Parlamento da Galiza nomeia-o por unanimidade Filho Ilustre da Galiza, ao mesmo tempo que instala a sua imensa biblioteca pessoal num local do próprio Parlamento. Tema este também muito silenciado. Merece tal tratamento, por parte do mundo oficial, este nosso intelectual coerente e honesto?
publicado por Carlos Loures às 18:00
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A cultura galega e o universo da lusofonia



No vídeo podemos ouvir um trecho de uma canção popular açoriana, que Adriano Correia de Oliveira tornou famosa, cantada pela lisboeta Raquel Tavares e pela galega, de Mós, Uxía Senlle – “Morte que mataste Lira”. Um belo mosaico lusófono. O espectáculo “Cantos da Maré”, onde este vídeo foi gravado, realizou-se em 19 de Dezembro de 2009 em Pontevedra. Uxía Senlle é uma cantora galega que mantém uma estreita relação com a cultura portuguesa. Numa entrevista dada ao «Portal Galego da Língua» -PORTAL GALEGO DA LÍNGUA ( http://www.pglingua.org/ )da AGAL - Associaçom Galega da Língua - produziu afirmações que testemunham uma profunda convicção na unidade entre as duas vertentes da língua. Salientam-se alguns aspectos relevantes dessa entrevista.

«É um grave erro estratégico não afirmar que galego e português são a mesma língua», disse Uxía que contou como nasceu o projecto “Cantos na Maré”: «Nasceu há seis anos. Sempre tivemos o sonho de organizar na Galiza, de sermos os anfitriões dos países da lusofonia, de trazê-los à nossa terra com todas as suas músicas. Pontevedra abriu-nos as portas à primeira edição».

«O que fazíamos era uma experiência, pois não sabíamos como ia sair, mas nessa primeira edição produziu uma conexão enorme entre o público e os que estávamos no palco. Achávamo-nos ante uma realidade tão certa e segura que tínhamos que continuar a avançar por esse caminho».

«Hoje a Galiza e a sua música está presente no Brasil, agora nasceu “Cantos na Maré” em rede, que é a possibilidade real de pensarmos num mercado da Lusofonia onde os agentes culturais estejam presentes. “Cantos na Maré” tem o sucesso da vontade e da paixão que pomos nas coisas. “Cantos na Maré” tem que ser itinerante, é um encontro de músicas e músicos galegos, mas não é só isso, é algo mais».

Falando depois na receptividade do projecto em Portugal, referiu que detecta no nosso país uma desconfiança a respeito da Galiza e dos galegos, supondo-se que os projectos de que Uxía falava fizesse parte de uma manobra de Espanha para absorver Portugal. «Em Portugal ainda não se entende bem qual é a situação da Galiza, e as relações que temos com Espanha. Mas estamos num momento excepcional das nossas relações e temos que avançar por aí».

E termina chamando a atenção para o número de falantes do português: «É um grave erro estratégico não afirmar que galego e português são a mesma língua. Há que fazer que vejamos as televisões portuguesas na Galiza para já. Temos a sorte de termos uma língua internacional com todas as vantagens das culturas internacionais com milhões de falantes e temos que aproveitá-lo, eu não entendo o erro dos políticos, o erro histórico de que essa nossa realidade linguística se agache, parece-me um erro gravíssimo. Na medida em que nos afirmemos pertencentes à lusofonia formaremos parte dum mundo vasto e riquíssimo no âmbito cultural, temos uma cultura tão rica e da qual somos o berço. Não podemos deixar que no-la apaguem».

«Esse medo que há em certos sectores de reconhecer que a Galiza tem a mesma língua que Portugal e agir na política cultural e linguística consequentemente na União Europeia não deveria fazer sentido, pois as vantagens desse facto não são só para nós, são para todos».

Estes sectores de que Uxía fala, referindo-se talvez mais às entidades políticas e culturais da Galiza, existem também aqui em Portugal onde parece haver um atávico receio de desagradar a Madrid. Recusar esta ponte de fraterna unidade cultural que galegos como Uxía nos estão estendendo, seria uma estupidez.

Estrolabio afirma a disposição de dar o seu modesto contributo para essa unidade. Estamos abertos à colaboração dos irmãos galegos.
publicado por Carlos Loures às 16:30
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O FLiP8;, o dicionário Priberam online e o galego-português

Carlos Durão

Acedo com gosto ao amável convite do Estrolabio para fazer uma breve resenha de algo que nos honra a todos, nesta grande casa da Lusofonia. Trata-se da atualização do reconhecido programa FLiP, da empresa Priberam Informática, permitindo programas OpenOffice.

Para nós, galegos, é importantíssima esta oitava atualização, pois entre as variedades nacionais da língua que tradicionalmente lá figuravam: Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Macau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Timor, hoje por primeira vez aparece a Galiza, até com a sua bandeira. Este é um facto (um feito, como dizemos acima da Raia) que nos orgulha a todos, e pelo que parabenizamos a Priberam Informática.

Talvez para alguns leitores seja isto novidoso, mas a consideração da língua galega como “variedade do português” (também “norma galega do português”), sempre afirmada pela filologia clássica e independente de nacionalismos, recebeu um revigorado impulso nos dous derradeiros anos, que são os que tem de vida a jovem Academia Galega da Língua Portuguesa: ela foi recebida de braços abertos pelas irmãs Academia de Ciências de Lisboa e Academia Brasileira de Letras. A sua Comissão de Lexicografia e Lexicologia forneceu um Léxico não exaustivo (1200 entradas aprox.) de palavras “tipicamente” galegas, de uso corrente, para se integrar no Vocabulário Ortográfico que pedia o Acordo Ortográfico, como também nos demais dicionários da Lusofonia.

E isso já está a acontecer: um exemplo é este FLiP8; também o dicionário Priberam online já começou a incorporar esse Léxico. Os leitores podem ali consultar duas típicas palavras galegas: “lôstrego” e “brêtema” (http://www.priberam.pt/dlpo/default.aspx?pal=lôstrego e http://www.priberam.pt/dlpo/default.aspx?pal=brêtema). Elas já figuravam, como exemplos de proparoxítonas com vogal tónica fechada, na Base XI, 2º a) do Acordo Ortográfico de 1990, de Lisboa, no que a Galiza participou, com uma delegação de observadores, nas sessões de trabalho (como antes no de 1986 no Rio).

A inclusão de léxico da Galiza no FLiP 8 é fruto, pois, do trabalho da CLL da AGLP, e do Protocolo de Cooperação assinado com a Priberam. Mas também do chamado reintegracionismo linguístico galego, ao longo de muitos anos e com os esforços de muitos “bons e generosos” (as palavras do nosso Hino) de ontem e de hoje, entre os que só mencionarei os saudosos Ernesto Guerra da Cal e Manuel Rodrigues Lapa. Bem hajam!

Está a amadurecer na Galiza a consciência de pertença ao tronco linguístico comum, da que procuram afastá-la obscuros poderes ao serviço do centralismo estatal espanhol. Para estes “o galego” está bem em estado de hibernação e como engraçado adorno folclórico; e para eles é intolerável que a Galiza assuma a sua língua como nacional e internacional, com todas as consequências: pois isso é o que está a acontecer hoje nas suas camadas mais novas. Já era hora!

(Carlos Durão, Londres, 27 agosto 2010)

(Algumas ligacões: http://aglp.net/index.php?option=com_content&task=view&id=117&Itemid=31

http://aglp.net/index.php?option=com_content&task=view&id=114 (Léx) e

http://aglp.net/images/stories/Documentos/lexico_aglp.pdf)


publicado por Carlos Loures às 15:00
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publicado por Carlos Loures às 14:00
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Ricardo Carvalho Calero fala do porvir do galego-português na Galiza



publicado por Carlos Loures às 13:30
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Ricardo Carvalho Calero - O porvir do galego

Dando continuidade à série de textos que temos vindo a dedicar às comemorações do centenário do Professor Ricardo Carvalho Calero (1910-1990), iniciamos hoje a divulgação de um conjunto de vídeos sob o título genérico "O porvir do galego", titulo e tema de um entrevista emitida em 27 de Abril de 1987 pela TV Galiza. Esta entrevista foi conduzida por Constantino García González (Uvieu 1927 - Compostela 2008), Catedrático de Filologia Românica da Universidade de Santiago de Compostela. É um depoimento essencial para a compreensão da posição de Carvalho Calero na luta pela língua e pela cultura galegas. Sabendo que os galegos, de uma maneira geral, conhecem sobejamente esta posição, fazemos a sua divulgação mais em intenção de muitos portugueses, brasileiros e outros falantes do idioma, que não têm dado a este magno problema a atenção devida.

Neste segmento que hoje inserimos, o Professor Carvalho Calero explica as razões históricas que conduziram à secundarização do galego relativamente ao castelhano, situadas sobretudo no século XIV, quando no século XIV, a aristocracia galega apoiante de Henrique de Trastâmara, se viu obrigada a exilar-se. sendo substituída pela nobreza castelhana e durante a Revolução Industrial, com a chegada de técnicos estrangeiros. Explica como na Catalunha as coisas se passaram de modo diferente, pelo que foi possível aos catalães manter a língua e a literatura mais protegidas da aculturação.

Até 30 de Outubro próximo, não deixaremos de ir publicando textos, fotografias e vídeos sobre o Professor Carvalho Calero, figura cimeira da intelectualidade galega . O Estrolabio de 30 de Outubro será inteiramente dedicado à sua vida e à sua obra.

Iremos,até lá, publicando textos sobre Carvalho Calero e sobre outros paladinos da unidade do galego-português, como já fizemos com Manuel Rodrigues Lapa, por exemplo, um grande intelectual português que disse referindo-se a Otero Pedrayo: Se eu tenho orgulho em ser galego desta Galiza de aquém-Minho, e não é a primeira vez que o manifesto (sou de Anadia, nos limites da Galiza lanterga [sic]), por que razões ele, homem de Lugo, que pertencia à metrópole de Braga, não há-de ter orgulho em ser português? Dizendo melhor: por que não havemos todos de ter muita honra em ser galego-portugueses?”( in Otero Pedrayo e o problema da língua”, Grial, no 55, 1977, p. 44; depois em Estudos galego-portugueses, op. Cit.

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publicado por Carlos Loures às 12:00
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publicado por Carlos Loures às 11:30
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Forasteiro - Poema dedicado a Ricardo Carvalho Calero

Luís Pimentel*


Pra o poeta amigo Carballo Calero
"Cánto terror
levamos os homes".*

Só estás, nista cidade**
coa que non tes soñado endexamáis.
Relembras os teus sinos,
cuios sons
fuxiron xa dos teus ouvidos.
Paseias lentamente
e con ninguén podes
trocar o teu sorriso.
Ollas pra ise edificio
sen nais nas fiestras.
Tes medo ós arrabás.
Ti sabes que alí as bandeiras
están abatidas i esfarrapadas.
Coñeces que esiste
unha hora solitaria
coroada por un silenzo de morte.
Ti Sabes que todos os días
hai un home morto
que ninguén coñece aínda,
en cuia ollada derradeira
ficou
unha praza valeira
descoñecida pra il.

 (Sombra do Aire na herba, Editorial Galaxia, 1958)
.
Versos do poema Cunetas de Luis Pimentel
_____________

*Luís Pimentel ou Luís Benigno Vázquez Fernández (Lugo, 1895 — 1958) foi um poeta ligado à chamada  Geração de 27.
publicado por Carlos Loures às 11:00
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Canta Galiza!

Hoje apresentamos três lindíssimas canções galegas. Começamos com Cristina Fernandez, uma uruguaia de origem galega, cantando "O galego na escola", uma canção de crítica bem-humorada, mas certeira, à repressão feita à língua e à cultura galegas.

Segue-se "Galiza - uma terra, um povo, uma fala", pelo grupo Perdizadm:



Finalmente, apresentamos uma parte do Concerto de Uxia Senlhe na Sala Zitarrosa de Montevideu, Uruguai. Como convidada especial a cantora uruguaia, de origem galega, Crsitina Fernandez ~

publicado por Carlos Loures às 10:00
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Ricardo Carvalho Calero

Professor Ricardo Carvalho Calero


(Ferrol, 1910 - Compostela, 1990)

*Texto redigido polo Grupo de Língua da Fundaçom Artábria

PGL – Portal Galego da Língua

http://www.agal-gz.org/modules.php?name=Sections&op=viewarticle&artid=5



Ricardo Carvalho Calero nasce a 30 de Outubro de 1910 na rua de S. Francisco, na casa nº 51 e no bairro máis antigo de Ferrol, assi reconhecido polo nome de Ferrol-Velho.

Seus pais eram Maria Dolores Calero Beltrám e Gabriel Ricardo Carvalho Naia. Ricardo é o mais velho de seis irmaos, dos quais dous morrem na infáncia.

Despois dos primeiros estudos numha escola da rua Madalena, estuda no Colégio "Sagrado Coraçom de Jesus", que dirige o escritor Manuel Comelhas Coimbra, autor da obra dramática Pilara ou grandezas dos humildes, com quem inicia os seus estudos de latim, e prepara por livre os seus estudos de Bacharelato.

De mui pequeno, assiste às sessons de teatro e tamém de cinema que se celebravam no Teatro Jofre, ao mesmo tempo que começa a ler romances, teatro e a fazer os seus primeiros escritos: poemas, alguns já em galego, que publica na revista "Maruxa".

Nos seus primeiros trabalhos, Carvalho Calero contava com o estímulo do socialista e galeguista Jaime Quintanilha, personalidade notável da vida cultural e social ferrolana e galega daqueles tempos.

Em 1926, aos dezasseis anos, termina o Bacharelato e matricula-se na universidade compostelana no daquela 1º ano do curso de Filosofia e Letras e preparatório de Direito. Desde os primeiros momentos relaciona-se com os estudantes do Seminário de Estudos Galegos: Filgueira Valverde, Sebastiám Gonçález, Ramom Martínez Lôpez...

Som anos dumha grande actividade intelectual e política, em plena ditadura militar de Primo de Rivera. Participa dos movimentos de resistência estudantil, combinando a oposiçom política com a promoçom cultural, chegando a ser presidente da Federaçom Universitária Escolar (F.U.E ), entidade sindical-escolar.

Nom quer dizer isto que a vida intelectual nom tivesse importáncia. Estavam mui ligadas, precisamente, digamos, a oposiçom política e a promoçom cultural, de maneira que os estudantes líamos entom os poetas da "Generación del 27", que eram os que estavam na moda, os grandes poetas: Salinas, Guillén, Lorca e Alberti. Todos os mais considerávamo-los já de segunda orde.

É a época tamém da criaçom, do funcionamento da "Federación Universitaria Escolar": «Lembro as cargas da Guarda Civil dacavalo no campo de Dom Mendo, que ocupava o espaço que hoje é campus universitário, diante dos colégios maiores ». (Em Conversas en Compostela con Carvalho Calero, Fernán Vello, Pillado Mayor, Sotelo Blanco, 1986).

Em 1928, publica o seu primeiro livro de versos Trinitarias, que recolhe poemas escritos dos 14 aos 16 anos, todos em espanhol, e o texto dumha conferência «En torno a las ideas comunistas de Platón».

A etapa universitária de Carvalho Calero ficou marcada pola sua incorporaçom ao Seminário de Estudos Galegos (S.E.G), o que supom a consolidaçom do seu compromisso pola cultura galega, já manifesto durante a sua adolescência.

O ferrolano ingressou no S.E.G. em Abril de 1927 com a leitura duns poemas. Nele, ademais de membro das secçons de "História da Literatura" e de "Ciências Sociais, Jurídicas e Económicas", chegou a exercer como Secretário Geral.

O Seminário de Estudos Galegos será o organismo catalisador do ambiente intelectual da época, local de reunions continuamentefreqüentado pola gente do Grupo «Nós»: Vicente Risco, Daniel Castelao, Otero Pedraio, Lôpez Cuevilhas. Estes serám para o pessoal do Seminário um grupo de referência constante.

Destes tempos, do convívio com as gentes do Seminário, de «Nós», guardou sempre D.Ricardo um especial afecto e grandes saudades.

Em 1931 termina os seus estudos de Direito com um brilhante expediente académico. Publica na editora «Nós», de Ángelo Casal, o seu primeiro poemário em galego: Vieiros.

Neste mesmo ano é cofundador do Partido Galeguista e, posteriormente, membro, junto de Daniel Castelao, Alexandre Bóveda, Lugris Freire, Paz Andrade e Tobio Fernández, dum «Conselho Assessor» do mesmo.

Intervém em muitos actos e elabora juntamente com Luís Tobio o primeiro Anteprojecto de Estatuto de Autonomia para Galiza, de concepçom federalista, que se iniciava assim: «A Galiza é un Estado libre drento da República Federal Española (art. 1º)».

Em 1933, tem de abandonar Compostela, e ingressa por concurso como funcionário no Concelho de Ferrol. Casa com Mª Inácia Ramos, natural do Concelho de Baleira.

O labor literário destes anos cristaliza no livro de poemas O siléncio axionllado (1934), nas colaboraçons em jornais e revistas epocais, e na escrita de duas obras dramáticas: O fillo e Isabel, esta última acabada despois da guerra. Estas peças, pensadas para ser publicadas pola editora Nós, continuam a linha iniciada em 19 polas Irmandades da Fala, e interrompida pola ditadura de Primo de Rivera, com que o nacionalismo queria demonstrar que o galego era umha língua apta para todos os usos e funçons, para todas as classes sociais, e nom um dialecto exclusivo de marinheiros e labregos.

Em Janeiro de 1936 termina Filosofia e Letras, que estudara por livre. Neste mesmo ano, e apesar de constantes obstáculos, vai calhar com éxito o labor do Partido Galeguista a prol do reconhecimento nacional da Galiza nas Cortes da República, mediante a consecuçom em Referendo dum Estatuto de Autonomia.

A 28 de Junho de 1936, aprova-se por umha folgada maioria do povo galego o Plebiscito de Estatuto de Autonomia da Galiza. Porém, poucos dias despois, a 18 de Julho produze-se a sublevaçom militar, instigada da direita reaccionária, contra o novo governo progressista da Frente Popular (que derrotara à direita em eleiçons a inícios de ano), e contra a legalidade republicana vigente. Isto vai conduzir cara um enfrentamento armado entre os valedores da República e os alçados, que acabariam vencendo. Nas suas costas está provocar a guerra e umha feroz repressom, que causariam inúmeras mortes. Deste modo infeliz, impujo-se pola força das armas e do terror um regime ditatorial de matriz fascista durante quatro decadas: a longa noite de pedra.

O Estatuto Galego nom chegará a concretizar-se até 1980; despois da morte do ditador, a reforma política da ditadura e a restauraçom borbónica. Isto é, convertendo o quadro republicano e federal de 36 no que trabalhárom as pessoas do Partido Galeguista, num impensável quadro político monárquico...

A sediçom surpreendeu Carvalho em Madrid apresentando-se a concurso para catedrático de liceu. Cá coincide com a delegaçom galega, Castelao à cabeça, que ia apresentar ante as Cortes espanholas os resultados oficiais do recente referendo estatutário.

Estar em Madrid supom a sua salvaçom, pois esta fica em maos da República até os dias finais da guerra (1939), enquanto na nossa terra, o bando alçado (“nacional”), consegue em pouco tempo impor-se ao longo do país, iniciando umha brutal repressom e extermínio físico de todas aquelas pessoas fiéis à República, progressistas, democratas; enfim, membros, simpatizantes ou partidárias da coligaçom triunfante da Frente Popular, como o fôrom a gente do Partido Galeguista.



É assi que se efectivou na Galiza umha matança selectiva do máis lúzido do país, da intelectualidade dirigente, provocando um enorme terror entre a populaçom e o que motivou, nom só umha ruptura geracional nas fileiras do galeguismo, mais tamém grande medo nas famílias -estigmatizadas pola barbárie (que ainda hoje se percebe, ao ser transmitida de geraçom em geraçom), a serem reprimidas por qualquer atitude identificativa com o país e contra do regime.

Deste modo cruel, o imenso esforço de reconstruçom nacional do que Ricardo Carvalho Calero foi protagonista activo, iniciado na década de 20 polas Irmandades da Fala e continuado nos anos 30 polo Partido Galeguista; e que tinha como ponto fulcral e culminante a consecuçom do Estatuto de Autonomia para a naçom galega (a basca e a catalá conseguiram-no com anteriodade), ficou fanado, cortado dum modo brutal, polo golpe militar e a ditadura fascista.

Carvalho, umha vez em Madrid, incorpora-se como miliciano ao exército republicano, participando na defensa da capital do Estado, sendo despois elevado a Oficial e deslocado com o Governo da República à cidade mediterránea de Valência, e máis tarde para o Exército da Andaluzia, onde foi detido.

Em 1939, terminada a guerra é julgado e condenado (tendo primeiramente umha condenaçom polo fiscal à cadeia perpétua, por ser oficial do exército republicano e separatista, membro do Partido Galeguista), a 12 anos e um dia de prisom maior, ficando no cárcere até o ano 41, em que regressa a Ferrol em liberdade controlada, dedicando-se ao ensino privado, pois o privam de poder colegiar-se.

Os amargos recordos desses anos ficárom imortalizados no seu romance Scórpio e na obra poética.

Nos anos de posguerra o labor literário vai ser muito intenso: escreve três obras dramáticas: A sombra de Orfeo, A Árbore e Farsa das Zocas. Inicia-se como romancista com A Gente da Barreira e Os señores da Pena, na linha do Otero Pedraio, que recria e recupera o passado recente procurando a explicaçom da nossa sociedade. A seguir estas crónicas do passado virám as do mundo da sua infáncia: O Lar de Clara, As Pitas baixo a Chúvia, Os Tumbos e A Cegoña. Tamém começam as colaboraçons no jornal «La Noche» sob o pseudónimo de Fernando Cadaval.

Anos despois, em 1950, deslocará-se para trabalhar em Lugo onde exercerá como professor e director do Colégio Fingoi. Aqui desenvolve a sua paixom polo teatro adquirida na infáncia –encenaçom de obras de teatro galego, estreia da sua peça A Farsa das Zocas, e tamém, sobretodo, umha actividade pedagógica importantíssima (a máis importante do país).

Em 1950 funda-se a Editorial Galáxia e desde os primeiros momentos colabora estreitamente neste projecto, estando presente na reuniom fundacional.

Em 1951 publica A Gente da Barreira, primeiro romance publicado em galego na posguerra, e primeiro prémio da Editora “Bibliófilos Gallegos” no ano anterior. Em 1954, doutora-se em Madrid com a tese «Aportaciones fundamentales a la literatura gallega contemporánea».

Em 17 de Maio de 1958 ingressa na “Academia Gallega” com o discurso «Contribuiçom ao estudo das fontes literárias de Rosalia».

O labor criativo destes anos em Fingoi calha em três poemários: Anjo de Terra (1950), Poemas pendurados dun cabelo (1952) e Saltério de Fingoi (1961); porém, a obra máis importante desta época luguesa, fruto de muitos anos de trabalho de investigaçom é a monumental História da Literatura Galega Contemporánea, obra básica e basilar da crítica literária galega, publicada em 1.963.

Em 1964-65 deixa a direcçom do Colégio "Fingoi" e incorpora-se como professor interino de Língua e Literatura Galegas na Universidade de Compostela. No ano seguinte ganha a vaga de adjunto no Liceu Feminino "Rosalia de Castro", tamém em Compostela.

Em 1966 aparece a primeira ediçom da sua Gramática elemental del gallego común, que supujo na cultura galega um acontecimento de enorme transcendência.

Em 1971, publica: A Sombra de Orfeu, Farsa das Zocas, A Árbore e Auto do Prisioneiro.

Em 1972 consegue por concurso a primeira Cátedra de Língüística e Literatura Galega na Universidade de Compostela (única universidade daquela), facto fundamental para a dignificaçom e divulgaçom da nossa língua e cultura, à vez que escola dos seus primeiros ensinantes.

Com a morte em 1977 do presidente da "Real Academia Gallega", Sebastiám Martinez Risco, muitos organismos e instituiçons do país proponhem Carvalho como a pessoa óptima para ocupar esta vaga, mais tal nom aceita (tamém nom era um candidato bem visto pola oficialidade).

Nestes anos começa a recopilaçom da sua obra ensaística espalhada por revistas e jornais: Sobre língua e literatura galega (1971); Estudos Rosalianos: aspectos da vida e obra de Rosalia de Castro (1979); e Libros e Autores Galegos I (1979).

Em 1979 fai parte da Comissom Lingüística da Junta Pré-Autonómica, que elabora umhas Normas Ortográficas do Idioma Galego. Aqui manifestou-se a divisom, máis ou menos equilibrada, entre as duas tendências normalizadoras que historicamente, desde o Rexurdimento, venhem disputando a questom da normalizaçom da língua: a "Reintegracionista" e a anti-reintegracionista ou "Isolacionista". As normas que daí saírom admitiam, desse modo, um certo número de soluçons duplas, que o tempo deveria dirimir, dando prevalência a umha sobre outra. Feito este labor, Carvalho demite-se, e a comissom dissolveu-se.

O ferrolano começa a ser um elemento molesto para o novo poder na Junta da Galiza pola sua firme atitude em favor do reencontro da família lingüística galego-portuguesa. Isto é, pola manutençom da identidade do galego no seu tronco originário frente à tendência isolacionista, que propugna a separaçom do galego da sua história, a mutilaçom e ocultamento do passado e, portanto, seu passaporte de futuro.

Carvalho Calero, abandeirado e máximo defensor da tendência reintegracionista, nom fazia com isto máis do que seguir a linha traçada polo nacionalismo histórico, que foi sempre reintegracionista, de Murguia e as «Irmandades da Fala», até o «Partido Galeguista», do que ele fijo parte. Na década de 70, naturalmente, o reintegracionismo era tamém partilhado polo nacionalismo e polos sectores máis comprometidos com a nossa cultura.



O golpe de comando deu-se em 1982 aquando as "Normas Ortográficas do Idioma Galego", feitas por consenso em 79, som anuladas, numha escura manobra (instigada da Alianza Popular no Governo autonómico, e o máis incrível, apoiada por alguns dos antigos seguidores e colaboradores de Carvalho Calero, entregues ao novo poder oficial), e som aprovadas, mediante Decreto impositivo ("Decreto Filgueira"), as ainda vigentes Normas Ortográficas e Morfolóxicas do Idioma Galego (ILG-RAG).

Normas que consagram o isolamento do galego e do português, e a satelizaçom –castelhanizaçom– do nosso idioma, que passa a depender da forma, modelo e critérios aplicados para o espanhol, nom apenas na grafia.

Carvalho, que nom renegou da sua postura, viu-se relegado e marginalizado do poder, mesmo sendo desprezado e caluniado, até institucionalmente!, polo novo establishment, o que foi umha experiência sumamente dolorosa. Porém Carvalho soubo demonstrar a sua elevada estatura moral e a sua admirável ética e dignidade como pessoa, pois nunca devolveu as ofensas, e sempre que respondia era com fina ironia e benévolo humorismo.

Em 1980 reforma-se, abandona a docência, mais a sua actividade criativa multiplica-se, cultivando todos os géneros: poesia, romance, teatro, ensaio, ... A partir deste ano recolhe em livros a maior parte da sua produçom como crítico: Problemas da Língua Galega (1981); Livros e Autores Galegos II (1982); Da Fala e da Escrita (1983); Letras Galegas (1984); Escritos sobre Castelao (1989); Estudos e Ensaios sobre Literatura Galega (1989); Do Galego e da Galiza (1990). Continua a sua produçom poética: Pretérito Imperfeito (1980); Futuro Condicional (1982); Cantigas de Amigo e Outros Poemas (1986); Reticências... (1990). Revisa e reedita toda a obra dramática e narrativa: Teatro Completo (1982); A Gente da Barreira e Outras Histórias (1982), Narrativa Completa (1984).



Em 1984 recusa o convite feito polo seu antigo companheiro do Seminário de Estudos Galegos, Filgueira Valverde, instalado na oficialidade, para fazer parte do recém criado «Conselho da Cultura Galega».

Em 1987 publica Scórpio, considerado por boa parte da crítica o melhor romance escrito em galego.

Afastado e marginalizado do poder, recebe contínuas homenages das amizades, do alunado e de admiradores. Cabe destacar os actos na sua honra feitos pola «Sociedade Cultural Medúlio» na sua terra, assi como da «Agrupaçom Cultural O Facho»; a «Associaçom Alexandre Bóveda» ou a «Associaçom Sócio-Pedagógica Galega» (A.S-P.G), entre outras. Ademais, é figura central em numerosos congressos sobre a nossa cultura, língua e literatura.

É nomeado membro ordinário da «Academia das Ciências de Lisboa», e membro de honra da «Associaçom Galega da Língua» (A.Ga.L) –a instituiçom que máis devoçom professou por Dom Ricardo–, da «Associaçom de Escritores em Língua Galega» (A.E.L.G.), e tamém das «Irmandades da Fala», por ser um trabalhador constante em defensa do nosso idioma.

A 7 de Janeiro de 1990, acode à sua cidade natal, onde é nomeado Filho Predilecto de Ferrol. Morre pouco despois, em Compostela, onde morava, a 25 de Março de 90. Concluía assi «umha vida densa e austera, dedicada a trabalhar por Galiza e a sua cultura», como acertadamente a definiu a sua filha Maria Vitória.

Nesse mesmo ano, o Concelho de Ferrol, a iniciativa da Sociedade Cultural Medúlio, institui o Certame Anual de Narrativa e de Investigaçom Lingüísitico-Literária Carvalho Calero, o único de muitos que se celebram no país que admite liberdade normativa às pessoas concorrentes. Tendo assi entre os seus ganhadores a ferventes seguidores da doutrina cultural reintegracionista que Carvalho abandeirou, como seu grande amigo, Martinho Monteiro Santalha.

Em 1996, em acordo plenário, o Parlamento da Galiza nomeia-o por unanimidade Filho Ilustre da Galiza, ao mesmo tempo que instala a sua imensa Biblioteca pessoal num local do próprio Parlamento.

Em 2000, com motivo do décimo aniversário da sua morte, a iniciativa da Fundaçom Artábria, diversas instituiçons solicitam que se lhe dedique o Dia das Letras de 2001, por considerar o ferrolano Carvalho Calero umha das figuras máis importantes da cultura galega.

Bibliografia de referência:

- Grupo de Língua da Fundaçom Artábria; Conhecermos Carvalho Calero. Umha vida polo galego e a Galiza. Fundaçom Artábria, 2000.

- Blanco, Carme; Conversas con Carvalho Calero, Galáxia, 1989.

- Fernám Velho, M.A., Pilhado Maior, F.; Conversas en Compostela con Carvalho Calero, Sotelo Blanco, 1986.

- Monteiro Santalha, Martinho; Carvalho Calero e a sua obra, Laiovento, 1993.

- Palharés, Pilar, Tato Fontainha, Laura; Ricardo Carvalho Calero. A dignidade persoal, Concelho de Ferrol, 1994.

- Salinas Portugal, Francisco; Voz e Siléncio (entrevista com R. Carvalho Calero), Ed. do Cúmio, 1991.

- VV.AA.; «Ricardo Carvalho Calero, a razom da esperanza», A Nosa Cultura nº 13, eds A Nosa Terra, 1991, juntamente com o vídeo «Ricardo Carvalho Calero; a posibilidade de rectificar a história
publicado por Carlos Loures às 09:00
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Leitura dum poema de Carvalho Calero por Pim Patinho na homenagem da Fundaçom Artábria no XVII aniversário da sua morte.

Ferrol, 1916

Cinco duros pagávamos de aluguer.
Era um terceiro andar, bem folgado.
Pola parte de atrás dava para o Campinho,
e por diante para a rua de Sam Francisco.
(...)
Ainda vivia minha mãe
e todos os meus irmaos viviam,
e em frente trabalhava o senhor Pedro o tanoeiro,
e a grande tenda de efeitos navais mantinha o seu trafego.
(...)
Via o mar da minha fiestra,
e chegavam cornetas da marinha.
E baixava os degraus duas vezes ao dia para ir à escola,
e duas vezes subia-os de volta.
(...)
As mulheres entom usavam capa e corsé,
e íamos à aldeia em coche de cavalos,
e a rua estava ateigada de pregons de sardinhas
e de ingleses que vendiam Bíblias.
(...)
Todo isto fica tam longe
que a duro podo ainda lembrá-lo.
Esquecia-o dentro de pouco
se nom escrevesse estes versos.
In 'Avalon', Futuro Condicional (1961-1980). Eds. do Castro, 1982.


publicado por Carlos Loures às 08:30
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