Quinta-feira, 30 de Setembro de 2010

Rente ao cair da folha

Adão Cruz


O plácido abrir da madrugada vai espalhando pelo chão da alma adormecida todos os gestos sensuais do cair da folha.

Os olhos presos no tecto escuro pousam por momentos na frouxa luz que entra pela frincha da janela.

Sonâmbulo ainda, o corpo estremece, e os dedos cruzados na tábua do peito começam a bulir, tirando do sono os fios do pensamento.

A fantasia esfrega os olhos de entontecida, e do tecto começa a descer o fio-de-prumo de uma consciência desconjuntada pelos sonhos da noite.

Nasce da mente um fino nevoeiro de ilusão tentando encobrir a desilusão da realidade de mais um dia. Mais um dia…menos um dia, a caminho do meu poema azul.


(ilustração de Adão Cruz)
publicado por Carlos Loures às 09:00
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Noctívagos, insones & afins - Da luta das sufragistas aos nossos dias

Carlos Loures



«Bem-vinda Christabel Pankhurst», dizem os cartazes que estas senhoras exibem num dia do frio Inverno londrino, no já distante ano de 1909, há cento e um anos anos, imaginem. Christabel é uma das senhoras da frente, a que tem um chapéu envolvido por uma écharpe branca. O que queriam estas mulheres, visivelmente das classes mais favorecidas, o que reivindicavam elas? Uma coisa tão simples como direito de voto.

A desigualdade entre homens e mulheres, sobrevivera à democracia grega (onde elas não tinham quaisquer direitos), não melhorara durante a Idade Média. Não se diluíra com o humanismo renascentista e o século das luzes apenas lhes deu algum protagonismo no palco da cultura. Na Revolução Francesa as «cidadãs» lutaram ao lado dos homens (e foram guilhotinadas em perfeita igualdade de circunstâncias), mas logo o Império as remeteu de novo para a cozinha ou, no caso das burguesas e aristocratas, para os salões, bordando, tocando piano, recitando poesia e cantando nos serões. Veio a Revolução Industrial e lá foram elas malhar com os ossos nas fábricas com salários ainda mais miseráveis do que o dos seus companheiros. A Revolução de Outubro, no plano prático, também não aplainou grandemente as desigualdades. Mas, já vou em 1917. Voltemos atrás, a 1905, quando Christabel e sua mãe Emmeline Pankhurst (1858-1928) interromperam um comício do partido Liberal, fazendo perguntas incómodas sobre os direitos das mulheres. Christabel(1880-1958) nasceu em Manchester, filha de Richard Pankhurst, um advogado, e da sufragista Emmeline.

As sufragistas eram frequentemente presas, acusadas de desacatos e de outros crimes - alcoolismo e prostituição, entre eles, calúnias com que as tentavam desacreditar. Em todo o caso, havia quem acreditasse e, não raro, quando desfilavam empunhando orgulhosamente os seus estandartes e dísticos, nos passeios, mulheres do povo, pelas quais elas principalmente lutavam, lhes gritavam o equivalente a: «Vão coser meias!». Não faltava quem fosse mais longe e lhes chamasse «putas» e «bêbedas». Nas prisões onde as condições de higiene eram mais do que precárias, faziam greve da fome. Eram hospitalizadas, alimentadas à força e voltavam para a prisão. Mãe e filha, dedicaram as suas vidas à causa do sufragismo. Emmeline, no ano em que morreu (1928) teve a alegria de ver consagrado na lei britânica o direito de as mulheres votarem em pé de igualdade com os homens.

E em Portugal?

Em Portugal, destaca-se um nome: Ana de Castro Osório (1872-1935) que terá ficado conhecida sobretudo por ser uma pioneira da literatura infanto-juvenil. Casada com um tribuno republicano, Paulino de Oliveira, publicou em 1905 «Ás Mulheres Portuguesas», obra considerada como um manifesto do movimento feminista. Fundou a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, criada oficialmente em 1909, no mesmo ano em que Christabel surge na foto acima. A propósito, um ilustre republicano, um democrata, terá comentado - «Causa patrocinada por senhoras, é causa vencida!». Proclamada a República, Ana prosseguiu a sua luta, pois o novo regime foi tímido no reconhecimento da igualdade de géneros. Foi consultora de Afonso Costa, ministro da Justiça do Governo Provisório, aconselhando-o na elaboração da Lei do Divórcio, promulgada em 3 de Novembro de 1910, menos de um mês depois da Revolução. Esta lei, pela primeira vez no nosso País, concedia à mulher os direitos dados ao homem, no que se referia aos motivos do divórcio e à tutela dos filhos. E novas leis foram sendo aprovadas, baseando o casamento no princípio da igualdade, deixando a mulher de dever obediência ao marido e passando o crime de adultério a ser julgado de igual maneira, fosse cometido pela mulher ou pelo marido. Tudo isto hoje nos faz sorrir, pois parecem-nos questões ultrapassadas. Mas há cem anos estas medidas foram recebidas com sorrisos de outro género, com aqueles com que se acolhem as utopias. O machismo lusitano, mesmo entre os mais ferozes adeptos da República, recusava-se a aceitar esta igualdade legal que lhes parecia contra natura – ora uma mulher pode lá ter os mesmos direitos que um homem! E rematavam com um aforismo do género: «Onde há galos, não cantam galinhas!». Isto entre copadas de champanhe ou de tinto, e fumaças de Romeo y Julieta ou de tabaco de onça.

Indiferentes ao cepticismo, as heroínas prosseguiam a sua luta. Em 1911, as mulheres ganham o direito de trabalhar na Função Pública. Antecipando-se à lei, a médica Carolina Beatriz Ângelo, viúva e com filhos a seu cargo, vota para a Assembleia Constituinte. A Lei dizia que os chefes de família votavam e para o legislador era tão óbvio que o chefe de família teria de ser um homem que Carolina pôde votar, deixando o presidente da mesa de voto a coçar a cabeça, perplexo. Posteriormente, a lei foi «aperfeiçoada» - só podiam votar os chefes de família «do sexo masculino». Mas as coisas não paravam – nesse mesmo ano Carolina Michaëlis de Vasconcelos, mulher do grande filólogo Leite de Vasconcelos, é a primeira mulher a ser nomeada para uma cátedra universitária, neste caso a de Filologia na Universidade de Lisboa. Ainda em 1911 se assinala a criação da Associação de Propaganda Feminista. Para rapazes e raparigas, é estabelecida a escolaridade obrigatória entre os sete e os onze anos. E a caminhada prosseguiu. Em 1918, é autorizado o exercício da advocacia às mulheres, em 1926, são autorizadas a leccionar em liceus masculinos, em 1931 é concedido o direito de voto às mulheres diplomadas com cursos secundários ou superiores (aos homens basta fazer prova de que sabem ler e escrever). Em 1933 a Nova Constituição Política do Estado Novo, no seu artigo 5º, estabelece a igualdade dos cidadãos perante a lei, embora «salvas, quanto à mulher, as diferenças resultantes da sua natureza e do bem da família». Todo o edifício jurídico da igualdade laboriosamente construído, se desmoronava com esta frase singela que deixava as portas escancaradas à continuação da desigualdade. Num País moldado à medida das fantasias de um ditador tacanho, o lugar da mulher era em casa, junto dos filhos. Disse-o por diversas vezes. E sempre houve mulheres que concordaram com esta visão do seu papel na sociedade. Quando, em 1935, Ana de Castro Osório morre, outra grande defensora dos direitos femininos se destaca – Maria Lamas (1893-1983). Em 1948 publica o seu exaltante livro «As Mulheres do Meu País».

Só a Revolução de 25 de Abril começaria paulatinamente a acabar, a nível legal, com as todas as diferenças. Uma luta que em Portugal ainda não acabou. A guerra silenciosa da violência doméstica, por exemplo, não cessa de fazer vítimas. Não que a lei a consinta, mas talvez tenha que se criar uma moldura penal muito mais dura para quem a comete. E aqui deve fazer-se uma ressalva. Não incidir, claro, no erro do legislador de 1911 que partia do princípio que «chefe de família» só podia ser um homem. Parece que nem sempre são as mulheres espancadas. Embora numa percentagem pequena, há homens vítimas de violência doméstica. Serão uma minoria, mas existem. Há que protegê-los. Por outro lado, em algumas cabeças femininas, entontecidas com a recente libertação, ébrias de tanta liberdade, começa a despertar a ideia de que as «mulheres são superiores». Não passemos do oito para o oitenta. Não troquemos uma tirania por outra. Não cheguemos ao ponto de ter de formar uma Liga dos Homens Portugueses – que teria como divisa – Homens oprimidos, uni-vos!

Somos diferente biologicamente, mas iguais perante a lei. Era aqui que pretendíamos chegar. É preciso agora que as leis que consagram essa igualdade sejam escrupulosamente aplicadas. Porque Lei e realidade, têm andado desencontradas. Bem-vindas, companheiras.
publicado por Carlos Loures às 03:00
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Terreiro da Lusofonia: Cecília Meireles e Maria-Cecília Correia

Cecília Meireles e Maria-Cecília Correia, chegam a este terreiro pela mão da nossa colaboradora Clara Castilho, filha de Maria-Cecília Correia. O texto que publicamos foi dedicado pela grande escritora brasileira à notável escritora portuguesa. Inserido numa carta, ignora-se se é ou não um inédito. É muito interessante, Eis duas breves notícias biográficas de ambas:

Maria Cecília Correia Borges Cabral Castilho (1919-1993) nasceu em Viseu e faleceu em Lisboa. Usando o nome literário de Maria-Cecília Correia, dedicou-se sobretudo à Literatura Infantil. Os seus  livros, inspirados sobretudo em acontecimentos do quotidiano, têm em geral como tema central o mágico mundo da criança.

Principais obras: Histórias da Minha Rua,  1957; Histórias de Pretos e Brancos e Histórias da Noite, 1960; Histórias do Ribeiro, 1974;  O Coelho Nicolau,  1974; Amor Perfeito,  1975; Histórias da Minha Casa, 1976; O Besouro Amarelo,  1977; Bom Dia,  1983; Manhã no Jardim, 1978; Pretérito Presente, 1976.

Cecília Meireles nasceu em 1901, no Rio de Janeiro e faleceu em 1964, também no Rio de Janeiro. Considerada uma das grandes vozes poéticas da língua portuguesa no século XX. No período de 1919 a 1927, colaborou nas revistas Árvore Nova, Terra de Sol e Festa. Fundou a primeira biblioteca infantil do Brasil. Lecionou na Univerdade do Distrito Federal em 1936 e na Universidade do Texas em 1940. Trabalhou no Departamento de Imprensa e Propaganda no governo de Getúlio Vargas, dirigindo a revista Travel in Brazil (1936).

Principais obras: Espectros, 1919 l Nunca mais... e Poema dos Poemas, 1923 ; Baladas para El-Rei, 1925; Criança, meu amor, 1927; Viagem, 1939; Vaga música, 1942; Mar Absoluto e Outros Poemas, 1945;Retrato natural, 1949 Amor em Leonoreta, 1951; Dez noturnos de Holanda & O aeronauta, 1952 ; Romanceiro da Inconfidência, 1953; Pequeno Oratório de Santa Clara, 1955; Pistóia, Cemitério Militar Brasileiro, 1955; Canções, 1956; Romance de Santa Cecília, 1957; Obra poética, 1958; Metal Rosicler, 1960; Poemas escritos na Índia, 1961; Solombra, 1963; Ou isto ou aquilo, 1964; Crônica trovada da cidade de Sam Sebastian, 1965; Poemas italianos, 1968; Ou isto ou aquilo & Inéditos, 1969; Cânticos, 1981; Oratório de Santa Maria Egipcíaca, 1986 .


À direita: "Cecília Meireles em Lisboa". (Desenho de seu primeiro marido, Fernando Correia Dias).







O gato desce
a escada

Para Maria-Cecília Correia




Não tem nome nenhum. Não sabe que é gato, quadrúpede, mamífero, de pêlo preto. Não sabe que está num jardim, nem de que casa, em que rua, no mundo, num planeta, entre planetas, lua, sol, estrelas, nebulosas, cometas – no meio do universo.

O gato desce a escada. Solenemente. Como se soubesse tudo isso e muito mais.

O gato desce a escada. Silenciosamente. Como se não existisse.

Pedras, árvores, brisa da tarde, pingo d’água da fonte no muro, passarinhos na ponta dos telhados, nada disso o distrai. Botânica, Zoologia,
Mineralogia, nada disso tem nome, para êle, nem conteúdo, nem separação.

O gato desce a escada.

Ninguém o chamou. Não tem família. Não tem casa. Não parece ter fome nem sêde: é luzidio, nédio, grande e sereno.

Mas desce a escada.

Lá fora, pode ser ferido pela pedrada dos meninos máus. Pode ser atropelado por uma roda qualquer, dos milhares de rodas que sobem e descem pelos caminhos. Pode ser agarrado, esfolado, e virar tamborim, nas festas de Carnaval que estão preparando nos morros. E, se algum feiticeiro o avistar, pode ser cozido numa panela nova, que é a fórmula de tornar os homens invisíveis.

Humanidade, Vida, Morte, Dôr, Alma, Deus, - êle caminha solitário entre as palavras e as idéias. Ele desce a escada.

Quando escurecer, seus olhos serão fosforecentes. Mas êle nunca viu seus olhos. Atrás dêle vão a sua sombra e o meu pensamento. Cada qual mais precário.

O gato desce a escada.
____________

E encerramos com «Modinha», poema de Cecília Meireles, musicado e interpretado por Carlos Walker:

publicado por Carlos Loures às 01:30
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Quarta-feira, 29 de Setembro de 2010

A Destruição do Estado-Providência

Fernando Pereira Marques






1 - Com a conivência da esquerda socialista e social-democrata, de Terceiras Vias e semelhantes, Blair’s e Cª, a burocratização dos sindicatos e o eficaz sistema informativo-comunicacional de imbecilização dos povos, o capitalismo triunfante e ultraliberal, após um ciclo de lógica hiperconsumista e de predomínio da especulação financeira, acelerou a destruição do que resta do Estado-Providência, do modelo social construído sobre as ruínas e os massacres da II Guerra Mundial. Deste modo, e como era previsível, actualmente uma das causas da esquerda é defender esse modelo social, impedir a sua destruição completa. Evidentemente não como um ponto de chegada, mas como uma conquista de séculos de lutas que continua a ser um ponto de partida para formas mais humanas de organização política e social.



Permito-me assim transcrever uma passagem sobre o tema de um livro meu há tempos publicado: Esboço de um Programa para os Trabalhos das Novas Gerações (Campo das Letras, 2007)



2 - A imaginação fecunda dos gestores do sistema já conseguiu mesmo, prosseguindo a estratégia de desmantelamento do Estado-Providência, reprivatizar nalguns países o que o processo civilizacional e democratizador tinha tornado funções sociais e públicas, nas áreas da saúde, da segurança, da educação, da justiça. A doença, a dor, o sofrimento, o medo, a morte, a insegurança, a guerra, tudo é transaccionado e transaccionável. A fúria privatizadora de serviços de interesse geral atinge os transportes, o fornecimento de água e de electricidade, os correios, as cadeias, ou até as instituições educativas e militares; nada escapa a essa sanha que mesmo organismos internacionais, como o FMI, incentivam. Deste modo, corre-se o risco de retroceder à Idade Média e à venalidade dos cargos públicos, à desintegração do Estado em micro-poderes de tipo feudal, fomentadores de irracionalidade e de arbítrio .



A protecção dos mais pobres e mais desamparados - desempregados, idosos, crianças - passou a ser considerada excessivamente custosa e a precariedade tornou-se regra nas relações de trabalho. Porque, como se diz na novlíngua – parafraseando Orwell -do americanismo, o mundo mexe graças à dialéctica entre winners e losers, sem esquecer os survivers, categoria intermédia composta por aqueles que subsistem custe que custe e a qualquer preço.



O Estado democrático, submetido ao primado da Lei e com funcionários vinculados ao serviço público, vigiado e controlado pelos cidadãos no exercício dos seus direitos, liberdades e garantias, tendo à sua frente políticos legitimados pelo voto e exercendo mandatos transitórios, intervindo e agindo para estabelecer a racionalidade e a justiça, corresponde a uma etapa da evolução histórica e dela não se deve regredir. Isto não significa, evidentemente, que, na sua diversidade nacional, o Estado seja insusceptível de reforma e de permanente melhoramento, tendo em conta os anquilosamentos burocráticos e as derrapagens autoritárias, a intoxicação mediática e espectacular que o oculta, e outros mecanismos de condicionamento e de manipulação das liberdades que visam impor os interesses parcelares por sobre o interesse geral.



Porque o Estado, enquanto facto histórico-social e instrumento de dominação, não encarna em si o Bem ou a Razão, é, simplesmente, a expressão burocraticamente cristalizada de relações de forças. Nesta medida, não obstante diferenças, desigualdades e conflitos de interesses persistirem na sociedade, o processo civilizacional e democratizador criou instrumentos que permitem intervir através do Estado, disciplinando e regulando, para que o bem comum seja o objectivo norteador da acção política.



Aumentar a capacidade de auto-governo e de autonomia dos cidadãos é um dos objectivos da ideia exigente e dinâmica de democracia e das velhas utopias nas quais o socialismo se inspira. Mas isto não se confunde, naturalmente, com aquilo que o ultraliberalismo mercantil gera, ou seja, a transformação das sociedades em campos de batalha onde impera a lei do mais forte, da ganância e do dinheiro. A concepção de poder e de liberdade dos serventuários do capitalismo triunfante, reduz a política à mera gestão dos negócios e esmaga a sociedade sob a economia.



Na Grã-Bretanha, durante os governos da senhora Thachter, o desinvestimento do Estado e a política de privatizações atingiram tal dimensão que, num país orgulhoso, legitimamente, do seu sistema de segurança social, construído por governos de direita e de esquerda - em particular após as reformas Beveridge levadas a cabo pelo governo Atlee, ainda antes do fim da II Guerra Mundial -, as desigualdades no acesso aos cuidados de saúde agravaram-se de forma dramática. Tal situação obrigaria, a partir de 2000, a um drástico aumento das despesas públicas, nesse e noutros sectores. Mas o New Labour de Tony Blair prosseguiria, mesmo se mais moderadamente, esse desinvestimento e essa política. É exemplo disto o que se passou com os caminhos de ferro. Alterada a coerência funcional da rede pela sua distribuição por várias sociedades privadas, enfraqueceu-se a eficácia e a segurança, sucedendo-se os acidentes e outras disfunções.



No plano militar, o processo de mercenarização da guerra, particularmente avançado no modo de destruição em que se está tornar o sistema norte-americano, é outra das manifestações do fenómeno mais amplo de mercantilização do mundo, e observa-se a dois níveis: na destruição do modelo republicano de exército assente na conscrição, até há pouco tempo predominante nas forças armadas europeias; e na privatização de diversas estruturas, dispositivos, tarefas e acções militares, retirando ao Estado o monopólio do uso legítimo da força – operação esta a que se chama outsourcing.



Nos EUA, de forma a permitir a continuação da extensa presença militar do país na cena mundial, racionalizando custos e reduzindo pessoal burocrático , empresas privadas ( private military companies, PMC) treinam tropas, mantêm e protegem bases no estrangeiro, recolhem informações, transportam equipamentos, armas e munições, possuem aviões e pilotos. Por exemplo, o Congresso tinha fixado em 200.000 o número de homens a deslocar para a Bósnia, mas contornando esta restrição, o Pentágono recrutou cerca de dois mil mercenários; prática tornada corrente noutros pontos sensíveis do planeta onde existem forças norte-americanas. O mesmo se passara na primeira guerra do Golfo e se veio a passar na segunda. No Iraque, em finais de 2003, eram já 20.000 os mercenários em acção (mais do que as tropas inglesas) e umas vinte cinco as PMC em actividade nesse teatro de operações, maioritariamente americanas e inglesas. Mas também as há no Afeganistão, na Colômbia e em dezenas de outros países.



Um estudo realizado pela International Consortium of Investigative Journalists, identificou umas noventa empresas actuando neste sector ainda sujeito a muita ocultação. As principais são norte-americanas, inglesas e sul-africanas, como a Military Professionals Resources Inc. (MPRI) , a DynCorp, a Wakenhut, a Vinnell (filial da TRW), a Logicon, a SAIC, a Kellogg Brown & Root (filial da Halliburton dirigida no passado, recorde-se, por Richard Cheney). Estima-se em 100 mil milhões de dólares (92,5 mil milhões de euros) o volume de negócios deste novo sector económico , tornando-se cada vez mais evidente que a mercenarização não permite uma real redução nas despesas públicas com a defesa, mas antes contribui para reforçar o peso e o poder do complexo militar-industrial no sistema mercantil norte-americano e até mundial.



A DynCorp tem um ramo britânico que ganhou um contrato de 300 milhões de libras relativo ao fornecimento de transportes (trucks) e de condutores de tanques a enviar para o campo de batalha. A Halliburton possui subsidiárias, como a Devonport Management Ltd., que ficaria encarregada da construção de docas destinadas a submarinos nucleares no valor de 505 milhões de libras, e a Global Risk International, que forneceu os Gurkhas (guerreiros nepaleses legendários) encarregados da protecção de Paul Bremer, o proconsul norte-americano em Bagdad durante a fase inicial da ocupação. Existem também PMC’s em Israel, em França, na Dinamarca e na Alemanha. Neste último país, uma sociedade mista, a GEBB (Gesellschaft fur Entwiklung-Betriebs und Bedarfsschaffung), foi criada para dar apoio a unidades, gerir infra-estruturas - como depósitos de munições - , alugar veículos e proceder a transportes.



Confunde-se, mistificadoramente, a desregulação que convém ao ultraliberalismo antisocial, com o risco criativo e a liberdade contratual. O ultraliberalismo corrói a coesão e rompe os laços sociais, impondo práticas económicas e de competição individual ferozes, que não obedecem a regras morais e legais ou as secundarizam . Por isso, hiperbolizando essa desregulação que da economia se estende à sociedade global, questionam-se as funções racionalizadoras, reguladoras e estruturadoras do Estado-Providência.



Este modelo de Estado, constituiu um progresso, ao permitir reduzir as desigualdades e minimizar os custos sociais e humanos inerentes ao funcionamento do capitalismo. Perante a ofensiva regressiva do primarismo ultraliberal, cabe ao reformismo socialista, defender, aperfeiçoar e adaptar às novas realidades tal modelo, aprofundar as suas capacidades e virtualidades, no sentido de o tornar ponto de partida para formas qualitativamente superiores de organização social e económica.
publicado por Carlos Loures às 23:55
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Para ler na próxima madrugada

À meia-noite -A Destruição do Estado-Providência


À uma e meia -Terreiro da Lusofonia: Cecília Meireles e Maria-Cecília Correia


Às três horas -Noctívagos, insones & afins - Da luta das sufragistas aos nossos dias
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publicado por Carlos Loures às 23:30
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O Mistério da camioneta fantasma, de Hélder Costa -8

(Continuação)


Cena 7



O Dente de Ouro começa a falar

(Criada, com uma carta)

Criada – Também chegou correio, minha senhora.

Berta Maia – Uma carta de Coimbra, da penitenciária, do Abel Olímpio!...

(Lê e em simultâneo …)

Abel Olímpio ( escreve) - Senhora Dona Berta Maia.... eu não tenho culpa... (silencio)...eu tenho mais coisas a dizer...

Berta Maia - Ouve, Abel Olímpio, tu és um criminoso, mas o miserável que te mandou fazer aquilo e que se esconde deixando-te aqui, é mil vezes mais criminoso que tu.

Abel Olímpio - Mais glória para mim!

Berta Maia - Mais glória? Quer dizer que estás convencido que fizeste bem quando mataste o meu marido? Quem te mandou? Quem te mandou?

Abel Olímpio – Não conto nada, não sei nada.

Berta Maia – Os que te mandaram desejam a tua morte, porque tu, vivo, és uma ameaça para eles! Eu não, eu quero que tu vivas porque é da tua boca que eu hei-de ouvir a verdade que procuro!

Abel Olímpio – Não me dá novidade nenhuma! Eles hão-de vir aqui matar-me!

Berta Maia – Eles? Quem são eles?

Abel Olímpio – Pergunte ao Tenente Mergulhão, foi ele que me deu a camioneta.

Berta Maia – Abel Olímpio, peço-te por tudo, peço-te pela felicidade dos teus entes mais queridos... tu és um criminoso, mas também tens coração... peço-te, diz-me a verdade, diz-me o que eu preciso de saber...

Abel Olímpio – Não conte comigo para coisa nenhuma; esqueça-se de mim, não me procure mais, não conte comigo!

Berta Maia – Eu não consigo esquecer-te, eu vejo-te a toda a hora, eu estou sempre a ouvir as mentiras que disseste em minha casa antes de me roubares o meu marido...

Abel Olímpio – Quem matou o seu marido foi o sargento Benevides.

Berta Maia – Está bem. Agora, diz tudo. Quem mandou? Porque mentiste em minha casa?

Abel Olímpio – Ninguém mandou! Escusam de estar com isso, eu não sou criança nenhuma! Façam-me a revisão do processo!

Berta Maia – Bandido! Eu sei que tu não passas de um instrumento! Tenho a certeza! Por causa da tua acção violenta e má em minha casa é que eu aqui estou. Estou farta de sofrer!

Abel Olímpio – Ninguém mandou, não sou criança nenhuma!


(Continua)
publicado por Carlos Loures às 22:30
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República nos livros de ontem nos livros de hoje - 193 e 194 (José Brandão)

publicado por Carlos Loures às 22:18
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Boaventura de Sousa Santos no Estrolabio - O hipnotizador


 A hipnose é um estado psíquico, induzido artificialmente, em que o hipnotizado, numa condição semelhante à de transe, fica altamente sujeito à influência do hipnotizador. O estado de concentração hipnótica filtra a informação de modo a que ela coincida com as directivas recebidas. Estas, por sua vez, podem trazer à consciência do hipnotizado memórias por ele suprimidas. A hipnose pode conduzir a actos destrutivos para o próprio ou para outros e, passado o seu efeito, o contacto com a realidade pode ser penoso. O mundo (não todo, mas uma boa parte) vive hoje em estado de hipnose e o hipnotizador é Barack Obama (BO). A hipnose consiste numa mudança radical de percepção sobre o que se passa no mundo sem que na realidade haja razões para sustentar tal mudança. Em que consiste a mudança e donde provêm os poderes hipnóticos de Obama? O que se passará quando o estado de hipnose desvanecer?

A mudança de percepção ocorre em diferentes áreas. A crise financeira global. Mudança: as medidas corajosas de BO para regular o sistema financeiro e assumir o controle de empresas importantes fez com que a crise fosse ultrapassada e a economia retomasse o seu curso. Realidade: BO injectou montantes astronómicos de dinheiro dos contribuintes nos bancos e empresas à beira do colapso sem assumir o controle da sua gestão; não introduziu até agora nenhuma regulação no sistema financeiro; prova disso é o regresso do capitalismo de casino à Wall Street com o banco Goldman Sachs a registar lucros fabulosos obtidos através dos mesmos processos especulativos que levaram à crise, enquanto o desemprego continua a aumentar e os americanos continuam a perder as suas casas por não poderem pagar as hipotecas.

O regresso do multilateralismo. Mudança: BO cortou com o unilateralismo de Bush e os tratados internacionais voltaram a ser respeitados pelos EUA. Realidade: as recentes negociações de Banguecoque, que deveriam levar ao reforço do frágil Protocolo de Kyoto sobre as mudanças climáticas, conduziram, por pressão dos EUA, ao resultado oposto com a agravante de terem atenuado as responsabilidades globais dos países desenvolvidos, os grandes responsáveis pela degradação ambiental; os EUA, que não assinaram a Declaração de Durban contra o racismo, auspiciada pela ONU em 2001, voltaram a retirar o seu apoio à declaração sobre a revisão da declaração de Durban elaborada na reunião da ONU de Abril passado em Genebra, arrastando consigo vários países europeus; os EUA desautorizaram o corajoso relatório do Juiz Goldstone sobre os crimes de guerra cometidos por Israel e o Hamas durante a invasão israelita da faixa de Gaza no Inverno de 2008, e, juntamente com Israel, pressionaram a Autoridade Palestiniana a fazer o mesmo.

O fim das guerras. Mudança: BO estendeu a mão da fraternidade e do respeito ao mundo islâmico e vai pôr fim às guerras do Médio Oriente. Realidade: sem dúvida, houve mudança de retórica, mas Guantánamo ainda não encerrou; os generais dizem que a ocupação do Iraque continuará por muitos anos (ainda que os soldados sejam substituídos por mercenários); os pobres camponeses afegãos continuam a ser mortos “por engano” por bombardeiros covardemente não tripulados e as mortes estendem-se já ao Paquistão com consequências imprevisíveis; a burla da ameaça nuclear iraniana continua a ser propalada como verdade; no passado dia 10 de Setembro, BO renovou o estado de emergência, declarado inicialmente por Bush em 2001, sob o pretexto da continuada ameaça terrorista, atribuindo ao Estado poderes que coarctam os direitos democráticos dos cidadãos.

As bases militares na Colômbia. Mudança: sem precedentes, BO criticou o golpe de Estado nas Honduras, o que dá garantias de que as sete bases militares a instalar na Colômbia são exclusivamente destinadas à luta contra a droga. Realidade: BO criticou o golpe mas não lhe pôs termo nem retirou o seu embaixador; o alcance dos aviões a estacionar na Colômbia revelam que os verdadeiros objectivos das bases são 1) mostrar ao Brasil que, como potencial regional, não pode rivalizar com o EUA, 2) controlar o acesso aos recursos naturais da região, nomeadamente da Amazónia, 3) dissuadir os governos progressistas da região a terem veleidades socialistas mesmo que democráticas.

Donde provém o poder hipnótico de BO? Da insidiosa presença do colonialismo na constituição político-cultural do mundo. O Presidente negro de tão importante país dá aos fautores históricos do racismo no mundo contemporâneo o conforto de poderem espiar sem esforço a sua culpa histórica, e dá às vítimas do racismo a ilusão credível de que o fim das suas humilhações está próximo.

E o que passará depois da hipnose? BO está a preparar-se meticulosamente para governar durante oito anos, fará algumas reformas que melhorarão a vida dos americanos, ainda que ficando muito aquém das promessas (como no caso da reforma do sistema de saúde) e sem nunca pôr em causa a vigência do Estado de mercado; evitará a todo custo “mexer” no conflito Israel/Palestina; manterá a América Latina sob apertado controle; agradará em tudo à China, tal o medo que ela deixe de financiar o American way of life;deixará o Irão onde está e, se puder, sairá do Afeganistão; tudo isto num contexto de crescente declínio económico dos EUA em parte camuflado pelo aumento das despesas militares algumas delas orientadas para o controlo de conflitos internos.



(Publicado pela revista Visão em 22-10-2009)
publicado por Carlos Loures às 21:00
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Como se fora um conto - O Sr. Adérito, engraxador

José Fernando Magalhães



Já lá vão muitos anos, mas as lembranças fluíam com rapidez.

Sentado à mesa de um café da baixa Portuense, olhei os meus sapatos e pensei em quanto me saberia bem que aquele café tivesse um engraxador. Apeteceu-me ter os sapatos limpos, escovados e a brilhar.

Se ao menos ainda houvesse engraxadores! Já há muito que os não via. Os últimos estavam naquela entrada de um prédio da rua Sampaio Bruno, quase em frente à Casa da Sorte. Havia também um ou dois, que paravam na Praça da Liberdade, quase na esquina da rua da 'engraxadoria'.

Antigamente, não havia café que não tivesse um, e havia trabalho para todos. Todo o homem que se prezasse gostava de ter os sapatos a brilhar. Hoje são raros, os engraxadores, já que sapatos a brilhar ainda os vai havendo, e homens que se prezem ainda há um ou outro.

.O sr Adérito era franzino, pequeno, de pele muito branca e sem barba. Homem dos seus quase cinquenta anos, não parecia ter mais de trinta.

Eu era ainda um chavalo. Nem vinte anos tinha, e na altura, só se era homem depois da maioridade, e essa só vinha aos vinte e um. Hoje não é assim. Os putos, ainda mal desmamados e recentemente saídos de debaixo das saias das mamãs, na sua maioria dependentes inteiramente dos progenitores, chamam-se a si mesmos e de pleno direito, homens, e podem até votar e influenciar a vida de um país.

Loiro, de melena lambida e cabelo muito fino, o sr Adérito tinha o tique de, movendo rapidamente cabeça, atirar com a melena para o cimo da cabeça, tirando-a da testa e da frente dos olhos. Tinha sempre um cigarrito ao canto da boca, muitas das vezes, apagado, e ia assobiando fados no meio das histórias que nos contava.

Era homem de muitos conhecimentos da vida, mas de poucos estudos. Tinha tirado a quarta classe, com alguma dificuldade por ser o filho mais velho e haver necessidade de ajudar nos trabalhos da casa, dos irmãos mais novos e do quintal, e depois, findos esses estudos, tinha ido trabalhar para os campos do Senhor D. António, lá na terra. Teria na altura onze anos. Aos quatorze fugiria para o Porto, e por cá se mantivera desde então.

Até aos dezoito, trabalhara em toda e qualquer coisa, tanto boa como má, e nessa altura fizera-se engraxador por influência de um grande amigo, conquanto recente. Pouco tempo antes tinha ido dar com os costados ao chilindró por via de um assalto a um café, mal calculado e mal executado, e lá conheceu o Neca engraxador, internado no mesmo edifício por motivos idênticos, que nas horas vagas, e por amizade, lhe ensinou a arte. Quando saiu da pildra, abraçou esse ofício.

No café onde o sr Adérito trabalhava, um café grande na rua de Ceuta, parávamos nós, estudantes, para lanchar, jogar bilhar na cave, e de longe a longe, estudar.

O homem, com um sorriso constante na face, era um bom conversador, e eu um bom ouvinte.

Aos poucos fiquei a saber o que era possível saber-se da vida dele. Tinha seis filhos, um de cada mulher, e vivia sozinho num quarto de uma pensão de quinta categoria, com vistas de rua, na rua Formosa, com serventia de uma cozinha e de um quarto de banho que ficavam ao fundo do corredor do seu andar, o terceiro. Cantava fado duas ou três noites por semana, a troco de um magro jantar e de uns copitos de vinho.

Dos filhos pouco sabia, a não ser do mais novo, e das respectivas mães, nada, a não ser da última. Andava no Tribunal com ela, por causa de uma pensão de alimentos para o filho, que ele não podia dar. Não tinha com quê, dizia. O pouco que ganhava mal dava para pagar o quarto e para comer. E ele que comia tão pouco. Não conseguia engolir e o estômago tinha minguado. Ficava enfartado logo que bebia um copo. E como bebia outro e mais outro, a comida não cabia. Devia ser por isso, confidenciou-me um dia, que tinha apanhado aquela doença dos pulmões, que o não largava e que o obrigava a tossir constantemente. O cigarro também não ajudava. Eram dois macitos por dia. Dos pequenos (cada maço só tinha doze cigarros), baratitos (custavam sete ou oito tostões, 0,8 escudos), os mata-ratos (nome que na gíria se lhes dava na altura). Kentuchy, era o nome da marca. Tinha de ser desses baratos, que o dinheiro não chegava para mais. Mas o Juiz não estivera pelos ajustes e mandara-o pagar uma fortuna. Quase trinta escudos cada mês. E ele tinha lá os trinta escudos para pagar. Trinta escudos eram uma fortuna. Pensavam que ele era rico ou quê? Cada engraxadela custava menos de um escudo, e não engraxava mais de dez pares de sapatos por dia, nos dias bons, queixava-se ele. A média andava pelos cinco ou oito. Daí tinha ainda de tirar para comer e para o quarto e para os cigarritos, que o café e um ou dois bagacitos, ele podia tomar de borla no café. Tinha também de comprar a graxa e as tintas, e os panos estavam a ficar rotos, e as escovas sem pêlos. Não podia. Não dava para tudo. Mais valia ficar com o puto com ele. Era mais barato. E ele que até gostava muito do miúdo. Era parecido com ele. E tendo vindo tarde, era quase como um neto. Mas a mãe não queria, precisava do dinheiro que sobrasse para as coisas dela, que o que ganhava a lavar escadas não chegava. Só se fosse roubar... falava com o som a diminuir, terminando quase a ciciar. Mas que não queria, já tinha passado por essa vida e não queria voltar. E, dizia meio a brincar, que nem tinha saúde para isso.

O dilema do sr Adérito era enorme, e nós, amigos dele, ficávamos tristes com o seu infortúnio. Resolvemos então dar-lhe dinheiro, pouco, só para ele poder pagar a pensão do filho. Entre todos arranjávamos vinte e cinco escudos todos os meses. E assim, durante mais de dois anos, em todos os meses, excepto no Agosto, porque não estávamos presentes, lá lhe entregávamos o dinheiro, sempre até ao dia oito, que era quando ele tinha de fazer o pagamento. Tal e qual como se fosse uma renda de casa.

Um dia, ainda o Inverno era uma criança, não apareceu. Às vezes acontecia, desaparecia durante dois dias ou três. Eram os pulmões, ou o estômago ou então outra mazela qualquer, e voltava sempre, um pouco mais debilitado. Mas não voltou desta vez, e ninguém sabia o que lhe teria acontecido. Não havia notícias. Teria morrido? Esperava-se que não, coitado do homem. O tempo passou. Uma semana, duas, um mês, dois, três, cinco meses, e aos poucos deixamos de falar diariamente dele. Só um dia por outro. No café havia agora um outro engraxador. A lembrança do nosso amigo, impedia-nos de gostar muito deste novo. Nem sequer era simpático.

Acabou o ano lectivo e começou outro. E do sr Adérito, nada.

Chegou Dezembro e o Natal contagiava-nos a todos. Toda a gente andava com uma alegria renovada. Faltavam poucos dias para o dia vinte e cinco.

Estava o meu grupo a tomar café logo depois do almoço, numa sexta-feira com sol, quando uma sombra parou à porta de vaivém. Disse bem, uma sombra. Não era mais que isso. A sombra do sr Adérito, e ele na ponta dela, na soleira. Especado, olhando para dentro do café. Estava mais magro, muito mais. As roupas, com melhor aspecto do que as que habitualmente usava, pareciam penduradas num cabide. A cara ainda mais branca, os lábios sem cor.

Já tinha passado quase um ano. Tinha chegado a nossa prenda de Natal. Sendo o Natal quando um homem quiser, pode acabar por ser em Dezembro, como naquele ano.

Com um sorriso nos lábios dirigiu-se a nós depois dos cumprimentos da praxe aos ex-colegas do café. E falou, e falou, e falou. Que tinha estado internado, que tinha sido uma urgência, que nem tinha tido tempo de avisar fosse quem fosse, que tinha passado um mau bocado, dos pulmões pois claro, que o mudaram de sanatório para outro longe do Porto e que quando saiu, já com a saúde menos abalada, por lá ficou, numa terra vizinha, a trabalhar de engraxador e a fazer uns biscates. Que já estava melhorzinho, mas que tinha de ficar lá pelas montanhas, que o ar era bom e lhe fazia bem. Que tinha vindo ao Porto por nossa causa. Vinha devolver o dinheiro. Ganhava bem lá pela vila onde estava. Vivia com uma senhora que o ajudava bastante, e tinha de devolver o que lhe tínhamos emprestado. E puxou do dinheiro para nos dar. Vinte e cinco escudos por mês vezes tantos meses, muitos. Queria pagar tudo. Que tinha de ser. Não ficava de bem com ele mesmo se assim não fosse. Qualquer dia morria e não quereria ficar com aquela dívida por liquidar.

Não era emprestado, tinha sido dado, dissemos, mas nada o conseguiu demover, e tivemos de aceitar o dinheiro.

Ao fim de duas, três horas, nem sei ao certo, tão curto me pareceu o tempo, um carro veio buscá-lo, com uma senhora ao volante. Parou à porta, com o motor a trabalhar, e lá foi ele embora, para não mais o vermos, com um breve aceno e um sorriso nos lábios, feliz por ter cumprido o que entendia por correcto.

E nós aprendemos muito, com mais esta lição de vida, de decência e de honestidade, que nos ajudou na nossa formação como homens.

Tempos depois, houve uma revolução, e os homens como este entraram em vias de extinção.

.

Passaram já tantos anos que suponho que o sr Adérito já tenha morrido, por certo que sim, por causa da doença e tudo, mas na minha memória continua ali, a engraxar uns sapatos a seguir a outros, sempre bem disposto, assobiando, contando histórias, no café da rua de Ceuta.

Que pena já não se encontrarem por aí, com facilidade, homens assim!

Não sei nem sequer imagino quem possam ser os filhos do sr Adérito. Como não sei o seu nome de família e não há a quem perguntar já que os donos do café são agora outros, nada poderei fazer, mas imagino como seria bom que eles pudessem saber desta história do pai deles.
publicado por Carlos Loures às 19:30
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República nos livros de ontem nos livros de hoje - 189 e 190 (José Brandão

Teófilo Braga e os Republicanos

Carlos Consiglieri

Vega, 1987

A preparação deste dossier, que apelidámos “Teófilo Braga e os Republicanos”, deve-se à iniciativa de José Relvas que o recolheu, como tudo indica, nos anos 20, para possível publicação.

Foi decerto nesse período, após a passagem efémera pela chefia do Governo em 1919, aquando da restauração da “República Velha” em contraposição ao Sidonismo e à Monarquia do Norte, que José Relvas procedeu â seriação e arrumo desses papéis.

É nessa altura que escreve as Memórias Políticas, documento (fundamental para a história da I República, recentemente publicado, que constitui, como assegura Carlos Ferrão, “o mais valioso testemunho até hoje aparecido sobre a preparação do movimento revolucionário de 5 de Outubro de 1910.”

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O Terceiro Governo Afonso Costa – 1917

A. H. de Oliveira Marques

Livros Horizonte, 1977

É o mais desastroso erro político para a vida nacional.

Primeiro defeito saltando aos olhos: a organização do ministério. Alguns daqueles nomes nem os mesmos partidários julgam neste momento com arcaboiço para investidura tamanha. O Presidente do, Ministério tem a atenção focada sobre tão alto escopo, que não enxerga as misérias cá de baixo. Nem o suspeita, estou em crer. Do contrário não se julgava com abastança para substituir a pouquidade governativa dalguns dos seus colegas. Ao menos os nomes desses ministros deveriam conciliar o maior número de simpatias públicas. Desde logo se oferecia menos corpo ao ataque. Não aconteceu tal, e compondo-se o ministério com alguns nomes excelentes, outros ali há dos que mais irritam uma boa parte da opinião.

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publicado por Carlos Loures às 18:00
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Fátima

Adão Cruz

O amigo J. Mário Teixeira dedicou-me um vídeo do Padre Mário de Oliveira, sobre Fátima. Eu disse-lhe que ele já conhecia os meus gostos e desgostos. Agradeci, não porque eu tenha prazer em coisas amargas ou em fenómenos sociais negativos, mas porque se trata de um impressionante exercício de lucidez e de uma acutilante denúncia de uma das maiores patranhas do século XX.

Um vídeo que põe em destaque a abissal diferença entre a mentalidade obsoleta que vigora dentro da igreja e a sanidade mental de um padre que luta, à sua maneira e dentro da sua crença, contra as trevas do obscurantismo.

Em nada me interessa a Igreja católica em si mesma. Porém, como cidadão, não posso ficar ao lado dos fenómenos que afectam, positiva ou negativamente, a sociedade e a humanidade. Desde há muitos anos que me arrepia o paganismo que se fabricou em Fátima, a monumental impostura que se ergueu no nosso país, e a empresa lucrativa em que a fé se transformou.

Sou médico há quase meio século, tive na minha frente toda a espécie de pessoas, desde a mais ignorante à mais sábia. Respeito tanto os ignorantes como os sábios, os cultos e os incultos, mas não tenho o mínimo respeito nem contemplação pela ignorância e pela incultura. Tenho amigos e doentes que são padres e freiras, a quem respeito e que me respeitam também. Mas não sinto respeito pelo trabalho de quem quer que seja que se dedique, de uma maneira ou de outra, a cultivar a ignorância, a escamotear a verdade e a anular a razão. O maior crime que se pode cometer contra o Homem não é matá-lo mas tapar-lhe os olhos. Ao matar o Homem não se mata a ideia. Ao tapar-lhe os olhos mata-se o Homem e a ideia.

A mensagem do verdadeiro Cristo, a mensagem de libertação do Homem nada tem a ver com isto. Ao contrário, a igreja explora e expande todos aqueles conceitos arcaicos que sempre contribuíram fortemente para a exploração e a repressão, liderando falsamente e sofismaticamente a luta pelos fracos, no terreno fértil de uma humanidade sofredora, aterrorizada e inculta, vítima maior desse mesmo poder que sustenta e sempre sustentou a Igreja.

Entre a mentalidade e a verdade de monsenhores, rotulados de catedráticos, entre as habilidades retóricas, os rendilhados e emaranhados raciocínios de homens inteligentes dentro da igreja que até escrevem nos jornais e falam nas televisões, entre as palavras de homens bons dentro da igreja, palavras, no entanto, fundidas numa incapacidade de definição e de posicionamento quanto à etiopatogenia dos males da humanidade e à crítica da Igreja, entre tudo isto, repito, e a reflexão, a coragem, a lucidez, a clareza e a serenidade do Padre Mário de Oliveira vai um abismo.

Nesse vídeo, duas coisas me impressionaram sobremaneira. A primeira é uma pergunta a que automaticamente somos levados, e que se encontra implícita em todo este relato: Será possível que homens inteligentes dentro da igreja embarquem nesta tão primária encenação? Ou andam a fazer de conta? A segunda é a abordagem de uma vertente da qual eu não me havia apercebido. Duas crianças “videntes”, levadas a uma fragilidade física e mental imposta por terrores, medos e sacrifícios inqualificáveis, que lhes facilitaram a morte prematura. Uma terceira criança enclausurada e condenada a prisão perpétua.

Penso que muitos milhares já viram com ansiedade e agrado esta esclarecedora e corajosa denúncia contra uma das maiores fraudes do século, co-responsável - a par de tantos outros mecanismos de anestesia mental que o poder detém ou inventa - pelo atraso do nosso povo e da nossa sociedade. Se não viram vejam que vale a pena.

A Igreja católica historicamente enrodilhada num mar de escândalos e de obscuras e complexas ligações, adquiriu tal poder que já perdeu todos os escrúpulos, já não consegue voltar a trás e dar a mão à palmatória, nem se importa que o produto que fabrica seja o antídoto de tudo aquilo que pretende proclamar. Com efeito, a Igreja deve ser hoje a maior fábrica de ateus.

(Ilustração de Adão Cruz)

publicado por Carlos Loures às 16:30
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Esperanza - una historia de vida -16, por Raúl Iturra

(Continuação)


• Rodrigo Enríquez Osorio o Rodrigo Enríquez de Castro (1459-1522), II conde de Lemos, grande de España.


• Beatriz de Castro Osorio A Fermosa, (1480-1570), III condesa de Lemos, Grande de España y madre del célebre cardenal D. Rodrigo de Castro Osorio

• Fernando Ruiz de Castro Osorio y Portugal o Fernando de Castro y Portugal (1505-1576), IV conde de Lemos, I marqués de Sarria y grande de España.

• Pedro Fernando Ruiz de Castro Andrade y Portugal El Viejo (1524-1590), V conde de Lemos, II marqués de Sarria y grande de España.

• Fernando Ruiz de Castro Andrade y Portugal (1548-1601), VI conde de Lemos, III marqués de Sarria, grande de España y virrey de Nápoles (1599-1601).

• Pedro Fernández de Castro y Andrade (1576-1622), VII conde de Lemos, IV marqués de Sarria, grande de España, presidente del Consejo de Indias, virrey de Nápoles (1610-1616) y presidente del Consejo Supremo de Italia; "Gran Conde de Lemos" "Honra de Nuestra Edad", gran mecenas y personaje de mayor relevancia y trascendencia de su estirpe. Sobrino del cardenal Rodrigo de Castro Osorio. Falleció sin descendencia, por lo cual su linaje pasó a su hermano, el VIII conde de Lemos.

• Francisco Ruiz de Castro Andrade y Portugal (1582-1637), VIII conde de Lemos, V marqués de Sarria, grande de España y virrey de Nápoles (1601-1603). En 1629, renuncia a todos sus títulos y posesiones e ingresa como monje benedictino en el monasterio de Sahagún, con el nombre de Fray Agustín de Castro.

• Francisco Fernández de Castro (1613-1662), IX conde de Lemos, VI marqués de Sarria, grande de España.

• Pedro Antonio Fernández de Castro (1634-1667), X conde de Lemos, VII marqués de Sarria, grande de España, XXVII virrey del Perú entre 1667 y 1672, durante el reinado de Carlos II (1665-1700) de la Casa de Austria.

• Ginés Miguel María de la Concepción Ruiz de Castro Andrade y Portugal Osorio (1666-1741), XI conde de Lemos, IX conde de Villalba y VIII marqués de Sarria, grande de España; falleció sin descendencia y su linaje pasó a su sobrina Rosa María de Castro y Centurión.

• Rosa María de Castro y Centurión (1691-1772), XII condesa de Lemos, IX marquesa de Sarria, grande de España. Fallece en 1772 sin descendencia. Tras disputas hereditarias entre ramas de la familia, el título pasa a su sobrino, el duque de Béjar.

• Joaquín López de Zúñiga Sotomayor y Castro (1715-1777), XIII conde de Lemos, X marqués de Sarria , grande de España. Fallece sin descendencia y con él se extingue la Casa de Castro como hereditaria del Condado de Lemos, que pasa junto al marquesado de Sarria a la rama parental más cercana, la Casa de Berwick. Paso del título a la Casa de Berwick y Alba

• James Francis Edward Fitz-James Stuart y Ventura Colón de Portugal (1718-1785), XIV conde de Lemos, XI marqués de Sarria, III duque de Berwick y grande de España; hereda el título al ser el cuarto nieto de Fernando Ruiz de Castro y Portugal (hermano del VII y VIII condes de Lemos). Casa el 26 de julio de 1738 con María Teresa da Silva y Álvarez de Toledo, hija de los duques de Alba. Le sucede su hijo,

• Carlos Fitz-James Stuart y Silva (1752-1787), XV conde de Lemos, XII marqués de Sarria y grande de España. Casa el 15 de septiembre de 1771 con Carolina Augusta Stolberg y Hornes. Le sucede su hijo,

• Jacobo Fitz-James Stuart y Stolberg (1773-1794), XVI conde de Lemos, XIII marqués de Sarria, III duque de Berwick y grande de España. Le sucede su hijo,

• Jacobo Fitz-James Stuart y Silva (1791-1794), XVII conde de Lemos, XIV marqués de Sarria, IV duque de Berwick y grande de España. Falleció a los 3 años. Le sucede su hermano,

• Carlos Miguel Fitz-James Stuart y Silva (1794-1835), XVIII conde de Lemos, XV marqués de Sarria, V duque de Berwick, XIV duque de Alba y grande de España. Le sucede su hijo,

• Jacobo Luis Fitz-James Stuart y Sventimiglia (1821-1881), XIX conde de Lemos, XVI marqués de Sarria, VI duque de Berwick, XIV duque de Alba y grande de España. Casa con Francisca de Palafox Portocarrero, IX condesa de Montijo, hermana de la emperatriz Eugenia. Le sucede su hijo,

• Carlos María Fitz-James Stuart y Portocarrero (1849-1901), XX conde de Lemos, XVII marqués de Sarria, VII duque de Berwick, XVI duque de Alba y grande de España. Le sucede su hijo,

• Jacobo Fitz-James Stuart y Falcó (1878-1953), XXI conde de Lemos, XVIII marqués de Sarria, XVII duque de Alba, VIII duque de Berwick y grande de España. Le sucede su única hija,

• María del Rosario Cayetana Fitz-James Stuart y de Silva (1926- ), XXII condesa de Lemos, XIX marquesa de Sarria, IX duquesa de Berwick, XVIII duquesa de Alba y otros títulos, diecisiete veces grande de España.

[editar] Apuntes finales

Los condes de Lemos fueron, en su rama principal y más relevante, la de los Castro, una estirpe recordada como amigos de las artes y las letras y grandes protectores y mecenas de escritores y artistas. Respetados como estadistas, hombres de letras, diplomáticos, y destacando, en las personas de algunos de sus más ilustres representantes, por su filantropía, y por un inusitado interés por los avances sociales e intelectuales.

El título en la actualidad corresponde a Cayetana Fitz-James Stuart y de Silva, XVIII duquesa de Alba y XXII condesa de Lemos.

Véase también

• La corona de fuego

Fuentes

• Pardo de Guevara y Valdés, Eduardo: Don Pedro Fernández de Castro, VII conde de Lemos (1576-1622)

• Pardo de Guevara y Valdés, Eduardo: Los Señores de Galicia; Tenentes y Condes de Lemos en la Edad Media.

Referencias

1. ↑ Martinez García, Mónica "Pedro Fernández de Castro, O Gran Conde de Lemos", Santiago de Compostela, 2005.ISBN 84-453-3763-7

(...) Este hecho adquiere una mayor relevancia por la excepcional importancia nobiliaria y social de una linaje que Murguía califica de "Dinastía real" y a la que Hermida Balado considera como la única que pudo en su momento aspirar en Galicia a la formación de un reinado propio.(p.11)

2. Vázquez, Germán "Historia de Monforte y su Tierra de Lemos".ISBN 84-241-9865-4

El tronco de toda la Casa de Castro es don Fernando o don Fernán Ruiz de Castro, señor de Castrogeriz por su matrimonio con doña María Álvarez, señora de aquella villa burgalesa. Don Fernando, que vivió a fines del siglo XI, de ignorado pero de regio abolengo, fue tenido por hijo ilegítimo del rey de Navarra. Otros genealogistas, entre ellos Salazar y Castro, Y Pellicer, lo consideran hijo de Don García, infante de Castilla, rey de Galicia y Portugal, hermano menor del emperador Alfonso VI.(p.202)

3. ↑ Historia del Castillo de Cornatel

[editar] Enlaces externos

• Amplia genealogía y títulos de los condes de Lemos en "Grandes de España"

• Genealogía

• Los Bermudez Castro

• El VII Conde de Lemos y su linaje



Esta era la realidad en que Esperanza crió a sus hijos y de estas historias verdaderas, cargas pesadas para ellos, nacían las historias que se contaban a rapazes y raparigas

(Continua)
publicado por Carlos Loures às 15:00
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Wall Street - O Dinheiro não dorme



Sete anos passados na prisão deixam muito tempo para pensar e o personagem de Michael Douglas está de regresso à liberdade.

Quem não percebeu muito bem como é que a especulação deitou por terra a economia mundial, concentre-se numa cena do ínicio do filme, onde, numa palestra a jovens tubarões da alta finança, é resumido o conceito " invasivo, infernal e global.Como um cancro".

A ganância de uns quantos de mão dada com a credulidade da maioria, sem criar qualquer riqueza apropria-se de milhões em mais -valias que, a mais das vezes, resultam do efeito conjugado de boatos sobre uma determinada empresa e de movimentos especulativos de compra e venda de milhões de acções. Ninguem sabe quem está por trás desses movimentos, off-shores sem rosto, contas na Suiça sem nome, até que a luta passa a tramar os próprios figurantes e aí a riqueza súbita e os suícidios levam à vingança.

Não é um grande filme, longe disso, mas é um filme que clarifica muita coisa, como é possível que os Estados não regulem, como a Lei protege a batota, como a economia e a finança deixaram de ter o homem como modelo central, para passar a ser um jogo de perde e ganha ao arrepio de qualquer mérito e do mínimo de bom senso. A finança é uma lotaria viciada onde ganham sempre os que lançam os dados.

Trata-se de um estado febril, gente que tem tanto dinheiro que tudo podem ter mas que não conseguem parar, destroiem a família e os amigos, a própria vida em muitos casos.Uma das lições deste filme é que sempre haverá homens e mulheres capazes de deitarem tudo a perder se os Estados e a sociedade não conseguirem travar a cegueira e a ganância. Aliás, cá no burgo tambem temos casos desses bem recentes.
publicado por Luis Moreira às 13:30
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Bento XVI, Santo Eugenio e a solução final

Carlos Loures

No Natal passado, Bento XVI, apelou durante a tradicional oração do Angelus na Praça de são Pedro, a um sentido mais religioso das festividades, dizendo: «o Natal não é um conto para crianças» (…) «é a resposta de Deus ao drama da humanidade em busca da verdadeira paz». A mensagem começou com uma expressão de pesar porque em «Belém, que é uma cidade símbolo da paz na Terra Santa e em todo o mundo, não reina a paz». Bento XVI explicou em seguida que o Natal «é profecia de paz para cada homem, compromete os cristãos na tomada de consciência de dramas, com frequência desconhecidos e escondidos, e dos conflitos do contexto em que se vive». Recordou que o Natal tem que fazer com que os homens se transformem em «instrumentos e mensageiros de paz, para levar o amor aonde há ódio, perdão onde haja ofensas, alegria onde haja tristeza e verdade onde haja erros». Entretanto, a comunidade judaica criticou a decisão do papa de aprovar as «virtudes heróicas» do papa Pio XII, primeiro passo para a beatificação, apenas faltando que se reconheça um milagre feito por sua intercessão para que Eugenio Pacelli seja considerado beato.

Será que os judeus têm razão? Acho que neste caso têm e muita.

Eugenio Pacelli era tão isento, ao longo da 2ª Guerra Mundial, que lhe chamavam «il Tedesco». Todos sabiam que o cardeal Pacelli era germanófilo. Parte da sua formação académica decorreu na Alemanha, em Munique. Entre 1925 e 1929 esteve instalado em Berlim. Foi nesse último ano que Pio XI o chamou ao Vaticano e o nomeou secretário de Estado. Foi ele que negociou com o governo de Mussolini o Tratado de Latrão (1929). A Igreja Católica recebeu 750 milhões de liras e, em contrapartida, reconheceu o regime fascista. Foi Pacelli quem, em 1933, supervisionou os termos da Concordata entre o Vaticano e o governo de Hitler, que monsenhor Gröber, der Braune Bischof (o «bispo nazi» de Friburgo), redigiu, rompendo em nome da Igreja o isolamento diplomático a que a comunidade internacional votara o novo governo alemão.

Em 1939, Eugenio Pacelli, sucedeu a Pio XI, tomando o nome de Pio XII. A sua relação com Mussolini e Hitler sempre foi cordial. Nunca denunciou publicamente os crimes que estavam a ser cometidos pelo governo do III Reich. Não podia deixar de saber da Endlösung, a «solução final», que previa a eliminação de todos os judeus da Europa, calculados em 11 milhões. No Angelus do Natal de 1942, lá disse qualquer coisa discreta sobre as «centenas ou milhares» de pessoas que, sem outra culpa que não a sua nacionalidade ou etnia, estavam «assinalados pela morte e por uma progressiva extinção». Sabia também que muitos dos que iam para as câmaras de gás não era pela sua etnia, mas sim pela sua opção política ou pela sua orientação sexual. Entre os esquerdistas e os homossexuais executados, havia numerosos católicos.

Quando, já depois da execução de 335 reféns civis, o Gueto de Roma foi, em Outubro de 1943, cercado por tropas SS, sendo executados 75 judeus, Pio XII permaneceu em silêncio. A Santa Sé mandou uns telegramazecos e fez uns telefonemas para o embaixador alemão, aceitando as justificações ladradas pelo diplomata. Perante uma reacção tão violenta os alemães atemorizaram-se e, ainda em Outubro, num Domingo, embarcaram 1060 judeus, cidadãos italianos, directamente para Auschwitz. Com o seu estranho silêncio, foi um cúmplice de Hitler e de Mussolini. E dispunha da única estação de rádio independente na Europa que estava sob a bota hitlerista. Depois da guerra, os seus defensores deram como desculpa que, se o papa se tem manifestado, isso iria radicalizar as posições dos ditadores.

Mostrando a sua solidariedade com as vítimas do nazismo, quando a guerra terminou, Pio XII proporcionou passes, salvos condutos e passaportes a criminosos de guerra, fascistas e nazis, bem como a colaboracionistas italianos que estavam abrigados no Vaticano e assim puderam recomeçar as suas vidas no Paraguai, na Argentina ou em Espanha. E para cúmulo da severidade, deu-lhes pequenas quantias em dinheiro. Na realidade, um homem que fez tanto bem, merece ser beatificado. Vejam lá se não se atrasam em juntá-lo à Corte dos santos.
Para terminar: eu acho que os judeus têm razão em protestar contra o projecto de beatificação de Eugenio Pacelli. Porém, será que Bento XVI não deveria ter já denunciado as atrocidades que os soldados israelitas cometem diariamente contra os civis palestinianos?

Provavelmente, tal denúncia impedi-lo-ia, após a sua morte, de ser beatificado.
publicado por Carlos Loures às 12:00
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Coisas breves. Cavaco recebe partidos

Carlos Mesquita

Cavaco Silva reuniu hoje com partidos de esquerda. Recebeu-os na sala trapezoidal de S. Bento, onde para além dos assentos há uma mesa redonda com apenas quatros pernas, em cima um candeeiro de lâmpadas anti-melgas. Ao fundo uma pantera de louça e um cavalete de pintura com um quadro de tela branca roto desde o centro esquerdo ao centro direito.

Aníbal (é o nome próprio com que se levanta) acordou depois de uma noite mal dormida de preocupações.

-Ouvi espirrar, quem raio me acorda aos espirros?! Foi o teu ouvido, Aníbal. Não foi nada o meu ouvido! Eu ouvi mesmo espirrar! Foi o teu ouvido que espirrou, Aníbal. Ouviu de novo. O meu ouvido espirrou? Qual? Não pode ser, lamentou-se enquanto se levantava, o meu ouvido esquerdo está outra vez constipado, logo hoje que vou escutar os partidos deste lado, lindo serviço.

Aníbal passou o resto do tempo até à reunião a testar a capacidade de ouvir à esquerda, Norberto, o 2º motorista deu uma ajuda. Um, dois, experiência…está a ouvir Sr. Presidente? Ora comece lá a falar Sr. Norberto. Um, dois, experiência…está a ouvir Sr. Presidente? Ó Sr. Norberto diga qualquer coisa para ver se a minha acuidade auditiva está recuperada, olhe deixe estar que já vem ali a Sra. Deputada dos Verdes; essa não terei dificuldade em ouvir que tem uma voz vibrante, irritante mas vibrante.

Como está Sra. Deputada? Sr. Presidente queria agradecer-lhe ter-nos convidado para sermos ouvidos nesta altura tão difícil, os nossos fins… Pois é Sra. deputada, cortou o anfitrião, era muito bom com este tempo fazermos a reunião nos nossos belos jardins, mas manda o protocolo que usemos os aposentos interiores. Entremos.

Sentaram-se e o Presidente disse: - Cumpramos a Constituição que me recomenda nestas ocasiões ouvir os partidos. A delegada dos Verdes foi dizendo de sua justiça enquanto o seu interlocutor pensava; é tal e qual como quando a vejo no Canal Parlamento com o som desligado, talvez um pouco mais calma. Ainda lhe chegou ao ouvido bom qualquer coisa como “novas políticas” que estava habituado a ouvir vindo desse lado direito mas mais nada. O tempo esgotou-se, levantaram-se, a deputada perguntou se o Sr. Presidente não se importava que ela dissesse aos jornalistas que ele estava preocupado por causa do que disse o ministro da presidência. Cavaco foi dizendo que era preciso cuidado com o que se dizia porque estamos sob observação externa, o que foi interpretado como consentimento. Voltou a agradecer ter sido recebida e foi para os pés de microfone.

Há hora destes acontecimentos ainda não tinham chegado os delegados do Bloco de Esquerda e do PCP para as respectivas audiências, espera-se que agradeçam o facto de terem sido convocados e que jurem que não querem ajudar a criar uma crise política.

Cavaco Silva no intervalo confessava aos seus colaboradores que a audição do partido “Os Verdes” tinha corrido de forma extraordinária, não tinha ouvido uma crítica, uma contestação, o mais leve comentário desagradável. Esperava que o mesmo acontecesse com o BE e o PCP, desejando que na delegação do BE viesse o médico deputado para o aconselhar sobre a trompa de Eustáquio. Também o Jerónimo de Sousa que foi afinador de máquinas o podia ajudar a afinar o estribo, o martelo e a bigorna do ouvido, tudo isso, evidentemente, depois das audiências terminarem.
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publicado por Carlos Loures às 11:00
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