Segunda-feira, 30 de Agosto de 2010

Portugal na 12a. Exposição de arquitetura de Veneza

Sílvio Castro*




A “Mostra internazionale di arquitetura” da Bienal de Veneza chega neste 2010 à sua 12. manifestação e continua a lutar para afirmar-se definitivamente em face da sua congênere das Artes, certamente a mais representativa, ao lado daquela do Cinema, nos quadros setoriais da Bienal veneziana. O setor da arquitetura tem sofrido até aqui e fortemente a pouco cômoda posição de setor altenativo, nos anos pares, daquele artístico, sempre esperado com grande expectativa pelo mundo internacional das artes, nos anos ímpares. Porém, lenta, mas seguramente a Exposição Internacional de Arquitetura de Veneza está assumindo posição de grande importância e significado no quadro internacional. A sua 12. edição, do título “People meet in architecture”, sob a curadoria da arquiteta japonesa Kazuyo Sejima, edição inaugurada no dia 29 de agosto passado, com conclusão fixada para 21 de novembro de 2010, denota no alargamento de seu espaço expositivo e nas muitas participações nacionais tal desenvolvimento.

Neste quadro magnífico, Portugal ocupa uma posição muito significativa, seja tanto pela qualidade de seus representantes, quanto pela sistemação do Pavilhão português.

O Pavilhão, um daqueles que se localizam fora da área expositiva tradicional da Bienal, encontrou uma sede de alto prestígio no ambiente da cidade. Trata-se de um espaço do Palazzo Foscari, no Canal Grande, sede igualmente da Universidade Ca’ Foscari de Veneza. O Palácio de Ca’ Foscari é um dos mais prestigiosos exemplos arquitetônicos do chamado gótico veneziano, ao mesmo tempo que impressiona pela grandeza de seus espaços. A Representação portuguesa ocupa uma ala famosa, aquela mesma que hospedou nos tempos também o famoso teatro de Cá Foscari, no andar térreo, com ligações para os andares superiores.

Portugal está representado pelos irmãos Manuel e Francisco Aires Mateus, por Ricardo Bak Gordon, João Luís Carrilho da Graça e Álvaro Siza Vieira. Os cinco arquitetos, mesmo nas marcadas diferenças existentes entre eles, demonstram pelas respectivas obras a alta qualidade assumida pela arquitetura portuguessa contemporânea.

Os cinco estão juntos no projeto que os comissários Júlia Albani, José Mateus, Rita Palma e Julião Sarmento – designados pela Trienal da Arquitetura de Lisboa - denominaram sugestivamente “No Place Like”, reunião de 4 criações exemplares para o crucial problema arquitetônica da habitação. Manuel e Francisco Aires Mateus apresentam o projeto “Casas na Comporta” (Comporta, Grândola, 2008-2010); Ricardo Bak Gordon, “2 Casas em Santa Isabel” (Lisboa, 2003-2010); João Luís Carrilho da Graça, “Casa Candeias” (S. Sebastião da Giesteira, Évora, 1999-2008); Álvaro Siza Vieira, “Bouça”, Porto, 1973-1978, 2001-2006). O programa expositivo do Pavilhão português ilustra todos os 4 projetos através de 4 filmes: Filipa César mostra os magníficos e significativos espaços das “Habitações Sociais”, de Siza Vieira, em Bouça; João Onofre tematiza a casa de Bak Gordon; Julião Sarmento apresenta a casa de Carrilho da Graça; João Salaviza desvenda os segredos da casa na Comporta de Aires Mateus.

A realização global do Pavilhão é de grande eficácia, permitindo aos especialistas o melhor contacto com a parte técnica dos projetos, bem como ao público em geral a dinâmica visão dos mesmos através dos 4 filmes projetados nas diversas salas do magnífico espaço de Ca’ Foscari.

*(Membro da Associação Brasileira de Críticos de Arte – ABCA e

da Associação Internacional de Críticos de Arte – AICA)

publicado por Carlos Loures às 19:30
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República nos livros de ontem nos livros de hoje - 129 e 130 (José Brandão)

Páginas de Sangue
Sousa Costa

Guimarães Editores, s. d.


Por isso, ao começar o presente volume, relembro esses instintos e esses impulsos, lanço os olhos curiosos ao já vasto e agitado panorama da vida política portuguesa do meu tempo às suas convulsões através da ditadura franquista, aos quadros sangrentos das incursões monárquicas, aos quadros trágicos das revoluções republicanas, e observo, e concluo:

– Afinal, por mais que sobre a índole humana rolem as turvas torrentes ou as águas claras das idades, ideologias e apostolados, a índole humana é seixo que não amacia nem ao correr de dilúvios. Não há dúvida – o homem é o único animal indomesticável. Calmo na jaula das conveniências e interesses quotidianos, mal lhe ameaçam ou lesam interesses e conveniências – a mesa, o mando, a confraria – logo arreganha a dentuça primitiva, o ser humano volvido à fera bruta.

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Páginas do meu Diário

Armando Marques Guedes

Lisboa, 1957

Um gentilíssimo espírito, que muito prezo, escreveu há pouco que detestava os livros de memórias por não passarem, em regra, de auto-elogios dos seus autores. O asserto tem uma parte de verdade, mas é excessivo pela sua generalização. Os livros dos memorialistas fornecem frequentemente subsídios valiosos para os historiadores. É ideia assente hoje que a História deve basear-se em documentos. Mas não é menos verdade que o documento é frequentemente coisa fria e morta; às vezes é tendencioso ou uma expressão de falsidade. Quantas vezes representam apenas a versão oficial e deturpada dos acontecimentos!...

E falta-lhe quase sempre o elemento subjectivo, o factor psicológico, que explicaria satisfatoriamente os homens e os acontecimentos.
publicado por Carlos Loures às 18:00
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O crescimento das crianças

Raúl Iturra

Capítulo 4




Nós é que amamos. O que sou

Queira o leitor lembrar de que gostava de debater, enquanto transfiro parcialmente para si meus dados de trabalho de campo, pelo menos dois assuntos centrais. Um, é que as crianças que crescem, o fazem na medida de que a memória social impinge a sua memória individual. É dizer, que a criança que temos em frente a crescer, é resultado do saber acumulado cronologicamente no tempo. No tempo que a criança vive e que os ancestrais andaram a viver, perto ou longe do tempo da criança. O saber é contínuo, embora conjuntural nas suas mudanças. O processo educativo que resulta da interacção de um mesmo povo, a traves da Historia, ou com outros povos a traves também da Historia, é o que faz o que sou. Um segundo assunto, é que esta racionalidade da criança, indivíduo com uma epistemologia acumulada também, é diferente da racionalidade cognitiva do adulto. O entendimento é diferente. As várias gerações que vivem dentro do mesmo tempo, têm tido experiências diversificadas, quer pelo ciclo, quer pelo tempo que a pessoa leva na Historia do seu ser social. Experiências que são emotivas, mas orientadas pela razão, porque a criança observa para calcular, e calcula. Por este motivo, tenho levado ao leitor a percorrer tempo de forma cronológica, para trás e para frente, como a linguagem Internet permite, reiterando casos e a abrir lentamente as historias, em torno ao elo processual que Victoria, Pilar e Anabela, estruturam do processo racional da reprodução social. Comparar três povos de diferentes línguas e experiências, não é simples, mas é interessante para quem trabalha os dados do quotidiano. Um quotidiano prolongado para mim, porque os Picunche os conheci sempre, os de Vilatuxe faz 40 anos hoje, e os de Vila Ruiva, trinta. E queira o leitor entender que somos poucos a estudar a criança como entidade humana que entende e aprende e não é um problema a resolver. Os adultos procuram que a criança seja um adulto em pequeno, como Ariés tão claramente diz (1964), ou Lahire estuda (1993), ou com os colegas de minha equipa, analisamos a partir de 1988. Uma análise que não consegui que Pierre Bourdieu e equipa, quiserem tomar. Pierre Bourdieu, quanto mais, escreve a experiência humana no livro que lhe deu a fama, no seu La misére du monde (1993). Livro que trata em diálogo, a interacção dos seres humanos. Como Eugène O’Neill (1956) faz no Longa viagem do dia á noite, onde a criança aparece no corpo e comportamento de cada adulto. Porque a interacção do lar, acaba por ter atalhos denominados de adulto, atalhos de criança, atalhos de emotividade, atalhos de razão- Atalhos, que são a realidade que vivemos. A criança não tem atalhos de adulto para o adulto, tem sempre comportamentos irreflectidos e espontâneos, que os pedopsiquiatras gostam de estudar. E que a população do quotidiano gosta de beijar. Até que uma criança a crescer, rejeita tanto apalpar. Uma criança a crescer, pode, para prazer do adulto, imitar comportamentos. Como aquela que conheci de perto, essa que o seu avó lhe dizia para fazer um cavalheiro, e ele cruzava as pernas, uma por sobre o joelho da outra, e as mãos agarradas por sobre o joelho livre, e a mirar em frente e a serio. Até se cansar. Uma maneira de atrair a atenção do avô e dos adultos que gostavam de ver. Se depois não comia, era o grito, não a sedução. A sedução acaba aí onde começa a ideia de que é o adulto quem sabe, quem manda, que disciplina, quem grita e pune, a pensar que é essa a forma de ensinar. Que não corrigir com paciência, é ensinar. Que deixar fazer, é ensinar. Que mandar ler, é ensinar. Que privar á criança de brincar com os seus pares, é ensinar. Marcado estou pela minha reflexão sobre o processo de aprendizagem, já citado (1994), nunca mais acabado de citar, tornado a referir, comentado mais uma vez. Porque está retirado da minha experiência na análise de grupos domésticos e a sua interacção. E é aí que vejo a heterogeneidade da vida da criança, o que é. O resultado que é. O que o seu professor desconhece e que Luís Souta estudou (1995), que Telmo Caria estudou (1997), que Ricardo Vieira estudou (1997). E outros. Em outras classes sociais, como Henrique Costa Gomes de Araújo (1998). O leitor não fique pouco feliz por tanta citação. É só para ajudar a referir o que pretende saber, o crescimento das crianças de forma espontânea, etnográfica. A criança que é, não o problema que se coloca ao adulto. É a criança, a pequenada da qual tomamos conta até eles tomarem de nos, como argumentei no capítulo 1. Até nos observarmos o que eles calculam. Como estudou Filipe Reis (1989-1991-1997), na Beira Alta. Esse cálculo, resultado de essa vida quotidiana que a pequenada tem, longe dos adultos. O com adultos, quando é ritual. Porque a pequenada, como todo ser, tem uma vida diferenciada entre vários assuntos que bem sabe distinguir.



A- Victoria

Entre os Picunche, os pequenos são queridos e cuidados. Como toda criança mapudungum do Chili pré hispânico, é o futuro da nação. Gabriela Mistral, a poetisa chilena que ganhou o prémio Nóbel de 1949 e que se reclamava índia do Norte do Chile – onde habitam ainda os Aimara -, teve a delicadeza de dizer: Piececitos de niño, azulosos de frio, como os vem e no os cubrem, Dios mío” (1922 ). Entre vários dos seus versos, todos dedicados á pequenada. Essa Gabriela Mistral, professora primaria de Pablo Neruda, que cresceu e nunca mais se lembrou de ser pequena, as vezes. Como era na vida real. Essas histórias que Victoria nunca estudou porque em casa não sabiam e porque na escola não sabiam e porque na sua infância Neruda estava banido e Mistral, ignorada. Porque Victoria e os seus congéneres estudam os mitos que a educação oficial quer ensinar, a obra ou a historia grossa, o dado largo, a fisiologia sem desenhos. Ou com o livro cosido nos sítios perigosos, os do corpo. Victoria aprendeu em casa todo o perigoso da vida, nas disputas da mãe e do pai, disputas as quais não tinha direito a aceder, porque não as entendia. A tradição Picunche tomava conta de ela, e ora a irmã Rebeca tratava de pequena, ora a pequena ficava na casa dos tios, dos primos Cárcamo que moravam em frente, esse Nestor Cárcamo Alcalde de Pencahue por anos sem fim, o pai de Alexandra a sua amiga. Com a qual brincavam aos animais, as bonecas, as corridas de cavalos, a trabalhar a terra. Victoria amava e era amada. O período turbulento em que cresceu, foi ignorado por ela, como por todo ser que quiser ter um mínimo de paz pessoal. E dar essa paz aos descendentes. Cada casa de vizinho, era a sua casa, á qual se pode entrar sem bater á porta, e ficar as comidas, se quiser e houver. Brincadeira reiterada era tecer ao tear, trabalho Picunche por séculos. Observei muitas pequenas a colaborar com a mãe em cardar a lã, mexer na máquina de madeira, tratar das madeixas. Ou brincar às escondidas, ao capelão, de nome luche em mapudungun, com as vizinhas da rua ou na escola. Infância e adolescência percorridas com a calma que a proximidade da mãe, trazia. E com os namoros aos recados que entre elas se davam para falar de eles. Espontaneamente, a imitar aos adultos na sua expressão de carinho e de amor pelos outros. Victoria, como vários outros, ião a catequeses, ritualmente á primeira comunhão e a confirmação. E a missa obrigatória dos Domingos. Doutrina que aprendeu, incutiu em si e foi a base da vida de crescimento que foi levando. Até que nos seus vinte e dois anos, a mãe morreu. E foi levada pelos primos Cárcamo a casa de cidade de Talca, onde já morava para estudar secundário e estudos superiores. Uma das poucas do sitio, que estudou para fazer o seu futuro. Como criança, teve apoios solícitos dos irmãos todos, que juntam a sua emotividade em torno da mais nova. Pequena que assim criada, acaba por ser doce e serena, a estar em paz consigo própria, donde em paz com os demais. A sua geração cresceu a observar que havia adultos que desapareciam, mas também que havia adultos que falavam. E cresceu a aprender nos textos que por cima de todo outro valor, estava o do bem comum. Porque todos eram iguais. Uma contradição que entendeu no real. No entanto, foi capaz de ser igual com todos os seus da sua classe e do seu povo. Disciplinada para os estudos, disciplina que aprendeu do trabalho da mãe e dos horários de trabalho dos irmãos mais velhos. Entendida no campo, que percorreu metro a metro nas propriedades da família. Romances, nenhum, pelo medo aos homens que podiam ser como o pai, o como o cunhado; passar a ser mais outra pessoa feminina na vida de eles. A história oral Picunche coloca a mulher em segundo lugar e com o papel social de, apenas, ter filhos para criar, lavar, alimentar, tratar do pai deles. Victoria foi capaz de guardar a afectividade para todos, sem ninguém em particular, que se soubesse. Victoria é resultado do seu tempo. Um tempo conturbado no nível global, calmo no nível local, definido no nível íntimo. Solitário, não emocional. Não emocional pessoal. Porque há o costume de namorar, pololear como aí é dito. Victoria estudava. O estudo a retirava do conjunto de assuntos de que não queria ouvir falar. A rapariga que eu conheci, era amável, é amável; era atenciosa, é atenciosa; era boa para comer, é boa para comer. Era divertida, e é. A rir, a festejar, a gostar de ir aos rodeos ou festas onde os homens correm à cavalo, para empurrar os animais novos, faze-los suar, deitar fora o pelo da pele nova, ficarem mais mansos, mais domesticados pela subjugação aos homens. Assunto já não tão divertido e, no entanto, parte da festa do rodeo. Pelo qual, via, ouvia e calava, a sofrer pelo animal. Mas, a festejar aos que corriam. Uma corrida masculina, que achou sempre injusta. Porque o masculino e o feminino não era igual? Porque as mulheres tinham que se subordinar aos homens? Sempre? E teorizava como José e Jesus eram subordinados á Nossa Senhora. O mito hispânico estava aí a funcionar. O mito Picunche só coloca a mulher shamã, essa que sabe mais, por cima das outras pessoas. O resto do mulherio, era sempre inferior. O tempo de Victoria, é esses anos setenta, oitenta, noventa, anos que masculino e feminino trabalhavam igualmente, com ordenados que permitiam a independência de eles todos. Anos que acrescentavam trabalho na mulher. Público e doméstico Em consequência, a possibilidade de uma proximidade emotiva simples, de transferência amorosa, fraterna, leal não estava facilitada. Aos vinte e cinco anos, já a mulher era casada ou com filhos. Ou tinha uma profissão. Nos seus vinte e cinco, ela guarda o tempo para a sua profissão e trabalho. Da pequena reguila a correr pelas ruas, passa a ser a mulher noiva que todos consultam e respeitam, confiam os seus pequenos caso for preciso, e comentam os seus assuntos que ela ouve com a sabedoria que o quotidiano lhe dá. Quinhentos anos antes, teria sido já uma mulher mãe, ao pé das outras mulheres mães do mesmo cacique o chefe de família. Quinhentos anos depois, é a católica consultada e conhecedora das casas, das pessoas e das coisas. Com os costumes Picunche perto de ela, que aceita sem perguntar e trata sem hierarquizar. No restaurante que Alexandra, ela e eu comíamos, era ela quem ia dentro da cozinha a tratar de que a minha comida fosse preparada da melhor forma possível. Na pesquisa do arquivo, em silêncio e com tempo, construiu matematicamente a genealogia que orienta a minha escrita. São assim todas as mulheres Picunche, inquilinas hoje, ou proprietárias ou tecedeiras? Diria até que a sua geração veste com modelos televisivos, penteava-se como artista, e sabiam seduzir os rapazes que gostavam. É notável ver como no sítio de três mil habitantes dispersos que é Pencahue, o passeio é ir ao largo municipal e namorar aos abraços, em público. A descendência nova, esfregasse, beija-se, fuma e namora ao mesmo tempo, sentasse nos bancos do largo, elas no colo de eles, as conversas são sobre as outras pessoas, a chegada a casa é tarde e em silêncio, ouvidos surdos ao que os pais possam dizer. É um esplendor na relva universal e público, com intimidades e abortos não permitidos pela lei, como com bebés não calculados, esses que aconteciam por falta de não saber preservar a intimide, o que obrigava aos pais a os criar, como mais um filho/a. Uma alta percentagem de raparigas, acabam como empregadas domésticas na cidade de Talca, ou vão engrossar a fila de habitantes da Capital da República, Santiago. Enquanto eles, servem de motoristas, mecânicos, empregados de supermercados. Eles e elas, procuravam o cobiçado bem da moeda, como prostitutos nocturnos na vizinha cidade, nos sítios privados que pagam os ricos, para se divertirem com jovens do seu mesmo sexo, pagos ao proprietário do local em importâncias que até para viver vários meses uma família pobre, dava. A população urbana do sítio de Pencahue, é consumidora de drogas, de álcool, de divertimentos que não permitem ao eu falar com o eu. Após falar com vários, apercebo-me que o que se procura é rapidamente dinheiro, mas pelo meio mais curto possível. Em um país que ficou sem trabalho para uma alta percentagem da população de fora dos centros urbanos interessantes para os investidores. Pencahue, essa terra Picunche, com os traços Picunche feitos europeus nos hábitos e sem meios para os materializar, oferece uma indústria de tratar madeiras, e duas na vizinha cidade de Talca: manufactura de porcinos, e uma fundição, a da família Cruz; trabalho de jornaleiro no campo, necessidade de sair a emigrações nacionais, cuidados paternos e domésticos até tarde na vida. A maior parte da população que não vive do campo, recebe salários de empregos estatais. Pencahue é o sitio que incrementa o internacionalmente Produto Geográfico Bruto anual de incremento, de 3% sustido, porque não há força de trabalho ocupada e autónoma. Contrario á doutrina espalhada nos últimos 24 anos, a plena ocupação ou o pleno emprego é baixo, os postos de trabalho escassos e os sítios para trabalhar, longínquos. Como as indústrias de processamento da madeira de Constituição, o porto marítimo do mesmo sítio, e a transferência para os sítios de trabalho, em carros ou carrinhas partilhadas. É desta forma que o país tem incrementado as riquezas dos centros urbanos centrais, é dizer, de Santiago e de cidades de lazer, como Viña del Mar. Pencahue é pobre, porque o país é pobre. Um ordenado de jornaleiro acaba por ser de mil pesos (moeda nacional) por dia, o equivalente a trezentos escudos por dia ou 2.50€. O salário mínimo mensal é de 40000 pesos (3.000$Escs,ou 400 € ), sem imposições. As famílias precisam habitar sob o mesmo teto para compartir o que se ganha, porque a política de preços é cara. Um quilo de pão, três ou quatro unidades, é de quase 500 pesos. Eis que a população vive de chá e pão, ou sopa de abóbora, a penca que da o nome a Pencahue. Um lugar de trabalhadores manuais, obrigatoriamente formados na escola e no secundário até a idade de 15 anos. Escolas dependentes das municipalidades, concelhos que podem conceder bolsa, caso os membros do Ministério da Educação assim o estimarem conveniente.

O alegar de que nos é que amamos, é uma ironia minha, retirada da realidade de um país que dava emprego no exército a maior parte da população, e aos que não dava, expulsava, obrigava a sair do país, fazia desaparecer, matava em crimes aparentes a serem culpados vizinhos inocentes. O que antigamente foi a saída para muitos homens, o exército, é hoje obrigatório para homens e mulheres. Muitos dos quais têm sido a guarda pessoal de famílias determinadas, como essa que se apropriara do vale de Pencahue, da antiga Hacienda Quepo e Los Almendros e Lo Figueroa. Terras todas entregadas a familiares do proprietário do Chile por 24 anos já. O exército conta com 300.000 mil efectivos, dentro de uma população de 12 milhões de habitantes no País, com 60% de menores de 18 anos. Uma população nova, sem futuro. Muitos dos quais efectivos, habitam na área de Talca, Regimento de triste memória por ter servido de prisão a um alto número de pessoas. Regimento que bem conheço por dentro, na altura que fui de visita ao Chile nos anos setenta e que reparei de que o dito Regimento não tinha espaço suficiente para tanto recruta, hoje em dia profissionais das forças armadas. Antigo caminho da saída da família, é hoje outra vez o trabalho melhor remunerado nas redondezas. Por haver campanha de guerra permanente contra todo inimigo, é dizer, todo o que pense diferente ao sistema central político. E nunca se sabe quem pensa de uma maneira e quem de outra: o ordenado é quem manda. Ainda, hoje, enquanto escrevo estas linhas. O amor é resultado da política económica. A pesar que em Antropologia exista um debate sobre o assunto e se pense que não há relação entre economia e afectividade. Como o debate Dalton (1971), Polanyi (1957), e, recentemente, Humphrey e Hugh-Jones (1992), que debatem mais para sítios nativos, como se em esses sítios nativos não houver também um capital que manda. Como é demonstrado pelas guerras africanas de hoje - a Guinea-Bissau, por exemplo, o Zaire, por exemplo, o Peru, por exemplo, a Indonésia, por exemplo, a Ruanda, por exemplo; ou Iraque, a Macedónia, o Kosovo, outros. Ainda que quem é hoje, guarda os valores da memória social dos ancestrais, como já tenho debatido, mais têm elementos novos que vêm a transformar essas memórias que, embora guardadas, ficam para um momento de melhor estabilidade. Não vi em Pencahue lar nenhum que fosse calmo no seu interior. Menos as pessoas do campo. Porque a concorrência é grande, é ilegítima, é como a define Henry de Montchrestien (1616), que no século XVII, já advertia no seu Traitée d’ Economie Politique, de que o capital era para lutarem as pessoas umas contra as outras, os irmãos matarem os irmãos, os amigos, aos amigos. É verdade que tenho escolhido Victoria como elo, porque na sua família há zangas e magoas que não são provenientes só dos problemas emotivos. Dissem já no Capítulo 2, de que Clodomiro o pai, chegava a casa só com bebedeira e sem dinheiro. Que foi o que finalmente levou a mãe a deita-lo fora de casa. A economia acabava por descansar em ela e em Rebeca a irmã mais velha. Que também expulsa ao homem a causa do dinheiro compartido Dom outra E o seu primo Carcamo, o Presidente do Concelho ou Alcalde, dá-lhe trabalho como secretaria. E é entre mulheres que a casa anda. E é entre mulheres que os afectos andam. Para um País em transição violenta, que nunca se sabe se haverá mais uma vez perturbações, ou si a aparente calma vai continuar. Calma aparente, porque tenho visto todo lar a trabalhar em quanto emprego possível aparece. Sim, nós é que amamos, mas assim. Sim, é o que sou, mas assim. Eis que Victoria escolhe o seu caminho, deixa o lar, estuda, trabalha, mora fora da casa doméstica. Como a maior parte do povo faz. Como tinha visto antes em sítios de bairros de lata, trinta e três anos antes. Como não me deixaram ver no dia que fui oficialmente convidado de volta ao Chile e queriam-me levar pela estrada de circunvalação da capital para eu não ver a pobreza da cidade. E tive sempre alguém que tomara conta das minhas conferências, para não falar do que puder ser pouco conveniente ao sistema. O que não quis ouvir. Como não oiço agora que escrevo o que sou, e persisto em escrever o que sou. A risco de campo de concentração outra vez. Esse que Victoria nunca viu e do qual eu nunca falei. Como foi na Galiza antiga e que deixou marcas que sararam. Como as do Chile, que um dia talvez, venham melhorar. Como aos poucos, melhoram. Com as Victorias que sabem comportar-se, porque viveram um sistema durante estes vinte e cinco anos. Uma Victoria que, como tantos outros, prefere ignorar para viver em paz. Porque o que eles são, são dignos de saber ignorar, de não ouvir, de não ver, de calar. De ver, ouvir e calar. Como na Galiza necessariamente já não é. Foi. Mas foi esquecido. No Chile, é ignorado. Entre os Picunche, é outro tipo de assuntos mais pessoais o que os envolve, e nos quais se deixam envolver localmente para se afastar da sociedade global, que ainda não mudou como se quer e se luta para mudar como mudara, tão rapidamente, a Galiza que é. Orientada pela sociedade global. Ideias as quais passo a debater.
publicado por Carlos Loures às 15:00
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Investir para exportar - falta o "para" a Sócrates.

Luis Moreira

O primeiro ministro descobriu agora que é preciso investir "e" exportar.

Exportar, num país que nunca teve um superavite na balança comercial, é tão óbvio que nem sequer vale a pena perder tempo a explicar as razões. Todos dizem o mesmo há muitos anos que a economia devia focar-se na produção de bens e serviços transaccionáveis e não no mercado interno como fazem a maioria das grandes empresas portuguesas.

Para exportar é preciso ser competitivo, inovador, com capacidade de lutar em mercados abertos de igual para igual com empresas de outras nacionalidades. Para isso, é preciso investir, em novas máquinas, na inovação, no estudo de mercados, na procura das melhores matérias primas, na formação do pessoal...

Acontece que cá na terra o investimento é feito nas autoestradas e em grandes obras públicas para alimentar as grandes empresas e os bancos. Em ciclos de mais ou menos dez anos aí temos nós as obras públicas, como durante muito tempo este governante tentou, contra todo o bom senso, levar ao ponto de não retorno o TGV, e o Novo Aeroporto. Felizmente que não há dinheiro senão teríamos aí mais umas Parcerias Públicas Privadas que ninguem sabe como se vão pagar a partir de 2013, e que representam já entre 1 e 2% do PIB. Se lhe juntarmos os juros da dívida uma parte importante da riqueza criada, no futuro, já está "entregue aos bichos".

É, pois, estranho que aquele "para" não tenha sido utilizado na expressão de Sócrates, esta falta dá-se a muito más interpretações...
publicado por Luis Moreira às 13:30
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Os professores são joguetes nas mãos do ME e dos Sindicatos...





Luis Moreira

Maria Nazaré Oliveira, Professora do Ensino Secundário, diz algumas evidências que muitos não querem ver a par de muitas ideias feitas que afloram sempre no discurso dos professores.

"Desde a anterior Ministra da Educação, apesar de compreender algumas das suas medidas, tudo acabou por ser imposto!Sem diálogo.Quer do ME quer dos sindicatos.Falou-se do que não se sabia ou do que se sabia pouco. Legislou-se despoticamente." Os Sindicatos não são poupados, como é óbvio.

Antes disto vem o habitual, onde há muito a ideia de que os professores são as vítimas do regime, muito cansados, estoirados, asfixiados, desanimados...mais ou menos o que me diz a minha mulher a dias e todos os que têm que trabalhar todos os dias. Cheios de trabalho e de papéis, que têm que ler, regulamentos a esmo, nunca se viu tanta reunião e tanta papelada, tantas directrizes do Ministério e tantas orientações institucionais.

Há uma resposta como há muito defendo e que muitos professores defendem: a autonomia da escola! Lutem por uma escola autónoma, retirem a escola das garras dos burocratas do Ministério e dos burocratas dos Sindicatos. Quer uns quer outros precisam, uns dos outros, e da escola para terem a importância que têm.

"O Ministério e os Sindicatos foram irredutíveis nas suas posições e os professores foram uns joguetes nas suas mãos. Concordo com uma avaliação mais rigorosa e há muito que a aguardava, mas o modelo foi o melhor?"

Há muito que defendo o que aqui está escrito, parece que no país há medo de falar na escola autónoma, mas ela fará o seu caminho, apesar dos que acham que é com a carreira, as progressões automáticas e chegarem todos ao topo, que ganham à credibilidade e o respeito do país.

Cada vez mais há professores a perceberem que não passam de joguetes nas mãos de burocratas, que os afastam da população, que lhes cravam nas costas o corporativismo dos mesmos de sempre, os que querem o igualitarismo, não querem ser avaliados, não querem ser pagos segundo o mérito.

Os melhores saem prejudicados , os que ficam sentados à espera da promoção são os que fazem o barulho, e os resultados são a miséria que são.
publicado por Luis Moreira às 13:30
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Os poetas: ladrões de fogo ou artífices do verbo?

Carlos Loures

Definir a natureza da arte poética, é, como poderemos ver no apreciável painel que vamos expor na nossa “maratona poética”, uma discussão tão antiga quanto a civilização. Platão, Aristóteles, Horácio, Boileau, milhares de filósofos e de poetas discorreram sabiamente sobre este tema. Teremos oportunidade de, nas 24 horas do dia 8 de Setembro, ler 72 textos – poemas, textos poéticos, citações… Uma ampla panorâmica sobre esse tema tão discutido ao longo dos séculos.

“Ladrões de fogo” foi uma designação que usei num texto que publiquei na revista “Pirâmide” , da qual já aqui tenho falado. Nesse texto comparo os poetas a Prometeu. O poeta é um ladrão de fogo, um mago. Pelo poder da palavra cria a beleza para a ofertar aos homens. A comparação faz sentido, é sugestiva, mas talvez haja outra, menos bela, mas não menos verdadeira. Vejamos.

O poeta produz esta magia usando palavras comuns e não palavras mágicas. Esta capacidade de, com palavras usadas no dia a dia, construir um poema, pode conduzir-nos à tal conclusão, complementar da primeira – além de mago, o poeta é um artífice.

A comparação com Prometeu trazendo o fogo do Olimpo para a terra ou, como também já li algures, com Orfeu enfeitiçando a natureza, homens, animais e plantas, com o seu canto melodioso, é muito bonita. Mas equipará-lo a um trabalhador leva-nos a uma imagem , menos “poética” no sentido convencional, mas mais integradora da arte poética no quotidiano.: -o poeta é um artífice. A expressão «artes e ofícios» tem aqui pleno cabimento - o poeta é, portanto, um homem comum, um artista como um sapateiro ou um alfaiate o são. Em vez de cabedal ou de tecido, usa palavras, sentimentos e conceitos como matéria prima. Ofício: poeta. Daria lugar a conversas como esta: - "Ah, sim o Jorge. Olha, foi colocado como poeta na Covilhã".

 Na verdade e humor aparte, a divinização do poeta, isola-o e condena-o ao ostracismo. Ora um poeta, um escritor, um artista deveria ter uma função na sociedade. Como teve. Bem sei que na Pré-História não havia televisão, nem blogues, mas quem, nas sociedades primitivas dispensaria que à noite, acabadas as tarefas diárias, se contassem histórias? Podemos puxar pela imaginação: o fulgor das labaredas das fogueiras cria sombras sinistras nas paredes da caverna. O poeta, o contador de histórias descreve as peripécias da caçada, as crianças aconchegam-se temerosas às mães e as passagens mais excitantes da narrativa são sublinhadas com gritos de medo ou com um rumor de assentimento. Esse contador de histórias, o aedo da Grécia, bardos, jograis, trovadores, tiveram a mesma tarefa de um poeta, ou de um escritor dos nossos dias – efabular a realidade e devolvê-la, valorizada pelo verbo, aos seus protagonistas - os homens comuns.

Vejo, com algum desgosto, persistir um conceito de poesia que nada tem a ver com essa função social, identificando-a com coisas etéreas, devaneios, ideias imprecisas. Ora (e foi isso que tentei dizer com os meus textos anteriores), na minha maneira de ver a poesia nada tem a ver com essa indefinição. Ela  é, tal como o sonho na “Pedra Filosofal” como diz o Gedeão . "uma constante da vida, tão concreta e definida como outra coisa qualquer” e o poeta, um trabalhador tão necessário como todos os outros. Claro, há grande poesia intimista, que ao dar-nos conta da dor, da angústia do indivíduo que a confessa, nos torna conscientes das nossas próprias dores e angústias. Não estou a querer reduzir o território da poesia.


Não foi por acaso que escolhemos para o arranque da "Maratona Poética" o poema de Fernando Pessoa,
vestindo o seu heterónimo de Bernardo Soares, Autopsicografia. aquele que diz: "O poeta é um fingidor/
Finge tão completamente/Que chega a fingir que é dor/A dor que deveras sente... Todos conhecemos esta primeira quadra. Mas há mais duas e, quanto a mim, é na segunda que se encontra a receita poética pessoana: "E os que lêem o que escreve,/Na dor lida sentem bem,/Não as duas que ele teve,/Mas só a que eles não têm."

 Ao fingir as dores que realmente sente o poeta torna quem o lê consciente das dores da Humanidade.
publicado por Carlos Loures às 12:00
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A Maria - A Maria nunca mais apareceu

Adão Cruz

Os olhos, vindos do outro lado do mundo, fundos de ausência, casavam o branco e o negro para dizerem o que a boca não conseguia. O nariz afilava de um só traço o rosto magro, e os cabelos errantes fugiam da testa, cada pedaço para seu lado. A pele transluzia uma imagem por detrás dos vidros, imagem baça do avesso da vida.

Uma dor subtil desenhava os lábios maduros, finamente trémulos, como se estivessem prestes a chorar. Nunca alguma lágrima por eles correu ou voou algum beijo. Apenas o cigarro acendia e consumia a sua virgindade.

A Maria olhava-me sempre fixamente, olhos cravados nos meus como que a dizer: - tu entendes-me, tu és capaz de me compreender -. Ela percebia o sim do meu silêncio por baixo dos olhos vencidos.

Conheci duas mulheres iguais à Maria, fotocópias da Maria, ambas se chamavam Maria, uma brasileira e outra francesa, uma pisava o teatro, outra o anfiteatro. Inquilina de soleiras e vãos, a Maria pisava a grande cidade da noite.

As mulheres da fama e da ciência derivavam a vida por entre a lanugem dos cardos e a tangência do sentimento. A mulher da vida era vertical e secante como folha de piteira. A Maria mijona não tinha idade nem tempo, nem antes nem depois, era apenas instante.

Nunca se sentara na mesa do canto fugindo de si mesma. Escolhia sempre a mesa central, desafiando os olhares, vidrando o espaço em seu redor. Comia a sopa, o prato de sempre, como quem tocava violino. Apesar da mão trémula nem um pingo deixava cair no desbotado regaço, sumido de cores pelo uso e abuso. Se moedas cresciam da sopa não dispensava o brande, sua única bebida.

Por detrás do corpo sujo de Maria mordiscava uma beleza intrigante. Tivesse ela banheira e emergiria da espuma, como sereia das águas. Penso que nunca vi a Maria fora deste retrato, para cá da sombra. Por outro lado, tenho a certeza de que já dormi com ela...ou terá sido um sonho?

A Maria nunca mais apareceu. A última vez que a vi não tinha olhos nem boca nem cigarro. Não tinha sopa nem brande, apenas falta de ar. Engolira o violino e a música era uma dispneia sibilante, cântico fúnebre gemido pelas entranhas.

Toquei-lhe no ombro e ela percebeu que eu queria levá-la. Levantou a ponta de um sorriso e esboçou um gesto negativo com a mão. Afastei-me com a sensação de que tinha profanado um sacrário.

A Maria nunca mais apareceu.
publicado por Carlos Loures às 11:00
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Novas Viagens na Minha Terra


Manuela Degerine

Capítulo XCIV

Vigésima terceira etapa: A mulher que vê passar os comboios

Este albergue dispõe de uma máquina de lavar porém, para um par de calças, duas peúgas e duas camisolas, no máximo, não vale a pena utilizá-la. Demoro muito tempo a tentar desodorizar tudo com detergente e água abundantes – sem sucesso; lavo apenas a que vestirei amanhã, perdidas as ilusões quanto à secagem. Quando desisto de eliminar o odor, que não chega a ser mau cheiro, sem todavia nada ter de agradável, penduro a roupa no estendal da varanda.
A um metro de distância passa, muito devagar, um comboio. No primeiro instante acho bonito contudo logo me imagino pintada num cenário com comboios eléctricos: uma mulher estende roupa, pára para ver o comboio, como se fosse verdadeiro, ficando a repetir a mesma observação cada vez que a máquina passa.
Uma situação intolerável ao fim de meia hora; e o leitor não ignora que um cenário de comboios eléctricos dura decénios, em parte, certo, dentro da caixa – peripécia também pouco animada. Tanta monotonia pode dar dois resultados: a personagem consegue escapar-se ficando um espaço vazio no cenário, não apenas a silhueta (muitos associá-la-iam ao pintor Matisse, que soube transformar a ocorrência em estilo) mas, quase sempre, zonas mais irregulares – por esta razão aparecem nos quadros e tapeçarias grandes buracos, que aceleram a degradação da obra, um fenómeno que os melhores restauradores conhecem, apesar de nenhum se arriscar a declará-lo, preferindo sempre falar da traça ou da humidade; se não consegue sair sozinha, a personagem interpela o criador, como todos sabemos, exigindo mudança de estatuto, uma estratégia frequente embora, na maior parte dos casos, sem grandes resultados. Contudo, uma ou outra vez, todos encontrámos, na vida real, criaturas saídas de romances. (Ainda ontem conversei com a secretária humilde da Isabel Barreno... É directora de programas na rádio.) Ouvimos uma frase, que reconhecemos, fitamos a criatura... Parece uma personagem do Eça de Queirós. Pois parece e, sem dúvida, é mesmo: alguma que, por qualquer razão, entrou na realidade um século mais tarde. A ciência não sabe inteiramente explicar o funcionamento do cérebro humano e, muito menos, as passagens, tão complexas, entre a ficção e a realidade.
O pintor surge com cara de poucos amigos porém a mulher não se deixa intimidar. Que ao menos o comboio seja verdadeiro, ela também, poderá ver os passageiros, quem são, o que fazem, talvez capte um olhar, talvez algum passageiro volte a passar, talvez uma greve imobilize o comboio em frente da varanda... Mas o melhor é tirá-la dali, já basta de estender roupa, saturada de estereótipos até à ponta dos dedos, com menos conformismo pudera pintar um homem naquela varanda, mas avante, não se encontraram para falar de pintura, da condição feminina tão-pouco, se o destino dela são os comboios, então antes na bilheteira, o contacto directo, olhos nos olhos, por...
O pintor interrompe-lhe a frase objectando que, com aquela insubmissão, que ele ignora de onde vem, ter-se-ão as tintas alterado, descambou a obra para além do projecto, se a põe numa estação verdadeira, por exemplo, em Caxarias, ela acha monótono, acaba por se ir embora, ficam os passageiros, gente verdadeira, sem comprar bilhete, resultando um prejuízo para a CP – que até pode exigir indemnização.
A mulher encara-o perplexa. Que ideia esquisita: a estação de Caxarias?! Por que não a do Rossio?
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publicado por Carlos Loures às 10:00
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Canta Galiza!

Hoje, em "Canta Galiza", começamos com o cantor e compositor Suso Vaamonde em Terra . Apresentamos depois a nossa já conhecida  e excelente cantora uruguaia de origem galega, Cristina Fernandez, numa vibrante e patriótica canção - "En pé!".  Terminamos por hoje com a Banda de Gaitas em Homenaxe a Xosé Manuel Seivane


publicado por Carlos Loures às 09:00
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Ilhas de bruma

Eva Cruz



Malas no cais
bom tempo no canal
o Pico envolto
num xaile de nuvens brancas.
O baleeiro espreita o boi do mar
a saudar a terra negra.
Vinhedos de currais
e o mar a beijar
as rugas da lava.
O sol esgueira-se
por chaminés e crateras de vulcões
a descansar em lagoas
de verde e azul.
Hortênsias abraçadas
às rocas de velha
e o mar
enlaçando os montes
em namoro eterno.
Impérios de crenças
erguidos ao mistério
Espírito Santo do medo
que passou
ou há-de vir.
Festas do bravo e da chamarrita.
Sabores a queijo
de vacas mansas
sopa de alcatra
massa sovada
e o arroz doce apetecido.
Vinho verdelho ou de cheiro
angélica e licor de amora
de terras do dragoeiro.
Furnas e fumarolas
borbulham para o ar
raiva da terra
por não ser mar.
Malas no cais
embarque e desembarque
num vaivém de espuma
nostalgia das ilhas de bruma.
publicado por Carlos Loures às 08:00
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O Terreiro da Lusofonia todos os dias à 1:30 a partir de 1 de Setembro

A partir de 1 de de Setembro, começaremos a inserir neste horário (1:30) o Terreiro da Lusofonia, numa ordem diferente da que foi seguida na primeira apresentação - trata-se de posts que podem ter passado despercebidos e aos quais queremos dar o protagonismo que merecem. Todos os países onde se fala a nossa língua, serão visitados nesta rubrica.


publicado por Carlos Loures às 01:30
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Nos US - a minoria branca!

Glenn Beck e Sara Palin foram brandos nos discursos que proferiram no mesmo local onde há 47 anos Martin Luther King proferiu o seu célebre discurso: I have a dream!

Sem nunca se referirem a Obama, quiseram que fosse um discurso "apolítico", ultraconservador " a minoria branca deve reclamar os seus próprios direitos", "Hoje é o dia em que a América regressa a Deus" e Sara Palin " sou mãe de um veterano da guerra", " não devemos mudar a América na sua essência como alguns querem", Temos de restaurar a América e a sua honra".

Uma sobrinha de Martin Luther King afirmou "Eu tenho um sonho de que a América vai rezar e Deus nos vai perdoar pelos nossos pecados", gritou a activista anti- aborto Eveda King.

O Tea Party, o movimento que quer menos impostos e que começou a fortalecer-se contra a reforma na saúde de Obama, ameaça derrubar nas intercalares Republicanos que são considerados demasiados centristas. Os brancos são uma minoria que deve reclamar os seus próprios direitos, um desencanto comum em alturas de crise económica. E lá como cá o emprego não arranca.

A mensagem circulava : recessão: quando o teu vizinho perde o trabalho; Depressão: quando perdes o teu trabalho; Recuperação: quando Obama perde o seu trabalho.
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publicado por Luis Moreira às 01:03
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Domingo, 29 de Agosto de 2010

Carta ao meu camarada Fernando Pereira Marques

António Gomes Marques


Meu Caro Fernando Pereira Marques

A análise que fizeste publicar no nosso «Estrolabio» já a tinha lido no Diário de Notícias e, de imediato, apeteceu-me responder-te no blogue; depois, pensei em fazer um comentário, para o que o Carlos Loures também me desafiou. Agora, vou espraiar-me, na esperança de dizer alguma coisa de útil, numa tentativa de me libertar de algumas tensões e/ou preocupações.

Conheces o aparelho do nosso Partido –o PS- melhor do que eu. Foste dirigente, foste Deputado, coisas que, como sabes, nunca fizeram parte do meu horizonte; aceitei, por pressão tua, ser apenas membro da Assembleia-Geral da Secção Cultural da FAUL (há quantos anos isso já foi!). Lembro as muitas conversas que tivemos sobre o País e sobre o Partido, lembro algumas das coisas com que sonhávamos, embora com o cepticismo dos que, às vezes, pensam de mais. Lembro as visitas que te fiz na Assembleia da República, àquele gabinete de trabalho partilhado que ali tinhas, com péssimas condições de trabalho, e lembro, sobretudo, o deputado trabalhador incansável que sempre foste. Como serão hoje as condições de trabalho na Assembleia da República não faço a mínima ideia, pois há anos que ali não ponho os pés, mesmo que as actividades culturais que ali têm acontecido me levem a pensar que é chegado o momento de lá voltar para a elas assistir. Como eu compreendo os «Vencidos da Vida», sem que com isto me queira comparar em craveira intelectual aos que, no século XIX, assim se intitularam. Mas, na verdade, eu não quero ser um «vencido da vida».

Desde que, como um dos «70 de Coimbra», aderi ao PS, por «culpa» do Jorge Sampaio, sempre tenho feito parte dos que se intitulam como sendo da esquerda do PS, organizados primeiro no «Margem Esquerda» e agora na «Esquerda Socialista». Claro que os «70 de Coimbra» hoje se encontram dispersos, chegando um a Ministro do actual Governo e que já o havia sido de um dos Governos do António Guterres.

Como subscrevo sem reservas a tua análise, vou procurar não te repetir.

A «Esquerda Socialista», como sabes, apresentou uma moção política de orientação nacional no «XVI Congresso do Partido Socialista», que intitulou «Mudar para Mudar – Mudar o PS. Para Mudar Portugal», cujas razões, como ali se diz, se podem resumir em:

Queremos mudar. Podemos mudar.

Mudar de atitude, de valores e também de comportamentos.

Mudar a vida política e partidária.

Mudar de modelo de desenvolvimento.

Mudar o padrão de repartição da riqueza.

Nós queremos, nós podemos, mas sabemos que a mudança só é possível com as pessoas.

Como já vai sendo habitual, a larga maioria dos que vão ainda votar nos actos eleitorais internos do PS nem sequer a Moção do Secretário-Geral leram, a decisão já antes de ela ser apresentada era de nela votar, independentemente do seu conteúdo (terá sido por saber disto que a comissão que a redigiu fez um trabalho tão medíocre?).

Num dos jantares que a Esquerda Socialista teve em Lisboa, em Março/Abril deste ano, enquanto eu tecia algumas críticas ao Governo, um camarada houve que me foi interrompendo com os seus apartes: «Mas, Gomes Marques, o que é que vamos fazer?», sendo a resposta, mesmo agora, de uma enorme simplicidade: - proceder de acordo com aquela Moção!

Foi em nome dos valores em que acreditamos que assinámos a Moção, é em nome desses valores que temos de continuar a tudo fazer para a tornar uma realidade. Seria, se o PS a tivesse abraçado com convicção, a reposição da cultura democrática e o pôr em prática uma concepção de política no plano ético de que tu falas, seria a reposição dos valores a que os socialistas, se o são, deveriam submeter todas as suas acções. Só a parte relativa à cultura é que está em profundo desacordo com o que havia sido proposto por mim e outros; não pude estar presente na reunião final que aprovou o texto da Moção e não pude, portanto, opor-me a tal alteração. Lamento também por ser a parte mais fraca do texto final.

Lamento também é que haja quem se tenha vindo a enquadrar no «Margem Esquerda» e na «Esquerda Socialista», que tenha inclusive participado na redacção da Moção e que, no final, não a tenha assinado, naturalmente para não perder o lugar de deputado. Muitos camaradas houve que enalteceram em conversa com alguns de nós o conteúdo da Moção, mas logo acrescentavam para não lhes pedirmos para a assinarem. Como podem estas pessoas dizer-se socialistas? Penso que calcularás quem são, mas não vou aqui referir os seus nomes, como é evidente.

Como tu dizes e bem, é o aparelho do PS que domina e os valores socialistas de que falamos são o que menos o preocupa. Sou, ao que parece, um dos poucos membros do PS que, quando na imprensa portuguesa se dá uma imagem dos militantes do PS como cordeirinhos às ordens do chefe, se sente profundamente incomodado; sou, ao que parece um dos poucos, que se sentiu muito molestado com a imagem que do PS deu o Deputado Ricardo Rodrigues. Como me senti e sinto envergonhado com o emergir daquela figura que dá pelo nome de Rui Pedro Soares, que parecia querer demonstrar ser mais «Zé Socratista» do que o próprio José Sócrates (não posso dizer socrático pois não quero ofender a memória do filósofo grego), única vantagem que pudemos tirar da Comissão Parlamentar que o revelou. Tivessem os gestores nomeados pelo Estado de demonstrar a sua competência previamente perante uma Comissão Parlamentar, e este «menino» nunca teria ocupado lugar tão importante numa empresa de referência como é a PT.

Em praticamente todas as reuniões em que tenho marcado presença, chamo a atenção para os 3 itens que considero fundamentais para o desenvolvimento de qualquer país: Educação, Ciência/Tecnologia e Cultura. Até mesmo na Esquerda Socialista de tudo se tem falado, mas quando alguém se refere à Cultura quase todo o mundo finge não ouvir, de tal maneira se mostram avessos. De que terão medo, os nossos caros camaradas? Que o desenvolvimento cultural de Portugal os possa impedir de conseguir cumprir o que pensam ser o seu destino de um dia também fazerem parte da classe governante? Não quero ser injusto, mas alguns que de nós se afastaram já o conseguiram.

Será que pensam que um país culturalmente desenvolvido permitiria a bandalheira que se vive na Assembleia da República, de que a Comissão de Ética é o mais perfeito exemplo?

Aproximam-se eleições legislativas, provavelmente logo que possíveis após as eleições presidenciais. É minha convicção que o PS as ganhará sem dificuldade se conseguir substituir José Sócrates por alguém credível; mesmo com o actual Primeiro-Ministro candidato, tal vitória também será possível embora mais difícil, sobretudo depois da proposta de revisão constitucional de Paulo Teixeira Pinto, apresentada por Passos Coelho. Curiosamente, esta proposta veio permitir que José Sócrates se apresente como o paladino do estado social que ele, lentamente, tem vindo a destruir.

Para que não se pense que considero José Sócrates como o grande responsável da situação que vivemos, quero dizer que tal responsabilidade, em minha opinião, deve começar a procurar-se a partir dos Governos de Cavaco Silva, períodos esses em que Portugal desfrutou das melhores condições de sempre para encetar um talvez irreversível caminhar na senda do progresso, não sendo menos verdade que os Governos que se seguiram nada fizeram para inverter as opções que se foram tomando e que foram sempre agravando a situação do país, lançando-nos na situação que agora vivemos, agravamento esse que a crise internacional aprofundou. Um dia, espero, se fará a história dos malefícios dos Governos Cavaco Silva.

As riquezas produzidas pelas forças do trabalho não foram parar às mãos dos que as produziram, mas aproveitaram sobretudo aos que vivem da agiotagem nas Bolsas. O susto recente parece não ter servido de emenda, pois aí estão de novo os agiotas habituais a dominar e a enriquecer cada vez mais, cavando-se um fosso cada vez maior entre os povos, os ricos cada vez mais ricos, os pobres cada vez mais pobres e sem perspectivas de uma vida melhor, sendo Portugal um dos países onde esse fosso mais se acentuou. Quando nós próprios, os que querem uma sociedade mais justa, nos esquecemos que quando também queremos a acumulação de mais riquezas estamos a ser coniventes com o sistema que governa o mundo e que isso nada contribui para a renovação da política que tanto dizemos e escrevemos querer. A economia de mercado, que os Partidos Socialistas dizem defender, tem contribuído para o crescimento desmesurado do individualismo. A solidariedade de que continuam a falar os que gostariam de viver numa sociedade sem exploração capitalista está a ser diariamente assassinada por esse individualismo. Vivemos num mercado em roda livre e as consequências são as mais lógicas: a destruição do Homem e da Natureza!

Voltando ao nosso país e ao momento actual, julgam agora alguns que chegou a hora de Passos Coelho. Enchem-se da esperança de ser chegada também a hora de serem eles a ocupar os lugares cuja nomeação cabe ao Governo em exercício, mas, como acima refiro, talvez se estejam a mostrar apressados de mais. Passos Coelho tem um objectivo, um único: a ocupação da cadeira de S. Bento (sim, pois o verdadeiro poder tem sede na Presidência de alguns –poucos- Conselhos de Administração, particularmente em um deles). Passos Coelho começou por se mostrar inteligente, mas a pressa está a matá-lo, como é uso dizer-se.

Voltemos à cultura. Um país culturalmente idóneo, e penso que concordarás comigo, seria capaz de criar condições para que os jovens com mais competências não tivessem de emigrar, e dizendo isto estamos também a falar de emprego.

Ora, no que ao emprego toca, há para mim uma mudança de paradigma: os empregos que se perdem, aos milhares, exigem baixas qualificações; os empregos que se criam, em número significativamente inferior, exigem muito maiores qualificações e, como é sabido, as nossas escolas não estão a preparar os jovens para estes desafios, não só pela qualidade do ensino que ministram, mas também pelo divórcio existente entre a escola e o mundo empresarial, apesar do trabalho de alta qualidade que se tem feito no desenvolvimento das novas tecnologias e que nos deu técnicos de excelência. Infelizmente mas também naturalmente, a criação de empregos que este desenvolvimento tem permitido não é em número suficiente para a diminuição significativa do desemprego.

Deveria ser uma prioridade de qualquer Governo tentar dar outras competências aos que têm baixas qualificações, preparando-os para uma outra resposta ao mercado de trabalho. E não vale a pena falar do projecto «Novas Oportunidades»; as poucas excepções de real sucesso para as pessoas e para o país são tão escassas que nem devem contar para as estatísticas.

«É imperioso reafirmar o princípio da responsabilidade do Estado pela educação pública, encarada como um dos vectores estruturantes do desenvolvimento social, como um dos espaços centrais da qualificação e da civilização dos seres humanos, como um insubstituível gerador de cidadania e de humanidade», diz-se na referida Moção. Lembro ainda, no capítulo da Educação, o que também se escreveu: «A política educacional deve desenvolver-se com base num conjunto bem determinado de vectores que a estruturem e é importante destacar um dos mais relevantes: o envolvimento dos professores na prossecução dos objectivos e na dinâmica de implantação dessa política. Esse envolvimento e a dignificação da profissão docente em todos os seus aspectos são condição sine qua non do êxito de qualquer política educativa. Êxito que também depende da clarividência dos seus impulsionadores políticos, quanto aos bloqueamentos que a tolhem e aos desafios que enfrenta».

Pergunto: da tentativa de reforma da Educação dos Governos de José Sócrates, o que ficou? Temo que o muito pouco de positivo realizado por Maria de Lurdes Rodrigues já tenha sido destruído pela actual Ministra, não devendo nós esquecer que o Primeiro-Ministro é o mesmo, embora seja difícil de aceitar perante a contradição. Quanto à reforma, basta-nos atentar na actual agitação dos professores para tirarmos conclusões. Também esta recente medida de fechamento de escolas, com a qual até eu poderia concordar se devidamente acauteladas todas as consequências, nomeadamente no que se refere ao transporte e às necessárias alterações que a mudança provocará nas famílias, incluindo os custos, nos leva a interrogarmo-nos: toma-se tal resolução a três semanas do início da nova época escolar? Que valores socialistas são estes? Claro que a medida vai contribuir para a necessária diminuição da despesa pública, esperando eu que não tenha sido esta a única razão para a medida.

Já que falamos da diminuição da despesa, pergunto: por que razão não se acabam com uma enorme quantidade de Institutos apenas geradores de despesa e de lugares para alguns «boys»? por que razão não se acabam com algumas das muitas empresas municipais que apenas contribuíram para o aumento da despesa?

Não gostaria de me alongar muito mais, mas há outras questões fundamentais a que não posso deixar de me referir. Em primeiro lugar, a questão da Justiça, principal empecilho ao investimento estrangeiro em Portugal e a prova evidente de que não vivemos numa real democracia.

Desculparás o aparte, meu caro Fernando, mas não posso deixar de lembrar, a propósito da Justiça, um debate organizado pela Esquerda Socialista, na Fundação Cidade de Lisboa, sobre as alterações ao Código do Trabalho. Ao fazer a observação do parágrafo anterior, um dos oradores convidados respondeu-me, mais ou menos assim: «Tens razão, o Ministro é bom rapaz mas ainda não percebeu onde está metido».

O Ministro anterior, o nosso camarada Alberto Costa, é bom rapaz, mas agora temos o «herói de Coimbra em 1969», como alguns lhe chamam, a que eu costumo acrescentar que só dele me lembro pela deslocação que depois fez a Belém para pedir perdão a Américo Tomás, Ministro este que muito se tem preocupado em desfazer muito do que o anterior tinha feito e que foi apresentado pelo Governo como essencial à mudança na Justiça. Mais uma vez, curiosamente, o Primeiro-Ministro é o mesmo, mas talvez só eu encontre contradições onde, se calhar, elas não estão.

Falar hoje de Justiça em Portugal leva-nos, inevitavelmente, a falar de corrupção. Mas, mais uma vez, devo ser eu a estar enganado; em Portugal vivemos no melhor dos mundos, eu é que não o vejo. E se de corrupção se fala na comunicação, é naturalmente para encher apenas os telejornais e as páginas dos jornais. Não havendo condenados por corrupção, facilmente se concluirá que não há corrupção em Portugal. Aristóteles não concluiria melhor!

Lembro que na já citada Moção «Mudar para Mudar. Mudar o PS. Para Mudar Portugal» se refere, a dado passo: «… a necessidade urgente de se instituírem regras que reforcem a garantia objectiva de que no PS não haverá promiscuidade entre política e negócios.». No actual classe dirigente do PS, tirando os eleitos pela referida Moção, poderá alguém subscrever tal necessidade sem correr o risco de se queimar? Como eu me sentiria orgulhoso de poder responder: todos!

A grande controvérsia das obras públicas continua, especialmente à roda dos grandes projectos: TGV, Terceira Travessia do Tejo (TTT), Aeroporto de Lisboa e mais auto-estradas (não vou falar das portagens, a falta de dinheiro vai acabar com as SCUT’s). Fazerem-se ou não vai depender dos puxões de orelhas que vão dando em Bruxelas ao Primeiro-Ministro, este ou outro que venha a seguir. Ah!, mas no Poceirão algo de importante terá de ser feito! De quem serão aquelas terras? E se o TGV Lisboa-Madrid vier a concretizar-se, ninguém me tira da cabeça que será Lisboa a grande perdedora em favor da centralidade de Madrid em toda a Península Ibérica.

A terminar, meu caro Fernando, é minha convicção que se aproximam eleições legislativas. O PS vai restaurar os grupos de estudo das mais variadas matérias, vai solicitar que nos inscrevamos naqueles para que nos sintamos mais preparados, vai fingir ouvir-nos e, depois do acto eleitoral, o Secretário-Geral, se reeleito Primeiro-Ministro, vai esquecer aquele momento tão democrático de discussão aberta e voltar ao mesmo.

Não tenho razão? Estou demasiado pessimista? Que fazer?

Lisboa, 29 de Agosto de 2010
publicado por Carlos Loures às 22:30
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"António Botto no Brasil", uma série escrita por António Sales

O poeta português António Tomás Botto , nasceu em Concavada, Abrantes, no dia 17 de Agosto de 1897 e morreu no Rio de Janeiro, em16 de Março de 1959. A sua obra mais conhecida,  é a colectânea poética Canções.

Nestes poemas, Botto assume de forma clara a sua homossexualidade o que provocou grande polémica nos meios conservadres da época, dominados pela Igreja Católica. Fernado Pessoa foi seu amigo r, em 1930, traduziu para inglês os poemas de Canções.

A vida em Portugal tornou-se-lhe impossível e foi para o Brasil onde veio a morrer de atropelamento em 1959, É este último período menos conhecido do exílio de Botto em terras brasileiras que Sales nos descreve com grande rigor.

A partir de quarta-feira, dia 1 de Setembro, sempre às 22:30 - António Botto no Brasil. de António Sales.



António Sales nasceu em 1936 em Torre Vedras. Foi colaborador da «Visor», da «Imagem» e da «Vértice», escrevendo sobre cinema. Em 1956, foi um dos fundadores do Cineclube de Torres Vedras. Entre 1961 e 1964, coordenou um “Suplemento Cultural” no jornal “Badaladas”. Interessou-se também por teatro e levou à cena “O Doido e a Morte” de Raul Brandão. Durante 15 anos, publicou crónicas semanais no diário «A Capital». A suas principais obras são: Diário de Espectador de Cinema (1961), A Primeira Manhã, contos (1964), Uma longa e Estranha Pausa, seu primeiro romance (1970) , Barcelona, Cidade na Catalunha, (1972), crónicas suscitadas pelas suas deslocações à capital catalã durante as quais privou com o grande escritor Manuel de Pedrolo (1918-1990), Requiem pelos fiéis defuntos, (1976), contos inspirados nos que viveram os tempos do fascismo, Corpo Enigmático (1993), Uma Mulher no Papel (1996), seu segundo romance, António Botto, real e imaginário (1997 ), biografia do grande poeta, Os Guardadores do Tempo, (2007), um grande painel sobre a vida em Torres Vedras no princípio do século XX, e Roteiro Turístico de Torres Vedras, (2008).

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publicado por Carlos Loures às 22:00
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Boaventura de Sousa Santos no Estrolabio - Nem tudo o que luz é verde

A questão ambiental entrou finalmente no discurso público e na agenda política, o que não deixa de causar alguma surpresa aos activistas dos movimentos ecológicos, sobretudo àqueles que militam há mais tempo e se habituaram a ser apodados de utópicos e inimigos do desenvolvimento. A surpresa é tanto maior se se tiver em conta que o fenómeno não parece estar relacionado com uma intensificação extraordinária da militância ecológica. Quais, pois, as razões?

Ao longo das últimas quatro décadas, os movimentos ecológicos foram ganhando credibilidade à medida que a investigação científica foi demonstrando que muitos dos argumentos por eles invocados se traduziam em factos indesmentíveis – a perda da biodiversidade, as chuvas ácidas, o aquecimento global, as mudanças climáticas, a escassez de água, etc. – que, a prazo, poriam em causa a sustentabilidade da vida na terra. Com isto, ampliaram-se os estratos sociais sensíveis à questão ambiental e a classe política mais esclarecida ou mais oportunista (ainda que por vezes disfarçada de sociedade civil, como é o caso de Al Gore) não perdeu a oportunidade para encontrar nessa questão um novo campo de actuação e de legitimação. Assim se explica o importante relatório sobre a "conta climática" de um economista nada radical, Nicholas Stern, encomendado por um político em declínio, Tony Blair. Neste processo foram "esquecidos" muitos dos argumentos dos ambientalistas, nomeadamente aqueles que punham em causa o modelo de desenvolvimento capitalista dominante. Este "esquecimento" foi fundamental para a segunda razão do actual boom ambiental: a emergência do ecologismo empresarial, das indústrias da ecologia (não necessariamente ecológicas) e, acima de tudo, dos agrocombustíveis cujos promotores preferem designar, et pour cause, como biocombustíveis.

As reservas que os movimentos sociais (ambientalistas e outros) levantam a este último fenómeno merecem reflexão tanto mais que, tal como aconteceu antes, é bem provável que só daqui a muitos anos (tarde demais?) sejam aceites pela classe política e opinião pública. A primeira pode formular-se como uma pergunta: é de esperar que as indústrias da ecologia resolvam o problema ambiental quando é certo que a sustentabilidade económica delas depende da permanente ameaça à sustentabilidade da vida na terra? A eficiência ambiental dos agrocombustíveis é uma questão em aberto que, aliás, se agravará com a "segunda geração de agrocombustíveis" que, entre outras coisas, inclui a introdução de plantas (árvores) geneticamente modificadas. Por outro lado, a produção dos agrocombustíveis (cana do açúcar, soja e palma asiática) usa fertilizantes, polui os cursos de água e é já hoje uma das causas da desflorestação, da subida do preço da terra e da emergência de uma nova economia de plantação, neo-colonial e global. A segunda reserva está relacionada com a anterior e diz respeito ao impacto da expansão dos agrocombustíveis na produção de alimentos. No início de Setembro, o bushel de trigo (cerca de 36 litros) atingiu o preço record de 8 dólares na bolsa de mercadorias de Chicago. Más colheitas (derivadas das mudanças climáticas), o aumento da procura pela China e a Índia e a produção de agrocombustíveis foram as razões do aumento e a expectativa é de que a subida continue. O aumento do preço dos alimentos vai afectar desproporcionalmente populações empobrecidas dos países do Sul, pois gastam mais de 80% dos seus parcos rendimentos na alimentação. Ao decidir atribuir 7,3 biliões de dólares em subsídios para a produção de agrocombustíveis, os EUA produziram de imediato um aumento (que chegou a 400%) do preço do alimento básico dos Mexicanos, a tortilla. Reside aqui a terceira reserva: os agrocombustíveis podem vir a contribuir para a desigualdade entre países ricos e países pobres. Enquanto na UE a opção pelos agrocombustíveis corresponde, em parte, a preocupações ambientais, nos EUA a preocupação é com a diminuição da dependência do petróleo. Em qualquer dos casos, estamos perante mais uma forma de proteccionismo sob a forma de subsídios à agroindustria, e, como a produção doméstica não é de nenhum modo suficiente, é, de novo, nos países do Sul que se vão buscar as fontes de energia. Se nada for feito, repetir-se-á a maldição do petróleo: a pobreza das populações em países ricos em recursos energéticos.

O que há a fazer? Critérios exigentes de sustentabilidade global; democratização do acesso à terra e regularização da propriedade camponesa; subordinação do agrocombustível à segurança e à soberania alimentares; novas lógicas de consumo (se a eficiência do transporte ferroviário é 11 vezes superior à dos transportes rodoviários, porque não investir apenas no primeiro?); alternativas ao mito do desenvolvimento e numa nova solidariedade do Norte para com o Sul. Neste domínio, o governo equatoriano acaba de fazer a proposta mais inovadora: renunciar à exploração do petróleo numa vasta reserva ecológica se a comunidade internacional indemnizar o país em 50% da perda de rendimentos derivados dessa renúncia.


(Publicado na revista "Visão" em 25 de Outubro de 2007)
publicado por Carlos Loures às 21:00
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