Quinta-feira, 30 de Junho de 2011

Notas sobre o texto Cavalgada wagneriana para o abismo Júlio Marques Mota

Notas sobre o texto Cavalgada wagneriana para o abismo
Júlio Marques Mota

Um amigo meu de muito longa data, e de tão longa é que já quase nos esquecemos do seu início, escreve-me revoltado face à leitura que ele fazia do texto, A cavalgada Wagneriana para o abismo. E escreveu-me, a dizer:

“Então esse texto conclui a defender que (última página):

 

Em vez de amputar um membro gangrenado, os dirigentes europeus correm o risco de infectar todo o corpo fatalmente - enfraquecendo as posições financeiras dos membros da zona euro mais fortes e as suas economias, que estão a pagar pelo resgate e sofrerão as suas perdas quando os incumprimentos inevitavelmente aparecerem.
Isto quer dizer que os “bons” europeus deveriam expulsar a Grécia do Euro?! E a seguir logicamente …Portugal?!”

A minha resposta foi simples a este comentário, foi curta:

“Não interpretei assim o texto. Vê como é que o texto abre.”

Aos leitores de Estrolabio relembro a abertura. E o texto abre com o seguinte parágrafo:

“No livro A importância de se chamar Ernesto de Oscar Wilde, Lady Bracknell numa memorável observação diz que: "perder um dos pais ... pode ser considerado como uma infelicidade mas que perder os dois pode ser tomado como uma falta de cuidado" A zona euro tem necessidade de resgatar três dos seus membros (Grécia, Irlanda e Portugal) com outros três (Espanha, Bélgica e Itália) cada vez mais a serem vistos com diferentes possibilidades de serem atacados devido a uma incompetência institucionalizada.”

O texto é claro. A União Europeia têm de ajudar, têm de resgatar…. Não há aqui dúvidas. Mas o meu amigo é ainda mais teimoso que eu e volta à carga:

“Ora é mais do que claro na abertura: Diz claramente que é preciso extirpar um para não haver dois!! Terá ele [o autor]  noção do que está verdadeiramente a propor?!!”

O meu amigo, eu, e muitos de nós temos medo, muito medo que se abandone Portugal nesta crise e que este seja forçado a sair do euro. Pessoalmente nunca publicaria um texto por empenho pessoal se não concordasse com ele ou se não o pudesse desmontar caso dele discordasse. Não era aqui o caso pois fiquei colado ao texto. Portanto não estava a fazer a mesma leitura que o meu amigo e respondi-lhe:

“Não e não. O texto diz: morrer um, é um grande desastre, morrerem dois só por descuido, por negligência, em suma, por não querer ver e mais, diz-nos  que é necessário salvar a Grécia, Portugal e Irlanda.”

E a nossa discussão ficou por aqui. Mas perguntará ainda não muito convencido um meu amigo qualquer que estes textos leia no Estrolabio: e então a amputação de que fala o texto no fim?

 

A resposta ainda aqui é directa: por este caminho, por esta política de submissão o que vai acontecer é que vai saltar a Grécia, vai saltar a Irlanda, vai saltar Portugal. E é preciso evitar isso, reestruturando a dívida grega. Pelo meio do texto são múltiplas as referências às posições da direita crescentes em vários Países, como a Finlândia, a França, tendência claramente a alargar por essa Europa e à direita não deve ser a esquerda a dar-lhe de bandeja os trunfos para esta política suicida, e dá-los-á se aceita a actual condução da crise feita pela União Europeia, que esta sim, é uma verdadeira cavalgada para o abismo, para a destruição da própria União.

 

Saída? A primeira de acordo com a minha leitura pessoal do texto é a necessária reestruturação da dívida grega e rapidamente, reestruturação essa que deve ser negociada sob os auspícios da própria União e cortar de raiz as possibilidades de contágio, de infecção, caso contrário pode ficar tudo doente. Exige-se coragem, exige-se politicamente classe e o autor duvida que actualmente a classe política no poder seja capaz de fazer com que essa outra política exista. . Esse é talvez o maior drama e, neste caso, retomando o início do texto de Das, retomando Oscar Wilde, acontecer-nos um drama é já de si uma infelicidade, acontecerem dois dramas juntos é uma negligência. E basta de tanta negligência. O povo grego dessa já se cansou, está nas ruas. E que nos diz Das? Diz-nos:

“Em suma e ao que parece mais ninguém, excepto os europeus, são os culpados. A dissonância cognitiva aumenta fortemente Cada vez mais, a trajectória da crise é motivada por considerações políticas. O desenlace da crise da dívida na Europa, provavelmente ainda um pouco longe, virá pela via da "rua" ou das urnas.
Nas nações em dificuldade, os protestos e as manifestações públicas estão a aumentar com a população a recusar aceitar ainda mais austeridade.”

Caros leitores do Estrolabio, trata-se, do meu ponto de vista, de um texto duríssimo e além disso, de um texto culturalmente nada fácil, sabemo-lo, e dê-se disso um exemplo. A ajuda que agora é feita funciona como uma espécie de passe para sair da prisão, não lhe tira a situação de condenado e vejamos já agora em inglês como o autor se exprime:

“In reality, markets understood that the EU bailouts were a "get-out-of-jail" pass for poor lending decisions.”,

 

A saída, perguntou-se acima e pergunta-se agora, também?. Como segunda via é necessário, por outras palavras, é urgente, uma outra política que, segundo Das, irá ser decidida nas ruas ou nas urnas. É sobre este texto que muito gostaria que reflectissem, mas é importante também dizer-se ainda sobre a saída da crise: é necessário mudar de modelo. Muito do endividamento que está agora em questão, e o autor di-lo claramente, deve-se a que se tratou de um modelo cuja dinâmica esteve assente na precariedade e assente também no endividamento e assim não. A crise, a  crise de hoje é assim também o resultado de opções feitas ao longo de décadas enquanto nos vendiam a soberania dos mercados como verdade absoluta. E é isso que é preciso mudar, nas ruas ou nas urnas, como nos diz o autor.

 

E é tudo.

Júlio Marques Mota.

publicado por Luis Moreira às 12:00
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