Quarta-feira, 6 de Julho de 2011
Um Novo Coração 44 - Sílvio Castro

 

Sílvio Castro Um Novo Coração

 

 

Capítulo 44

 

 

 

Arco, 14ª jornada, 23/02/05

 

 

Acordo nesse dia, um dos últimos que passarei na “Casa de Saúde”, ainda com as impressões de ontem. Com isso, espero o amanhecer definitivo com uma certa inquietude. Olho para a janela que deixa passar as primeiras luzes do dia, por debaixo da cortina completamente cerrada, e vejo que esse dia será o prolongamento de incertezas. Logo os enfermeiros e enfermeiras chegam na prática de todos as operações que se repetem a cada manhã. São dias e dias que me recolhem o sangue, a procura de mais açúcar nele, e o açúcar como que joga mais comigo, porque se faz sentir em mim num ir e vir, estar e não-estar que não acaba mais. O enfermeiro que mede a glicemia parece que se divirte muito com as variantes que lhe ofereço. Eu, como sempre, suporto todos os agravos, que os entendo como tal, ainda que para os médicos e enfermeiros, tudo pareça natural. Mas, neste hoje, me sinto mais exaltado na percepção das coisas. Quando vejo as caixas dos remédios que devo tomar diariamente, sinto que o meu ritmo nervoso se modifica. Vejo a quantidade que eles são e o absurdo que esse dia de hoje me parece. Penso como toda a minha vida foi um desconhecer de remédios. Tomei alguns para uma crise renal aos treze anos, depois mais nada por muito tempo. Você, caro leitor, já sabe do Gardenal, de quando da minha crise neuro-vegetativa. Depois mais nada. Até mesmo no período, já passados muitos anos dessa crise da juventude, em que sofri de forte disfunção gástrica, ignorei a minha gastride e, me vanglorio, a superei sem outra terapia senão a da convivência tenaz e inflexível com e contra os ataques gástricos e os repetidos assaltos de vômitos estoicamente suportados. Agora são muitos, demasiados os remédios que tomo pelas horas do dia, de manhã à noite. Já os conheço sobejamente.

 

Pela manhã, às 8; 9 horas:

 

Lasix, comprimidos de 25 mg. Indicações terapéuticas – Todas as formas de edemas de gênese cardíaca; obstrução mecânica ou insuficiência cardíaca, edemas periféricos, hipertensão de grau leve ou médio.

 

Dilatrend, comprimidos de 6,25 mg. Indicações terapéuticas – Tratamento da hipertensão arteriosa essencial. Pode ser usado isoladamente ou associado com anti-hipertensivos, especialmente com os diuréticos tiasídicos.

 

 

Depois do almoço, às 14; 15 horas:

 

Cardioaspirin, comprimidos de 100 mg. Indicações – Prevenção da trombose coronariana: depois de infarto do miocárdio, em pacientes com angina pectoris instável, angina estável crônica e em pacientes com fatores de perigos múltiplos (hipertensão arterial, hipercolesterolemia, obesidade, diabetes melito e familiaridade para com cardiopatia isquêmica. Prevenção da re-oclusão dos by-passes aorto-coronarianos e na angioplastica coronariana percutânea transluminal (PTCA). Prevenção das tromboses durante circulação extra-corpórea nos pacientes em hemodiases e na síndrome de Kawsaky.

 

Amaryl. Indicações – Amaryl é indicado no tratamento da diabetes melito de tipo 2, quando a dieta, o exercício físico e a redução do peso corpóreo sozinhos não são suficientes.

 

Depois do jantar, às 21; 22 horas:

 

Dilatrend (como acima)

 

Mepral, comprimidos de 20 mg. Indicações terapêuticas, adultos – Tratamento e profilaxia de úlceras gástricas e duodenal e da gastropatia corrosiva associadas à absorção continuativa de remédios anti-inflamatórios não-esteródicos (FANS). Tratamento,  bem como prevenção das recaídas de esofagite de refluxo e da doença de refluxos gastro-esfágicos. Tratamento da dispepsia funcional não-ulcerosa. Síndrome de Zolinger-Ellison.

 

Selectin, comprimidos de 20 mg. Indicações – Para a prevenção da doença coronariana em pacientes de sexo masculino sem história de infarto miocárdico, nos quais persista uma condição de hiper-colesterolemia apesar da dieta ipocolesterolizante. Nos pacientes com cardiopatia coronariana para reduzir o perigo de mortalidade devida à doença coronariana, de eventos coronarianos, de infarto do miocárdio, de eventos cérebro-vasculares e o perigo de serem submetidos a intervenções de resvacularização (bypass aorto-coronariano e angioplastia coronariana percutânea transluminal).

 

Devo fazer alguma coisa para sair do estado indefinido de insatisfação que me ameaça nesse momento. Passo pela portaria da “Casa de Saúde” e fixo para hoje à tarde, logo depois do almoço, um encontro com a pedicure.

 

Chega o momento de ir encontrar a pedicure. Desço para o sub-solo, pois o setor de cura do corpo, pedicure, manicure etc, se encontra justamente ao lado da sala dos exercícios respiratórios. Chego e me recebe Lorenza, a pedicure, uma jovem muito ativa que logo estabelece uma relação de cordialidade comigo. Convidado por Lorenza, subo num pequeno leito, muito parecido com o meu do 2º andar, ainda que menor. Deitado e já à vontade, arregaço um pouco as pontas das minhas calças, para deixar completamente livres meus pés. Lorenza se aproxima com seus instrumentos de trabalho, ajeita melhor as minhas pernas, contempla sem comentar as cicatrizes já em fase de completa cura, ainda que fortemente visíveis, como dois grandes relâmpagos apenas passados. A delicadeza das mãos de Lorenza conforta as minhas pernas quando ela as levanta, a cada vez que analisa o estado de meus pés. Estes já não estão tão inchados, pois as meias anatómicas atuaram de forma positiva sobre eles. Somente os tornozelos apresentam ainda uma certa deformação, arredondados como estão. Lorenza de tudo toma consciência e se prepara para começar a operação a partir do pé esquerdo. Enquanto passa nele um líquido perfumado e começa a enxugá-lo, me fala de coisas. Eu escuto e respondo. Lorenza fala com um ritmo que se parece com uma música vivaz, mas ao mesmo tempo contida. Sinto meu pé nas suas mãos e ainda que suspenso, me parece que ele repouse nas mãos de Lorenza. Os calos, as unhas, os dedos, a sola do pé, o peito do pé, as veias, os nervos, os músculos, de todas as partes recebo uma transmissão de alegria benéfica. A sensação é tal que já sei aonde estou, para onde vou ou se em verdade estou em algum lugar. Como que pairando no ar que se amplia e se alarga, como se não fose senão um olhar perdido, vejo formas voláteis que me acompanham no meu voar sem metas. Mas, de repente caio de meu vôo. Estou de novo deitado no pequeno leito do sub-solo da “Casa de Saúde”.

 

Quando Lorenza impregna meu pé direito, como fizera igualmente com aquele esquerdo, de um creme deslizante, sinto que suas mãos, ainda que fixadas nos pés, trazem a volúpia de uma carícia por todo o meu corpo. E quase esqueço definitivamente onde estou.

 

 



publicado por Augusta Clara às 22:00
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