Segunda-feira, 27 de Junho de 2011

Os Indignados e os Resignados Nesta Europa em Crise - Branko Milanovic.

enviado por Julio Marques Mota ( ver)

Primeira parte

 

Iniciamos com este artigo de Branko Milanovic colocado no blog de Mário Nuti  sobre  Os Indignados uma série de pequenos textos dedicados ao tema da juventude nesta Europa em crise.

 

No caso presente,  o texto de Branko Milanovic merece uma leitura muito atenta pela importância do seu autor, pelo tema e pela qualidade do texto. Pessoalmente   fiquei com algumas interrogações  sobre a mensagem que Branko Milanovic nos quer passar. Escrevi-lhe.  A carta será publicada posteriormente. 

 

BRANKO MILANOVIC: CURRICULUM VITAE

 

Economista Chefe do Departamento de Investigação do  Banco Mundial , na área de investigação sobre a desigualdade e a pobreza.  Especialista Associado do  Caranegie  Endowment for International Peace, de Washington. Trabalha actualmente sobre as questões da globalização, da distribuição do rendimento e da  democracia. Anteriormente, trabalhou como economista  do Banco Mundial sobre  a Polónia (1988-1991) e foi investigador  do Instituto de Ciências Económicas, em Belgrado, Jugoslávia (1980-83 e 1986-88). Desde 1996, é professor adjunto na área das Economias em Transição na School for Advanced International Studies Johns Hopkins University

 

Branko Milanovic, que contribuiu com um post recente  sobre a desigualdade no meu artigo sobre a Desigualdade e a Crise Global, passou o último mês em Madrid, vivendo intensamente a situação  de La Puerta del Sol. Ele contribuiu a meu pedido com este texto sobre a revolta actual de Os  Indignados. Isso é para começar a iniciar o debate, e certamente que  outros desejarão  contribuir. Por todos os meios comente,  via e-mail se o tem, mas é mesmo preferível comentar directamente no post.


Várias semanas antes, o jornal espanhol "El Pais", um dos principais jornais diários do mundo, realizou uma festa para comemorar o 35 º aniversário da sua fundação. "El Pais" nasceu  nos  dias da "transição" espanhola da ditadura de Franco para a democracia, e tem ao longo da sua existência permanecido de forma  consistente pró-democrático  e de centro-esquerda. O jornal  é talvez o que  melhor reflecte o período da notável transformação da sociedade espanhola da ditadura para uma das democracias mais tolerantes do mundo, de país de emigrantes para o país em que os estrangeiros, vindos de toda parte, literalmente, representam agora cerca de  12 por cento da população ; a partir de um país de rendimento  médio e mesmo em alguns aspectos, sendo de partida  um país subdesenvolvido dá-se a transição para um país rico com comboios e auto-estradas  de primeira qualidade. Numa  demonstração de empenho  com a democracia e com a tolerância, a festa de  "El Pais" teve a participação de todos os primeiros-ministros espanhóis  desde a transição, sejam de esquerda ou de  direita. O tom dos discursos foi de comemoração e talvez com um pouco de  presunção. Elogios para a democracia e para a  transformação em Espanha não foram  excessivos, considerando o que foi alcançado nas  três décadas anteriores, mas talvez um pouco “ensurdecedores”, lembrando uma ou mais  das declarações formais sobre a importância da democracia que pode ser ouvida nos Estados Unidos em todos os  dias  4 de Julho. Eu pensei que, com excepção da Polónia, República Checa e, talvez, os estados bálticos, seria difícil imaginar tais palavras  optimistas em ocasiões semelhantes na Europa Oriental.  A razão é simples:  a democracia é uma coisa boa e há razão para a celebrar , mas só se e só se esta for acompanha e em simultâneo  com o desenvolvimento económico e com rendimentos mais elevados. E é nisto que a Espanha foi realmente muito bem sucedida , de tal modo que  a geração que realizou este feito histórico tinha muitos bons motivos para comemorar este mesmo feito histórico. Ou assim parecia.

 

Mas apenas dez dias depois da celebração e nas  vésperas das eleições locais e regionais em  Espanha, milhares de jovens começaram a ocupar as principais praças das cidades espanholas. O maior encontro, que atraiu a atenção dos media  mundiais, realizou-se  na praça central em Madrid, La Puerta de Sol, apenas a um quilómetro ou pouco mais da sede do "El Pais" e do prédio onde os seus festejos ocorreram . O descontentamento dos jovens foi impulsionado não  somente  pelo facto de que o desemprego dos jovens está situado em torno de 40 por cento, não só  pelo facto de   que a maioria daqueles dos que estão empregados têm empregos muito precários (trabalhando sob contratos de duração determinada), não só  pelo facto de que os salários estão estagnados, mas também  pelo  descontentamento que se espalhou sobre  o próprio sistema democrático como um todo, tal como este funciona na prática. Em contraste com os elogios que ouvimos na reunião de "El Pais", agora os discursos eram muito diferentes: a democracia ignora as opiniões e os interesses de grande parte dos cidadãos que se tornaram alienados e deixaram de participar  no processo; todos os partidos políticos, independentemente do seu nome e filiação prosseguem  políticas económicas semelhantes, o poder real está nas mãos do grande capital e dos banqueiros que financiam todos os partidos políticos, e não nas mãos do "povo". Estas são as principais críticas que seriam subscritas pela maioria dos jovens sejam eles da  "velha" ou  da "nova" Europa.  Assim, poder-se-ia pensar, há aqui  realmente algo de profundamente errado  com a democracia  tal como a conhecemos, e um dos slogans principais de Os Indignados dizia  precisamente isto: " democracia real-agora!". Por outras palavras, "partocracia" e "bancocracia" não são aceitáveis.


Mas, enquanto os jovens estavam a criticar fortemente o actual "sistema" espanhol a partir da esquerda, a direita espanhola, que, por causa da crise económica e do desemprego elevado que se atribui ao governo socialista, espera uma grande vitória nas eleições, respondeu com o sua próprio slogan, publicado no dia das eleições  na primeira página de um jornal próximo do Partido Popular: "Real democracia, hoje." A mensagem para os jovens era clara: se querem  que a vossa voz seja  ouvida e se acreditam  que fazem  parte da maioria, este é o vosso momento,  o momento de defender as suas ideias  como faz todo o mundo , vão às urnas e vejam se  podem ganhar. "Povo" não é exactamente uma só pessoa: "povo" são os outros também.


Muitos dos  jovens optaram  por não ir às urnas e estes votos não expressos, que normalmente vão para os socialistas, fizeram  a diferença e deram  uma grande vitória para a direita. O governo de Zapatero está no seu leito de morte, este  não vai concorrer de novo, e eleições gerais antecipadas podem vir a ser convocadas. Aqui, então, os pontos fracos da posição de Os indignados começarão  a ser  mostrados. Enquanto eles, nos seus cartazes, não se associaram eles próprios  com a geração de Maio de 68  (dos quais muito aqueles me fizeram lembrar), mas sim aos manifestantes no Cairo e em Tunis mas  as diferenças entre eles e os jovens árabes eram gritantes.As manifestações no Cairo e em Túnis tinham um objectivo claro: o fim das ditaduras e o direito a terem  um verdadeiro sufrágio universal, pluripartidarismo e liberdade de expressão e de associação. Estas eram exigências claras e simples. Os manifestantes sabiam o que queriam, e acabaram por  vencer  em ambos os paises,  Egipto e Tunísia. Mas os manifestantes em Madrid não foram capazes de dizer claramente o que queriam: na verdade, eles desejam uma melhor democracia, mas o que é que isto exactamente significa ? Claro, eles também querem um "sistema" menos corrupto mas isso é o que todos nós queremos. Como alcançá-lo é um problema, e eles não ofereceram  nenhuma solução. Quando  Os Indignados finalmente formularam as suas  oito teses, todos elas, excepto, talvez, duas delas  ( sobre a alteração do sistema eleitoral e sobre o financiamento dos partidos políticos) eram tão gerais na natureza, não tinham nenhum  claro "destinatário" responsável por elas, ou indicação dos caminhos  através dos quais  as coisas venham a  ser melhoradas, que elas foram de facto  irrelevantes. Qualquer um iria assinaria estas teses a todo o momento, e ninguém podia fazer nada com eles.


E desde que a democracia real teve lugar no dia das eleições  e ganhou a direita de modo  esmagador, enquanto as exigências dos manifestantes pareciam  tão vagas e gerais, a manifestação transformou- se numa festa, os jovens tiveram tempo suficiente  nas praças centrais da cidade, discutindo, conversando, bebendo cerveja fumando marijuana, ouvindo jazz e música rock durante a maior parte do tempo, de dia e de noite. Às 3 da manhã, La Puerta del Sol estava cheia de homens e de mulheres jovens que se divertiram da mesma  maneira como eles se divertem em qualquer festival de música. O amor floresceu, que é de facto excelente, excepto que ele não tinha nada a ver com a política.


E, enquanto alguns jovens falavam  apaixonadamente sobre os males do "sistema", à beira das praças, o povo realmente pobre emergia  lentamente tentando vender cerveja ou cigarros, e para fazer alguns euros extra. E assim acontece que a geração mais velha, que se reuniu na festa do  "El Pais" tinha  de facto razão  - embora quando se olha para esses jovens, de bom humor, gentis, agradáveis e decentes, e os comparamos  com os  bem situados, presunçosos  e auto-convencidos democratas burgueses , ficamos  divididos  entre a simpatia e a razão. Mas o século XX ensinou -nos a não confiar no que o nosso coração nos diz.

 

 

publicado por Augusta Clara às 13:00
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