Domingo, 26 de Junho de 2011

LIÇÕES DE ETNOPSICOLOGIA DA INFÂNCIA - XXIII, por Raúl Iturra

(Continuação)

 

Bronislaw Malinowski, Polaco – Austríaco, refunda a Antropologia Britânica, interessa-se pelas formas de troca de povos sem mercado e, antes ainda, pelas formas de organizar a reprodução em grupos sociais não europeus, ao escrever a sua tese doutoral em Antropologia em Londres, em 1913, sobre The Family Among the Australian Aborigines[1], certo de que era uma família monogâmica, nuclear e regida pela lei que governava a Melanésia, a da Coroa Britânica. Em procura de prova certa, compara – o método que cria – estuda um outro, denominado The Natives of Mailu, de 1915[2]; em ambos os livros fala de pais e filhos, rituais de iniciação e, especialmente, a autoridade pater famílias, no seu ver, aí existente. Era a época em que existia a ideia do mundo estar a mudar, assim como as formas diferentes ou semelhantes do acasalamento para a reprodução humana – conceito criado e usado por Malinowski pela primeira vez, e, infelizmente, usado sem citação até hoje. O mundo começou a mudar, o Rei da nova Alemanha, declara a guerra, Malinowski é um inimigo e é transferido para fazer trabalho de campo na Austrália. A sua surpresa é grande ao reparar que a família Australiana -  na época em que nenhuma família escapava à análise feita por Durkheim,  Freud ou pelos alemães como Thurnwald no Estreito de Torres, Boas no Canadá, os Ingleses Haddon e Seligman, mais tarde Gregory Bateson entre os Iatmul da Nova Zelândia, Reo Fortune entre os Dobu Kiriwina, Raymond Firth com os seus parentes maori da Nova Zelândia, Ruth Bennedict entre os Japoneses e entre os índio Pueblo do México, Margareth Mead primeiro entre os Dobu e posteriormente entre os Mundugumor e Arapesh da Polinésia, todo o mundo corre para ver como é que era e como vai deixar de ser – encontra-se de uma forma muito diferente daquilo que se tinha falado. O seu primeiro objectivo, foi tentar entender se era possível funcionar de forma económica sem mercado, ideia retirada do seu Mestre Marcel Maus e do mestre do seu Mestre, Émile Durkheim, que mais tarde tiveram que reconhecer que não existia grupo social sem troca, como refiro no meu livro de 2002 e no de a Mais-valia na Reciprocidade - publicado em 2008 -, esse conceito Freudiano de 1906 que refere a troca de amamentar e de carinho entre a criança e a sua mãe, até à idade dos seis meses, que Melanie Klein analisou, como o afirmo anteriormente. Um conceito emotivo e romântico, que Malinowski retira dos textos de Freud de 1906 e de 1913 e aplica às relações de mercado como um dar para receber e devolver, como a mãe que dá o leite, o bebé recebe e em troca, dá carinho e ternura.[3]  Análise que Malinowski e a sua escola iam fornecer, apesar de ter estudado de forma importante as troca que o Kula permite: objectos, pessoas, aliança para a defesa, ataque em caso de guerra, carinho, acasalamentos, emotividade, ou uma forma especial de carisma, denominada mana. Um mana que existe entre os que mais sabem, sejam homens ou mulheres, adultos ou crianças, jovens ou pessoas de mais idade. Esta troca leva Malinowski a duas grandes descobertas: a primeira e que caracteriza a Antropologia Britânica, é que o estudo dos seres humanos não é feito como o fizeram os seus mestres anteriores, que nunca foram ao terreno, era necessário partilhar o dia-a-dia das pessoas e entrar pela vida dos Massim da forma que eles permitiam: aberta, amiga, fraterna, sem segredos (nem os íntimos). O Diário de Malinowski assim o diz[4], nunca pensou que os seus relatos seriam tornado públicos quase 50 anos após a sua morte.

 

A análise do Kula entre os Massim, permite a Malinowski estudar as famílias e a sua forma de serem geridas. Entre nós, o acasalamento tem sido monogâmico, seriado ou não, com adultério ou sem ele, com pedofilia ritual ou emotiva. Entre os Massim, o autor começa por colocar um problema, depois de ter abandonado o estudo da economia – um comércio, como diz na página 204 do texto que uso. O problema aparece já no Prefácio do seu texto de 1926[5]: “Le problème central de la psychanalyse est celui de l'influence que la vie de famille exer­ce sur l'esprit humain. Elle nous montre comment les passions, les chocs et les conflits que l'enfant éprouve et subit dans ses rapports avec son père, sa mère, ses frères et sœurs, aboutissent à la formation de certaines attitudes menta­les ou de certains sentiments perma­nents à leur égard, attitudes et senti­ments qui, tantôt subsistant dans la mémoire, tantôt englobés dans l'inconscient, influent sur toute la vie ultérieure de l'individu, dans ses rapports avec la société. J'emploie le mot « sentiment » dans le sens technique que lui attache M. A. F. Shand, avec toutes les implications importantes qu'il comporte dans sa théorie des émo­tions et des instincts » Começa logo por debruçar-se sobre o primeiro problema, o famoso problema de Édipo e acrescenta : « C'est ainsi que le sociologue estime que le problème du complexe n'est pas purement psy­cho­logique, mais qu'il comporte aussi deux chapitres sociologiques: une introduction faisant ressortir la nature sociologique des influences familiales, et un épilogue contenant l'analyse des conséquences que ce complexe comporte pour la société”[6].

 

 

Escolhi estas duas citações, porque salienta o papel que Freud sempre ignorou, pelo menos até 1930 e O mal-estar na cultura, porque, apesar de ter analisado as famílias australianas, não reparou na sua estrutura por dedicar a sua análise a conceitos psicanalíticos e não etnográficos, como faz Malinowski. A primeira coisa que o nosso autor faz, é distinguir entre Direito Paterno e Direito Maternal, análise não feita pelos psicanalistas. Esta distinção poderia parecer estranha aos leitores de uma sociedade ocidental, especialmente na época do começo do Século XX, a fonte mesma do Pater famílias, quando no Ocidente, como vimos na Lição Primeira, a mulher não tem direito a mais que a obedecer ao seu marido e aos seus filhos varões. Temos vivido, e em Portugal ainda vivemos, numa sociedade masculina que acrescenta uma feminilidade servil da mulher para com o marido e os filhos varões e que, na actual independência feminina, faz agir de forma autoritária masculina as senhoras, enquanto homens começam a mudar para formas sedutoras de senhoras e pessoas sem autoridade, como tenho referido num outro texto[7].

 

Não é bem este tipo de convívio o que Malinowski analisa: “L'attitude de la femme à l'égard du mari est loin d'être servile. Elle possède des biens personnels et une sphère d'influence, privée et publique. Il n'arrive jamais que les enfants voient leur père brutaliser la mère. D'autre part, le père ne contribue qu'en partie à gagner le pain de la maison, obligé qu'il est de travailler avant tout pour ses propres sœurs, tâche qui - les garçons le savent- leur incom­bera à leur tour, lorsqu'ils seront grands »[8]. Podia-se pensar que é por causa de a mulher ser a proprietária dos bens, que a sua atitude é de companhia. É mais a estrutura de constituição da família que permite uma relação da forma que descrevo. O acasalamento não existe como entre nós, a forma de se juntarem casais acontece no dia e momento em que uma rapariga sente que no seu corpo entrou um espírito que habita na Ilha dos mortos ou Baloma[9], que aguarda a vez para recuperar a vida entre os seus. Os Massim acreditam na reencarnação, mas é uma reencarnação clãnica: o acasalamento é extra – clãnico. Cada clã é um grupo de parentes disponíveis para casar com um membro de um outro clã. A relação de acasalamento é previamente tratada entre o irmão da rapariga e um membro de outro clã, o mais velho parente do homem para onde a rapariga deve sair e alimentar o seu corpo com o sémen do marido e assim organizar o bebé que cresce no seu corpo, resultado dos seus banhos de mar ou dos seus passeios pela praia. Por ser uma sociedade matrilinear, a rapariga sai da sua aldeia ou sub–clã, passa a habitar na casa do seu marido, têm os seus filhos e estes, na altura da puberdade, saem para a casa do irmão da mãe que faz o papel equivalente ao do pai na nossa sociedade. Passam a ser seus colaboradores e cuidadores na sua velhice e herdeiros dos seus bens e das mulheres que o irmão da mãe pode ter, tal como o homem da sua mãe tem e das quais também tem filhos, que na puberdade saem também, para as casas dos irmãos de sua mãe[10].

(Continua)

[1] Malinowski, Bronislaw, 1913, sob a orientação do finlandês Edward Westermack, Professor na Universidade de Londres, que procurava organizar um largo conhecimento sobre as formas matrimoniais do mundo.

[2] Malinowski, Bronislaw, publica ambos os livros na Routledge and Kegan Paul, hoje textos inexistentes, excepto na colecção completa que a Routledge tem preparado das obras todas, que são mais do que cem textos, pelo que o Website é importante: http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&ie=UTF-8&q=Bronislaw+Malinowski+Family+Australian+Aborigines&btnG=Pesquisar&meta=

[3] Malinowski, Bronislaw, 1922: The Argonauts of Southern Pacific, Routledge and Kegan Paul, website para debate e definer conceitos:  http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&ie=UTF-8&q=Bronislaw+Malinowski+The+Argonauts+of+Southern+Pacific&btnG=Pesquisar&meta=

[4] Malinowski, (1989) A Diary in the Strict Sense of the Term, Stanford, California: Stanford University Press. Estas eram as notas pessoais que o autor escrevia em língua de Cracóvia, que a sua viúva entregou para publicação. As suas intimidades eróticas aparecem, incluindo o que denominamos hoje pedofilia, uma forma de saber, tal e qual Devereux usou no estudo dos Mohave e Godelier, entre os Baruya. Formas, sejamos claros, rituais, como descreve Gilbert Herdt entre os Sambia (nome criado pelo autor para ocultar a identidade da etnia) e não por opção pessoal como define Freud em 1906. O estudo de crianças feito por Bion, Klein, Piaget, Winnicot, eu próprio, não inclui esta pratica, como consta nos nossos diários. Vejo-me obrigado a dizer esta frase pelo tipo de vida que hoje levamos no mundo Ocidental: o que é ritual participado é delito entre nós. Para maior informação sobre Malinowski: http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&ie=UTF-8&q=Bronislaw+Malinowski+Diary&btnG=Pesquisar&meta=

[5] Malinowski, Bronislaw, 1926: Sex and repression in savage societies, Routledge and Kegan Paul, Londres. Website para saber mais: http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&ie=UTF-8&q=Bronislaw+Malinowski+Sexuality+and+repression&btnG=Pesquisar&meta= Website com texto on-line, mas data enganada (confunde 1926 por 1921): http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&ie=UTF-8&q=Bronislaw+Malinowski+Sexuality+and+repression&btnG=Pesquisar&meta=

[6] Malinowski, obra em analise, página 10 ambas citações, da versão francesa que uso.

[7] Iturra, Raúl, 2000: “Mulher a crescer, machismo a tremer”, in Jornal A Página, ano 9, nº 94, Setembro. Website com texto http://www.mulheres-ps20.ipp.pt/mulher_a_crescer.htm

[8] Malinowski, obra em análise, página 14.

[9] Baloma; the Spirits of the Dead in the Trobriand Islandas, Website com texto: http://www.sacred-texts.com/pac/baloma/index.htm. Destaco neste trabalho a análise da vida dos mortos, ao deixarem as Ilhas de Coral, que, em forma de espíritos (os mais antigos) andam em busca de uma rapariga pelas praias e as águas do mar para entrar no seu corpo e renascer.

[10] Retirado de Malinowski 1929, The sexual life of the savages, dois volumes, Routledge and Kegan Paul, website http://www.uqac.uquebec.ca/zone30/Clasiques_des_sciences_sociales/classiques/malinowski/vie_sevuelle_2.doc y do website de Patrick Reinier, École des hautes études en Sciences Sociales  http://www.reynier.com/Anthro/Parente/Matrilin.html

 

publicado por João Machado às 14:00
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