Domingo, 26 de Junho de 2011

O relançamento da economia, de novo necessário - por Martin Wolf

enviado por Julio Marques Mota (veja aqui e aqui)

 

Que se deve  concluir dos dados económicos recentes, nomeadamente quanto aos dados  relativos aos países avançados? A economia mundial retarda o seu crescimento económico? Se assim é será que se devem  tomar medidas para o relançar?

 

O meu colega Gavyn Davies observava recentemente que “a rapidez e a amplitude do declínio do crescimento da indústria transformadora foi excepcionalmente forte, sobretudo nos Estados Unidos ".

 

Considera-se que o sector privado americano terá apenas criado 38.000 empregos no mês de Maio, ou seja bem menos que os 175.000 que eram esperados.. Davies sublinha que “se nós reunimos o conjunto dos elementos económicos observados em Maio, obtemos a imagem de uma economia mundial que continua a crescer, mas a um ritmo fraco ". Em suma, sublinha “a baixa dos resultados económicos foi mais forte que a verificada na Primavera do ano passado, época em que a retoma da economia mundial tinha conhecido uma passagem temporária para o vazio ".

 

Mas estes resultados “estão longe de terem caído a  níveis susceptíveis de gerar sérias apreensões sobre a hipótese de uma nova queda em profunda recessão ".

 

FRACA RETOMA NOS PAÍSES AVANÇADOS

 

Nos países mais desenvolvidos, a retoma é fraca desde a partida, particularmente face à  amplitude da recessão.

 

Sobre as seis principais economias desenvolvidas  - Estados Unidos, Japão, Alemanha, França, Reino Unido e Itália - só os Estados Unidos e a Alemanha registaram no primeiro trimestre de 2011 um produto interno bruto (PIB) superior - mas pouco - ao que era há três anos. Continuo a considerar sempre que os outros ainda não saíram da recessão.

 

O facto de que os Estados Unidos tenham, em relação à sua posição de partida, o PIB mais elevado destes seis países pode surpreender, sabendo que a taxa de desemprego americana no mês de Abril era de 9%. Isto  é revelador da flexibilidade do mercado de trabalho nos Estados Unidos.

 

Mas tudo  indica também que a procura  e,  por conseguinte,  a produção  continuam a mostrar-se sem fôlego. Em relação ao seu passado  recente, a retoma além-Atlântico é extremamente decepcionante.

 

Que se passa então? As recessões  que têm a sua origem no rompimento das bolhas alimentadas pelo crédito são geralmente mais graves e mais duradouras  que as que são geradas  pelas tentativas de jugular um sobreaquecimento  inflacionista.

 

São  necessários anos para que  os preços dos activos, e sobretudo do imobiliário , se estabilizem   e que o nível excessivo de dívida diminua, graças à uma cascata de falências e ao lento  reembolso do excedente de dívidas. Durante este tempo, a despesa privada é geralmente fraca, como é o caso hoje nos Estados Unidos, Inglaterra e Espanha.

 

DÉFICES ORÇAMENTAIS

 

Na maior parte dos casos, também resulta um enorme crescimento dos défices orçamentais pelo facto de que as receitas caiem e que as despesas aumentam em relação  a um PIB  que, por seu lado, diminui.

 

Esta forte queda  da produção constitui uma causa bem mais importante dos enormes défices orçamentais dos países mais afectados pela crise do que as modestas  e muito desacreditadas reactivações orçamentais.

 

Trata-se do vento estrutural de sentido contrário, ao qual se vieram  acrescentar  o aumento dos preços dos bens e serviços, nomeadamente do combustível, bem como o impacto nas cadeias mundiais de abastecimento por causa do tsunami que atingiu frontalmente  o Japão a 11 de Março.

 

O recente aumento do preço de petróleo, que é com efeito uma taxa sobre os consumidores  é, em parte, uma consequência “da primavera árabe”.

 

Mas o principal elemento é constituído por um reequilíbrio estrutural duradouro: o impacto crescente dos gigantes emergentes na procura mundial de bens e de serviços.

 

Qual a política que  poderia ser eficaz nestas circunstâncias? Nas suas últimas Perspectivas Económicas, publicadas em Maio, a Organização de Cooperação e de Desenvolvimento Económico (OCDE) concentra-se nas políticas estruturais.

 

Para justificar esta orientação, a OCDE afirma que “a retoma mundial se  torna  autónoma e (que) a sua base se alarga  ". Mas estamos, na realidade, muito longe  “da normalidade”.

 

Existe uma série de riscos à baixa , entre os quais , os dos  novos aumentos dos preços dos bens e serviços, os das novas baixas  nos preços dos activos, os das  crises financeiras ou das orçamentais.

 

Uma política estrutural seria a poção  mágica? A OCDE defende  que “ os temores de uma instalação duradoura de uma forte taxa de desemprego e de uma redução post-crise permanente da produção potencial, que se acrescentam à necessidade de reforçar a confiança na durabilidade da dinâmica de dívida do sector público (...), tornam  mais urgente a aplicação de reformas estruturais capazes de ajudar o crescimento ".

Certamente, a  OCDE sublinha também que “as políticas do mercado de trabalho têm um papel essencial a desempenhar  para impedir que o desemprego cíclico se  torne  estrutural ". Na zona euro, na ausência de ajustamento da taxa de câmbio, uma maior flexibilidade dos salários nominais é, com efeito, necessária.

 

Controlar o aumento dos  constrangimentos orçamentais a longo prazo

 

Por último, como o nota a OCDE, é necessário controlar o aumento dos constrangimentos orçamentais de longo prazo, nomeadamente os que estão ligados ao envelhecimento da população, mesmo se é inquietante que muitas destas políticas causem mal-estar aos considerados mais  desvantajados.

 

Mas uma política estrutural não será suficiente. Em situação difícil na situação de após crise, a procura  é igualmente importante. As políticas estruturais que favorecem os estímulos a investir  são duplamente benéficas, porque fazem crescer ao mesmo tempo a procura  e a oferta potencial.

 

Devem ser uma prioridade nos projectos da tributação  e das despesas.

 

Mas é igualmente crucial  ter de efectivamente calcular o momento  do abandono das   medidas orçamentais e monetárias. É muito mais provável, nas circunstâncias actuais, que as medidas de apoio sejam  retiradas demasiado cedo em vez de o serem mais tarde  o que minará a retoma e gerará uma estagnação prolongada, com efeitos estruturais nocivos a longo prazo. É essencial ter bem presente três coisas sobre este tema.

 

Em primeiro lugar, o rendimento sobre as obrigações de Estado americanas e alemãs a  dez anos cairam  a semana passada para valores abaixo de 3%.

 

Em segundo lugar, em despeito da expansão da base monetária, o crescimento dos agregados em sentido lato  está bem  enquadrado, tanto  na zona euro como nos Estados Unidos. Uma nova flexibilidade quantitativa seria perfeitamente de fácil gestão  e, no caso a economia desse sinais de sufocar, seria perfeitamente sensata.

 

Por último, as principais medidas da inflação dos preços no consumidor são muito baixas, tanto nos Estados Unidos como na zona euro. Querer enfrentar   uma taxa de inflação não corrigida, volátil e imprevisível, é o meio mais seguro de desestabilizar  a economia. E como o objectivo da luta anti-inflação é pelo contrário o de a querer estabilizar , a luta anti-inflação neste momento não tem nenhum sentido.

Resumidamente, a opção que consiste a combinar medidas estruturais que permitam melhorar a produção potencial e os equilíbrios orçamentais a longo prazo com a manutenção de um vigoroso apoio monetário e orçamental à retoma parece-me desejável nos países que dispõem de certa margem de manobra.

 

O maior perigo não é o de um crescimento excessivo e de uma forte taxa de inflação  mas a semi-estagnação prolongada  no período pós crise.

Martin Wolf, La relance à nouveau nécessaire, LE MONDE ECONOMIE | 13.06.11 |

publicado por Luis Moreira às 20:00
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