Sábado, 2 de Julho de 2011
Um Novo Coração 40 - Sílvio Castro

 

Sílvio Castro  Um Novo Coração

 

 

 

  Capítulo 40

 

 

 

Arco, 10ª jornada, 19/02/05

 

 

 

Subo pelas escadas para o 3º andar e dali para a mansarda onde, nesta tarde de névoa fria quase apenas pressentida fora, vou participar de uma sessão coletiva de psicologia aplicada.

 

Entro no grande espaço que já conheço e ali encontro muitos pacientes, principalmente companheiros meus de cardiopatia. O ambiente é movimentado e cordial. Vê-se que a maioria daqueles que ali estão se sentem bem na perspectiva da sessão. Para mim é a primeira vez e, como sempre acontece comigo, vim até ela mais para ter uma idéia de como a “Casa de Saúde” utiliza a psicologia para os seus tratamentos de recuperação. Em verdade trago ainda hoje, quando aqui estou, o mesmo sentimento de descrença de possibilidades para a clínica psicológica, principalmente se de grupo. Por isso, e não só por isso, me alheio logo do grupo e me sento numa cadeira bem debaixo de um ângulo muito fechado do teto da mansarda, mas não tão fechado que não me permita de ver tudo e a tudo assistir com atenção.

 

A jovem psicóloga toma assento diante de todos numa mesa onde estão vários aparelhos que ela começa a acionar, depois de ter dado as instruções básicas ao auditório. Suas recomendações são muito claras, bem como a exposição que faz do que será feito por ela durante a sessão terapeutica. Antes de mais nada, recomenda a todos muita concentração à sua voz e a quanto diz, bem como encarece por uma total submissão, por uma passividade assumida diante da experiência. Liga um gravador que logo propaga um pezzo monocórdio e infinito, lento, lentíssimo. Sob a doce pressão melódica a psicóloga enuncia uma série de conceitos que, mais que conceitos, são divagações com propósitos hipnóticos. E em verdade, apenas passados alguns minutos, os pacientes distribuidos nas cadeiras que enchem o espaço da mansarda como que se deixam cair num relaxamento total e numa absoluta ausência pessoal. Eu, sentado no meu ângulo fechado, vejo o rosto jovem e sério da psicóloga. Ela, de vez em quando, dirije o seu olhar na minha direção, para logo depois disperdê-lo entre os rostos relaxados num quase sono. Ela continua a falar, sintonizada na monotonia do fundo musical, enquanto eu não deixo de fixá-la, como que alerta às possíveis variações do tom de sua voz. Mas ela pouco varia, mantendo o tom hipnótico que adormece os seus felizes pacientes.

 

Na hora do jantar, na nossa mesa 58, pergunto ao dr. Citton se ele vê uma possibilidade clínica para a prática psicológica. Ele, muito cordialmente, me diz que não tem a respeito uma idéia definitiva, porém acredita que a muitas pessoas, principalmente para as mais simples, uma terapia estritamente psicológica possa ser útil.

 

Então, como prometera ontem, o dr. Citton me dá uma garrafa de vinho trentino, que sua mulher trouxera a seu pedido. Tudo porque, no almoço de ontem, finalmente eu trazia a permissão médica para tomar um copo de vinho a cada refeição. Logo pedi à camareira que trouxe um “quartino” de vinho tinto. Como consequência de meu episódio médico, eram dois meses, praticamente, que eu não provava o vinho. Meu paladar, não somente pelas peripecias médicas, muito sofrera por tal abstenção. Quando, muito feliz, eu enchi o copo com o tinto de grande intensidade colorística e de forte perfume logo pressentido, apenas tomado o primeiro gole lento, meu paladar doente se exaltou numa rebelião sem fim. O vinho era péssimo, duro, ácido, intragável. Chamei a camareira, mas ela me disse que não tinham outros.

 

 

O dr. Citton, apenas vista a minha desilusão, me disse que no dia seguinte me faria chegar uma boa garrafa de tinto, um Marzemino.

 

 

Agora provo o presente do meu amigo. Encho, sem encher, o meu copo. Fixo o vermelho brilhante pleno de reflexos emanados pelo líquido movimentado, odoro o perfume que dele se livra nas minhas narinas, aproximo o copo à boca e banho meu paladar com uma pequena quantidade do líquido vivo. Meu paladar não se sente mais doente, mas se rejubila pelo abocado redondo e consolador.

 

 

Em todo o corpo sinto uma alegria que vem do vinho e, com ela, acrescento alguma coisa mais à minha recuperação.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



publicado por Augusta Clara às 22:00
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