Quinta-feira, 30 de Junho de 2011

Um Novo Coração 38 - Sílvio Castro

 

Sílvio Castro  Um Novo Coração

 

 

Capítulo 38

 

 

PENSO que este seja o melhor momento para interromper por um pouco a narração feita até aqui e dirigir-me mais diretamente ao leitor que me acompanha nesta aventura de conhecimentos incontidos. Assim o faço para estabelecer com ele uma ligação ainda mais profunda, se tal coisa nessas alturas ainda fosse possível, de quanto por todas estas páginas temos descoberto, contando-lhe então de um episódio distante nos anos, aqueles da minha juventude, mas que pensando bem me parece como o precedente direto do estado das coisas que juntos estamos procurando desvendar sobre “a doença mortal”. O conto que agora começa pode ser tomado como se toma o conhecimento vago, generalizado, mas que nem por isso deixa de revelar-se concreto e real, quase como um indispensável complemento daquele outro, o conhecimento final, resultado da matéria cruel de revelações que desnudam sentimentos e coisas.

 

Se por acaso, nesse ponto, uns ou outros murmurassem que não compreendem do porquê de tal suspensão, quando a narrativa se processava coerentemente, como podem atestar pelo simples fato de terem chegado nela até aqui, muito gratamente lhes respondo que o faço na procura insone do ritmo narrativo ideal, o qual sonho de alcançar assim agindo.

 

Começo o interlúdio narrativo.

 

 

TUDO ACONTECEU numa quinta-feira de novembro de 1955: a data exata, agora não a sei recuperar, ainda que tenha a certeza que era uma quinta-feira. Certamente era na metade do mês, porque faltavam ainda alguns dias, mais de uma semana, para o dia 26, quando eu completaria meus vinte e quatro anos com um aniversário sem festas. E também porque naquela quinta-feira eu participava de um dos últimos atos previstos pelo calendário das atividades da Faculdade Nacional de Direito no seu ano-acadêmico de 1955.

 

Naquela tarde de novembro cheguei à Faculdade na rua Moncorvo Filho vindo do centro da cidade. Caminhara da Avenida Rio Branco até a Praça da República e me lembro que, enquanto caminhava pelas ruas entre carros, ônibus, bondes, não lhes dava maior atenção. Caminhava em passos lestos, seguros, mas com uma desatenção quase total em relação às coisas que me circundavam, ainda que essas fossem, como eram – disso tomo consciência agora, quando as rememoro – ruidosas, quase caóticas.

 

Eu caminhava absorto em alguma coisa indefinida quando superei a Praça da República, tomei a Moncorvo Filho e entrei, como fazia todos os dias desde 1953, certamente na Faculdade, subi as escadas de mármore que do andar-térreo vão para o primeiro-andar e ali entrei no grande, iluminado Salão Nobre. A conferência programada estava por começar naquela quinta-feira de novembro, com a máxima puntualidade, às 18 horas.

 

Aquele novembro já mostrava as cores e as luzes do verão que ainda devia chegar.

 

Entrei no Salão Nobre e procurei um lugar nas cadeiras dos fundos e ali me sentei. O Salão estava repleto de estudantes e enquanto eu percorria com os olhos todo o espaço via José Roberto, Thiago, Waldir, Venâncio, Bolivar, Pierre, Luiz Fernando, Mário Cesar. Leila, Maria de Lourdes, Nadyr, Esther, Manuela, Esterzinha. Mas, como já acontecera na caminhada do Centro até a rua Moncorvo Filho, eu sabia que eles estavam ali, mas como se vistos à distância, apartados da atenção que eu imaginava dar àqueles rostos e fatos. Nessa sensação não-dolorosa de ausência, tenho em mente apenas a consciência de uma queda, a minha.

 

Recuperei os sentidos encontrando-me deitado na cama de meu quarto, na minha casa da rua Pereira Nunes, 385. O que acontecera entre a rua Moncorvo Filho e a rua Pereira Nunes?

 

Abro os olhos e vejo meu pai, minha mãe, meus irmãos, minhas primas. Todos eles me olhavam como que espantados. Sorri para eles, principalmente para minha mãe que chorava; sorri como se lhes perguntasse por que aquele espanto geral. Eu lhes sorria, mas me parecia que não acreditassem no meu sorriso.

 

Depois de algum tempo de surpresa, me contaram. Que eu ficara sem sentidos por muitas horas, ainda que sempre capaz de demonstrar uma participação com o mundo exterior. Em seguida à queda no Salão Nobre, meus amigos logo me acudiram, carregando-me desmaiado para o pronto-socorro do Hospital Moncorvo Filho, felizmente ao lado da Faculdade. Já medicado, uma ambulância me levou para casa, ainda que eu permanecesse desacordado. Passadas algumas, muitas horas, acordei diante das lágrimas de minha mãe e dos olhos atônitos de todos aqueles que aguardavam o meu definitivo acordar.

 

Nos dias seguintes levantei-me, ainda que um pouco vascilante nas pernas e algo desorientado na vista diante daqueles espaços tão conhecidos e familiares do meu quarto, de minha casa. Levantei-me  e, pelo dr. Aristauziro, médico amigo da minha família, fui finalmente informado de tudo por que eu tinha passado: tinha sofrido um colapso consequente de um problema neuro-vegetativo. Meu estado de saúde geral era bom, mas a crise atual, que não era senão o climax de um processo de longo descontrole nervoso, mostrava que eu devia suspender por um longo período todas as minhas atividades e estudos. Devia sair do Rio para um lugar tranquilo, onde procurar de ajudar a terapia que me vinha prescrita. Eu olhava fixo para o dr. Aristauziro e compreendia que não podia senão integrar-me numa situação anormal, ainda que não imediatamente grave. Mas tudo dependia da manifestação de minha vontade. Diagnóstico e terapia estavam diante de mim e eu os acolhia com uma participação desde logo irrestrita.

 

Naqueles momentos surpreendentes também para mim, me sentia como que uma parêntese de mim mesmo; um viver como em suspensão, sentindo o corpo tomado por uma leveza até então desconhecida, leveza que me levava a contemplar-me de fora do meu ser mais íntimo. Tudo isso se fazia mais claro nos primeiros dias posteriores à quinta-feira de novembro da Faculdade, principalmente à noite. Deitado na minha cama estreita, eu não abria os olhos, mas mesmo assim via tudo. Via o teto de meu quarto que se movia e que parecia querer reduzir tudo a um ambiente cada vez menor e que me puxava para o alto ou descia sobre mim, oprimente e sufocante. Então meus olhos se abriam e se abismavam, mas eu não via nada mais de quanto não via antes.

 

As alucinações não cessavam e em determinado momento passei a duvidar que alguma coisa pudesse melhorarem mim. Mais eu ingeria pílulas do Gardenal prescrito, mais me parecia cair num abismo que me prostrava. Era como sentir-me atormentado a cada instante, numa participação consciente com o usurar-se sem fim das próprias forças, mais que físicas, mentais.

 

O tempo passava, chegara dezembro e eu nele ia como numa barca que navega sem destinação fixa. Aonde está o porto desta barca em que naufrago?

 

Pouco a pouco, quase inadvertidamente, comecei a esquecer de tomar as doses diárias de Gardenal. Não se tratava de um meu plano organizado, mas a verdade é que depois de diminuidas as doses fixadas, com o avançar de dezembro quase não ingeria nem uma pílula por dia.

 

Dezembro era belo, luminoso, cheio de cores e vozes que vinham da rua e entravam pela nossa casa, corriam por salas e quartos, janelas e portas. Então passei a não ter mais alucinações e me sentia como alguém que entra em férias, mudando todos os ritmos habituais. Tudo em mim mudou em serenidade, serenidade nos meus olhos, nos meus gestos, nas minhas falas. No meu pensar. Minha mãe sorria para mim e eu para ela. Meu pai conversava longamente comigo e eu com ele. Minhas duas primas estavam sempre atentas às minhas melhoras e eu brincava sempre com elas. Meus dois irmãos riam comigo, dizendo-me que era hora que eu saísse para viver as belas coisas que nos esperavam lá fora e eu lhes dizia que sim.

 

Os dias como que corriam; estávamos próximos do Natal. Eu iria passar o Natal em casa e logo depois partiria, deixando o Rio para uma recuperação no interior. Estava tudo marcado: partiria para Cambuci, onde me esperava o dr. Garchet, companheiro de batalhas políticas e amigo de meu pai. Devia ficar na sua casa por um tempo inderteminado, até quando não me sentisse de retornar à minha vida dantes. Eu iria para Cambuci para sair definitivamente daquele túnel fechado em que entrara, sem saber, mas como quem entra em si mesmo, pela exasperação de viver todas as coisas que o circundam e, mais, pela descoberta não procurada da vida que se faz como um espelho, em determinados momentos, côncavo; em outros, convexo. No espelho eu sempre via uma imagem que me assemelhava, mas que era um “eu” que se mostrava e se escondia, sempre defronte de meus olhos, mas também por detrás de mim mesmo – que o procurava.

 

Era assim que havia tempos eu vivia, me recordo. Talvez tudo vinha desde muito longe, talvez da minha insofrida tendência a exaltar aquela parte de mim gozosa do ser solitário em que me agasalhava. Ainda assim sentia a presença dos “outros” e deles recolhia muitas forças que, parodoxalmente, logo transferia à minha capacidade de solidão.

 

Foi quando aconteceu o conhecimento do amor. O que é o primeiro, vívido amor senão o máximo desejo de não mais transformar em força de solidão o encontro radical com o “outro”? Ela era a absoluta descoberta das coisas a partir da beleza de sua presença. Ela era mágica. Desde então, mesmo desconhecendo o mundo, com ela passei a saber tudo do mundo e me sentia pela primeira vez capaz de poder confundir-me nele, alegremente, sem por isso destruir o meu íntimo ser solitário.

 

A partir de 1952 vivi mais intensamente a minha gloriosa descoberta. 1953 passou que eu sentia que me aproximava à conquista daquela certeza de que não existia mais o choque do meu ser com as coisas, no meu estar-no-mundo. Mais do que nunca estudei tanto. Mas era tudo concreto, tudo destinado a alguma coisa. Estava por acabar meu curso de Filosofia, na Faculdade de Filosofia e Letras, e continuava aquele de Direito. Tudo me parecia possível, fosse intelectual que materialmente. 1954 foi um ano de totais esforços e eu me consumia neles, como o fazia na afirmação da relação amorosa. Porém, essa não era tranquila. Nela eu sabia de minha certeza e participação, mas na amada nem sempre as coisas corriam nos meus passos. Por isso, ainda que iluminado pelas coisas vividas, me consumia nelas.

 

O dia 31 de dezembro de 1955, o vivi sob uma sensação de um quase renascimento. Na casa do dr. Garchet me sentia bem, preso por uma tomada de consciência da tranquilidade que me parecia nova. O amigo de meu pai, logo que cheguei, compreendeu de imediato meu estado de saúde e procurou conduzir-me ao máximo de serenidade e não somente física. Quando lhe disse que a idéia de que na festa de seu aniversário e, ao mesmo tempo, do Ano Novo, eu deveria beber somente refrescos e refrigerantes, pois desde o início de minha crise me fora proibida toda e qualquer bebida alcoólica, isso me entristecia. Ele riu gostosamente de minha tristeza e me fez uma boa proposta. Disse-me:  também eu aprovo a restrição quanto a qualquer forma de álcool pelo tempo que será necessário para o seu restabelecimento definitivo, que não está longe, porém hoje, diante de tantas boas razões para festejar, acho que você pode fazer uma exceção e beber um pouco, juntamente com todos nós. A partir de amanhã e, de certa forma, em homenagem ao ano que começa, você fará o homem sério. O jantar e a festa em geral foram ótimos. Quando ressoou a meia-noite de 31 e entramos no Ano Novo, me sentia leve e quase em completa paz com o mundo. 1956 será um belíssimo ano; eu o espero.

 

Já agora, a partir desse 1º de janeiro, como acontecerá por muitos dias, estou aqui sentado na grande varanda da casa do dr. Garchet. Tudo ao meu redor é tranquilidade, mas não só silêncio. A rua, para a qual dá a varanda, vê passar a gente que passeia pela manhã, que acelera diversamente os passos nas horas mais quentes da tarde, a mesma gente que no entardecer retoma o ritmo calmo  das horas matutinas. Da varanda eu os vejo, homens e mulheres, rapazes e moças, crianças e velhos que passam pelas calçadas, aquela logo abaixo da varanda e a outra, na parte oposta da rua. No início de minha estada em Cambuci, a maioria deles me olhava com surpresa, até mesmo alguns com uma quase curiosidade. Com o repetir-se dos dias, com menos curiosidade e ainda mais tarde, sem qualquer demonstração de surpresa. Com a sucessão de manhãs e tardes, somente algumas moças passam, sempre em grupos de duas ou três, olhando-me, como sempre sentado e aparentemente absorto de tudo, na varanda da casa de dr. Garchet,em Cambuci. Elas passam e olham para mim, não escondendo risos e sorrisos cheios de vida e promessas indefinidas, tudo com muita graça, porque as moças de Cambuci são bonitas, muito bonitas e graciosas, isso eu o digo ao dr. Garchet quando ao entardecer, antes do jantar, ele vem sentar-se à varanda e conversamos muito.

 

Mas não posso senão homenagear de longe a graça das moças de Cambuci, pois os meus mais profundos pensamentos nesses dias de janeiro de 1956 não são para elas. Elas não sabem disso mas, ainda que muitas vezes eu retribua olhares e sorrisos, estou longe dali. Posso dizer que pela primeira vez sinto que viajo conscientemente na minha antiga solidão. Tudo se faz, desde um determinado momento, como uma programação racional, como uma cura estipulada não pelo meu médico, não pela assistência atenta do dr. Garchet, mas por mim mesmo. Nos dias de Cambuci me aplico a uma profunda e crítica auto-análise. Procuro endereçar ao meu caso pessoal todos os conhecimentos recolhidos no meu curso de Filosofia, recentemente concluído. E também pelas experiências feitas no meu primeiro ano de professor. Esse primeiro ano de ensino, em 1955, tinha sido de particular importância para o meu desenvolvimento intelectual e social. Ainda não completara vinte e quatro anos quando me vira, a partir de março e por todo o ano, com um contrato como professor de Filosofia num colégio feminino. Lembro-me de quando entrei, no primeiro dia de aulas, na sala do 3º ano do Clássico. Entrando, mais de trinta alunas disciplinadamente sentadas, percorri os vinte, trinta metros que separavam a porta da entrada à cadeira professoral, debaixo de mais de trinta olhares surpreendidos e logo como esvoaçantes diante do jovem professor de filosofia não previsto. O início do nosso diálogo foi uma insólita experiência, pois, mais que escutado, me sentia como que envolvido, revistado, mais que tocado pela luz, cor, vibrações daqueles muitos olhares de encanto.

 

O curso já chegara à metade e o primeiro encantamento assumira diversas formas de diálogo entre nós. Eu conseguira fazer com que a minha presença de professor de filosofia quase nada tivesse a ver com a minha objetiva presença jovem e a maior parte da classe desde então me via assim. Mas não todas as alunas se comportavam dessa maneira. O tema do curso que eu escolhera para as minhas aulas possivelmente ajudava tal disparidade de modos de confrontar-se das alunas para com o professor, estudávamos as noções gerais de “Psicologia do comportamento”. Um dia, uma das alunas, talvez a mais bonita da turma, levantando um braço, ficou em pé no seu lugar, no meio da sala, e dali me disse: “professor, acompanhando as suas lições, finalmente tive a certeza, apenas intuída antes, de que tenho muitos problemas psicológicos, principalmente quanto às escolhas que devo fazer para o meu comportamento pessoal. Queria lhe fazer um pedido: sabemos que o senhor tem o seu escritório no centro da cidade; eu poderia ser recebida ali pelo senhor num desses dias? Eu gostaria muito!”

 

Desde que acabara meu curso, com especialização em Psicologia, eu entrara num processo de dúvidas e de quase crise ética. A partir daquele momento seria um meu direito exercer a Psicologia, até mesmo clínica. Poderia e queria fazê-lo? Depois de muito refletir, decidi pelo não, porque não compreendia a atividade clínico-psicológica sem o apôio de uma específica formação médica.

 

Agora, nos dias de Cambuci, eu recordava e refletia sobre tudo isso. Resolvi então que para mim, num estrito plano pessoal, ainda que me faltasse a informação médica, seria possivelmente positivo experimentar uma terapia através da auto-análise psicológica. Logo convencido e determinado, procurei dar corpo à idéia e o faria partindo da retomada crítica da presença do ser solitário que me acompanhava desde a infância.

 

Chamo de “ser solitário” aquela predisposição de exaltar sobre todas as outras escolhas nas minhas relações com o “outro”, mesmo com os meus familiares, aquela de estar só comigo mesmo. Quando assim fazia, não é que excluia totalmente o “outro” e a convicção de não lhe dedicar qualquer atenção. Pelo contrário, quando me retirava na preferência da solidão, mantinha com simpatia viva a presença do “outro” ausente. Assim em mim, mesmo nos anos infantis ou no início de minha adolescência, eu não me sentia infeliz na solidão procurada e sempre preservada. Era alguma coisa de gaio aquele preferir o meu ser solitário.

 

Desta maneira foi pelos anos nos estudos, nas amizades que se reforçavam no gozar dos dias, os muitos dias da minha vida que, mais que dolorosa, era de certa maneira intensa naquele fluir de olhares para as coisas que partiam não de janelas abertas para fora, mas de um sentimento íntimo predominante de um “eu” volontariamente emparedado.

 

O grande choque foi quando a vi pela primeira vez. Ela era bela e gentil. Seus olhos e sorriso se incendiavam pelo rosto e eu recolhia a efervecência de beleza que dela vinha. O ser solitário que vivia em mim se fragmentou diante da revelação incontida de tudo que dela vinha.

 

A partir de então recolhi meus fragmentos gozosos, mas não sabia nunca aonde eu poderia chegar. Nela eu certamente crescia a cada dia e a cada momento me sentia como que feliz. Quanto mais me entregava ao gozo da descoberta, mais crescia. Porém crescia igualmente comigo a fragmentação vivida do antigo ser solitário que não conseguia saber se aquele encontro intenso fosse alguma coisa ligada à vida.

 

Nos longos dias de Cambuci, procurei o mais criticamente possível com os meus incipientes conhecimentos científicos decifrar os significados do fenômeno do primeiro-amor na vida de um homem para, posteriormente, verificar a incidência do mesmo no meu comportamento psicológico. O projeto de grande ambição e de quase dimensão narcisística deveria chegar ao plano de uma possível terapia em relação à incidência positiva ou negativa do dito fenômeno para a minha vida pessoal.

 

Quanto mais eu avançava na análise, mais se exaltava a minha sensibilidade em relação às coisas e às pessoas. Em determinado momento temi cair num estado de absoluta exaltação nervosa e passei a lutar para não ceder à ilusão visionária que se escondia por detrás de minhas descobertas. Muitas vezes me sentia como que drogado, sem haver ingerido senão água e o doce puro ar da brisa vinda do Paraíba que passa indiferente por Cambuci na direção de sua foz distante.

 

Assim foi por muitos dias naquele janeiro de 1956, até que cheguei às primeiras conclusões de minha auto-análise. Despojado de qualquer certeza, decidi então que em relação a toda a minha experiência até então vivida eu não podia agir senão procurando retomar os muitos fragmentos de meu ser solitário e reformular drasticamente a exaltação amorosa em que eu vivia, ao ponto de considerá-la somente quando não se mostrasse em coalisão com a grande presença que viria sempre afirmada, a do “eu” centralizador de todo o meu ser, ainda que eu soubesse que a partir de então esse mesmo “eu” se apresentava para sempre fragmentado.

 

Depois de assumida a consciência da relativização do amor em favor do  meu “eu”, pude chegar mais facilmente a saber o que fazer para evitar que acontecesse uma recaída da crise que me levara a Cambuci. Assumi então a difícil decisão de que a terapia para um complemento da cura passava pelo meu sistema comportamental, visto na sua generalidade: no lugar da predisposição ao monossilabismo passarei à mais possível larga comunicação verbal; invés da predileção absoluta pelo silêncio, a participação com as tantas vozes que me circundam; à indiferença, quase fuga, integração com o mundo; às tensões, procura da melhor dimensão de serenidade; ser feliz, indiscutivelmente feliz, e para isso sacrificar muitos dos valores até então considerados como inalienáveis; mas igualmente manter a atenção, toda a atenção possível, num grau mínimo ou numa dimensão ilimitada, ao “outro”, ainda que sempre uma atenção subordinada ao predominante valor do “eu” pessoal. Por exemplo, me propunha a mim mesmo, mas pensando em especial à atenção passageira exigida pelas nossas relações quotidianas, assim comportar-me ao ponto de não mais fugir às festas, aos encontros simples, às relações superficiais; até mesmo de não mais evitar dançar, mas sim de transformar-me num incansável e formidável dançarino de valsas tangos rumbas sambas.

 

De repente passei a sair da varanda da casa do dr. Garchet para passear pelas ruas de Cambuci, até a pracinha central, com seus belos bancos de mármore e o elegante coreto em estilo belle èpoque. As moças e senhoras que passeavam também elas me olhavam surpreendidas, enquanto eu tudo contemplava, no gozo da brisa que vinha do Paraíba vizinho e do sorvete de manga que sublinhava o meu distraído caminhar.

 

Eram os últimos dias de janeiro de 1956. Então me despedi do dr. Garchet e de sua familia. Tomei o trem de volta para o Rio.

 

Estou no trem que corre e recordo em repouso quanto já passei. Agora tudo parece novo. Certamente me sinto sereno, mas sinto igualmente que algo em mim se fez diverso, como uma diversa agitação, não como me acontecia antes da crise de novembro. Verdadeiramente, não se trata de agitação, mas de uma espécie de estado de alerta que me leva a ver as coisas e as pessoas de maneira nova. Mais intensamente. Logo distingo aqueles que vão sem pensamentos, daqueles que trazem dentro coisas vividas e que teimam em não passar. Muitas vezes me sinto atraído e envolvido por tudo isso como se fosse num jogo comigo mesmo.

 

 

 

 

 

 

 

publicado por Augusta Clara às 22:00
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