Terça-feira, 28 de Junho de 2011

Um Novo Coração 36 - Sílvio Castro

 

Sílvio Castro  Um Novo Coração

 

 

Capítulo 36

 

Arco, 7ª jornada, 16/02/05

 

Chegou-me o novo companheiro de quarto, como previsto. Ele se chama Roberto, simplesmente Roberto, pois assim logo me diz que queria ser chamado. Trata-se de um homem ainda jovem, de pouco mais de quarenta anos, comerciante e originário de Rovereto. Muito cordial, desde o primeiro momento procurou estabelecer uma relação aberta comigo, pedindo que eu lhe indicasse como deveria comportar-se como segundo ocupante do quarto. Ao seu lado está sempre a sua mulher, ativa em preparar todas as coisas indispensáveis à recuperação do marido. Ela trouxe uma bandeja de diversos doces, fazendo uma como festa de inauguração. Insistiram muito comigo, convidando-me a participar com eles da festa, mas eu não posso dar-me ao luxo de comer doces nesses tempos de constantes verificações do grau de minha glicemia. Mas conversamos muito, estabelecendo um relacionamento muito cordial que se prolongou pelos dias adiante e em todas as horas de nossa coabitação momentânea. Ao contrário de Costa, Roberto circula muito pela “Casa de Saúde” e durante as visitas da mulher, preferem estar com outros amigos no grande salão do bar.

 

Assim transcorriam as minhas horas diárias com um novo ritmo sereno. Meus exercícios respiratórios continuavam com progressos vistosos. Já começava a movimentar as três bolinhas com relativa facilidade, todas as três, levando-as como previsto pela regra geral, e simultaneamente,em alto. E assim sentia melhorar a cada dia a minha respiração.

 

Os exames de recuperação se alargavam. Passei a frequentar não somente os instrumentos do sub-solo, mas igualmente a palestra do terceiro andar. Neste andar estão  colocados os mais diversos serviços da “Casa de Saúde” e, caminhando pelos seus corredores, lendo as placas nas portas sempre fechadas de cada setor ou serviço, podia imaginar o que existiria por detrás delas. Além do ginásio de ginástica, local de reabilitação para todos os tipos de internados, tanto os cardiopáticos, quanto os com problemas motores, vejo o de exames de eletrocardiograma, de holter, aquele outro para provas de esforço, um mais para atividades cardiológicas de relax, um maior para atividades respiratórias especiais e, subindo uma escadinha de encontro ao teto, numa mansarda ampla, o espaço de técnicas de relax e de encontros com os especialistas em psicologia. Nesse mesmo andar estão vários consultórios médicos de diagnóstica, ecocardiografia, de testes ergométricos, de respirometria e de hemo-análises. Naturalmente a minha recuperação não exigia o uso de todos eles… Completam o andar os ambulatórios 4 e 5. No 4 estão os serviços de angiologia, psicologia, radiologia; no 5, o cirúrgico, o otorrino, o de urologia e o psiquiátrico.

 

Agora, caro amigo leitor, venha comigo, porque devemos voltar para o setor de ginástica. Quero que você veja diretamente o que ali aconteceu comigo em vários e movimentados momentos.

 

Começo pela bicicleta. Nunca andei de bicicleta e naturalmente nunca tive uma. Cresci convivendo com esta e outras carências de objetos convencionalmente comuns ao crescimento de toda criança de classe média. Quanto à falta de bicicleta, essa não me provocou jamais particulares complexos de inferioridade em confronto com os meus amigos e colegas ciclistas. O mesmo não posso dizer do fato de não ter aprendido a nadar.

 

Devo às muitas bolas de futebol que tive a capacidade de não sentir-me inferior pelas ausências de outros recursos de jogos. Com a bola e com a prática do futebol pude vencer todas as minhas possíveis faltas de brinquedos ou de objetos de várias naturezas. Já aos meus sete anos ela era a minha companheira de todos os dias. Houve um período em que joquei por mais de 5, 6 horas diárias, nas ruas principalmente, mas também em campos de verdade.

 

Como nunca andei de bicicleta, quando comecei o meu exercício de recuperação no setor A, encontrei dificuldades até mesmo para colocar bem os pés nos pedais. Mas logo aprendi como fazer e comecei os exercício na cyclette, a bicicleta fixa. Eu devia pedalar por vinte minutos, com intervalo no décimo. Antes de começar o exercício, a enfermeira me mediu a pressão, tendo sido a mesma retomada no intervalo e no final do mesmo. No início, as minhas pedaladas eram lentas; porém, conquistada a consciência da melhor técnica, logo melhorei e assumi um ritmo bom, mantido até o final da minha corrida ideal. Eu corria parado, mas era como se corresse de verdade, pela primeira vez. Quando a enfermeira tomou a minha pressão, inicialmente essa era de 13/9, em conformidade com a minha habitual. Corri por dez minutos e os quilômetros hipotéticos vinham superados com tranquilidade. Era como se eu tivesse sempre andado de bicicleta. Terminado a primeira etapa, nova tomada da pressão, com resultado igual ao da partida. Corri mais, corri tranquilo, pedalando estático na sala, mas como que subindo pelas colinas de Arco, respirando o ar bom que de perto vinha das muitas plantações e jardins; de longe, das águas do lago de Garda. Terminada a corrida, desci da bicicleta, a enfermeira verificou de novo a pressão, 13/9. Revesti-me com a minha bela roupa de ginástica azul-marinho e, muito satisfeito, saí do ginásio com intenções de descer até o bar do andar-térreo. Desci pelas escadas muito contente comigo mesmo.

 

 

 

publicado por Augusta Clara às 22:00
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