Domingo, 26 de Junho de 2011

Um Novo Coração 34 - Sílvio Castro

 

Sílvio Castro  Um Novo Coração

 

 

Capítulo 34

 

 

 

Arco, 5ª Jornada, 14/02/05

 

 

 

Todos os dias desço para as refeições, porém os dietistas da “Casa de Saúde” já nos primeiros momentos de minha internação me prepararam uma espécie de decálogo pessoal para a minha alimentação. Como em geral acontece com os decálogos, esse era principalmente restritivo e o pouco que concedia ao meu epicurismo praticamente não podia ser notado, afogado que era nas vagas das restrições. Em verdade, não é que eu sofresse demasiado com a coisa, pois desde há muito eu vivia um período de quase indiferença pelos prazeres ligados ao paladar. Nesses meus dois últimos meses, almoçava e jantava com uma participação próxima ao espírito estóico. Comia sim, me empenhava em não ficar enfraquecido, mas o fazia sem exaltar-me, mesmo quando me encontrava por acaso diante de alguma especialidade culinária antes a mim grata. Porém, ainda que assim acontecesse por todo aquele já longo período que vinha do começo de janeiro, diante da mesa para o paciente em tratamento, acontecia que me sentia como que ofendido pela restrição visual relacionada ao objetivo plano quantitativo e, em consequência, com mais complicadas reações quanto à maior ou menor adesão à qualidade gustativa dos pratos com os quais em geral me confrontava quase que com desgosto. No fundo se tratava da repetição de um velho comportamento: eu sempre comi moderadamente, ainda que desde sempre frequentador assíduo de restaurantes. No entanto, de modo particular em casa, quando diante de mim aparecia servida uma refeição de quantidade visivelmente pequena, então eu passava a reagir com um sentimento de ofensa sofrida, como se tivesse fatalmente necessidade de pratos fartos. Assim acontecia quase sempre também à mesa da “Casa de Saúde”.

 

Tudo isso eu via como uma culpa daquela espécie de decálogo alimentar que logo criaram para mim. A causa das restrições com os quais esse sistema se justificava partia de uma predisposição pós-operatória à intolerância glucídica que, segundo os exames quotidianos, eu apresentava. Para não aumentar minha taxa glicêmica e, em consequência, para evitar, entre outros males possíveis, que eu aumentasse de peso, nasceram as regras ideais para meu comportamento à mesa, regras que se traduziam principalmente em limitações e restrições. Caro leitor, agora leiamos juntos todas essas regras e então também você verá que eu tenho razão em lamentar-me. Ei-las, numa possível sintese:

 

EXCLUIR o consumo de açúcar, mel, marmelada, chocolate. Para adoçar, “Aspartame”: uma compressa adoça como uma colherzinha de açúcar.

 

PÃES, MASSA E PRODUTOS DE FORNO: preferir pão não saboroso e massa integral (as fibras diminuem a absorção dos carboidratos), numa quantidade de 60/80 gr. de massa no almoço e 30 gr. no jantar. A massa deve ser acompanhada por molhos simples, de tomate ou de verduras diversas, completadas com uma colherzinha de queijo parmesão. Quanto ao pão: 3 pães pequenos por dia (50 gr. no café-da-manhã; 30/40 gr. no almoço e no jantar). Evitar biscoitos e brioches, ricos em gorduras saturadas. Evitar igualmente os cornflakes, porque se apresentam com um índice de açúcar elevado.

  

LEGUMES: limitar o consumo de batatas e cenouras (sempre o famoso índice glicêmico elevado…) Ocasionalmente, 100 gr. de batatas podem substituir 30 gr. de pão insípido. Recomedado o consumo diário de uma quantidade abundante de verdura crua e/ou cozida, seja no almoço, seja no jantar. Leguminosas como feijão, petit-pois, lentilhas, frescos ou congelados (150 gr.) ou secos (40 gr.) podem substituir ou completar os pratos de massas. Quanto às frutas, sempre aquelas frescas da época. Evitar uva, figos, caquí, bananas, frutas em conserva. Quantidade aconselhada: 2-3 porções diárias correspondentes a 150-200 gr.

 

PRATOS FORTES: Variar entre carne magra, branca ou vermelha, peixes de todos os tipos, três ou quatro vezes por semana; ovos, duas vezes por semana, e mais bresaola, presunto ou speck magro, queijo (2 vezes por semana, porém lembrar-se que  não existem queijos magros!).  Para molhos complementares, permitido o azeite puro, sempre cru, não mais de 3 colheres diárias.  Não, absolutamente não! quanto a manteiga, margarina. Leite, 200 gr. pela manhã, com café ou chá, ou senão iogurte natural com 100 gr. de fruta fresca.

 

BEBIDAS: evitar refrigerantes de frutas, bebidas com gaz (senão, o c a s i o n a l m e n t e, escolher bebidas light   <caro leitor, não escrevo aqui os nomes dessas bebidas multinacionais para não alargar a prepotência publicitária das mesmas…>, aperitivos, licores). No caso de permissão do médico, é possível tomar um copo pequeno (120 ml) de vinho, no almoço e no jantar. Ah! meu amigo leitor, você logo vai ver que em determinado momento e isso na última semana de minha estada em Arco, certamente como  sinal de minha melhor recuperação, assumi tal velada hipótese e passei a tomar meu vinho tinto, superando uma dura e longa abstenção.

 

Depois de tudo isso, de todo esse quadro de acentuada desolação, a dietista que assinou o meu decálogo concluia a sua sentença dizendo:  se recomenda a manutenção do peso corpóreo ideal (kg 64)…

 

Só eu sei, porque desses eventos nada disse a ninguém antes de você, caro leitor amigo, como passei os dias da recuperação. Não era tanto porque não comia ou bebia como poderia desejar, mas pelo sentir que meu corpo se fazia cada dia mais leve, mais leve. Então, nas minhas muitas preocupações nas noites indormidas da “Casa de Saúde” me vinha a lembrança e a saudade de minha mãe. Ela, quando eu chegava depois de uma longa ausência, enquanto me abraçava e beijava, me contemplava de cima a baixo   Sílvio, como você emagreceu! você está muito magro, meu filho! precisa comer mais.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

publicado por Augusta Clara às 22:00
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