Quinta-feira, 23 de Junho de 2011

Um Novo Coração 31 - Sílvio Castro

 

Sílvio Castro  Um Novo Coração

 

 

Capítulo 31

 

 

 

Arco, 2ª jornada, 11/02/05

 

 

 

Desde as 6 da manhã desta sexta-feira que é hoje, espero pelos eventos que quero afrontar num primeiro dia intenso de meu período de recuperação. Estou pronto para confrontar-me com as diversas experiências que me aguardam e, depois de ter feito a  barba e tomado o banho de chuveiro, como sempre faço na expectativa da alva que teima em não anunciar-se, aguardo a chegada dos enfermeiros para os exames de todos os dias. Logo  chegam e com eles a certeza de que a manhã começa. A primeira enfermeira chega com o termômento e logo se vê que a minha temperatura corpórea é sempre normal, 36º. A segunda, uma panamense que me fala em espanhol,  ¿Usted me comprende? Sí, ciertamente, señorita!   Todos os dias ela recolhe o meu sangue – e em determinado período a recolha será intensa e repetida, às horas 11, 14, 18, 21, o mesmo sendo feito com a urina, com resultados exemplares como: glicemia fracionada, às 11, 250 mg%; às 14, 219; às 18, 101; às 21, 108; quanto à urina, em todas as horas, resultado negativo - para o teste de glicemia e também, mas em dias alternados, com uma grande balança ambulante, nos pesa a todos. Chega uma terceira, esta igualmente uma estrangeira, mas comunitária, vinda da Polônia e  que fala perfeitamente o italiano; me toma a pressão: 13 e 9, tudo bem. Mais tarde passará o médico de turno para a visita quotidiana, mas sem horário certo. Por isso mesmo, muitas vezes não o espero e saio para os meus passeios indispensáveis à minha sede de deambulação, deixando aos alto-falantes a incumbência de reclamar pela minha presença. Hoje, como sempre, anseio por deixar a cama e poder descer para o café da manhã, que começa às 8. Entro no refeitório, numa sala menor, onde encontro a mesa que me é destinada definitivamente e que deverei dividir com um outro paciente. O meu companheiro de mesa não chega antes que eu tenha terminado de tomar o suco de fruta e o chá insípido, comer as frutas quase todas, desde a maçã até a pera e as tangerinas, mastigado sem prazer o pão fresco e uma ou duas fatias de pão-tostado. Não tenho muita fome e logo deixo o meu lugar para procurar conhecer melhor o ambiente. Antes de sair leio o menu do almoço: sopa de legumes com aveia, filé de truta “ai ferri”, vagens ao vapor, verdura crua, fruta, pão integral. Sei que posso modificar em alguns pontos o menu, se assim o desejar, basta ir numa sala ao fundo do corredor onde está uma funcionária e o seu computador que tudo pode registrar. Quando me levanto, a idéia que me guia é ir até lá, mas o faço com lentidão, passando primeiro pelo setor dos jornais, onde procuro L’Unità –  não tem mais, o único exemplar que tínhamos foi logo comprado por um outro senhor. Amanhã como primeira coisa devo procurar o jornal antes que o vendam. Deixo a jornaleira e começo a caminhar pelo corredor em meio aos grupos alegres de cardiopáticos e pacientes de problemas motores que conversam, olham as vitrines das butiques, as várias butiques da “Casa de Saúde”, que expõem à venda os mais diversos objetos e mercadorias para uma melhor, mais agradável permanência nesse hotel, centro comercial, hospital, todos em busca da recuperação da saúde abalada. Nota-se, desde uma primeira vista, que no ângulo mais visível do passeio interno encontra-se instalado um grande serviço automático “24 Horas” para quem precisar de todo e qualquer tipo de câmbio bancário. Também eu admiro as vitrines, gozando as ofertas de roupas especiais para a situação aqui vivida, roupas de ginástica de todas as cores, roupões, robe-de-chambre, chinelos, sandálias, tênis das mais diversas marcas e preços; e ainda toalhas, perfumes, sabonetes, cremes para a pele, cremes para a barba. Admiro com particular atenção determinados tipos de meias especiais, de uso  para as pernas inchadas. Penso em minhas pernas depois de liberadas dos ferrinhos da operação e que agora se apresentam grossas, duras, com difícil circulação, os pés com uma inchação teimosa. Leio o preço das meias, 35 euros, nada barato. Mas entro, provo, logo as compro e visto uma par delas. Saio e caminho de novo pelo corredor; me parece que meus pés riem de alegria.

 

Na sala aos fundos a funcionária com o computador acerta com uma multidão de pacientes, verdadeiramente tranquilos, mas curiosos, as possíveis modificações dos menús. Ela fornece a cada cliente uma lista dos pratos alternativos que podem ser escolhidos e que custam um quase nada – porém, caro leitor, nesse momento eu não lhe faço ver a lista alternativa, será para uma outra oportunidade, isso porque resolvi que não vou fazer qualquer variação ao menu de hoje. Tenho pouca fome e me são mais importantes outras coisas. Daqui a pouco, às 11 horas começam os exercícios respiratórios que muito me interessam. Quero respirar melhor, quero respirar o ar frio desse inverno, subir as montanhas, caminhar, correr sem cansaço como fazia quando corria para as conquistas dos gols e então não me detinha nenhum adversário pegajoso. Livremente, quero correr livremente.

 

Pego o elevador e com ele desço para o andar subterrâneo. Aqui está o salão C, dos exercícios repiratórios. Entro no salão, sou o primeiro a chegar, o fisioterapista me acolhe alegremente, quase como um esportista, e toma nota de meu nome. Logo em seguida começam a apresentar-se os outros pacientes, todos cardiopáticos. A maioria são idosos, alguns jovens. Eles parecem um pouco atemorizados com a novidade, mas logo o fisioterapeuta os tranquiliza. Dentre os mais velhos, um homem e uma senhora de belos cabelos brancos branquíssimos são os mais chocados com a impossibilidade que denunciam de fazer qualquer exercício físico. Todos nós os consolamos e incentivamos a começar a experiência. Os exercícios são de dois tipos: gestual, o primeiro; mecânico, o segundo. O fisioterapeuta convoca a atenção de todos para os seus gestos que em seguida deveremos repetir numa sequência de dez operações, com intervalos de repouso. Distende lateralmente os braços; com a boca fechada, faz uma profunda inspiração partindo do estômago, com contrações dos músculos abdominais, até chegar aos pulmões. Em seguida, libera a respiração pela boca e pelas narinas. Quando começamos o exercício, mais do que nunca compreendemos como as pessoas em geral não sabem respirar e como quase nunca usam os músculos abdominais para fazer com que o processo de melhor intensificação respiratória parta de muito longe, e não só e imediatamente dos pulmões. O exercício mecânico se faz com um aparelho muito simples que vem dado gratuitamente a todos e que deverá servir para uma continuação indefinida dos exercícios, mesmo depois do período previsto para a permanência na “Casa de Saúde”, isso porque é recomendado que devemos repetir a cada dia em privado, por um total de cinquenta vezes, em cinco etapas de dez cada uma, os nossos exercícios. Simpatizo com o método porque logo penso que ele é concebido como uma ginástica respiratória fortemente passível de condicionamento por parte de uma vontade individual ativa. O aparelho é dividido em duas partes: a primeira é um tubo azul de plástico macio, de30 cm, que termina em um bocal branco, também esse de plástico, porém mais duro, pelo qual se inspira profudamente e se respira para fora da boca, prolongadamente. O tubo azul se liga e fixa-se numa estrutura incolor de plástico duro, de10 cmde altura, dividida em três espaços, cada um contendo internamente uma bolinha de plástico, sendo as três de cores diferentes. A primeira é cinzenta-clara; a segunda, cinzenta mais escura; a terceira, cinzenta-escura. O exercício consiste em fazer subir as três bolinhas até o alto dos 10 centímentros. Para conseguí-lo o paciente deve, para elevar a primeira bolinha, cinzenta-clara, realizar uma aspiração de 600 cc por/seg.; para a segunda, 900 cc; para a terceira, a cinzenta-escura, de 1200 cc p/seg. Assim como para quase todos é relativamente fácil levantar a primeira bolinha, logo acompanhada pela segunda, mais difícil é fazê-lo com a terceira. Agora, caro leitor que me acompanha com continuada atenção, quando escrevo tudo isso e ao mesmo tempo me vejo aspirando pelo tubo azul, conseguindo depois de exercícios vários levantar por 20, 30, 50 vezes as três bolinhas, gosto de pensar que você também está fazendo o mesmo exercício e assim rodopiamos juntos e felizes, sentindo o ar puro que brota dos nossos pulmões e nos inebria.

 

Já que estamos integrados com forte empenho no exercício respiratório, quero lhe dizer ainda, caro leitor, que em seguida fui realizar um exame médico muito interessante nesse sentido, o do aparelho nasal, em procura do estafilococo nasal. O êxito final foi: narina dx: negativo; narina ex: negativo.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

publicado por Augusta Clara às 22:00
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