Quinta-feira, 16 de Junho de 2011
PAULO PORTAS MINISTRO? - por General Pezarat Correia

PAULO PORTAS MINISTRO?

 

Ana Gomes provocou uma tempestade mediática com as suas declarações sobre Paulo Portas. Considero muito Ana Gomes, uma mulher de causas, frontal, corajosa, diplomata com muito relevantes serviços prestados a Portugal e à Humanidade. Confesso que me escapa alguma da sua argumentação contra Paulo Portas e não alcanço a invocação do exemplo de Strauss-Kahn. Mas estou com ela na sua conclusão: Paulo Portas não deve ser ministro na República Portuguesa. Partilho inteiramente a conclusão ainda que através de diferentes premissas.

Paulo Portas, enquanto ministro da Defesa Nacional de anterior governo, mentiu deliberadamente aos portugueses sobre a existência de armas de destruição maciça no Iraque, que serviram de pretexto para a guerra de agressão anglo-americana desencadeada em 2003. Sublinho o deliberadamente porque, não há muito tempo, num frente-a-frente televisivo, salvo erro na SIC-Notícias, a deputada do CDS Teresa Caeiro mostrou-se muito ofendida por Alfredo Barroso se ter referido a este caso exactamente nesses termos. A verdade é que Paulo Portas, regressado de uma visita de Estado aos EUA, declarou à comunicação social que “vira provas insofismáveis da existência de armas de destruição maciça no Iraque” (cito de cor mas as palavras foram muito aproximadamente estas). Ele não afirmou que lhe tinham dito que essas provas existiam. Não. Garantiu que vira as provas. Ora, como as armas não existiam logo as provas também não, Portas mentiu deliberadamente. E mentiu com dolo, visto que a mentira visava justificar o envolvimento de Portugal naquela guerra perversa e que se traduziu num desastre estratégico. A tese de que afinal Portas foi enganado não colhe. É a segunda mentira. Portas não foi enganado, enganou. Um político que usa assim, fraudulentamente, o seu cargo de Estado, não deve voltar a ser ministro.

Mas já não é a primeira vez que esgrimo argumentos pelo seu impedimento para funções ministeriais. Em 12 de Abril de 2002 publiquei um artigo no Diário de Notícias em que denunciava o insulto de Paulo Portas à Instituição Militar, quando classificou a morte em combate de Jonas Savimbi como um “assassinato”. Note-se que a UNITA assumiu claramente – e como tal fazendo o elogio do seu líder –, a sua morte em combate. Portas viria pouco depois dessas declarações a ser nomeado ministro e, por isso, escrevi naquele texto: «O que se estranha, porque é grave, é que o autor de tal disparate tenha sido, posteriormente, nomeado ministro da Defesa Nacional, que tutela as Forças Armadas. Para o actual ministro da Defesa Nacional, baixas em combate, de elementos combatentes, particularmente de chefes destacados, fardados e militarmente enquadrados, num cenário e teatro de guerra, em confronto com militares inimigos, também fardados e enquadrados, constituem assassinatos. Os militares portugueses sabem que, hoje, se forem enviados para cenários de guerra […] onde eventualmente se empenhem em acções que provoquem baixas, podem vir a ser considerados, pelo ministro de que dependem, como tendo participado em assassinatos. Os militares portugueses sabem que hoje, o ministro da tutela, considera as Forças Armadas uma instituição de assassinos potenciais». Mantenho integralmente o que então escrevi.

Um homem que, com tanta leviandade, mente e aborda assuntos fundamentais de Estado, carece de dimensão ética para ser ministro da República. Lamentavelmente já o foi uma vez. Se voltar a sê-lo, como cidadão sentir-me-ei ofendido. Como militar participante no 25 de Abril, acto fundador do regime democrático vigente, sentir-me-ei traído.

 

Junho de 2011-06-13

 

PEDRO DE PEZARAT CORREIA



publicado por Luis Moreira às 11:00
editado por Carlos Loures às 11:40
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5 comentários:
De Carlos Loures a 16 de Junho de 2011 às 11:31
Concordo inteiramente com o General Pezarat Correia que, no entanto, não fez lista exaustiva dos motivos que deviam impedir Paulo Portas de integrar qualquer equipa ministerial. Há outras questões no seu curriculum que, ainda que não tendo sido provadas em juízo, não são abonatórias da sua integridade moral e da sua fidelidade à República. E, no entanto, a comunicação social, sempre tão ávida de notícias sensacionais (escabrosas, se possível) faz silêncio sobre o caso, quando não mesmo bloqueia a informação sobre ele. No comunicado da A25 , não gosto do branqueamento feito sobre a posição do Diário de Notícias. Se em vez de o signatário ser o General, fosse um cidadão comum a assinar o texto, o jornal teria exercido a função censória. Balsemão, por exemplo, que em 2003 pôs Felícia Cabrita a organizar um dossiê sobre Portas, está calado desta vez. E assim vai este simulacro de democracia.


De Carlos Loures a 16 de Junho de 2011 às 11:38
Ficou um raciocínio por completar. Do que de pouco abonatório não ficou provado em juízo, a simples dúvida é, em qualquer democracia do tipo da que temos, motivo para impedir o acesso a qualquer cargo. Dominique Strauss-Kahn ainda não foi condenado , mas o seu percurso político terminou. Em Portugal, criminosos evidentes, quando não condenados por questões processuais, pavoneiam-se, exibindo uma «inocência» que não engana ningué.


De Pedro Godinho a 16 de Junho de 2011 às 11:50
Retribuição, era pôr o Paulo na Lavoura.


De Luis Moreira a 16 de Junho de 2011 às 15:05
E, quando, Paulo Portas, em cerimónia militar, fez esperar as tropas em formação 2 (duas) horas enquanto mastigava pastilhas elásticas...


De Augusta Clara a 16 de Junho de 2011 às 15:41
Apoio completamente e sentir-me-ei traidíssima , como, aliás, já me senti noutras vezes.


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