Quinta-feira, 16 de Junho de 2011

A Cidade da juventude - Shenzhen, China - Robert Weil - Monthly Review, Junho de 2008.

enviado por Julio marques Mota

 

Ganhos mínimos

Na altura em que estávamos a visitar a cidade, a situação começou a mudar, devido às crescentes pressões sobre o governo, a organização do trabalho oficial, e as empresas. Em parte, este resultado devia-se ao facto de cada vez mais e mais trabalhadores "votarem com os pés". Durante alguns meses antes de nossa visita, houve relatos de um movimento inverso de trabalho a sair para fora das regiões costeiras ou à procura de empregos nas fábricas que estavam a surgir no interior ou até mesmo de regresso às aldeias. Deu-se então uma mudança nas políticas nacionais, incluindo o fim do principal imposto sobre a terra agrícola, que tem permitido a redução de alguns dos piores encargos económicos e tornado a agricultura parecer mais uma vez mais viável.                                                                                                                                    

 

Algumas das empresas estão a mover-se do litoral para o interior, tanto para acompanhar a força de trabalho como para tirar partido das menores remunerações salariais e de outros incentivos que as autoridades oferecem no interior. Outras empresas estão a deixar completamente a China, deslocalizando-se para o Vietname, entre outros países vizinhos, numa "corrida para o fundo" ao nível dos baixos salários e das más condições de trabalho. Mas, apesar de inúmeras histórias sobre a forma como se paga em Shenzhen e como outras zonas baseadas principalmente no sector exportador foram assim também criadas, o efeito tem sido muito marginal, de acordo com aqueles com quem nós conversámos, em parte devido à capacidade das fábricas em se movimentarem.

 

Embora possa haver bolsas de falta de trabalho, em especial de trabalhadores mais qualificados, o declínio nas forças migratórias costeiras não deve ser exagerado, uma vez que novos trabalhadores das áreas rurais continuam a afluir à cidade, onde quase todo e qualquer nível de remuneração nas fábricas ultrapassa o que podem ganhar se voltarem para casa. Na Foxconn, como noutras empresas dominantes em Shenzhen, uma multidão de jovens ainda lhes rondam a porta à procura de um emprego. Muitos têm formação específica para estes trabalhos e precisam de encontrar rapidamente trabalho para poderem pagar a sua formação.

 

Entre aqueles que encontrámos, estavam vinte e cinco migrantes muito jovens da província de Hunan rural, que tinham acabado de sair de dois mini-autocarros que os trouxeram para a cidade. Eles pareciam ter apenas quinze ou dezasseis anos de idade e alguns pareciam ainda mais jovens.

 

Uma vez que a idade legal mínima para o trabalho nas fábricas é de dezasseis anos, eles disseram que era "isso". As suas vagas respostas eram compreensíveis e suspeitas — é fácil conseguir documentos falsos num país onde a pirataria de todos os tipos, incluindo documentos falsos, existe por toda a parte. A maioria dessas pessoas recém-chegadas à procura de trabalho tinham apenas uma mala ou uma mochila, junto com um balde com produtos de limpeza e outras coisas para a vida diária. Tinham pago dez mil yuan por dois anos de formação técnica básica numa escola profissional. Aí estudaram computadores, reparação de produtos electrónicos e inglês. Vieram para Shenzhen com o responsável angariador e dois assistentes, que os iriam ajudar a encontrar emprego. Quando questionados acerca do facto de eles próprios estarem na cidade, um deles citou um velho ditado acerca de "viajar nos lagos e montanhas". Todos disseram que tinham saudades de casa.

 

Com novos candidatos a um emprego como estes a chegar todos os dias, o movimento ascendente dos salários é relativamente limitado. As taxas de remuneração de base legal são definidas pelo governo de Shenzhen, embora algumas empresas ofereçam salários mais altos para atrair e manter os trabalhadores. Mas há, no entanto, forte pressão e crescente para que as autoridades locais que por mais de uma vez ao longo dos últimos anos aumentaram o salário mínimo — já é um dos dois mais altos no continente, junto com Xangai — o voltem a fazer. Muitas empresas, no entanto, já tinham encontrado maneiras de evitar os efeitos das exigências legais de maior remuneração. Na Foxconn, por exemplo, tenta reduzir-se a quantidade de trabalho extraordinário nos termos da lei dos novos salários mínimos, e de acordo com uma ONG de direitos do trabalho, "até mesmo o subsídio de habitação está em perigo. Cerca de 2 000 empregados já teriam deixado a fábrica depois de saberem que seriam cobrados pela ocupação dos seus quartos... logo que se determinou que aumentasse o salário" (San Francisco Chronicle, 16 de Julho de 2006).

Activismo crescente

Sem a sindicalização dos trabalhadores, uma larga parte da enorme massa de trabalhadores migrantes não tem protecção eficaz. As organizações de trabalhadores independentes são proibidas e tem que haver um enorme trabalho "underground". Os sindicatos patrocinados pelo governo, a única alternativa disponível, têm largamente falhado no que respeita aos trabalhadores migrantes. Há alguns dentro das fileiras da Federação oficial que têm assumido as suas responsabilidades a sério. Mas, em geral, a central sindical tem sido passiva em face da resistência dos empregadores e tem vindo, juntamente com os sindicatos de empresa, a assumir uma "abordagem" hierarquizada de cima para baixo, fora das bases. Esta atitude por parte dos sindicatos oficiais é um resquício de seu papel sob o socialismo, quando tinham uma palavra significativa a dizer quanto à forma como as fábricas estatais deveriam funcionar e quando serviam como "correias de transmissão" entre trabalhadores e direcção, ajudando a administrar um conjunto total de benefícios ao longo de toda a vida, como a habitação, a saúde e benefícios educacionais e de emprego e ainda garantias de reformas — o chamado "iron rice bowl".

 

Uma vez que o sistema socialista foi desmantelado, os sindicatos ficaram, contudo, como o próprio governo, com o poder de monopólio, mas nem com a responsabilidade de garantir a segurança e o bem-estar dos trabalhadores, nem sequer com as típicas funções contratuais e de activismo típico do modelo de sindicalismo do capitalismo actual. Desde o início das "reformas de mercado", a maioria dos dirigentes sindicais têm servido de pouco mais de encarregados do seu funcionamento dentro do novo regime capitalista, muitas vezes envolvendo corrupção e conluio com gestores e administradores das empresas assim como com as autoridades governamentais locais, principalmente no que teve a ver com a privatização das antigas empresas estatais.

 

Na maioria dos casos, especialmente quando as empresas estrangeiras estão de acordo em estabelecer sindicatos de empresas para responderem às regulamentações oficiais, estas indicam os "líderes" ou preenchem elas mesmo esses postos de topo. A Frente Sindical ACFTU recebe 2 por cento do total da folha de pagamento, parte do qual vai para os seus líderes e o resto supostamente é para apoiar as actividades dos trabalhadores — uma via, nas condições actuais, para pagamentos, para o favoritismo e para o desvio de fundos. Como resultado, há uma forte desconsideração largamente espalhada para com os líderes sindicais, uma realidade que magoa até mesmo aqueles que são os representantes dos trabalhadores honestos.

 

É significativo, portanto, que a segunda grande mudança que ocorreu ao longo dos últimos meses tenha sido a rápida expansão da sindicalização de ACFTU junto das empresas estrangeiras — uma resposta ao crescente descontentamento dos trabalhadores, medo que os sindicatos independentes venham a preencher o vácuo e pressão externa. Com empresas estatais a fecharem ou a serem privatizadas e a mudança na representação do trabalhador rural migrante, os sindicatos oficiais têm visto a percentagem dos trabalhadores que representam em queda acelerada e a sua influência a declinar. Somente através da organização mais a sério no sector não sindicalizado das empresas estrangeiras e entre os migrantes poderiam recuperar a sua antiga posição. O governo também levou a ACFTU a movimentar-se, sob pressão dos riscos de más condições de trabalho e com o medo de um aumento dos protestos de trabalho. Embora a maior parte de sua recente campanha de sindicalização seja ainda de cima para baixo, há também casos de organização ascendente que poderá marcar o início de uma nova fase do seu activismo.

 

O avanço veio através da Wal-Mart — por mais estranho que isso possa parecer dada a sua posição virulentamente anti-sindical. Mas a sua obstinação virou-se contra eles. Se tivesse cooperado com a central sindical desde o início, poderia ter criado um sindicato típico de empresa. Em vez disso, a Wal-Mart bloqueou muitas tentativas de o organizar, fazendo crescer rapidamente o seu número de lojas. Confrontados com esta resistência obstinada, os activistas locais da ACFTU tomaram a etapa inaudita de irem ter com os próprios trabalhadores e começaram a levá-los a assinar. Desde que legalmente, quaisquer vinte e cinco empregados podem formar um sindicato que deve ser reconhecido oficialmente; isto revelou ser um percurso extraordinariamente fácil para organizar a Wal-Mart — o único êxito sindical no conjunto de todos os países onde estão implantados. Em 28 de Julho de 2006, a primeira das suas lojas foi sindicalizada em Quanzhou City, na província de Fujian, usando o método organizativo das bases para o topo, de baixo para cima (Anita Chan, "Organizing Wal-Mart stores", Japan Focus, 8 de Setembro de 2006). A organização de mais lojas Wal-Mart — vinte e duas das sessenta em apenas três semanas — e mesmo da sua sede nacional em Shenzhen, onde uma sindicalista de vinte e sete anos de idade foi eleita líder do comité sindical, prosseguiu e o movimento difundiu-se para outras empresas.

 

Entre estas estava a Foxconn, que da mesma forma tinha tentado imobilizar movimentos anteriores para a criação do sindicato, reconhecendo a sindicalização oficial, uma estrutura top-down, nas suas instalações. Seguindo o modelo bem sucedido no Wal-Mart, a central sindical, incentivada pelo governo local, tentou mais uma vez sindicalizar as suas instalações em Longhua. Movendo-se de forma atípica, num Domingo, último dia de 2006, os organizadores entraram na área da fábrica, em pouco tempo 118 trabalhadores inscreveram-se e rapidamente se anunciou a criação do sindicato. Nem a administração nem o secretário do Partido Comunista foram informados — embora a empresa pudesse decidir depois de tudo criar o seu próprio sindicato, fazendo vingar a perspectiva de "oficiais" locais concorrentes. Uma resposta positiva por parte da organização do trabalho nacional sugere que estes sucessos recentes têm tido bom eco entre os sindicalistas mais honestos da federação. Estes esforços já começaram a alterar a imagem do movimento operário chinês no exterior. Alguns dirigentes sindicais de topo dos Estados Unidos têm amainado de modo significativo a atitude de guerra fria da AFL-CIO para com a ACFTU, que era vista como uma frente de governo e se recusavam a negociar então com ela, com a ACFTU. Em Maio de 2007, uma delegação de alto nível Change to Win reuniu-se com a central sindical na China.

 

A pressão crescente por um maior activismo dos trabalhadores tem sido agravada por recentes escândalos. Primeiro foi o conhecimento do uso de uma espécie de trabalhadores escravos a laborar nos fornos das fábricas de tijolos e nas minas de carvão de Shanxi e de Henan. Muitos destes trabalhadores eram adolescentes ou mesmo jovens, alguns sequestrados ou mesmo diminuídos mentais e que eram muito mal tratados ou mesmo abusados fisicamente. Mesmo num país já endurecido pelos maus tratos para com os trabalhadores, os horrores da situação chocaram a consciência nacional. Este escândalo foi apenas a ponta do iceberg do trabalho infantil. Em Shenzhen, por exemplo, um inquérito de Novembro de 2006 encontrou duas centenas de crianças menores, com menos de dezasseis anos, numa só fábrica de componentes electrónicos, em Yonghong. Muitos eram alunos em trabalhos de Verão, que ficaram prisioneiros virtuais de um acordo entre o empregador e a sua escola, em parte para pagar as matrículas que eles deviam. No meio de outros escândalos com trabalhadores, surge a notícia da adulteração de uma série de produtos chineses, levando a reenvios custosos dos produtos e à restrição ou proibição de certas importações nos Estados Unidos e noutros países.

 

Para evitar mais pesadas críticas, o governo aprovou uma nova e de há muito tempo prometida lei sobre os contratos de trabalho, concedendo direitos adicionais aos trabalhadores. Dirigidas especialmente aos trabalhadores na condição de migrante, as suas disposições obrigam os empregadores a fornecerem por escrito contratos a cada trabalhador e a converterem muitos empregos temporários em empregos de longo prazo com benefícios adicionais e permitem que os sindicatos negoceiem a contratação colectiva. A nova lei passou por cima dos protestos e das fortes pressões de empregadores estrangeiros, incluindo os dos Estados Unidos, que protestaram que assim se estava a destruir o principal motivo para investir na China — uma enorme massa de trabalhadores obedientes e com baixos salários, em grande parte incapazes de alterar as suas condições de trabalho. Os tribunais chineses também, na ocasião, começaram a fazer valer os direitos dos trabalhadores de forma mais vigorosa, nomeadamente o pagamento das horas extraordinárias.

 

O impacte destas medidas legislativas e jurídicas é susceptível de ser mitigado. As grandes empresas podem realmente beneficiar da sua relativa maior capacidade para responder às novas exigências legais. Mas podem sofrer perdas de outras maneiras. Quando a Foxconn, antecipando a nova lei do trabalho, anunciou que iria oferecer contratos permanentes aos empregados que trabalhavam nas suas instalações há mais de oito anos, o valor de suas acções caiu acentuadamente. Huawei, em contrapartida, estava entre aqueles que "subornaram ou coagiram os empregados de longa data para pedirem a reforma antecipada ou a demissão voluntária". Assim convenceram "cerca de 7 000 trabalhadores que tinham estado na empresa durante mais de oito anos a demitirem-se. Em contrapartida, os empregados receberam um montante fixo de um mês de salário por cada ano de trabalho, mais um mês de salário adicional e foram autorizados a regressar à empresa com um contrato de curto prazo". As outras empresas simplesmente fecharam ou deslocalizaram para outro país (Wall Street Journal, 14 de Dezembro de 2007 e 25 de Janeiro de 2008).

 

Em Maio de 2008, as autoridades encontraram uma rede de trabalho infantil na cidade de Dongguan, um outro grande centro de produção de material electrónico e de vestuário em Guangdong, "resgatando" cerca de uma centena de trabalhadores, a maioria deles entre treze e quinze anos. Também se anunciou que estavam a "investigar milhares de empresas suspeitas de utilização de trabalho infantil com crianças raptadas em Sichuan e vendidas como escravas" (New York Times, 2 de Maio de 2008).

 

No entanto, existem sérias dúvidas quanto ao nível do que pode mudar, uma vez que qualquer grande transformação exigirá uma sistemática aplicação legal e uma organização determinada da ACFTU — que fez tanta falta no passado. Num sinal de reacção local houve, nos últimos meses, uma série de brutais ataques físicos em Shenzhen contra os defensores dos trabalhadores migrantes, destruindo as suas instalações, forçando um dos principais grupos a fechar as suas portas (Citizens’ Rights and Livelihood Watch, 21 de Novembro de 2007, China Labor News Translations).

Alienação rural e urbana

Mesmo na melhor das hipóteses, uma ACFTU mais activista nada mais pode oferecer do que uma muito parcial melhoria das condições de exploração intensa da classe trabalhadora chinesa de hoje. O novo sindicalismo, tal como se tem visto, terá de enfrentar muito rapidamente as condições de mudança. As transformações que estão agora a varrer a economia da China e as suas classes trabalhadoras são profundas e alguns dos seus desenvolvimentos mais notáveis estão ainda abaixo da superfície. Talvez o mais importante seja a mudança de atitude entre os jovens. Embora muitos ainda se vêem eles próprios como camponeses transportados para a cidade, outros não têm mais nenhuma intenção de voltar ao campo. O mais impressionante ainda, embora alguns continuem a enviar dinheiro para casa, é que uma grande percentagem já deixou de o fazer. Esta é uma mudança profunda. A geração mais velha de migrantes viu o seu trabalho urbano como uma actividade paralela às suas explorações agrícolas. Os jovens trabalhadores migrantes hoje vêem cada vez mais o trabalho nas cidades como uma carreira. Isto poderá significar a urbanização definitiva de centenas de milhões de jovens da zona rural e uma queda acentuada em milhares de milhões de yuan enviados anualmente para a zona rural, agravando então aí a crise de longo prazo.

 

A alienação dos jovens do campo está a ser transposta para as cidades, mesmo entre muitos que estão a viver relativamente bem. Um técnico bem vestido entre os vinte e os trinta anos transmitia-nos em linguagem impressionante as forças de ruptura que estão a emergir não apenas nas áreas rurais mas mesmo no seu próprio estrato mais privilegiado de classe média urbana. Ele é um empregado de uma empresa de alta tecnologia e viaja por toda a China na reparação de máquinas de escritório e viajou às custas da empresa para a província montanhosa de Yunnan, num grupo de férias com tudo pago. No entanto, as suas origens estavam no campo, e ele não tinha esquecido nem de onde veio, nem a vida dura das pessoas que deixou para trás. Os seus pais são agricultores perto de Suzhou, na província de Jiangsu, na costa leste próximo de Xangai. Há pouco tempo deixaram a agricultura nessa região. Tentaram vender ovos, mas acharam que havia "muita concorrência, os preços caíram e os custos continuavam a subir" e voltaram para a agricultura de subsistência. A família gastou cinquenta mil yuan na sua formação de ensino médio, quantia que ainda não pode retribuir aos pais.

 

Talvez seja um muito mau presságio para o presidente Hu Jintao e para o primeiro-ministro Wen Jiabao, com as suas referências ideológicas para se criar uma "sociedade harmoniosa", através da redução das tensões sociais, o facto de este jovem técnico estar simultaneamente com uma alta consciência de classe e muito descontente e com um desejo ardente de uma mudança radical. O que foi mais surpreendente na sua crítica não eram tanto os detalhes, mas a profundidade da alienação em relação a muitos aspectos do que está a acontecer na China de hoje — a crise económica rural, a corrupção governamental e empresarial, as condições de trabalho altamente abusivas, a polarização das classes sociais, a falta de controlo democrático, e até mesmo as posições oficiais sobre temas globais como a guerra no Iraque — e a sua vontade de afirmar isto a um estrangeiro encontrado por acaso. Entre as suas preocupações estava a falta de estabilidade social, que ele atribuía à "mentalidade de enriquecer rapidamente" que agora está generalizada, e a polarização crescente das classes sociais. Este técnico queixava-se de que entre 1 a 5 por cento dos chineses são ricos enquanto os cinquenta por cento da escala de rendimentos mais baixos são pobres. Acrescentou que as divisões são também geográficas, citando um ditado: "o leste da China é como os Estados Unidos e a Europa, enquanto a zona oeste da China é como a África".

 

Os principais problemas para estas gerações mais jovens estão nas deficiências da escolaridade, da assistência médica e da habitação. O ensino superior abriu-se para mais e mais filhos de famílias camponesas e de trabalhadores, mas as condições do ensino médio e das universidades estão a deteriorar-se rapidamente. A própria educação tornou-se uma outra parte do sistema generalizado de corrupção em que assenta a mentalidade de enriquecer rapidamente. As Faculdades estão a aumentar o custo das propinas apenas para obterem dinheiro, mas depois não há trabalho para um grande número de diplomados. Muitos deles acabam por ir trabalhar para restaurantes de fast food ou noutros trabalhos de baixos salários, uma vez que lhes faltam as competências básicas quer para a indústria quer para os serviços e não conseguem encontrar emprego nem nas fábricas nem nos escritórios. Como resultado, mesmo intelectuais que costumavam pensar que eram superiores vêem agora que são tratados como proletários. Alguns recusam-se a aceitar passivamente essas condições. Em Zhengzhou, na província de Henan, à volta de dez mil estudantes universitários revoltaram em 2006, quando uma Faculdade reduziu o estatuto do seu diploma universitário e não reembolsou as propinas a estudantes que estavam a concluir o curso. Os estudantes do ensino médio também estão a reagir à situação. Cerca de cinco centenas de estudantes em Chongqing, na província de Sichuan, recusaram-se mesmo a fazer o exame nacional de admissão à Faculdade, considerando que é um desperdício de tempo e de dinheiro.

A política geracional

Mesmo aos membros da nova geração que têm consciência de classe, socialmente conhecedores e bem informados sobre as questões globais, falta-lhes, muitas vezes, o conhecimento aprofundado da era socialista revolucionária na China. Os trabalhadores mais jovens geralmente têm pouco conhecimento do período de Mao Zedong ou da Revolução Cultural, que precedeu o capitalismo das "reformas" em que eles cresceram. Essa amnésia histórica é o resultado de uma política deliberada. As autoridades do Estado e do partido obscurecem e manipulam o registo da era Mao e empolam somente o seu carácter nacionalista, na tentativa de situarem unicamente neste registo o seu legado, ao mesmo tempo que lhe retiram o seu lado mais revolucionário. Como afirmou um jovem organizador, os seus pares trabalhadores migrantes, "não podem sequer sonhar com as condições anteriores, no período socialista, uma vez que nem sequer sabem nada acerca disso".

 

Actualmente existem duas tendências de política geral a influenciarem a geração mais jovem. Uma delas consiste em procurar mais democracia em sentido lato através da expansão do sistema de representação, desafiando o poder monopolista dos que estão no controle e exigindo uma maior transparência e uma imprensa livre. Mas a geração mais jovem está também a começar a gerar os seus activistas com uma perspectiva mais de esquerda, incluindo estudantes universitários e intelectuais que estudaram a época revolucionária do socialismo na China, sendo capazes de compará-la com as condições de hoje. Alguns estão mesmo a querer tentar ligar as novas filas de migrantes e de outros membros jovens das classes trabalhadoras com os trabalhadores que viveram esse período socialista. De acordo com um jovem organizador, "80 por cento dos trabalhadores mais velhos gostariam de voltar ao período de Mao e acham que a Revolução Cultural aconteceu quando as classes trabalhadoras eram os mestres da sociedade". Ele próprio está a tentar transmitir aos jovens migrantes a ideia de que naquela época havia pouca diferença entre os gestores e os trabalhadores, que havia um forte sentido de propriedade pública nas fábricas, que as fábricas construíam as suas próprias casas e com estas escolas para os seus filhos. Mas os jovens activistas que tentam consciencializar as classes trabalhadoras com estas perspectivas alternativas são em pouco número, enfrentando também a repressão das autoridades.

 

Embora a capacidade dos jovens activistas para alcançar os seus pares da classe trabalhadora seja bastante limitada, o aprofundamento das contradições da China de hoje faz reavivar a procura de uma mudança mais radical. Esta assume a forma de um número cada vez maior de protestos, muitos deles cada vez mais bem organizados, envolvendo dezenas de milhares de trabalhadores, migrantes e camponeses. Embora o nível de organização das forças radicais continue a ser muito baixo, aqueles que estão a atingir um ponto de ruptura na sua frustração e no seu descontentamento podem estar a formar uma massa crítica.

 

Como afirma um jovem profissional, "hoje as pessoas têm mais dinheiro e mais bens, mas não estão felizes". Na sua opinião, a situação é muito explosiva, especialmente no campo, onde "80 por cento dos agricultores estão a atingir o limite do suportável. Se a situação piorar, eles vão lutar ou morrer. Mas os agricultores não têm armas". Se a mistura potencialmente explosiva de jovens, de membros revoltados da classe trabalhadora, dos seus colegas alienados da classe média e dos intelectuais radicais chega ou não ao ponto de uma revolução organizada continua a ser problemático.

 

Apesar da turbulência crescente, está-se muito longe de um qualquer movimento atingir tal dimensão.

 

Dada a extensão em que os ganhos da era socialista foram desmantelados, os membros jovens das classes trabalhadoras terão, em grande medida, que começar de novo se quiserem transformar radicalmente a sociedade. Mas os jovens chineses têm uma das heranças mais revolucionárias de qualquer parte do mundo. Se optarem por descer a estrada novamente, ainda há muitos trabalhadores mais velhos e camponeses que não se esqueceram de como a revolução socialista foi feita e que estão ansiosos para ir além das lições dessa luta. A rápida evolução das condições de vida e de trabalho na China de hoje tornam altamente improvável que a "sociedade harmoniosa" prevista pela actual liderança possa continuar estável durante um longo período de tempo. Se e quando a geração mais jovem das classes trabalhadoras chinesa encontrar a sua voz, podem uma vez mais "abanar o mundo", transformando não só o seu próprio país, mas a fase actual da globalização em moldes que são dificilmente imagináveis.

Robert Weil, "City of Youth: Shenzhen, China", Monthly Review, Junho de 2008. Disponível em http://www.monthlyreview.org/080623weil.php.

publicado por Luis Moreira às 20:00
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