Sábado, 18 de Junho de 2011

O génio experimentalista de Chopin - António Victorino d'Almeida

 

Histórias da música

 

 

 

António Victorino d'Almeida  O génio experimentalista de Chopin

 

 

 

Todas as valsas são em compasso ternário. Mas haverá talvez que lembrar que nem todos os compassos ternários podem transformar-se em valsa ou, menos ainda, associar-se a um conceito restritivo de música para se dançar.

 

Em princípio, podemos apontar três danças de certo modo aparentadas e fundamentalmente estruturadas em ritmos terná­rios: a valsa, a masurca e o Ländler, que é uma dança originária da Áustria, mas também com raízes no sul da Alemanha e na Suíça alemã.

 

É evidente que ainda há outras danças em ternário, nomeada­mente o minuete, conquanto este tenha caído bastante em desuso e pareça irremediavelmente afastado da atmosfera dos night clubs e discotecas...

 

Mas nunca se sabe!... Nos tempos que vão correndo, já nada me surpreende, nomeadamente quando penso que um CD com uma vaga estilização do canto gregoriano pôde bater records de venda entre a juventude, do mesmo modo que também já tenho observado públicos dessa faixa etária - normalmente sujeita ao fascínio dos ritmos sincopados - , a extasiar-se ao som de melo­dias paradoxalmente lúgubres e dissociadas de qualquer agitação rítmica, para além da lenta e comovida movimentação de isquei­ros acesos que se gera em plateias, bancadas ou relvados...

 

 

Um dia, quando menos se esperar, ainda vemos um qualquer minuete reintroduzido nos serões juvenis por obra e graça de publicitários para quem nada é impossível...

 

Ora, essa capacidade de vender produtos até àqueles que esta­riam logicamente nos antípodas de os querer comprar não é um fenómeno exclusivo dos nossos dias, e já foi um pouco contra isso que Chopin se rebelou quando, ao visitar Viena pela segunda vez -  depois de uma primeira viagem marcada pelo êxito - verificou com indisfarçada irritação que ninguém lhe ligava nada, pois a única música que se passara a vender eram valsas de Johann Strauss (pai) e do seu comparsa Lanner...

 

Não se tratava de pôr em questão a qualidade dessa música, uma vez enquadrada num determinado contexto de popularidade, dado que os dois músicos, no seu estilo, eram mesmo óptimos.

 

O que enfurecia Chopin era o exclusivismo das atenções dado a um género musical sem dúvida rico de atractivos, bem cons­truído e excelentemente trabalhado por dois homens de grande talento, mas sem que tal justificasse que tudo o mais fosse esque­cido ou arredado para planos de humilhante insignificância...

 

Além disso há que não esquecer - e há que respeitar - que Chopin se deslocara de Varsóvia até Viena em viagem profissio­nal, com o legítimo intuito de ganhar a sua vida, que não estava nada fácil de ganhar numa Polónia permanentemente invadida e ocupada por potências estrangeiras. E o malogro dessa deslocação vinha contribuir para o agravamento da já de si precária situação financeira do compositor, motivo de sobra para que o seu even­tual interesse estético pela valsa vienense se transformasse numa espécie de alergia pessoal...

 

Com efeito, é claramente ilusória a hipótese levantada por alguns musicólogos, segundo os quais, apesar do grave revés sofrido em Viena, Chopin se teria interessado pelo fenómeno da valsa, ao ponto de vir mais tarde a escrever, em parte sob essa influência, a  admirável colectânea de dezanove valsas.

 

Essas valsas não têm absolutamente nada de vienense. E mesmo que se tivesse esboçado alguma atracção ou sentimento de interesse por essa música - pois Strauss e Lanner eram mesmo muito bons... -  sabe-se que Chopin tinha suficiente mau feitio para renegar quaisquer influências de uma moda que tão gravosa se mostrara para a sua carteira...

 

Além disso, será bom salientar que, já antes da explosão de entusiasmo provocada por Strauss e Lanner em Viena, já outros com­positores tinham escrito valsas com alguma inspiração popular, tais como Hummel, Schubert -  ou o próprio Beethoven, conquanto a dança não parecesse ser o lado mais forte do mestre de Bona...

 

Quanto a mim, porém, a única influência popular que pode­ria ter marcado, aqui e além, as valsas de Chopin, era a da valsa parisiense, a chamada valse musette, originariamente ligada a uma espécie de gaita de foles que tinha esse nome - musette - e que seria, a partir do século XIX substituído pelo acordeão nos bailes de rua que se realizavam em Paris, a cidade pela qual Chopin sempre esteve efectivamente apaixonado.

 

Por outro lado, o compositor manteve ao longo de toda a vida uma relação muito intensa com os compassos ternários, que ele associava aos batimentos do nosso coração, igualmente marcados - com excepção dos cardíacos, claro... - por uma rítmica ter­nária.

 

Assim como fez valsas - que nada têm de vienense e também muito pouco, ou mesmo nada, de polaco - Chopin escreveu as suas magníficas masurcas, essas sim, claramente enraizadas nas tradições populares da Polónia.

 

 

Mas o ternário surge a cada passo, quase que de uma forma obsidiante, na música do compositor, pelo que, para além das curtas alusões à valse musette parisiense, as suas admiráveis valsas também se tranformam muitas vezes num jogo de reflexões sobre o ritmo que comanda a vida.

 

Quanto a mim, portanto, as valsas de Chopin constituem à sua maneira um todo em que se engloba aquilo a que podere­mos chamar o lado filosófico de Chopin, os sentimentos român­ticos exacerbados por uma grave frustração amorosa que viveu na Polónia - uma tal Maria Wodzinska, que o trocou algo igno­bilmente por um marido rico... - e a paixão assumida por uma cidade a todos os títulos fascinante como é Paris.

 

Sendo esta a minha interpretação da obra, é evidente que só posso escolher neste caso o CD n.° 003 da ETE de Viena, em que as 19 Valsas de Chopin são executadas - por mim...

 

Entretanto, parece-me extremamente difícil fazer uma escolha criteriosa daquelas que considero serem as melhores obras de Chopin, pois se trata, sem dúvida, de um dos compositores em que a qualidade está mais concentrada - e praticamente presente em todas as páginas que nos legou.

 

Chopin é um dos símbolos máximos do romantismo, mas a interpretação da sua música será completamente errónea se enca­rada em termos de sentimentalismo ou de explosão incontrolada de emoções.

 

Como dizia o grande maestro e pedagogo Hans Swarowski, Chopin é um dos compositores que mais e melhor usa a inteli­gência para dominar e trabalhar a genial espontaneidade das ideias.

 

E a palavra experimentalismo, que tão útil se tem por vezes reve­lado como manto encobridor das faltas atávicas de talento - e tam­bém de carências várias, ao nível da formação técnica e profissio­nal... -  adapta-se perfeitamente à metodologia criativa de Chopin. Com efeito, independentemente da generosa seiva natural que originava a sua música em termos melódicos, o compositor comporta-se sempre como um verdadeiro estudioso dos fenómenos musicas, revela-se um autêntico experimentalista, mas fá-lo de tal sorte que as teias harmónicas e contrapontísticas mais prodigiosamente inovadoras chegam a parecer construções simples, e a riqueza rítmica -  incluindo uma tendência quase permanente para a poliritmia - pode surgir como um  doce encantamento de canção de embalar...

 

Na verdade, só quando um pianista se prepara para decifrar uma determinada peça - convencido de que lhe será fácil meta­morfosear essa primeira leitura numa intrepretação imediata­mente aliciante dos temas magníficos que surgem a cada passo - é que tem a verdadeira noção dos escolhos e obstáculos de toda a ordem que terá penosamente de vencer até se poder afir­mar que está a produzir... música!

 

 

E depois de vencidas as dificuldades técnicas, surgem outros problemas ao nível dos timbres, da utilização dos pedais e cor­respondentes ressonâncias, ou do estilo próprio e profundamente inovador do músico, exigindo-se uma minuciosa busca do signi­ficado mais autêntico de cada ligadura e de cada sinal expressivo, até porque, na linguagem de Chopin, o conceito tradicional de ornamento - trilo, mordent, appoggiatura, etc. -  foi drastica­mente alterado e muito daquilo que antes dele era enfeite passou a fazer parte da substância da obra.

 

Os 24 Estudos, op. 10 e op. 24, constituem um paradigma da genialidade e também do experimentalismo deste compositor, que desvendou através dessa obra monumental todo um mundo sonoro novo, baseado nas inúmeras potencialidades do piano.

 

Até aí, tinham-se publicado incontáveis estudos - de Czerny, de Cramer, de Moscheles ou de Clementi -, mas eram páginas que visavam desenvolver uma técnica que permitisse aos pianis­tas tocar as grandes obras escritas para o seu instrumento.

 

Os Estudos de Chopin visam criar uma técnica e um sentido da musicalidade que permitam executá-los a eles próprios, como peças admiráveis de concerto!...

 

E proponho sem dúvida a extraordinária execução e interpre­tação de Maurizio Pollini, num CD da Deutsche Grammophon, com a referência 413 794-2.

 

(in António Victorino d'Almeida, Músicas da Minha Vida, Publicações Dom Quixote)

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

publicado por Augusta Clara às 19:00
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