Segunda-feira, 13 de Junho de 2011

Santo António - Fernando Pessoa

 

(ilustrações de Almada Negreiros)

 

 

S. ANTÓNIO

S. JOÃO

 S. PEDRO

 

 

Ainda que escriptos sobre o thema popular dos três santos lisboetas de Junho,

estes poemas não são, nem pretendi que fossem, populares. Baseados no obscuro

sentido pagão do nosso povo, pretendeu-se que o passassem para outro nível; que,

sendo fieis à emoção simples do povo lisboeta, interpretassem sem obscuridade

desnecessária, com as complexidades naturaes da intelligência.

 Foram escriptos, todos os três, no dia 9 de Junho de 1935. Chronologicamente,

pois, não há nelles erro, salvo se houver qualquer coisa de erro em toda antecipação.

 

9/6/1935

 

Fernando Pessoa

 

 

 

 

 

SANTO ANTÓNIO

 

 

Nasci exactamente no teu dia —

Treze de Junho, quente de alegria,

Citadino, bucólico e humano,

Onde até esses cravos de papel

Que têm uma bandeira em pé quebrado

Sabem rir...

Santo dia profano

Cuja luz sabe a mel

Sobre o chão de bom vinho derramado!

 

Santo António, és portanto

O meu santo,

Se bem que nunca me pegasses

Teu franciscano sentir,

Catholico, apostólico e romano.

 

(Reflecti.

Os cravos de papel creio que são

mais propriamente, aqui,

Do dia de S. João...

Mas não vou escangalhar o que escrevi.

Que tem um poeta com a precisão?)

 

Adeante ... Ia eu dizendo, Santo António,

Que tu és o meu santo sem o ser.

Por isso o és a valer,

Que é essa a santidade boa,

A que fugiu deveras ao demónio.

És o santo das raparigas,

És o santo de Lisboa,

És o santo do povo.

Tens uma aureola de cantigas,

E então

Quanto ao teu coração —

Está sempre aberto lá o vinho novo.

 

Dizem que foste um pregador insigne,

Um austero, mas de alma ardente e anciosa,

Etcetera...

Mas qual de nós vae tomar isso à lettra?

Que de hoje em deante quem o diz se digne

Dexar de dizer isso ou qualquer outra cousa.

 

Qual santo! Olham a árvore a olho nu

E não a vêem, de olhar só os ramos.

Chama-se a isto ser doutor

Ou investigador.

 

Qual Santo António! Tu és tu.

Tu és tu como nós te figuramos.

 

Valem mais que os sermões que deveras pregaste

As bilhas que talvez não concertaste.

Mais que a tua longínqua santidade

Que até já o Diabo perdoou,

Mais que o que houvesse, se houve, de verdade

No que — aos peixes ou não — a tua voz pregou,

Vale este sol das gerações antigas

Que acorda em nós ainda as semelhanças

Com quando a vida era só vida e instincto,

As cantigas,

Os rapazes e as raparigas,

As danças

E o vinho tinto.

 

Nós somos todos quem nos faz a história.

Nós somos todos quem nos quer o povo.

O verdadeiro titulo de gloria,

Que nada em nossa vida dá ou traz

É haver sido taes quando aqui andámos,

Bons, justos, naturaes em singeleza,

Que os descendentes dos que nós amámos

Nos promovem a outros, como faz

Com a imaginação que ha na certeza,

O amante a quem ama,

E o faz um velho amante sempre novo.

 

Assim o povo fez contigo

Nunca foi teu devoto: é teu amigo,

Ó eterno rapaz.

 

(Qual santo nem santeza!

Deita-te noutra cama!)

Santos, bem santos, nunca têm belleza.

Deus fez de ti um santo ou foi o Papa? ...

Tira lá essa capa!

Deus fez-te santo! O Diabo, que é mais rico

Em fantasia, promoveu-te a mangerico.

 

És o que és para nós. O que tu foste

Em tua vida real, por mal ou bem,

Que coisas, ou não coisas se te devem

Com isso a estéril multidão arraste

Na nora de uns burros que puxam, quando escrevem,

Essa prolixa nullidade, a que se chama historia,

Que foste tu, ou foi alguém,

Só Deus o sabe, e mais ninguém.

 

 

És pois quem nós queremos, és tal qual

O teu retraio, como está aqui,

Neste bilhete postal.

E parece-me até que já te vi.

 

És este, e este és tu, e o povo é teu —

O povo que não sabe onde é o céu,

E nesta hora em que vae alta a lua

Num plácido e legitimo recorte,

Atira risos naturaes à morte,

E cheio de um prazer que mal é seu,

Em canteiros que andam enche a rua.

 

Sê sempre assim, nosso pagão encanto,

Sê sempre assim!

Deixa lá Roma entregue à intriga e ao latim,

Esquece a doutrina e os sermões.

De mal, nem tu nem nós merecíamos tanto.

Foste Fernando de Bulhões,

Foste Frei António—

Isso sim.

Porque demónio

É que foram pregar contigo em santo?

 

 

(in Fernando Pessoa, Os Santos Populares, Edições Salamandra e Casa Fernando Pessoa)

 

publicado por Augusta Clara às 19:00
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