(Continuação)
É assim que entramos pelas problemáticas das crianças. Os Códigos são espartanos na sua definição. A pessoa que falava no Seminário parece ter razão: a criança é um subentendido. A frase é minha e com amabilidade foi usada, devidamente citada, na exposição referida. Não consigo não repetir: a criança é um subentendido, um subordinado como denominei nas Actas do II Colóquio sobre a Investigação e Ensino das Antropologia em Portugal[1]. A minha teima tem sido sempre a ignorância que o adulto atribui à criança, mas, ao mesmo tempo, como esta criança sabe defender-se da ignorância que o adulto lhe oferece. Ignorância que não é apenas o facto de ser uma entidade despercebida, o que vive dentro de regras e horários que afastam as duas gerações. Se retorno à minha comprida citação, posso apreciar que a cultura do saber universal entrega aos mais novos um papel sem representação dentro do grupo: eis porque os autores citados dizem que se deve “talhar”, “construir”, um lugar dentro da sua cultura, porque um dia a cultura lhe dará o seu lugar social conforme a aprendizagem que tenha feito do saber, ou, como diz o começo do parágrafo 2, o indivíduo elabora a sua experiência de entre os materiais fornecidos pela cultura. É o caso que tenho observado entre as crianças Picunche da Villa de Pencahue, Província de Tralca, Chile e analisado em 1998 e 2000[2]. Toda criança tem como obrigação trabalhar a terra, tomar conta dos animais, ensinar aos mais novos a usar a tecnologia para não se ferirem, satisfazer a libido dos adultos da casa ou visitantes sem se queixar – política que faz parte do comportamento ritual de crescimento dos pequenos e das pequenas. Normalmente, pequenas reservadas para o pai, enquanto os “niños”, para os irmãos mais velhos, os irmãos dos pais, etc. Comportamento a ser reproduzido, como fui capaz de observar ao longo de mais de 40 anos, entre grupos diferentes de Picunche de sítios geográficos distantes do Chile. Criança que não tem adulto, é criança mal criada, uma vergonha social, desprezada, não querida, que acaba por procurar um homem na casa dos Homens que para este propósito, existem. Ou, durante certos anos da minha pesquisa, na Casa da Igreja Romana, com o Padre que acabou por fugir com um deles. Como relata Maurice Godelier no seu texto sobre La Production des Grands Hommes na Melanésia, em 1981[3]. Formas rituais de unir em relações reprodutivas os seres humanos no futuro, na idade madura. Esta forma de relação cria uma associação entre quem bebe esperma do outro ou recebe esperma por fellatio e as relações reprodutivas com a mulher mais próxima de quem dá e virá a ser a mãe dos seus filhos – irmã, filha de irmão, parente dentro do grupo clãnico no caso dos Baruya da Nova Guiné ou parente não consanguíneo directo em relação de ascendência – descendência, como entre os Picunche, Huilliche, Aimara, outros.
No entanto, esta forma de entender as relações deve passar antes pelas definições de idade e os conceitos que as pessoas têm ou lhe são atribuídas pelo seu grupo. Se uma introdução à análise das formas culturais de organizar as emoções já significa uma classificação, é preciso entender a classificação dos adultos perante as crianças, ou das crianças. Pensa-se que os mais novos não entendem, pode dizer-se tudo o que se quiser em frente deles por, ou já saberem tudo, ou ficarem com o seu “saber proscrito”, como diz Alice Miller[4]. Na sua obra, Miller analisa o saber dos mais novos em diferentes idades, como tinham feito Freud, Klein, Bion, entre outros e vamos ver mais à frente. No seu livro de 1977[5], a autora – polaca de nascimento, refugiada na Suíça, terapeuta da Infância e Pedopsicóloga estuda a infelicidade da vida infantil dos pais de crianças que ela analisa mais tarde. Estuda especialmente o caso das mães a sofrerem todo o tipo de violência doméstica, como a vida a três do pai – a mãe da criança, a sua amiga por turnos e os comentários que deve ouvir por parte da mulher que se sente abandonado e mora, no entanto, na denominada casa familiar. O começo do texto é dramático na nossa cultura: a mãe e o pai não estão ajudar a “talhar” o lugar social na cultura do mais novo, até o título do primeiro Capítulo define uma relação invertida: é o filho bem dotado que deve ouvir a mãe nos seus prantos, angústias e depressões. Ora, esses três sentimentos, como Klein diz no seu texto Inveja e Gratidão[6], fazem parte da defesa dos pequenos perante esse falar descontrolado de um adulto cuja epistemologia não entende, ou não são mutuamente entendidas. O título de Miller é El drama del niño dotado y como nos hicimos terapeutas, para estudar em 50 páginas a vida de uma infância reprimida que a criança deve fazer falando de tudo, excepto da verdade e viver de ilusões do que não existe e não é: esse lar calmo, sereno, estudado, sabido, fiel. É o que, ao longo do texto, denomina ilusões de infância, a danificar a vida adulta. Como aconteceu com esses pais, rebentos de pais desleais, dotados com a capacidade de ouvir, para passar a ser o próximo mais novo a ouvir. Determinados pela história dos pais com os seus avós, a infância foge da realidade e esconde a falta de amor na solidão e no abandono infantil, na leitura, no encerramento nos seus aposentos, que passam a ser dele, com a grande proibição de aí entrar todo e qualquer maior que traga as suas tristezas ante uma mente capaz de entender o mundo, excluindo a sua família. Sentimentos materializados em actividades que fazem dele uma criança dotada. “La represión del sufrimiento infantil no solo determina la vida del individuo, sino también los tabúes de la sociedad”[7]. A solidão e o abandono infantil são motivos de profundo transtorno das pessoas dotadas: nascem da ausência do prazer e do carinho na infância. Alice Miller apenas estudara vida de Sakespeare, Joan Crawford, Charles Chaplin, Mozart, Beethoven e Einstein, para sabermos a base da sua genialidade. Ou Sartre, Bouvoir, Bourdieu, Godelier...a falta de infâncias douradas....
Típico do caso de Maurice Godelier. A segunda parte do título desta sua primeira grande obra define a ilusão do amor e a ilusão de ser pai…
Mas, e a criança, como Freud, Klein, Dolto, analisam? Não há razão da parte delas para essa infelicidade? Para a infelicidade que não conhecemos, que não sabemos por falta de observação e de aprendizagem especializada? Mas, que elas no seu agir, palavras e comportamentos individuais e em grupo, nos ensinam quase sem palavras? Porque não há apenas o silêncio do saber proscrito e a infelicidade adulta do pequeno dotado. Há também uma realidade que nasce da própria realidade, enquanto a criança, cuja idade muda e situação social é “retalhada”, o ter uma percepção do real, que Wilfred Bion denominaria entender que há um infinito ao qual pertencemos, como seres finitos que somos e que essa finitude deve entender a relação para não entrar na omnipotência que define parte psicótica do nosso ser[8]. Essa criança passa por diferentes estádios enquanto repara que a base da sua vida – a alimentação –, vem de um corpo estranho[9]. Estas idades podem-se apreciar na seguinte tábua:
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Hoje em dia sabemos que a relação adulta/criança começa bem antes do nascimento da mesma, como tinha já indicado na loção anterior ao comentar textos de Eduardo Sá. O facto de recentemente se ter descoberto do papel que joga o líquido amniótico entre o corpo da mãe e o mundo exterior – um ouvido que amplifica o que acontece fora do ventre materno, faz com que os sons passem a ser naturais, costumeiros, ou desagradáveis e pouco simpáticos. Ou se ouve Mozart e se fica habituado à melodia calmante, ou podem ouvir-se debates e mas palavras. Relações simpáticas ou antipáticas, estudadas pelos nossos analistas e a sua influência no futuro adulto. Não esqueço o bebé que chorava ao ser amamentado: faltava-lhe a viola com Granados a ser tocado, enquanto a mãe brincava com a viola no colo[10]. A análise da função do líquido amniótico, é já antiga, faz mais de 50 anos que médicos, pediatras e terapeutas, procuram uma relação com a capacidade de autonomia da criança ou com a capacidade de comandar os outros, que vários autores analisam, a ditadura da Infância. Anos de estudo e o saber vai-se acumulando, até chegarmos hoje em dia à procura da genética do genoma humano. “O córtex é soberano e, ao mesmo tempo, deixa-se suplantar docilmente pelo reptiliano. O carácter não se sente ameaçado e por isso cede, derrete-se docemente, permitindo que o cerne fique exposto, pulsante, vibrante. "É a necessidade "libertar-se" da actividade mental, com o intuito de reencontrar a unidade psicossomática", como diz Winnicott”[11].
[1] Iturra, Raúl, 1989: “Pensamento dogmático, Pensamento positivista. O Governo Letrado das Relações Sociais” in Antropologia Portuguesa, Vol. 7, Museu e Laboratório de Antropologia, Universidade de Coimbra. Este texto foi a base do meu livro de 1990 a) Memória e Aprendizagem. A construcção social do saber em Vila Ruiva, Escher, Lisboa, base do conceito debatido por mim da subordinação da criança ao adulto. Website para debate http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&ie=UTF-8&q=Raul+Iturra+Mem%C3%B3ria+e+aprendizagem.+A+constru%C3%A7%C3%A3o+social+&spell=1
[2] Iturra, Raúl, 1998: Como era quando não era o que sou. O crescimento das crianças, Profedições, Porto; e 2000: O saber sexual das crianças. Desejo-te porque te amo, Afrontamento, Porto. Website nota anterior.
[3] Godelier, Maurice, 1981, La Production des Grands Hommes, Fayard, Paris. Website www.arte-tv.com/.../Le_20Monde_20des_20Papous/ Rites_20-_20Initiations/220072,CmC=401656.html
[4] Alice Miller, 1988 : Das verbannte Wisen, Surkham Verlag, Frankfurt am Main- Versão Castellana: 1990 e 1998: El saber proscrito, Tusquets Editores, Barcelona. Website para ampla informação e sínteses de obras e artigos : http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&ie=UTF-8&q=Alice+Miller+El+saber+proscrito&btnG=Pesquisar&meta=lr%3Dlang_pt Há versão inglesa de Virago Presss, 1988
[5] Miller, Alice, 1979: Das Drama dês begabten Kinder und die Suche nach dem wahren Selbst. Versão Castelhana: 1985 e 1998: El drama del niño dotado y la búsqueda del verdadero yo, Tusquets, Barcelons. Há versão inglesa, Virago, Londres, 1988. Website http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&ie=UTF-8&q=Alice+Miller+El+drama+del+ni%C3%B1o+dotado&btnG=Pesquisar&meta=
[6] Klein, Melanie, 1957, Envy and gratitude, Tavistock, Londres. Versão Lusa Imago, 1991: Inveja e Gratidão, Rio de Janeiro. Texto escrito em inglês no exílio britânico da autora. Página Web:
http://www.google.pt/search?hl=pt-PT&ie=UTF-8&q=Melanie+Klein+Envy+and+Gratitude&btnG=Pesquisar&meta=
[7] Miller, 1977, páginas 18 a 19, que acrescente que “las vivencias traumáticas de toda infancia permanecen en la oscuridad. Ocultas en esas tinieblas permanecen asimismo las claves para la comprensión de toda la vida ulterior”
[8] Bion, Winifred, 1967: Learning from experience, Tavistock, Londres. Reeditado Karnac, Londres,1984 a 2004. Website para debate, mais informação e síntese de obras:
[9] Klein, obra citada e, especialemnete 1932: Die psychanalyse des Kindes, Vienna, Internationaler Psychoanalysticher Verlag. Versão inglesa, 1932, Hoggart Press. A obra que uso é La psychanalyse des enfants, PUF, Paris, 1959.
[10] O recém-nascido precisa de um ambiente tranquilo. Ele acaba de passar por uma situação stressante – o nascimento – e ainda não assimilou muito bem que já não está no interior do útero materno. Nesse momento, o pequenino necessita de todo o aconchego do mundo.
Ele ouve muito bem A audição é um dos sentidos mais desenvolvidos durante a vida intra-uterina. Estudos demonstram que um feto no quinto mês já responde a várias modalidades de sons e alguns pesquisadores acreditam que a gestante que pratica música durante a gravidez predispõe o filho para uma sensibilidade natural ao ritmo. É só observar: o recém-nado está atento e responde aos ruídos do ambiente. Quando escuta um barulho mais forte respira em ritmo mais acelerado, ou então sinaliza com o Reflexo de Moro, esticando e encolhendo os braços e as pernas. E tem a sua preferência.
A intensidade e os tipos de ruídos que não atrapalham dependem, em parte, dos sons que o bebé se habituou a ouvir antes de nascer e também do seu temperamento. Contudo, os pais devem observar o comportamento do filho: se a criança se mostra sensível a algum tipo de som, é melhor evitá-lo, pelo menos, por enquanto. Retirado da Revista Pais e Filhos (Bloch Editores)
Setembro de 1996 Website http://www.infonet.com.br/meubebe/obebe01.htm Para informação mais detalhada:
[11] Análise feita por Maria de Melo Azevedo no seu texto Terapia de uma condição Intra-uterina. Invoca os estudos do pediatria psicanalista Donald Woods Winnicott, que já nos seus textos de 1969, especialmente De la pédiatrie à la psychanalyse, Petite Bibliotheque Payot nº 253 e L’enfant et le monde extérieurr, mesma editora, nº 205, importava-se, como Melanie Klein, da liberdade da criança desde o seu começo, ou, por outras palavras, desde que parecia ser possível a autonomia da infância, facto pouco conhecido ainda nos nossos dias. A autora do artigo, até invoca a música de Mozart para o seu exemplo da liberdade da criança ou da capacidade de liberdade. Website para debate:
http://ceor.fastlane.com.br/art_nascer_de_novo.htm . Ou ceor.fastlane.com.br/art_nascer_de_novo.htm. Para a Revista Pai e Filhos ou Viver Psicologia on line: ver Website http://www.google.com/search?hl=pt-PT&ie=UTF-8&q=Revista+Pais+e+Filhos&btnG=Pesquisar&lr= ou: www.revistaviverpsicologia.com.br/ site2/detalhe.php?edicao2=124&pag_id=254 -
Para Winnicott: http://www.google.com/search?hl=pt-PT&ie=UTF-8&q=Donald+Woods+Winnicott&btnG=Pesquisar&lr= ou www.doctissimo.fr/html/psychologie/ grands_auteurs/ps_1330_donald_winnicott.htm -
(Continua)
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