Quinta-feira, 9 de Junho de 2011

A eterna questão do livro -16 - por Carlos Loures

 

 

 

 

 

 

 

 

(Continuação)

 

Nestas notas, procurei reflectir sobre a situação do livro impresso perante a ameaça do livro electrónico que eclode como uma super nova no universo da comunicação. O brilho crescente desse suporte de escrita fez temer os bibliófilos, ratos de biblioteca, todos os que mantêm com o livro impresso uma relação afectiva e que o encaram  como um mestre a quem tudo devem. Quando se anuncia a morte do livro impresso e a inevitabilidade do triunfo do livro digital , podemos ler a opinião de Umberto Eco, segundo a qual o livro é uma daquelas invenções consolidadas que, como a roda, como a colher, como o machado, nunca serão substituídas.

 

Um exemplo nosso: em 1489 foi impresso em Chaves o Tratado de Confissom, o primeiro ou um dos primeiros, incunábulos em 

português. É um manual destinado aos membros do clero, aconselhando-os na missão de ministrar o sacramento da confissão e da penitência. Aborda questões, que cinco séculos decorridos, são ainda delicadas e polémicas – o adultério, a violação ou estupro, a pedofilia, o incesto, o aborto, a homossexualidade. Descoberto em 1965 pelo Professor José Vitorino de Pina Martins (1920), foi publicado em 1973 em edição diplomática, com um estudo introdutório do investigador. Se quisermos ler o Tratado de Confissom, isso
depende do nosso saber paleográfico e não de qualquer dispositivo de leitura.  Se quisermos ler um livro gravado em disquete de há dez anos atrás, teremos problemas. Para que o livro electrónico substitua o livro impresso é indispensável que se produza um istema standard estabilizado, que não seja destronado quase todos os anos por modelos «mais recentes». Parece-me que essa etapa ainda está distante.

 

 

por diversas vezes referi o receio que houve na de transição entre a «Idade Velha» e a «Idade Nova», entre a Idade Média e o Renascimento, de que o livro impresso viesse usurpar o papel até então desempenhado por outros suportes na difusão da palavra divina – a arquitectura e sobretudo a escultura. Temia-se também que a importância dos sacerdotes fosse afectada, as homilias dominicais substituídas pela leitura directa dos textos sagrados . A Igreja de Roma nunca acarinhou a difusão da Bíblia – as escrituras deviam chegar aos fiéis filtradas pela interpretação dos padres. A aposta da Reforma foi outra e o reformismo espalhou-se como fogo em seara seca – cada bíblia impressa e distribuída era como um sacerdote, um missionário – a palavra de Deus levada directamente do produtor ao consumidor. Um avanço tão grande, ou maior, do que aquele que a Internet veio trazer relativamente a anteriores sistemas de informação. Porém, os «papistas», como vemos pelo Tratado de Confisson, embora temendo o invento de Gutenberg, não desdenharam de o usar na formação dos seus quadros.

 

Não se devem deslumbrar os adeptos das novas tecnologias,  nem atemorizar os que amam os livros, receando a sua morte. O próprio nome – livro - derivado do latim «liber» contém uma lição a reter, pois significa o entrecasco da árvore. Não remete para a funcionalidade de um instrumento, mas para um material. Em diversas civilizações (entre os maias, por exemplo) o entrecasco da árvore foi utilizado como suporte de escrita, embora não existam dados que permitam assegurar que na Grécia ou em Roma essa utilização tenha existido.

 

 Mais que o liber, foi o «codex», o lenho da árvore, que forneceu material para registos escritos. As tabuinhas de madeira, enceradas ou não, foram utilizadas por um período que vai da Antiguidade até finais da Idade Média. O papiro, um novo suporte, entrou no mundo grego por volta do século VII a.C. O pergaminho, técnica de tratamento dado à pele curtida de animais atribuída à cidade de Pérgamo, terá surgido no século III a.C. e foi utilizado durante bastante mais de um milénio, até que se generalizou o uso do papel.

 

Contudo, o aparecimento de um suporte não significa o desaparecimento imediato do outro. Tradição e inovação coexistem até que a inovação se transforma, por seu turno, em tradição. Como vemos, os suportes vão sendo alterados por razões pragmáticas - porque um novo suporte supera as limitações do anterior. E alteram-se em função das exigências que a sociedade vai colocando. A tabuinha correspondia a uma cultura de oralidade, era um simples auxiliar da memória, pois era na memória dos rapsodos que se arquivava o conhecimento.

 

A Internet está a transformar-nos em ciborgues – muito do nosso saber não precisa de ser memorizado, pois em segundos podemos recuperar informação sobre qualquer tema. O computador converteu-se numa indispensável prótese do cérebro. Não me admiraria que, no futuro, o ensino deixasse de obrigar a acumular conhecimento, passando a habilitar à gestão e utilização do conhecimento armazenado e disponível. Nada é eterno, como sabemos. Parece-me, no entanto, ainda não ter nascido um suporte de escrita que o possa substituir integralmente.

 

(Continua)

 

 

 

 

 

 

 

 

publicado por Carlos Loures às 21:00

editado por João Machado às 03:47
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1 comentário:
De Luis Moreira a 10 de Junho de 2011
Muito bom.

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