Sexta-feira, 10 de Junho de 2011

A dívida soberana na zona Euro: pode a emissão de Eurobonds funcionar ? - 1 - por Domenico Mario Nuti


 

Nota de entrada

 

Um texto a juntar a outros textos  que se seguirão ao texto da minha última aula, um texto de um antigo conselheiro de Jacques Delors

onde se fala de  incompetência ou de maldade de dirigentes europeus  face à terrível crise que a Europa atravessa.

 

Por cá talvez tenhamos um doutoramento Honoris causa de um dos maiores responsáveis pela incompetência  politicamente manifestada ao nível das Instituições Europeias quanto à necessidade de respostas coerentes e rápidas face à tragédia que na Europa se tem estado a desenrolar: a submissão dos Estados nacionais à arrogância e à ganância dos mercados de capitais. E esse responsável dá pelo nome: Durão Barroso. Ignorar essa responsabilidade é uma irresponsabilidade que só uma Universidade de low-cost  pode assumir e digo-o  com toda a sinceridade.

 

Ao Professor Mario Nuti os nossos agradecimentos, em meu  nome pessoal e de toda a equipa de Estrolabio, pelo  envio de mais um magnífico texto.

 

Coimbra, 7 de Junho de 2011-06-07

 

Júlio Marques Mota

 

 

 

 

 

Jean-Claude Trichet  está em contradição



A  27 de Janeiro, em Davos, no Fórum Económico Mundial, o Presidente do Banco Central Europeu, Jean-Claude Trichet, afirmou e com firmeza  que "o euro não está em crise". Trichet deve ter sentido o dever de o afirmar em alta e boa voz  numa tentativa para  tranquilizar os mercados financeiros
internacionais, independentemente do que ele realmente pensava sobre o assunto. Se realmente estava a acreditar  no que dizia, depois, isto significa que  Trichet está em contradição, que é uma base bastante fraca, quer  para uma discussão frutífera sobre a crise actual do euro quer para  progredir no sentido da sua solução.



Claro que, se olharmos  exclusivamente para a  taxa de câmbio actual entre o dólar e o euro assim como para a sua tendência recente, pode-se ter a falsa impressão de que não há crise nenhuma. A  29 de Janeiro, o euro era cotado a 1,37 dólares, uma taxa mais alta  do que antes da crise da dívida grega que começou em  Fevereiro de 2010 (1,33 dólares), e muito superior à taxa de 1,18 dólares valor para que desceu  no início de Maio de 2010 (e mesmo que fosse 1 por cento  superior à  taxa de câmbio inicial de 1,17 euros com que a vida do euro se iniciou em 1999). A valorização do euro, no entanto, foi devida principalmente ao facto do  Banco Central Americano ter injectado  cerca de  600 mil milhões de liquidez ao longo de 8 meses, em comparação com as políticas mais restritivas e conservadoras do BCE, e deve-se também às perspectivas económicas dos EUA estarem a ser  piores do que o previsto. Depois de um pico de 1,42 dólares em Novembro passado, o euro voltou a cair para 1,30 dólares repetidamente (até à quinze dias atrás) com um efeito de  contágio da Grécia para  a Irlanda, em seguida, para Portugal, e em seguida, a ameaçar a Espanha.

 


As  diferenças nas  taxas de juros

Para além  da taxa de câmbio ter aumentado a sua  volatilidade e da baixa de notação nos ratings de crédito nacionais, uma medida concreta e exacta da crise da dívida soberana do euro é-nos verdadeiramente  dada em cada país pela  diferença de  taxas de juros em relação às obrigações alemãs (normalmente comparaando  títulos a  10 anos), o rendimento actual dos títulos existentes determina a taxa através da qual os países podem contrair  empréstimos para liquidarem (renovarem)  a sua divida antiga ou para  incorrerem em novas tomadas de fundos por efeitos de acréscimos da dívida existente. O spread sobre os títulos alemães (cuja remuneração  também cresceu como resultado da crise, por medo da exposição dos  alemães  ao resgate de eventuais países que possam entrar em situação de possível incumprimento) aumentou em média e significativamente alargou-se entre os países europeus  ao longo do tempo, especialmente desde a crise da dívida soberana   grega, e está  agora em níveis recorde, superiores aos alcançados em  Maio passado. Normalmente, uma diferença  de 2% é já considerado como o nível de perigo, mas  hoje em Espanha está um pouco mais alto, na Itália está à justa sobre  aquele nível, Portugal tem cerca de 4% de diferença, a Irlanda mais de 6% enquanto  a Grécia tem oito e meio por cento.

 

Dados mais recentes, dados  de 7 de Junho de 2011 :

 

Na base de  um outro ataque resultante  da aversão ao risco deu-se o aumento do spread  sobre os títulos italianos e espanhóis, de novo.

 

 

Previous Day Close

Yesterday’s Close

This morning

France

0.300

0.312

0.312

Italy

1.582

1.622

1.637

Spain

2.180

2.250

2.269

Portugal

7.343

7.427

7.267

Greece

13.159

13.075

13.19

Ireland

7.876

7.829

7.758

Belgium

1.001

1.082

1.089

Bund Yields

3.245

3.025

3.01

 

 

A taxas de juros superiores às taxas de crescimento nacional (quer em termos nominais ou reais, tanto quanto estas  são medidos da mesma maneira) a dívida nacional deve aumentar relativamente ao PIB, a dívida torna-se insustentável  e a situação de incumprimento começa a mostrar-se como possível. Mesmo com os fundos fornecidos pelo FEEF (Fundo Europeu de Estabilização Financeira, mecanismo criado em Maio passado), a Grécia e a Irlanda pagam  5,8%, uma taxa inferior às taxas do mercado, mas mais altas do que o que seria  sustentável[1] e assinalando-se assim uma falta de confiança na  Europa quanto à  capacidade destes países poderem  pagar. O reescalonamento da dívida da Irlanda e Grécia - com o alongamento dos  respectivos períodos de  vencimento e a imposição de  um corte na dívida  para os investidores - está agora sobre a mesa.

 


[1] Relembremos, de qualquer manual, a condição de evolução da dívida pública por unidade PIB db = dp+b(i - g), onde db é a evolução da dívida pública por unidade PIB, b é a ratio da dívida pública relativamente ao PIB, dp é o défice público primário por unidade de PIB, que também pode ser visto como sendo a diferença entre o que os contribuintes pagam ao Estado e o que dele recebem, mais geralmente definido como a posição rçamental por unidade do PIB, sem o serviço da dívida, i a taxa de juro da dívida pública e g a taxa de crescimento nominal do PIB. A estabilidade, por definição, significa  pois db=0, ou seja : -dp= b(i - g), Com b elevado, taxas de juro altas e g baixas exige-se então excedentes primários não sustentáveis, para que a dívida por unidade de PIB possa não crescer..

 

(Continua)

publicado por Carlos Loures às 23:30

editado por Luis Moreira às 22:46
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