Terça-feira, 7 de Junho de 2011

A pensar nas eleições - por Boaventura de Sousa Santos

 

Os jovens acampados são sinais de um novo espaço público onde se discute o sequestro das democracias pelos interesses de minorias poderosas       

Nos próximos tempos, as elites conservadoras europeias, tanto políticas como culturais, vão ter um choque: os europeus são gente comum e, quando sujeitos às mesmas provações ou às mesmas frustrações por que têm passado outros povos noutras regiões do mundo, em vez de reagir à europeia, reagem como eles. Para essas elites, reagir à europeia é acreditar nas instituições e agir sempre nos limites que elas impõem. Um bom cidadão é um cidadão bem-comportado, e este é o que vive entre as comportas das instituições.

 

Dado o desigual desenvolvimento do mundo, não é de prever que os europeus venham a ser sujeitos, nos tempos mais próximos, às mesmas provações a que têm sido sujeitos os africanos, os latino-americanos ou os asiáticos. Mas tudo indica que possam vir a ser sujeitos às mesmas frustrações. Formulado de modos muito diversos, o desejo de uma sociedade mais democrática e mais justa é hoje um bem comum da humanidade. O papel das instituições é regular as expectativas dos cidadãos de modo a evitar que o abismo entre esse desejo e a sua realização não seja tão grande que a frustração atinja níveis perturbadores.

 

Ora é observável um pouco por toda a parte que as instituições existentes estão a desempenhar pior o seu papel, sendo-lhes cada vez mais difícil conter a frustração dos cidadãos. Se as instituições existentes não servem, é necessário reformá-las ou criar outras. Enquanto tal não ocorre, é legítimo e democrático atuar à margem delas, pacificamente, nas ruas e nas praças. Estamos a entrar num período pós-institucional.

 

Os jovens acampados no Rossio e nas praças de Espanha são os primeiros sinais da emergência de um novo espaço público - a rua e a praça - onde se discute o sequestro das atuais democracias pelos interesses de minorias poderosas e se apontam os caminhos da construção de democracias mais robustas, mais capazes de salvaguardar os interesses das maiorias. A importância da sua luta mede-se pela ira com que investem contra eles as forças conservadoras. Os acampados não têm de ser impecáveis nas suas análises, exaustivos nas suas denúncias ou rigorosos nas suas propostas. Basta-lhes ser clarividentes na urgência em ampliar a agenda política e o horizonte de possibilidades democráticas, e genuínos na aspiração a uma vida digna, social e ecologicamente mais justa.

 

Para contextualizar a luta das acampadas e dos acampados, são oportunas duas observações. A primeira é que, ao contrário dos jovens (anarquistas e outros) das ruas de Londres, Paris e Moscovo no início do século XX, os acampados não lançam bombas nem atentam contra a vida dos dirigentes políticos. Manifestam-se pacificamente e a favor de mais democracia. É um avanço histórico notável que só a miopia das ideologias e a estreiteza dos interesses não permite ver. Apesar de todas as armadilhas do liberalismo, a democracia entrou no imaginário das grandes maiorias como um ideal libertador, o ideal da democracia verdadeira ou real. É um ideal que, se levado a sério, constitui uma ameaça fatal para aqueles cujo dinheiro ou posição social lhes tem permitido manipular impunemente o jogo democrático.

 

A segunda observação é que os momentos mais criativos da democracia raramente ocorreram nas salas dos parlamentos. Ocorreram nas ruas, onde os cidadãos revoltados forçaram as mudanças de regime ou a ampliação das agendas políticas. Entre muitas outras demandas, os acampados exigem a resistência às imposições da troika para que a vida dos cidadãos tenha prioridade sobre os lucros dos banqueiros e especuladores; a recusa ou a renegociação da dívida; um modelo de desenvolvimento social e ecologicamente justo; o fim da discriminação sexual e racial e da xenofobia contra os imigrantes; a não privatização de bens comuns da humanidade, como a água, ou de bens públicos, como os correios; a reforma do sistema político para o tornar mais participativo, mais transparente e imune à corrupção.

 

A pensar nas eleições acabei por não falar das eleições. Não falei?

 

Publicado na revista Visão  2 de Jun de 2011

 

                 
publicado por Carlos Loures às 23:00

editado por Luis Moreira às 14:28
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8 comentários:
De Luis Moreira a 7 de Junho de 2011
Aqui está um texto notável que abre caminhos de esperança.
De Augusta Clara a 8 de Junho de 2011
Aleluia! Só os textos do Prof. Boaventura é que me fazem respirar fundo. Faz-me sentir bem ouvir uma pessoa desta craveira dizer o que tenho afirmado: estes movimentos são embriões de qualquer coisa que há-de acontecer. Não se sabe quanto tempo levará, mas não se podem nem devem desprezar. Parecem de somenos importância, mas têm muita, abortem ou não. Mesmo que não vinguem agora, ficará uma semente. Eu acredito nisso.
De Luis Moreira a 8 de Junho de 2011
E vê as reuniões na A25A com estes movimentos aí no texto a seguir...
De Pedro Godinho a 8 de Junho de 2011
Ao contrário de Madrid e Barcelona, sobretudo, e outras cidades do estado espanhol, os "acampados" de Lisboa não chegavam a cem e foram olimpicamente ignorados pelas forças conservadoras, revolucionárias e assim-assim.
De Luis Moreira a 8 de Junho de 2011
Tem havido reuniões com o M12M na A25A. Estão aí as conclusões publicadas e o Boaventura também fala nestes movimentos. Há algo de profundo , como um marmoto, que se está a formar...
De Augusta Clara a 8 de Junho de 2011
Pois foi, Pedro. e, no entanto, não são nenhuns marginais. têm uma página na internet e elaboram documentos. Mas o que é que se espera? Sempre assim foi com quem mija fora do penico" :))
De Luis Moreira a 8 de Junho de 2011
Nós estamos a ajudar com esta publicação. Fui a todas as reuniões e vou continuar a ir e vou continuar a publicar...
De maria monteiro a 8 de Junho de 2011
ajudar é ... participarmos nas assembleias populares ...estarmos atentos à chamada... todos juntos na a rua a 19Junho

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